Essa inquietude constante em meu peito
É a sombra fulminante de um eco e seus mesmos
O que tanto me impacienta aprendi a entender
Ainda assim quase nunca sei o que fazer
Toda minha comoção se assemelha com entulho
Nem do meu coração sinto mais tanto orgulho
Quando o mundo se aquieta escuto mais barulhos
Ensombra meu passado e me protege da invernia
Preciso desesperadamente do próximo dia
Antes de morrer eu ainda preciso ficar bem
Morreram os contos, os romances e as poesias
Até quando conseguirei ir além?
Anos antes prometi que fosse como fosse
Que de um jeito ou de outro minha vida seria doce
É irônico que hoje encontre na amargura
dos meus tantos goles de café
A minha única e improvável cura
O lembrete de que é preciso ter fé
Assim, oscilo e avanço, cambaleante
Às vezes me deifico por um instante
Imortal raro entre os homens
Transbordando naturalmente uma aura sobrenatural
Todos me olham como se eu não me fosse
Como é possível existir alguém tão doce?
Repentinamente sou arrastado e tomado pela ira
Que é que faço quando sou derrotado por mentiras?
Para ser sincero não faria diferença
se o que me deitasse ao chão fossem verdades
O preço da minha eterna sentença
é lidar com excentricidades
Essa inquietude constante em meu peito
É a sombra fulminante de um eco e seus mesmos
Tudo brilha fugaz e ouço clamores por calma
Essa raiva me traz um instinto mordaz
Nada nunca saciará a minha alma
Quiçá se rezar muito e tiver sorte
Eu me veja satisfeito com a bênção divina
na vida que há após a morte
Olho para o meu corpo e meus cortes
e fito seriamente as minhas cicatrizes
Será que um dia deixaremos de ser aprendizes?
Será que seremos outra vez felizes?
O coração, se pudesse pensar, pararia?
Os dedos, se pudessem parar, fariam poesia?
Olha que sou cinza azulado como estes dias
Sou como as manhãs de domingos e noites de quintas
Sou como os interlúdios que acontecem no almoço
Pareço eficaz e concreto, mas sou mero esboço
Essa inquietude constante em meu peito
É a sombra fulminante de um eco e seus mesmos
O palavreado que vitupera os próximos passos
Não passa de um suspiro profundo por tanto cansaço
Sou ferro e vinho, seco e tinto, mas há vezes que esfumaço
E a violência que imploramos aos outros
E as marcas que muitos de nós querem na pele
Isso tudo é muito, mas soa tão pouco
E por vezes me fere, mas se sou ferro e firo
Só preciso de uns minutos para ficar sozinho
Quando eu paro e reflito, não entre no meu caminho
Quantas intimidades minhas me pertencem?
Não é que as coisas mudaram e quase ninguém nota,
mas mesmo o que se repete nunca é igual
Às vezes queria não me perceber para me sentir
um diferente um pouquinho mais especial
A única constância são os panetones
nos mercados muito antes do Natal
E as dores físicas se ampliam e se forçam em mim
No hospital adormeci como um bebê sereno
Nada nunca é o que parece neste mundo tão ameno
As pombas feias se suicidam mais que os humanos
Os adoráveis golfinhos estupram por diversão
As crianças ingênuas viram adultos agressivos
Resolvem e revolvem traumas construindo outros traumas
Na base das lágrimas, da saliva e do sangue
É melhor entregar tudo e permanecer mudo
diante do que hoje será considerado vexame
E os cruéis seguem ostentando suas falsas conquistas
Riem alto de tudo o que você um dia entregou
Há tantos miseráveis que tentam acabar
com qualquer luz mínima de amor
Os cruéis, escancarados ou não, correm
como baratas que se alegram de encontrar o chorume
A única coisa que anotei no topo da minha lista
“Não seja escravo escracho aos tantos costumes”
O nariz não respira bem, mas tento sentir os perfumes
O aroma do café traz de volta um tipo específico de cura
Nesta madrugada dormirei sem minhas tantas armaduras
Que os monstros dos pesadelos não me atormentem
Hoje quem tentar me ferir me fará sangrar
Que os monstros diurnos não me tentem
Posso cair, mas desta vez os farei pagar
Que os monstros vespertinos não me matem
Nestas últimas tardes só preciso me esquecer
Que até o cachorro mais dócil também late
porque anseia constantemente por viver
Abro os olhos e não me vejo, até o espelho
Abro os olhos e pela feiura que sinto, enfeio
Recordo-me da época que só o que era alheio podia me enfear
O que era belo hoje parece uma mancha
que eu não sou capaz de tirar
Ainda sinto que sigo sendo o mesmo,
Ferro e tinto, vinho refinado e seco
E essa inquietude constante em meu peito
É a sombra fulminante de um eco e seus mesmos
Tudo bem, meu querido Daniel, hoje o mundo acaba,
mas você já viveu outros invernos e sabe que o fim é uma cilada
Olha para aquela criança amiga do silêncio que costumava ser
Até as pequenas vidas dos insetos haverão de valer
Tudo bem, meu querido Daniel, hoje o mundo acaba,
É preciso continuar dirigindo e perseguindo o por do sol
que sempre haverá no fim da estrada
É como no futebol em que um jogo só termina
quando ele finalmente acaba
O fim do mundo desaparece e a gente renasce
no passo seguinte da jornada
E daí que a alma não possa ser saciada?
Eu só espero que a vida seja doce
e um pouco menos gelada.
Depois não tenho certezas.
Acordo antes e respiro
A mulher que amo
dorme ao meu lado e sorrio
Sempre fui gentil com as pessoas
Com as que odeio e com as que não gosto
e mais ainda com as que amo
Observo-a e me basto
Amar é olhar com cuidado e
Cuidar dos outros sempre foi
a única coisa que soube fazer desde cedo
Frequentemente alguém me dizia
Perto de ti não ouso sentir medo
Por vezes fui fatalista, mas vivi
tentando fazer a diferença
Creio que a felicidade destes dias
seja apenas consequência
Observo-a a dormir e sorrio
Este retrato no coração me acalma
Até quando ainda não a conhecia
sinto que a imagem já me acalmava
Toda esta leveza e poesia esteve
desde antes fixado em minha alma
O pé esquerdo dói e manco
Pisei em algo pontudo
Ainda assim, nesta manhã canto,
Porque a alegria traduz meu conteúdo
E me basto com a alegria de hoje
ainda que saiba que todas as horas seguintes
Trazem surpresas
Sou feliz e completo agora
Sobre depois não tenho certezas
Levanto e faço o café
A mulher que amo continua dormindo
O cachorro que amo continua dormindo
A gata que amo continua dormindo
O gato que amo me seguiu até o escritório
Apenas para dormir mais perto de mim
Sou feliz e completo agora
Absorvo da vida toda a sutileza
Sou feliz e completo agora
Sobre depois não tenho certezas.
Artista.
As coisas começam e acabam
Nunca duvide do que encontra
no rabo da palavra
Solidão e borboleta amarela
Anteontem extraiu do coração
Uma autodestruição das mais belas
Pintou uma obra de arte
A tinta seu próprio sangue
Por não se duvidar artista
Teve uma severa hemorragia e morreu
A perícia encontrou sangue e lágrimas no piso
Junto com um bilhete e um último aviso:
Digam que ele nunca se arrependeu
Einmal ist keinmal.
Receita.
Prepare
Oito ovos mexidos
Saboreie um pedaço
de chocolate amargo
Beba três goles de suco de limão
aquele mais caro do mercado
Agora é só apreciar meio litro de café
para se manter em pé durante o dia
Se for domingo ou feriado
Finalize aquele livro do Dostoievski
Junte o que há no seu porão
Rascunhe uma crônica ou poesia
Se não for domingo e nem feriado
Vá para o trabalho e cuide bem
de todos aqueles números
Até os trabalhos mínimos importam
Evite pisar nos insetos e matar os besouros
Até as vidas menores importam
Ouse se conhecer e olhe para si e para dentro
Prepare uma mochila com um lanche caseiro
Dirija até o Shopping China e compre
Meia dúzia de coisas que você não precisa
Lembre-se também de levar chocolate amargo
O suco de limão caro compensa mais no mercado
Vagueie pela cidade nas noites e sente sozinho em um bar
Não saia correndo se uma estranha se sentar contigo
Ela precisou de coragem para ir até você
Agora você precisa de coragem para ficar
Portanto, sorria, mesmo que ela não seja tão legal assim
Ainda que você saiba que prefere ir para casa sozinho hoje
Se quer coisas novas na sua vida, deve permitir que elas entrem
Se o seu velho mundo está balançado
Entre discretamente em um novo e recomece
Nenhuma maldade ou bondade perdura para sempre
Passeie pela cidade aos domingos de manhã
Contemple o que há de natureza e o que há de natural
Esteja atento aos que se atrevem a te criticar e te elogiar
Há críticas justas e elogios insinceros, portanto, abra os olhos
É perigoso acreditar em tudo o que dizem sobre você
Essa paisagem com gosto e cheiro de paraíso
Muitas vezes é uma armadilha
Pode sair dela completamente afetado
Volte para a casa
A solidão te ensinou muitas coisas
mas é hora de adotar um gato
Sozinho não irei conseguir
Sozinho amadureci bastante,
Entretanto, não venci o mundo
Agora como mais um pedaço de chocolate
Peço um lanche completo na hamburgueria
com adicional de ovos
Bebo o suco de limão (aquele mais caro)
Assisto um seriado promissor ou um anime novo
Hoje o meu time de futebol não joga
Se for sábado, cuidado, há noites de duzentas horas
Sento e escrevo no papel
Vou até o escritório
Sento e escrevo no computador
Malho por duas horas e nem é início de madrugada
Sinto um tesão absurdo, porém não desejo ver ninguém
Bato uma punheta e ainda nem é madrugada
Meus pensamentos não se esclarecem e continuo acordado
Meus pensamentos não me esclarecem e continuo acordado
Escrevo mais um texto triste sobre amores
como histórias de fantasmas
Só alguns viram, mas todo mundo fala sobre
Do terceiro andar olho pela sacada larga
e vejo a rua deserta e a fábrica de tratores
Ligo o ar-condicionado do escritório
Ligo o ar-condicionado do quarto
Ligo Lord Huron na televisão grande
e danço desajeitadamente
Quando voltar para a minha cidade
Serei o peixe valorizado no mercado
Isso não interessa
Quando voltar para a minha cidade
Receberei o calor dos meus amigos e minha família
E choro de madrugada
Hoje é sábado (ou sexta)
E de amanhã não passa
Vou adotar um gato e escrever um conto
sobre um amor que foi e não é mais
E vou rezar, embora não acredite em Deus
Eu acredito mesmo é no suco de limão mais caro
e naquele pedaço mágico de chocolate amargo
Vou até a minha geladeira e repito a receita,
Embora tenha comido lanche horas antes
Preparo
Oito ovos mexidos
Saboreio dois pedaços
de chocolate amargo
Bebo três goles de suco de limão
aquele mais caro do mercado
Já sinto o cheiro do café
e vou beber um litro inteiro
Esta noite vou tirar de mim
Tudo o que é falso
E vou encarar o meu eu verdadeiro
Não é bem que os ovos e o chocolate e o limão
tornem-me imensamente satisfeito, entretanto,
Esses alimentos me situam e me basto no entendimento
Neste momento a vida precisa ser desse jeito.
Carneiro.
Carneiro verde
no piso do apartamento
Carneiros espalhados pela casa
Ímãs de geladeira, estantes, enfeites
Uísque ou cerveja quente
Carneiro no signo
Fogo
Nos teus olhos me queimou
e porque não merecia aquele
Fogo
Ousei me tornar
Fantasma
Desapareceria eternamente
ou destruiria o Universo
Sou vasto para meios termos
Minhas lacunas se colorem
num processo automático
Sinto-me máquina
Olhos umedecidos
Máquina nunca
Vinho apenas seco
A ponta da língua espada
Engoli uma estrela cadente
na última madrugada
Cuspo na terra
para espantar o azar
Lutaria sozinho uma guerra
se o único espólio fosse te amar
Uma lâmina fria corta minha pele
Meu sangue pinga vermelho escuro
Era você com o punhal nas mãos
para a minha surpresa
Pelo menos não sorria
e pude morrer aliviado
Ouça
Se minhas ruínas outra vez se tornarem belas
Se outra vez meu sentimento for puro
Se os sapos aprenderem a canção dos pássaros
Se eu me perder no escuro
Grita meu nome
Ignora o teu medo
Fogo ilumina também
Fogo não é feito só para queimar
Carneiro verde vago
Fogo, fogueira, fogaréu
Ocultismos e profundidades
Você pode preferir carneiros
eu amo olhar para as corujas
Cuidado com o que quebra
Mais cuidado com o que suja
O aviso alertava sobre a fragilidade
Você detestava ler os avisos
Nem toda mancha sai com a lavagem
há coisas que deixam marcas definitivas
Ainda que sempre possa se livrar delas
se quiser alimentar o fogo
Agora olha para as estrelas e para o mar
Agora olha para meus olhos castanhos
e meu coração cadente feito de fogo
Quando não aguentar de fome
Grita só mais uma vez meu nome
Antecipo que não irei te atender
Ando esquecendo de tantas coisas
um dia me esquecerei de você?
Ainda assim me chama, inflama
Fogo
Acha-me
se porventura eu me perder
Lembra de mim,
se um dia eu me esquecer,
Coloca-me no teu ímã de geladeira
como uma memória antiga do primeiro tempo
em que sorríamos juntos
Mesmo que você permaneça
Mesmo que amanhã cedo talvez
Você me faça rir outra vez.
Retrato da Infância.
O retrato de minha infância feliz
está colocado na mesa de cabeceira da minha memória
Quando se cresce há tantos empecilhos para ser feliz
Há tanto que se pesa antes de chamarmos algo de felicidade
que todos os que tiveram uma infância boa como a minha
revolvem em si mesmos, como máquinas do tempo,
pela nostalgia de uma época em que era fácil aproveitar a vida
O quadro que vejo, do passado colorido e dolorido,
está emoldurado na primeira parede do meu coração
Mesmo quando eu optava pela solidão
Era pequeno, como as crianças costumam ser
e me orgulhava das minhas banalidades,
como as crianças costumam se orgulhar
Nunca imaginava àqueles tempos que eu cresceria
e me tornaria uma pessoa tão difícil e alta
Antes, infante, observava todos os bichos
sem imaginar que um dia haveria em mim tanta falta
Envelhecer é silencioso
Raramente, percebemo-nos envelhecer
é que meu coração ainda carrega as mesmas coisas que eu tinha
naquele momento distante em que eu acabara de nascer
Exceto pelas ausências que aprendi a acumular
E o vazio escuro, inseguro, que tenta me sugar
Já íntimo, nomeei-o como Vide Noir
Outro gênio já diria
Viver é perigoso
e só aproveitamos a vida sem medo
Quantos de nós não temos vergonha
de nossos pequenos segredos
mesmo após eles serem revelados?
As manchas deveriam ensinar para o futuro
e não afetar o presente que logo será passado
Tenho todas as idades porque a idade é uma mentira
A única verdade é que cada um tem uma cronologia
Sofremos, ainda que esteja claro para ver
Tudo o que nasce deve um dia morrer
Anteontem vendi minhas duas coleções de DVD
porque precisava de dinheiro para comprar roupas novas
Comprei um carro, mesmo que dirigir não me apraza,
porque preciso da facilidade da locomoção para ser prático
Preciso ser prático para evitar ser infeliz
É assim que as coisas funcionam e o mundo funciona
e há tantos cuidados que devemos tomar para não sermos engolidos
Aquele velho amigo inimigo se aproxima e o ouço sussurrar
Vide, vide, vide noir
Despenco no precipício de mim e no mais fundo
do meu ser enxergo novos horizontes
Por vezes tudo soa vago, mas vou existir longe
Volto aos tempos em que corria pelos parquinhos
Tinha medo de me machucar e chorava com facilidade
Deitava na pedra do quintal e seguia os insetos, sem machucá-los
Depois inventava um império robótico capaz de coexistir com eles
Os humanos não tinham humanidade o suficiente
para poupar vidas pequenas
E algo me dizia que toda vida valia a pena
Sentia um tosco orgulho em ser excelente nos videogames
Eu era feito de brilho e barulho, mas permanecia discreto e silente
Tudo em mim era muito e com frequência divagava
mesmo muito novo sentia que algo sempre faltava
E era seguido de perto por meus irmãos e meus amigos
Estava sempre acompanhado, até quando corria para o perigo
E cresci bem, intranquilo e forte
Ano a ano melhorei a minha saúde e a minha sorte
Espero conseguir cumprir meus sonhos antes da morte
A puerilidade que ainda carrego hoje reflete
a criança livre que tentei ser ontem
Tentar geralmente basta
E a gente sempre se gasta
tentando fazer mais do que pode
exagerando numa ilusão de necessidades
Acumulando uma lista imensa de vaidades
Desfilando nossa arrogância por toda a cidade
E aquela ingenuidade distraída que tínhamos
Aquela pureza do passado
Isso quase me deixou nestes dias
Envergonhado
Até que percebi que sou o mesmo
Andando a esmo
Cumprindo todas as minhas promessas
Tento me lembrar que não é preciso ter tanta pressa
E se no passado fiz apenas o que pude
A explicação é de que não poderia antes ir além
Um dia tudo passa, relaxa,
a gente vai ficar bem
Mude quando estiver preparado
e nunca se esqueça
Importa menos o ritmo
Importa mais o rumo
Há tantos novos algoritmos que entre eles
Sumo
Reapareço quase compreendendo
qual é o meu lugar
Não tenho a forma de uma estrela,
mas vivo sempre a brilhar
Assim, nunca mais ousei ser imbecil
e me envergonhar de quem eu sou
Até minhas partes mais erradas vibram por amor
Os anos perdidos estão emoldurados
na segunda parede do meu coração
Quando o futuro se tornar passado
Vou colocar alguns móveis de lado
e arrumar a decoração.
Coração Mecânico
Três ônibus estacionam lado a lado e os observo como se a vida fosse uma corrida. Sei bem que, na realidade, não correrão. A função exclusiva de um ônibus é a de transportar passageiros, bem como a função exclusiva de um escritor é escrever. Penso em lonjuras, como se me fosse ônibus, como se não me desafiasse além do que me programaram para fazer, entretanto, percebo-me e reconheço em minhas frustrações que não posso ser ônibus, quiçá no máximo o motorista, isso se me aventurar a tirar a licença que necessito para dirigir veículos grandes e pesados. A realidade me choca com uma obviedade qual já deveria ter assimilado e a cronologia de minha vida me surpreende com essa réstia de ingenuidade nos pensamentos. A única coisa comum entre nós é que um dia pararemos de funcionar.
Se por ossos do ofício ou projeção funcional das partes mecânicas, decreta-se que a missão de um ônibus é tão somente a de transportar pessoas, assim, a maioria dos ônibus se cumpre. Nascem e quebram (morrem) antes que se possa fazer diferença, porém o ônibus depende do motorista e o motorista que se perde da principal atribuição do ofício subitamente deixa de pensar no transporte das vidas humanas e começa a pensar em velocidade. Esquecem-se em um piscar de olhos que a direção é certamente mais importante que a velocidade. Se acelerar mais chegarei mais rapidamente ao meu destino, assim, o homem ou a mulher que segura o volante e pisa no acelerador, arrisca-se a desvirtuar o propósito original do ônibus. Se deixo de escrever, arrisco-me a me perder do meu propósito original e vejo as minhas motivações subitamente desmotivarem e toda minha animosidade repentinamente arrefece. Se não escrevo tudo ou a vida ou a morte ou minhas ficções, que sobra de mim? Se um ônibus não transporta, que é que sobra do ônibus? Peças, apenas peças para revenda, peças para descarte, peças para o ferro-velho e assim ocorre ao meu ser também, cansado e completamente humano, enfim, só sobrarão minha carne, meus ossos e meu tão valioso instinto cardíaco, isso, claro, antes do descarte final.
Que é a vida, não sei ainda e tenho a incômoda desconfiança de que nunca a saberei. A vida se aprende? A realidade nos aprende ou nos ensina? A ambivalência do decorrer fático de nossas narrativas trágicas e pessoais, os medos, os segredos, as considerações que foram excessivas em momentos irrelevantes e a maneira como te tornaram invisível quando você mais precisava receber um abraço ou ver um sorriso. É tudo tão estranho e soa quase como se fosse vago e a pungência desta única vida abre a minha pele e oro para que as cicatrizes sejam lembranças positivas em outras perspectivas futuras. Quero em outras cronologias sentir alívio e orgulho pelo que hoje me causa dor. Posso sonhar mesmo adulto, ainda que tivessem me dito e ensinado o oposto. Nada fez com que eu me adequasse um por cento ao gosto dos outros. Aprendi a amar minhas estranhezas, sem certezas, tudo que é frágil revela beleza. Diante das injustiças, eu me oponho. Descobri que por mais grandiloquentes que meus sonhos e propósitos sejam, a realidade não me aprende e eu, frívolo e banal, devo me acostumar com a realidade que me é oferecida. Fuga em sonhos lúcidos e intermináveis. Sou obrigado a imaginar um mundo melhor e tentar me forçar diante da realidade que dificilmente é palatável e raramente plausível. Discordo de muitas coisas e me forço a buscar outras melhores. A vida é o agora, mas também o dia seguinte. O que faço se hoje me sinto um tanto quanto pedinte?
Ninguém tem certeza e é preciso que você saiba. Nunca tente se encaixar onde não caiba. Viva sem se esquecer de que um dia você vai morrer, pois você vai. Nada que seja apenas pelos outros vai te engrandecer. Tentar ser sempre melhor, apenas para nós, é o que nos aproxima de vencer e quando falo em vitória, você bem sabe que não estou falando de glória e nem de qualquer idiotice que os vituperadores propagam por esta cidade. O que a gente comemora são todas as diversas formas de felicidade…
Um dos três ônibus parte e seja lá para qual parte ele se dirige, é provável que chegue antes que os outros a uma nova cidade. Se os dois ônibus que ainda estão parados pudessem sorrir, sorririam. As máquinas sabem que cumprir a função é mais importante do que aumentar a velocidade. Qualquer coração mecânico pensa primeiro na missão e abandona toda e qualquer vaidade.
Desacelero o ônibus para buscar os passageiros na oitava parada. Apenas um homem adentra o veículo. Percebo que aquele homem sou eu, bem como tenho convicção de que também sou o motorista. Eu lhe (me) pergunto para onde vou. Ele não sabe. Eu também não. Ainda assim encaramos a estrada em busca de respostas.
Despedida de Outono.
No antepenúltimo dia de outono
Sonhei que reinava esse mundo perdido
E mesmo confortável em meu opulento trono
Aquele eterno estado de sono
Não me fazia mais esclarecido
Mandava e desmandava
Tendo a humanidade sob meus pés
Nada na vida, porém, encantava
E sentia falta de navegar em altas marés
Minha inocência partiu com o último raio
Daquele céu ensolarado e gelado no fim de maio
Quado ainda distinguia as cores das tantas flores
No âmago oculto recusava a inevitável morte
No brilho dos olhos cintilava a minha sorte
Ao me deparar com a finitude de todos os amores
E me considerava privilegiado por saber
A gente nem sempre destrói o que mais ama
A única morte é esquecer
Por isso me forço nas eternas lembranças
Até mesmo das partes mais desconfortáveis
O que ainda me traz esperança
São as memórias de quando criança
Minhas preciosas coisas frágeis
Intuía que a vida era pelo risco
E meus pelos se eriçavam quando em desvantagem
A sociedade me fez amedrontado e arisco
Prevaleci com a minha alma selvagem
Ainda assim tiritava e me encolhia
Toda vez que o mundo se tornava escuro
Algo distante no meu peito doía
Será que um dia dormiria seguro?
Quem tem uma estrela no lugar do coração
Ainda há de perceber
Representa sozinho uma constelação
E o breu não deve temer
Levanta-se, filho, já vai começar
outra partida do seu time de futebol
Levanta-se, meu menino, é preciso lutar,
Você é poderoso como o mago Howl
Ergue e brilha, escreve teu destino
Você é tão quente quanto o próprio sol
Abdica do cetro e da coroa
Abandona a ilusão constante do paraíso
Todo sapo vive bem na lagoa
Felicidade é o próximo sorriso
Eu sei sobre o seu cansaço
Você está em diversos pedaços
Se entrega ao meu abraço e esquece esse aperto
Compartilha comigo esse tempo-espaço
Celebra este novo e firme laço
Você ainda tem conserto.
Talentoso.
A estética de não precisar da estética me agrada e simultaneamente me sinto livre e aprisionado. Estar na distância curta da janela, das portas e saber que só posso sair quando puder sair, quando houver concluído minhas obrigações, isso me pesa o peito e me interrompe os sentidos. Não, na realidade, ainda que eu termine minhas obrigações, ainda que eu finde todos os compromissos pendentes em nome da empresa, eu só poderei sair quando o relógio superar às 17h00. Mal dou conta de respirar direito e sinto inveja do advogado que fuma no estacionamento para aliviar o estresse. Já não sei como não viver estressado. As empresas, sejam privadas, sejam públicas, zelam apenas por si mesmas e nós com nossas individualidades e necessidades básicas somos alvos de um descaso longilíneo e atemporal. Até as companhias e corporações mais cuidadosas secretamente não dão a mínima aos seus funcionários e olho pelas tantas janelas escuras sonhando com o vento gélido nos cabelos e com a ansiedade marcante de quem está prestes a embarcar em uma jornada.
Que será que sonham os caminhoneiros? Creio que seja mais fácil perguntar do que tentar os antecipar, entretanto, forço-me numa especulação presunçosa de me imaginar capaz de prever os sonhos alheios, ainda que saiba que este gesto mísero do meu esforço é insignificante. Ainda assim sonho que sonho seus sonhos como quem sabe que é preciso continuar sonhando a todo o momento, ainda que o estado soporífero invada o dia num horário péssimo. Tudo o que requer esforço se distancia das verdadeiras urgências do espírito e choro por me desagradar. A alma é uma criança mimada que se satisfaz apenas momentaneamente para logo em seguida querer uma nova travessura. Se nos olharmos profundamente, só veremos o fundo. O corpo possui inúmeras limitações, entretanto, o cérebro é irrefreável e a cabeça sempre pode aumentar de volume e comportar ideias novas. A alma é indefinível e indecifrável, porém, por vezes julgo que sei como lançar migalhas a mim e meu espírito diminui a urgência de consumir o mundo quando a minha fome é disfarçada. O hedonismo é funcional por algum tempo, mas não há desconto nos prazeres que nos faça evitar o Vide Noir por mais do que alguns anos. Nasci com uma estrela no lugar do coração e meus batimentos cardíacos são sincronizados com as constelações. Se tudo se apagar, certamente eu apagarei também. Quando este mundo cansar de me entediar, eu seguirei adiante para as novas galáxias, para as novas existências, para os campos mais verdes e flocos de neves mais brancos. Quando eu me cansar da vida e a vida se cansar de mim, partiremos por caminhos distintos, até nos reencontrarmos. Pergunto-me se a travessia é solitária ou se quem me ama ousará seguir comigo.
Interlúdio em mim após um suspiro alto. Atrás do vidro esverdeado eu me sento de frente para esta tela e do outro lado os caminhões passam e invejo os caminhoneiros, por controlarem máquinas, enquanto eu só sou auxiliado pela tecnologia a escrever mais um de meus textos banais e ridículos. Minhas rotinas são simplórias e de nada me adianta me antever gênio ou estúpido, porque ainda que gênio ou estúpido, não sou capaz de fugir da necessidade básica de frequentar os escritórios e viver essa rotina abençoadamente maldita. Se fosse estúpido o bastante talvez já fosse rico o bastante e se fosse realmente gênio, talvez encontrasse um modo de sobreviver sem me alimentar ou ir ao banheiro. Sinto pela primeira vez na vida a inveja e ela é quente, como meus dedos costumam ser, mas não me ataca, como meus dedos se habituaram a atacar. Percebo, sem choque, mas com certo desconforto, que ainda sou humano. Por vezes só queria que minhas mãos sentissem o volante e não que os meus dedos sentissem as teclas. Por vezes me sonho em estradas infinitas, como na rodovia de meus pesadelos e paraísos, a temível e majestosa BR-163. Quiçá ame a estrada apenas por ter sobrevivido e penso subitamente nos tantos que perderam suas vidas. Bebês que sobreviveram sem os pais, pais que sobreviveram sem os bebês, caminhões que amassaram carros como eu amasso uma lata de refrigerante ao pisar com força. Vidas que desaparecem. Tudo termina em nada e apenas as máquinas mais pesadas, vez ou outra, sobrevivem às colisões. O peso quase sempre vence a leveza. Quão certo sou das minhas certezas? O que guia nossas escolhas em direção ao futuro imprevisível? Será que um dia poderei folhear meus próprios livros?
Sem sombra de dúvidas, sem sobras, sem nenhuma alcunha alongada que não me pertença, por vezes queria que a vida fosse apenas escrever, até que subitamente me esqueço da escrita e vivo todo o resto da minha realidade, vida que na maior parte do tempo não me interessa. Vislumbro identidades, personas, sonhos, desejos secretos e temo os outros, provavelmente pela capacidade de se me refletirem. Se há neles tantas coisas malucas, se antevejo neles tantos desejos sombrios e maliciosos, quem disse que não há tantas coisas em mim também? Se não as acho, será que não olhei para dentro o bastante? Pelo medo dos outros aprendi a ter um temor ligeiramente sobrenatural a mim mesmo. Há medo por encararmos a finitude ou há medo por termos medo de nunca termos uma atitude? Que se prevalece após o esquecimento? O que não envaidece sobrevive além do tempo? Todos os meus esforços e horas de escritas foram resumidas em… talento. Como se meus dois mil e quinhentos textos fossem ocasionais, casuais, como se meus livros fossem escritos por alguma divindade, como se qualquer força oculta tivesse me empurrado para frente e eu, inerte e passivo, não tivesse o menor mérito sobre minhas conquistas. Olha, como aquele ali tem talento para a escrita… talento. Olha que o destino daquele um é ser escritor e Deus o olhou nos olhos dele e disse: – você sim, meu filho. Sem o talento e os gestos figurativos e falsos, sem as amizades verdadeiras e os surtos dos descompensados que não se admitem nunca errados, o que então me resta? Grito meu desespero no escuro. Será que algum dia dormirei seguro? Quanto mais tento ser dócil mais o mundo me obriga a ser duro.
Sobra-me o sangue quente nas veias e, vez ou outra, sinto-me mimado em meus caprichos. Há dias que sinto uma necessidade de isolamento, apenas por desejar que o mundo se faça segundo as minhas vontades. Se não me isolasse, lutaria para fazer com que todos me agradassem, entretanto, encontrei no instinto de isolamento uma fuga para minhas falhas mais humanas. Por ser cônscio do meu egoísmo, não me dou tantas asas e sou eu mesmo que me podo, quando no meio de um voo que me soa excessivamente extravagante. A vida está aí para ser conquistada e não me vejo distinto dos tantos que já fracassaram e se arrependeram. Insisto em ser real e isso me dói, por antever nos outros só a falsidade de não se serem. Insisto-me e me odeio, por não conseguir me fingir, assim, secretamente julgo que todas as minhas vontades quiçá irrealizáveis, fizessem a curva na metafísica e se ajoelhassem diante de mim. Por insistir, creio-me um pouco mais, como quem não ousa duvidar de si mesmo, por muito menos.
Como posso não crer em mim se nasci assim tão talentoso? Quanto tempo devo ficar em silêncio em um mundo permanentemente ruidoso?
O cruel destino da autoidolatria eterna.
Meu sangue pinga pelo apartamento
Tinge o piso todo de vermelho
Congelam-se meus movimentos
Em face do que vejo diante do espelho
Escrevo no papel na intenção de me libertar
Ouço risinhos e cochichos aos montes
Nesta terra quase ninguém sabe o seu lugar
E eu, mesmo sozinho, vou existir longe
Distingo os tipos de sorrisos
Reconheço centenas de Narcisos
O cruel destino da autoidolatria eterna
Os bajuladores estão sempre serenos
Se fodem, se beijam e trocam venenos
Bebem com o mesmo deleite o suco, a cerveja e o esperma