Blues

Escuto uma batida lá no fundo da minha alma. É uma canção antiga e essa espécie de ritmo ancestral percorre túneis secretos até o meu âmago.

Este blues já tocou antes, mas eu pensei que nunca mais fosse ouvir essa canção.

Olha, eu chorei a noite inteira e não consegui dormir. É que eu queria dizer um tanto de coisas, mas sinto que qualquer sombra de palavra vai piorar tudo. Eu sei que o meu jeito não convencional é um pouco complicado e eu deveria estar escrevendo sobre os venezuelanos, entretanto, aqui estou.

O que estou fazendo? Não sei exatamente, mas espero estar decidindo certo. A vida é meio estranha e a gente se desvia dos caminhos geralmente, sabe? Eu só quero não me desviar dos meus.

A cabeça se distrai facilmente com qualquer outra coisa que me leve longe de onde realmente sinto que devo estar. Você cresceu dentro de mim em uma velocidade estupenda e precisa se lembrar disso. O estômago anda mal, eu acho que bebi um litro e meio de café hoje e devo vomitar.

Sinto falta e me sinto fraco nessa ausência dolorida qual não posso controlar. Uma canção antiga reverbera em mim.

Creio que escolhi certo, mas que diferença faz? Na falsa balança não há qualquer vislumbre ou sensação de equilíbrio e, bem, eu sou equiparado com os réprobos e sofro uma retaliação silenciosa. Mereço? Que importa aos outros? Será que em segredo você me desgraça também?

Passo meus dias em casa e me sinto estático. Não me movo e nem sinto vontade de me mover. Sou resgatado por sorrisos breves em episódios de The Office, mas honestamente é a única alegria que sinto.

Escuto uma batida lá no fundo da minha alma. Este blues já tocou antes, mas eu pensei que nunca mais fosse ouvir essa canção.

A verdadeira tristeza é uma falta de ar constante. Eu sinto como se não pudesse aguentar até amanhã de manhã. Encontrarei o meu fim neste solilóquio, nesta noite relativamente gelada? Sinto a dor da ausência e a presença tão calorosa que se insinuava quase como o próprio sol está distante. Meu mundo quente sofre um baque com a queda da temperatura. A canção que toca no fundo é conhecida. Este velho blues rasga o meu coração.

Olha, eu chorei a noite inteira e não consegui dormir.

Escrevi uma carta e depois outra e, enfim, mais uma. O que tanto escrevo eu já não sei mais. Queria conseguir transparecer a convicção que existe por essa espécie de intuição certeira. Falho.

Por quanto tempo estarei assim?

Não me sinto preso e nem liberto. Tampouco sou burro, mas existo longe de me sentir esperto. Os que têm para quem se confessar forçam o erro sem hesitação. E o que faço eu que não conto com a anuência de mais ninguém para me sentir realmente bem ou realmente mal?

Não há quem me abençoe para os dias seguintes e nem quem me ofereça redenção pelos pecados que não cometi. A única coisa imperdoável é a incoerência quando ela é absolutamente hipócrita. Não está tudo bem.

Mas tudo vai ficar, eu sei, pois ainda não escrevi sobre a Venezuela e sigo noite adentro para finalizar trabalhos que deveria ter feito na última tarde. Não estou atrasado, apenas um pouco deslocado do horário normal de funcionamento das coisas.

Que é que há comigo que sempre funciono no meu próprio tempo?

Olha, eu chorei a noite inteira e não consegui dormir, pois queria saber como você está, mas não posso perguntar. Tenho recebido este tratamento gélido e distante de quem costumava fingir que se importava.

Ninguém se importa.

Sigo como posso e até onde posso. Não posso fazer menos por mim do que estou fazendo agora. Talvez eu não esteja fazendo o meu melhor, mas estou realmente tentando tentar.

Redundante?
Necessário.
Ridículo?
Possivelmente.
Prolixo?
Inevitavelmente.

Escuto a mesma batida lá no fundo de minha alma. Este blues já tocou antes, mas eu pensei que nunca mais fosse ouvir essa canção.