Cicatrizes de uma vida sofrida.

Longa e escura noite
Solitária segue a mulher
Pronta para o açoite
Seja o que Deus quiser
Dividida entre dois mundos
Não sabe para qual olhar
Reflexos iracundos a
transportam para nenhum lugar
Limbo, passagem e a alma
Desguarnecida
Findo, selvagem, a calma
foi esquecida
Outra vez a noite escura
Lança o cobertor em nós
Nem tudo que é belo perdura
Fecha os olhos para não ver o algoz
Que chega sorrateiro
sabendo exatamente o que quer
Seus desejos são traiçoeiros
Pretende usurpar a mulher
A protagonista se levanta
Luta contra o ímpeto
de que não adianta
Enfrentar alguém
muito mais forte
Ri e depois canta
Ninguém quer o seu bem
Esta é sua mísera sorte
A noite vira madrugada
A mulher reza e se aquece
só com a raiva que sente
Tudo é péssimo agora,
mas um dia será diferente
Existe mundo lá fora
que justifique seguir em frente?
O amor quando veio era falso
A atenção quando veio era oportuna
Arrasta-se pela casa com os pés descalços
Sonha a felicidade, mas sua realidade é a bruma
Eles sempre se afastam, porém, antes a punição
Seu corpo é um saco de pancadas
Sua história de pura humilhação
Ergue a cabeça de algum jeito
Esta mulher de força extrema
Recorda-se de tudo o que lhe foi feito,
mas refuta que sintam pena
Ninguém é perfeito, mas ela
nunca se perde da cena
Quem explica esse efeito?
Coisa trágica de cinema
Do sofrimento muitos nascem
e nele tantos se perdem da lida
A minha heroína sustenta na face
As cicatrizes de uma vida sofrida
Viveu pela liberdade
e seu conto foi escrito em dor
Escreveram em sua lápide
“Representa a luta por onde for”
Hoje cantam pela cidade
seus gritos de luta como história
de amor. 

Blues

Escuto uma batida lá no fundo da minha alma. É uma canção antiga e essa espécie de ritmo ancestral percorre túneis secretos até o meu âmago.

Este blues já tocou antes, mas eu pensei que nunca mais fosse ouvir essa canção.

Olha, eu chorei a noite inteira e não consegui dormir. É que eu queria dizer um tanto de coisas, mas sinto que qualquer sombra de palavra vai piorar tudo. Eu sei que o meu jeito não convencional é um pouco complicado e eu deveria estar escrevendo sobre os venezuelanos, entretanto, aqui estou.

O que estou fazendo? Não sei exatamente, mas espero estar decidindo certo. A vida é meio estranha e a gente se desvia dos caminhos geralmente, sabe? Eu só quero não me desviar dos meus.

A cabeça se distrai facilmente com qualquer outra coisa que me leve longe de onde realmente sinto que devo estar. Você cresceu dentro de mim em uma velocidade estupenda e precisa se lembrar disso. O estômago anda mal, eu acho que bebi um litro e meio de café hoje e devo vomitar.

Sinto falta e me sinto fraco nessa ausência dolorida qual não posso controlar. Uma canção antiga reverbera em mim.

Creio que escolhi certo, mas que diferença faz? Na falsa balança não há qualquer vislumbre ou sensação de equilíbrio e, bem, eu sou equiparado com os réprobos e sofro uma retaliação silenciosa. Mereço? Que importa aos outros? Será que em segredo você me desgraça também?

Passo meus dias em casa e me sinto estático. Não me movo e nem sinto vontade de me mover. Sou resgatado por sorrisos breves em episódios de The Office, mas honestamente é a única alegria que sinto.

Escuto uma batida lá no fundo da minha alma. Este blues já tocou antes, mas eu pensei que nunca mais fosse ouvir essa canção.

A verdadeira tristeza é uma falta de ar constante. Eu sinto como se não pudesse aguentar até amanhã de manhã. Encontrarei o meu fim neste solilóquio, nesta noite relativamente gelada? Sinto a dor da ausência e a presença tão calorosa que se insinuava quase como o próprio sol está distante. Meu mundo quente sofre um baque com a queda da temperatura. A canção que toca no fundo é conhecida. Este velho blues rasga o meu coração.

Olha, eu chorei a noite inteira e não consegui dormir.

Escrevi uma carta e depois outra e, enfim, mais uma. O que tanto escrevo eu já não sei mais. Queria conseguir transparecer a convicção que existe por essa espécie de intuição certeira. Falho.

Por quanto tempo estarei assim?

Não me sinto preso e nem liberto. Tampouco sou burro, mas existo longe de me sentir esperto. Os que têm para quem se confessar forçam o erro sem hesitação. E o que faço eu que não conto com a anuência de mais ninguém para me sentir realmente bem ou realmente mal?

Não há quem me abençoe para os dias seguintes e nem quem me ofereça redenção pelos pecados que não cometi. A única coisa imperdoável é a incoerência quando ela é absolutamente hipócrita. Não está tudo bem.

Mas tudo vai ficar, eu sei, pois ainda não escrevi sobre a Venezuela e sigo noite adentro para finalizar trabalhos que deveria ter feito na última tarde. Não estou atrasado, apenas um pouco deslocado do horário normal de funcionamento das coisas.

Que é que há comigo que sempre funciono no meu próprio tempo?

Olha, eu chorei a noite inteira e não consegui dormir, pois queria saber como você está, mas não posso perguntar. Tenho recebido este tratamento gélido e distante de quem costumava fingir que se importava.

Ninguém se importa.

Sigo como posso e até onde posso. Não posso fazer menos por mim do que estou fazendo agora. Talvez eu não esteja fazendo o meu melhor, mas estou realmente tentando tentar.

Redundante?
Necessário.
Ridículo?
Possivelmente.
Prolixo?
Inevitavelmente.

Escuto a mesma batida lá no fundo de minha alma. Este blues já tocou antes, mas eu pensei que nunca mais fosse ouvir essa canção.