Outra vez

Outra vez a cortina fecha e o espetáculo acaba. Outra vez o mergulho profundo na madrugada.

Ando com a cabeça meio solta, meio no mundo da lua, meio em outro mundo qualquer. Se eu soubesse exatamente talvez lhes contasse, mas tenho me estranhado. A minha maior capacidade, eu acho que é essa de produzir quando não há sinais de esperança ou carros nas ruas. Os outros vislumbram passeios caros e eu fito solitariamente a lua. A noite passa e é quando a maioria se deita que eu me levanto. Desaparece a neblina e a fumaça, é quando tudo se ajeita que secretamente me entrego aos prantos.

Olha, essas lágrimas precisam cair do seu rosto, alguém me disse e a obviedade do conselho me deixou atônito. Cale essa sua maldita boca, idiota! Bradei em fúria, mas não havia interlocutor. Estaria eu pirando?

Não é de se estranhar. Estar desempregado é uma desgraça. Você perde a noção do tempo e o dia passa. Às vezes você faz malabarismo com as horas e se sente estranhamente produtivo. Às vezes tudo demora e você se pergunta suas razões em estar vivo. Um pingo de existencialismo no meio de uma tarde. Uma velha ferida repentinamente aberta novamente arde.

Ainda assim, eu tenho me preocupado com a minha memória. Lembro-me de coisas triviais e esqueço o que não deveria me esquecer. Recordo-me de países distantes, mas me perco do que deveria fazer. E a vida continua e eu aqui. Às vezes sinto que nunca mais serei capaz de sorrir.

É quando levanto ou me levantam que eu sinto o peso da sentença. Por tanto tempo fui tanto, mas eu já nem sei a diferença. E continuo como se me existisse uma obrigação em continuar. Desço até a esquina acompanhado por meu cachorro. Eu olho para os cantos. Ele mija nas moitas. Escutamos os uivos e os barulhos da noite silenciosa. Todos temem a madrugada, mas nós somos os donos dessas horas.

Em casa me vejo e tenho um sobressalto. Não sou um poema de Cecília, mas eu não tinha esse rosto assim tão magro. A barba falha, mas eu já nem ligo. Que é que me importa se alguém vai se sentir seduzido? Vou até a cozinha. O que faço para comer é suficiente para sobreviver, mas geralmente sinto fome. Que é que alimenta a alma do homem?

Os meus cabelos lembram o matagal de um terreno baldio. Meus olhos representam um vitral que me faz luz neste mundo sombrio. E eu sinto frio, mas não tanto assim, pois penso que outros estão congelando por aí. E daí? A sensibilidade própria possui mais representação fática do que qualquer notícia alheia. Se pensássemos sempre ao longe, não teríamos motivo para a felicidade e a vida seria sempre feia.

A madrugada entorpece meus sentidos e eu continuo com a cabeça tonta. Os objetos do quarto deitam seus olhos vítreos sobre mim, não se movem, julgam-me. Que é que há?

Cogito fazer uma reclamação formal, mas para quem endereçaria a carta? Para a ingrata que foi fria ou para o ex-amigo filho de uma puta. Eu fui correto até o fim, caí, mas vocês perderam a luta. Que é que há de errado comigo? Fui estender minhas roupas no varal e os cabides se enroscaram e me peguei xingando. Acontece é que é gostoso encher a boca para soltar um palavrão cabeludo, mas as cabides mães não são putas por seus pequenos filhos cabides.

Escrevo muito e digo pouco. Se meus dedos fossem minha língua, eles estariam roucos. Olha, talvez seja tempo de admitir que a noite infinita é uma ilusão. Olha, aproxima-se de mim e me mostra o que você diz ser horrível, sim, eu posso me chocar, mas não vou sair correndo, eu sei, você não está acostumada com esse tipo de homem aparecendo, mas, veja, eu só quero saber que sei o que sei, não, ilusões doem mais, não, sim, mas eu te falei a verdade, você precisa prestar atenção, sabe, eu não sei mais o que dizer, porém, eu sei que você devia me ouvir melhor. Olha, os olhos quase se esquecem de como olhar alguém tão brilhante depois de passar muito tempo no escuro. Do que é que eu não deveria estar falando?

Gasto palavras e impressões digitais para continuar com a escrita. A cabeça dói, mas a dor é bendita. Quanto mais meus sentidos dormem, mais se revela minha parte bonita. Não tenho medo do que me embriaga e nem do que me excita. Você foge ao perfil, mas, olha, eu decidi que você veio para ficar. Se quiser partir, tudo bem, mas eu nunca vou voltar. E madrugada adentro segui sentindo fome. Matando tempo, dentro, ao centro, eu fico enquanto o resto do mundo some.

Gasto o que resta de mim em mim, pois preciso continuar. Veja, você sabe que eu sei, mas, olha, talvez seja melhor se afastar. Não, você não entende ou pressupõe de maneira errada, seus silogismos são falhos, suas analogias são banais. Sou fácil de lidar e posso fazer qualquer pessoa feliz. Por outro lado sou vidro frágil, caco afiado e apontado, disposto a sangrar quem tentar a minha salvação. Se você descobriu como ficar, cuida bem do meu coração. Não posso me demorar onde não há dedicação.

A manhã surge desbotada no horizonte e eu continuei esperando em vão. A luz se desdobrou pela cidade e iluminou o meu coração. Nuvens cobriram o céu, tornaram tudo nublado e eu vi as pessoas como são. É triste entender a vaidade, notar-me como um dos de verdade, partir para a ação. Sinto vontade de chorar, mas me abafo. Quase fui aprisionado, mas fui salvo. E a vida seguiu e eu fui caminhando como quem entende pouco sobre algo e nada sobre muitas coisas. Espalhei, porém, uma palavra que ouvi diversas vezes e ensombrou meus revezes.

Tudo que é fácil quebra. Talvez eu seja a exceção da regra.

Você não leu minhas cartas.

Você não leu minhas cartas.

Você não leu as cartas que eu escrevi e nem entendeu os sentimentos que senti. Não quis. Tornou-me, ressalto, por escolha, inequivocamente inútil. Existe coisa pior do que se sentir impotente?

É triste.

Admitir a derrota. Os seus poderes tão magnificentes e extravagantes não funcionam. Ler mentes não impressiona, voar é para os idiotas e o teletransporte é uma fantasia estúpida para quem ainda desentende que na vida só é possível ter de pouco em pouco. Quem tenta segurar muita coisa fica sem nada nas mãos.

Você se tornou gelo puro.

Você não leu minhas declarações de amor com os olhos de quem verdadeiramente ama. Cruzou os braços, licença poética ao tempo e ao cansaço, disse “fogo não queima para sempre, veja como não viceja nossa velha chama”.

Você se fez incêndio e nos queimou.

Tudo o que era nosso, perdeu-se em menos de um instante de falta de lucidez. O que é que enxergávamos? De quem eram aquelas mãos? O riso tão leve e a acidez de quem precisa se aliviar, agora, voltadas para o alvo que disse que nunca miraria. Nós poderíamos fazer mais, mas você me passou uma rasteira, eu caí de cabeça e sangrei. Veja, eu não ligo de sangrar, mas note, eu vi o vislumbre do descaso nos seus olhos antes do impacto. O amor havia morrido em seus olhos e demorei para assimilar o fato.

E é decepcionante.

Você construiu muros entre os nossos caminhos seguros, cimentou as frestas que faziam entrar luz e o mais assustador é que você sabia do meu medo do escuro. Não, o mais assustador é que, de repente, eu me peguei te ajudando a destruir o que tanto quisemos construir. Foi a sua confusão que me deixou confuso ou meu coração desnorteado entrou em parafuso? Você me olhava e não me via.

Você me fez um vampiro no seu espelho.

Perdi meu reflexo na sua vida e segui firme, embora nem sempre forte, ao longo dos anos. A pele cada vez menos tocada, os beijos cada vez mais curtos, os silêncios de paz transformados em surtos. A minha vida pela sua e a sua vida apenas pela sua. O seu umbigo era a única coisa que existia. Sua incoerência quase foi a estaca de madeira no meu peito, mas eu sobrevivi.

Você não é quem era.

Eu havia decorado seus vários sorrisos e sabia exatamente como consegui-los. O cheiro do seu perfume marcava minha pele e eu que nem respiro direito, às vezes, inalava apenas você. E você dormia com minha camiseta para se sentir protegida, pois dizia que eu era o seu porto seguro, mas não hesitou na sua estranha saída. Pensei tolamente sermos a exceção da regra, mas tudo que é frágil sempre quebra. Quebramos.

Você não é quem era e tudo bem. Eu não sou o mesmo também.

Espero que sua nova jornada não seja tão uniforme, que você se permita e se transforme, pois eu juro que vou além. Das coisas que você nunca tentou me provar, mas conseguiu, há apenas uma com a qual me comovo. O amor em tempos sombrios, perto do fim, agoniza em gritos de socorro.

Honestamente só espero vida nova, algo para não me lembrar de quem tão facilmente me esqueceu, afinal, você mudou, eu mudei, mas…

Você nunca me leu.

Você aceitaria tomar um café comigo?

     Eu sei que mal nos conhecemos e que nossas ideias parecem todas avessas e que você certamente me acha um idiota, mas podemos tomar um café qualquer dia desses?

     Eu sei que você acha que eu não sei conversar e está certa em desconfiar, mas sabe que eu sou mesmo eloquente? Com você eu tropecei no que ia falar e fiquei parecendo um desses bobos inocentes. 

     Eu sei que não sei de quase nada e que na noite passada você andou reclamando na internet sobre a sua solidão. Eu sei que é muito abuso, mas e se na sexta-feira eu aparecer como um tipo de intruso e segurar suas mãos? Não, isso seria muito, mas talvez eu pudesse escutar sua voz e tentar descobrir o que há de comum entre nós.

     Eu sei que não sei de quase nada, mas tenho lido livros para entender tudo o que é discreto e reluz, mais ou menos como você. Costumo ser exagerado e extravagante quando diante do que me seduz e me pergunto sobre como agir. Não, não é bem isso que eu me pergunto. 

     Eu sei que assusto muito com o meu barulho e o seu silêncio me confronta sem confrontar. Você é que me assusta e me faz sentir revirado, completamente fora do lugar. Talvez isso ou talvez outra coisa. Talvez nem uma coisa e nem outra. É certo que meus poderes não funcionam em você. Como pode ser discreta e ao mesmo tempo aparecer?

   Eu sei que agora é tarde para o que não fiz e não há alarde por aquilo que não se diz, mas me perco quando te encontro e sei o quanto isso soa estranho. A coragem sempre falha por um triz, mas busco abrigo para a tempestade silenciosa em seus olhos castanhos. 

     Eu sei, eu nunca antes tive medo de chuva, mas você é uma espécie de curva no meio da minha estrada em linha reta. A minha visão às vezes se turva, mas tudo me aponta você. Esqueço de tudo. A linha do ridículo ultrapasso e me vejo como se estivesse nu, constrangido por aí. 

     Eu sei, nada disso faz sentido, mas, olha, bem, eu queria que você soubesse dessa vez. Eu andei deixando algumas coisas para trás e não gostaria de deixar você antes de sentir que eu a tive pelo menos uma vez, entende? É melhor sentir o sabor do fracasso por ter tentado e não ter conseguido do que a desolação da impotência por ter cogitado e sequer agido.

     Eu sei, é confuso e eu posso me mudar para São Paulo e você também não aguenta mais essa cidade e não suporta quando eu começo com minhas rimas. Eu sei que você me ridiculariza e diz que a gente não combina. 

     Eu sei que não sei nada sobre tudo o que se sucede, mas andei torcendo para que você ficasse bem. Eu sei que esse tipo de texto faz com que você superestime minha loucura, mas um escritor sempre exagera na descrição da figura. O que mais eu poderia fazer?

     Eu sei que não escutamos músicas parecidas, mas o que eu acho que quero dizer vai muito mais além. A gente sente um medo absurdo de viver e vive buscando uma situação na qual nós mesmos possamos nos tornar reféns. Aceitamos migalhas, pois a solidão ensombra nossa vida. Pedimos para que nos firam e escolhemos quem está desesperadamente de partida.

     Eu sei que parece que é mentira, mas não é. Nós andamos por aí tão arrebatados pelo que houve antes que nos tornamos indiferentes. Um dia já tivemos o bastante e é estranho que outra vez se tente, ainda que as histórias nunca sejam iguais e raramente sejam parecidas.

     Não, nada está acontecendo de novo e a vida é esse tipo maluco de jogo qual quem se esquece mais rápido é feliz mais apressadamente e quem se sente letárgico, às vezes e só às vezes se perde dentro daquilo que se sente. Onde está você hoje? Você disse que apareceria, mas não apareceu.

     Aposto que está no trabalho e há dias que você agradece por fazer o que você faz, pois é o seu lugar no mundo. Outros dias a raiva é ensurdecedora e você queria explodir tudo. O que é que a leva a fazer o que faz?

     Não sei de mais nada, mas quero te ver mais uma vez para tornar oficial o meu estado patético. Este escritor prolixo numa próxima vai ser absolutamente sintético e você talvez possa sair antes de ter aparecido. Dê-me um bom motivo para não ter mais motivos. 

     Incomodei-me com o papo furado sobre coisas vagas e houve quem me dissesse artista e eu o mandei para a puta que o pariu e houve quem a chamasse de artificial, mas o disparate veio de um indivíduo tão vil. Não sei se você já se viu nos espelhos, mas a tempestade em seus olhos e a cor dos seus cabelos e o jeito que você se movimenta e tudo o mais que não aparenta. Como é que pode não ser capaz de perceber?

     Talvez metade das mulheres do mundo também falhe em se reconhecer, mas hoje eu queria te dizer que você é mesmo linda assim. Encontrar-te é vislumbre de arte e o vendaval da sua presença agita todos os sonhos que vivem em mim. Como pode ser assim?

     Eu sei dessas coisas todas e sei sabendo, pois pensei antes que sabia e estive errado, mas repensei que não havia motivo para me preocupar se tudo um dia vai virar passado e eu não sei mais o que estou falando, mas ainda estou faltando em fazer sentido. 

     Eu sei que você existe, embora talvez não exista. Eu sei que você é um fantasma, mas às vezes sinto como se fosse real. Na minha imaginação você é alérgica e também tem asma e ganha um presente perfeito na noite de natal.

     Abri uma exceção e decidi te ver no meu dia de solidão. Domingos são sagrados, mas você está rondando a região. Pego o meu carro e finalmente tomo alguma medida. Sempre que perco minha coragem nunca me lembro de onde a deixei escondida. 

     Eu sei que tenho sido meio tonto e não tenho diferido a tranquilidade do perigo. Nem sei se estou pronto ou se outra vez me pegaram falando sozinho. Acho que não é o seu tipo de encontro, mas você aceitaria tomar um café comigo?

Hoje não estou bonito.

Hoje não estou tão bonito. Sinto como se eu estivesse sob o mau tempo, como se a nuvem da tempestade iminente pairasse sobre a minha cabeça. A perseguição, eu juro, parece divina. Todos estão secos, mas a chuva molha o meu pobre corpo e neste dia de início tão vívido, de repente, respiro e me vejo quase morto.

Bebo três xícaras de café pela manhã e mais quatro pela tarde. Aposto tudo na fé e meu peito arde. Sou velho agora e sei, é necessário conservar alguns tipos de ritos pessoais, principalmente nestes dias que não me sinto capaz de ser tão bonito assim. Você achou que a terça-feira seria melhor, mas não contava com algo ruim.

O sorriso que te salva repentinamente minguado. O presente esperado novamente adiado. Você segue, sim, na força bruta, não se envergonha, sua sina é a luta, mas hoje você escorrega e cai. Como conseguir continuar? Todo mundo se trai e só você segue o mesmo no cair do próximo luar. As coisas continuam, ah, claro que sim, devemos esconder nossas excentricidades, dizem, mas hasteamos nossas bandeiras de banalidades até o fim.

Coisas acontecem e seguem acontecendo, eu me encolho e depois explodo, mas estes meus estilhaços não ferem os outros. Afasto-me rápido e me movo, mas nem sempre evito o desdém. Ergo a cabeça e meus olhos semimortos zombam silenciosamente do que quase ninguém pode ver. Você não se cansa de não me entender?

Veja, os carros alegóricos na televisão. Veja, olhe, os seus tantos gestos simbólicos por quem não valia um tostão. É carnaval de novo, você teve sua chance, volte duas casas, você também, agora vaza, deixa-me em paz, quero ser feliz. Tudo o que vai e volta, homens que não facilmente se dobram, recomeço e preço… quase! Foi por um triz.

Imperatriz da escola de samba, chega e samba, corda bamba, babam na avenida, desfilam sorridentes, fantasmas de carnavais, espíritos ancestrais, bebedeiras, tremedeiras e aquilo que se sente. Crises, vitrais, beirais, Perdizes, bobeiras, rugas, cortes, mortes, varizes, árvores, galhos, folhas, raízes, perco, ganho, atraso, banho, café, leitura, tempo perdido, tesouro achado, barata dourada, alguém novo ao lado, vida que se desfaz, tudo o que o sonho traz, o que acaba e recomeça. Num sonho pueril, no seu quebra-cabeças nunca montado, eu sonhei ser a última peça.

Solucionando o mistério de outras novecentas e noventa e nove peças de difícil encaixe, eu me inseri na sua vida para que você mudasse e eu também pudesse ser feliz. Hoje não me sinto bonito, eu nem sei sobre o que escrevo, mas acredito, que tudo precisa ser assim. Tropeço, caio e me levanto. Observo de soslaio e ninguém me nota aos prantos. Sorrio e sinto minha coragem pulsando, pois cônscio de mim, eu agora sei.

Tudo começará de novo, enfim. Até o dia que este mundo acabar, eu vou sempre insistir e tentar, mesmo que este mundo envenenado não mereça todos os sonhos que vivem em mim. Só queria continuar a digitar, mas tenho que cumprir minhas obrigações conforme tudo o que foi dito. Vou ter que sair do lugar logo hoje que sei não estar assim tão bonito.

Como eu senti sua falta…

     Sabe, eu venho acumulando energias, bem, não sei como lhe explicar, mas é que eu não era capaz de acordar e simplesmente fazer o que deveria ser feito, eu sei, você simplifica tudo, mas, veja, eu complico o que é simples e simplifico o que é complicado, você bem sabe, não é? Deixa-me tentar continuar aqui, sabe, é que o tipo de coisa que se sente quando se sabe, eu juro, não mais do que de repente, que a gente não está mais fora de sintonia ou de lugar, entende? É como se alguém fosse um lugar, veja, você não entendeu, eu notei, mas não sei como me esticar ou explicar. É como algo que te faz levantar da cama, mais ou menos como um sonho ruim, não, eu não estou te chamando de pesadelo, ei, eu peço para que tenha calma e não entenda errado todos os erros que eu nem cometi ainda, assim, talvez você consiga extrair mais do que a verdade de cada palavra que eu escrever ou ainda ler o que nem cheguei a pensar. Vou tentar ser mais objetivo agora, o que ocorre é que você me antecipa, eu sei, eu vejo, de um jeito completamente esquisito, quase sobrenatural e repentinamente você sorri por causa de um trejeito meu que considera engraçado e veja, olha, eu me distraí de novo e esqueci de comer o ovo que deixei de janta na cozinha, mas não importa, eu fico com fome e distraído, perdido e estranhamente encontrado. Sinto-me, de súbito, extremamente jovem e posteriormente olho para minha pele para notar que envelheci. Veja, olha, sabe, eu não controlo mais o que falo, assim, calo-me para me encerrar antes de entrar de novo em uma confusão boba. Não sei o que você leu na minha face, acha que eu fiquei sério, preocupa-se muito, fantasmas te assombram, acha que vai ser consumida pela culpa, é boba, bastante boba, eu às vezes quero sacudir seu corpo levemente e lhe dizer o quanto suas bobeiras não fazem sentido, já está tudo bem, agora você anda comigo, eu sei, é óbvio, a culpa não é sua, eu só estou longe, bem longe, pensando no amor. Você me faz cócegas e eu gargalho, mas quero que pare e você não sabe parar, não quer parar, o mundo silencia, eu escuto seu riso, você encurta o espaço e me abraça, envolve-me, banco o difícil, mas sei que preciso, veja, eu sei que quero morar no seu sorriso e, bem, admito com vergonha, não quero mais te soltar. Veja, você sabe que possui esse dom de me fazer parar de falar, ainda que de quando em quando, eu desate a conversar, mas você sabe que nestes momentos eu dificilmente paro. Vou no embalo e falo, você entende geralmente, mas te encontrei por uma espécie de faro e o roteiro é surpreendente. Coisa louca essa, essa o que, você pergunta, essa história de doação de casacos e cronologias malucas, coisas que definitivamente ou talvez não devessem fazer sentido, mas agora fazem de novo, ah, droga, eu ainda estou com fome e me esqueci do ovo. Sabe, é estranho, quando eu soube que sabia, quando me faltou o ar, eu decidi que você seria minha e torci, ainda que não rezasse ou pedisse, para que você aparecesse e veja, agora eu estou aqui e você aí, você me desconcentra, desconcerta e se desconcentra e eu fico querendo te olhar enquanto não te olho e me perco do que queria encontrar, meu embaraço é óbvio, é provável que eu ainda não saiba dizer o que sinto, mas, bem, você é capaz de transformar o meu Eu prolixo em um Eu sucinto. Sabe, eu venho acumulando energias, pois por muito tempo foi muito difícil que fosse fácil, agora, é estranho admitir, é inequívoco, natural, simples como andar ou respirar, eu sei, pois me transborda e eu tenho que te dizer antes que algo improvável aconteça ou eu morra, que isso é amor. Mesmo. Eu percebi que amo pelo meu jeito abobalhado e disperso quando sei como deveria agir para ser impressionante, mas faço o inverso e não invisto em poses. Às vezes sou ridículo, eu sei, mas não posso evitar. É como eu disse, sabe, ou tentei dizer, você é o meu lugar. Quando te olho, excito-me e transbordo, você me pegou de calças curtas quando meu coração se acelerou por um inexplicável ciúme, mas, veja, você sabe, eu memorizei o cheiro do seu perfume e o gosto do seu beijo e agora eu vejo, sabe, que fomos meio que feitos um para o outro, ou, sem meio termos, inteiramente feitos um para o outro e que se, eventualmente, separarmo-nos, bom, eu não gosto de pensar nisso, eu confesso, mas eu lhe peço para que não se esqueça da minha docilidade e nem do quanto eu sempre vou te querer bem. Um dia, eu juro, gente como a gente vai ser capaz de ir além. Veja, apenas hoje, veja como eu vejo, chega pra cá e me dá mais um ou doze beijos, fecha os olhos comigo, divide o cobertor, esquece os problemas que têm acontecido e sente o meu sabor. É, eu não sei onde estará amanhã o teu coração, mas hoje você está aqui comigo. Você é o refrão da música que espero escutar em todo almoço de domingo, ou, quem sabe, ainda mais. Você já está confusa e agora tanto faz, é tarde, não quero fazer alarde, mas, resumo-me, faço a síntese da minha mensagem, enfim, para que você me escute com carinho, por favor. Eu nem sabia que te esperava, mas como eu senti a sua falta, meu amor.

Oito da noite

     São oito horas da noite e o mundo vai como vai. Meu cão se distrai com o carneiro verde de pelúcia. Leva-o de um lado para o outro e quando se cansa, vira-se, ajeita-se, até que, enfim, dorme convenientemente perto do brinquedo. Estranho que o cachorro me olhe como pai, sendo que somos de espécies diferentes e mais esquisito ainda é como ele olha para o carneiro, como se fosse seu amigo. Por não ser um carneiro de verdade a relação com o objeto deveria ser inexistente? Deve haver forma para qual dedicar o amor? O cão não se importa com trivialidades. Apenas ama o seu pai e o seu amigo. O amor para ele é algo instintivo.

     Sorrio enquanto desejo que todo o meu âmago seja puro como o de um animal, porém, reconheço-me falho e não importa o quanto batalho, vez ou outra me vejo vil. Respiro devagar e tento me encaixar em um mundo que poucas vezes me sentiu. Meu rosto honesto transmite todo o meu cansaço e minha satisfação. Alguns dias não são bons, mas o de hoje foi. A alegria do cachorro parece ornar com tudo, mas há quem diga que tudo é ínfimo e o sentido nos escapa. Os ruídos da pequena criatura se assemelham com o ronco humano. O estado soporífero do cão me hipnotiza e sinto que também vou dormir.

     Estapeio-me com força para que a sonolência se afaste. São oito horas e quarenta e cinco minutos e sequer notei o que fiz por quase uma hora. Indago-me sobre o quanto poderia ter feito, mas quando me descrevo, pego-me escrevendo palavras que não encerram coisa alguma. O que é que há tanto para encerrar? Sinto-me sem amarras, porém, algo limita os movimentos que faço. Sou alguém livre que se sente preso ou alguém preso que se enxerga livre? Dia desses me olharam e viram outra pessoa. Vomitei sem vomitar, mas senti, ainda que por um ou dois instantes, uma bagunça crescente e confusa na parte de dentro. Não pude sorrir por horas, mas esqueci a questão ou, pelo menos foi do que tentei me convencer. É tão caro ser raro ou vice-versa que me perdi quando não puderam me ver.

     Existo, porém, quase não existindo. Sou das beiradas e passeio nas bordas dos abismos. Saltito alegremente sabendo que um escorregão poderia me levar para a morte ou para a outra vida, mas o que é que há? Certa feita perdi quase tudo e decaí na loucura. Chorei e machucado me reergui numa dessas noites inacreditavelmente escuras. O que é que esconde a madrugada densa? O que é que inquieta minha alma e deixa minha vida tensa? É tempo de colheita e eu que sei ter plantado coisas boas temo a sentença.

     Um cansaço de alma me acomete. Meus olhos despertos e ansiosos buscam algo que não sabem o que é, mas saberão. Estranho-me no espelho. Quando fiquei alto assim? Esqueço-me. Qualquer vislumbre de sabedoria me soa tosco. Qualquer eco de alegria me torna mais fosco. O que é que sei de tudo o que sei não saber? Agora os olhos alheios me julgam e me sinto mais feliz. A minha diferença se sobressai, pois faço o que sempre quis. Não sei o que me espera amanhã, mas me localizo em mim hoje. Sinto um orgulho banal que me transborda cheio de verdade. Eu não sei sobre amanhã, mas hoje sou dono da minha identidade.

Há amor depois do amor?

     Meu único amor, eu tenho te esperado por tanto tempo. Por onde é que você anda? Soube meias notícias sobre você, meias verdades apenas, mas custei a acreditar nos boatos. Por onde erra você? Jaz no sono eterno ou eternamente se perdeu no vento? O porta-retratos com a velha foto ficou exposto por algum tempo na sala vazia, mas muitos começaram a achar estranho que eu ainda a ostentasse, mesmo tendo a perdido. Depois veio outra mulher em um porta-retratos novo. Nunca a vi, mas ela se parece com uma menina de cabelo colorido, então, deixei ela na sala para colorir minha imaginação. Todos que antes se incomodavam com a foto antiga, perguntam agora quem é a nova. Sorrio. Uma modelo qualquer de algum lugar qualquer. E o que aconteceu com a antiga? Ora, eu sou descuidado. Em um equívoco legítimo, alguns dirão que eu a perdi mesmo, mas importa tanto assim o meio se o fim é igual? Que seja a perda então. E se eu dissesse que mesmo com a perda, eu ainda ganhei? Há uma parte que será, até o dia de nossas mortes ao menos, eternamente minha, eu sei. Entendo sua partida, pois “o amor não enche barriga” e apontar o dedo por deduções é algo mais comum do que se imagina, mas quem é que diria? Quando me tornei certo de que você não voltava, a insuportável invernia no meu coração piorou e eu só rezei para melhorar. Rezava para quê ou para quem? Não sei dizer, mas cada uma das raras lágrimas que derramei escancarou minhas fraquezas. Choro é fuga. Que razão há no mundo para um homem de sonhos profundos se lhe tiram o que mais ama? Que razão não há para tudo ignorar e viver isolado vestindo o mesmo pijama? Fuga no sono, queda dramática, cama. Infelizmente até em meus sonhos, onde sento em um vistoso trono, você me chama. Por que faz tanta questão de me possuir se nunca mais foi capaz de me desejar?


     O fim da vida é a morte e hoje pouco ou nada me interessa devanear sobre o que há depois. De que importa, afinal? Eu só gostaria de saber se há amor depois do amor, pois com a última batida pesada da porta, imediatamente soube que meus sorrisos não seriam os mesmos. Há ilusões de paraíso para meros vagabundos à esmo? Meus medos me consumiram. Hoje é sábado, 9h10, mas estou em um escritório. Nos meus sonhos mais antigos isto é como comparecer ao meu próprio velório. Lancei eu mesmo a flechada que perfurou a minha armadura. Fadado a viver em batalha, constatação de uma gama de falhas, uma voz que ecoa: A vida é dura. Já não penso mais sobre o amor, pois se há esperança de perseverar nele, esta esperança apenas é alimentada nos momentos em que é impossível raciocinar. A lógica é inimiga do sentimento. Se pensar com clareza pode concluir que nenhuma ou todas as suas atitudes foram capazes de influenciar alguém. Adianta disparar a arma quando a vida tomou reféns? Que há por de trás do ódio senão a candura? As faces de escárnio, todas secas, horripilantes, lançam olhares mortificados para os que ainda se preocupam. Quanto tempo nós temos? O que é que fazemos aqui?


     O não pensar nos faz livres e o pensar nos faz prisioneiros, por tal, digo que é mais feliz aquele que nunca aprendeu a raciocinar. Aquele que não sabe que o mundo é gigantesco, não sente falta de conhecer sua imensidão, pois o resumo em que vive o basta para se satisfazer e ser feliz. Quem é louco de querer ser apenas feliz? Aquele que pensa, age ou não, mas inevitavelmente se compunge pelas façanhas realizadas ou por aquelas que deixa de realizar. Aquele que não pensa, porém, age e a extensão de seus porquês se encerra na própria razão que o levou a agir. Furtei um pão, pois senti fome. Se não fui preso, fui feliz. Se fui preso, não fui ladrão bom o suficiente. Era preciso fazê-lo e aqui se encerra a existência da questão. Não há razão para questionar se é moralmente correto tomar o pão; foi necessário. Há amor para os tolos? Sim! Principalmente para os tolos, mas sigo em minha racionalidade banal ao me perguntar: há amor depois do amor?


     Alguns que me leem me acham inteligente. Outros me tomam por um tolo infantil. Estou amadurecendo ainda e sou qualquer coisa entre criança e adulto; entre o divino e o cético; entre o pueril e o razoável. Se me consideram imbecil, provavelmente estão certos. Se captaram em minhas palavras algum vislumbre genial, pode até ser que ele também exista. A felicidade é para quem sabe agir esquecendo-se de pensar ou para quem sabe olhar para o que possui, sabendo que possuir é mera ilusão. Talvez a palavra ilusão sintetize a ideia errada, pois possuir é ainda menos. Na realidade, nós não possuímos, em regra, nem a nós mesmos e somos condicionados a fazer coisas que muitas vezes não queremos exclusivamente por uma vontade que nos leva ao que desejaríamos que fosse. Possuir é expectativa longínqua de ilusão. Tudo que não existe em ação e solidez é mais real para quem raciocina. A imaginação é importante, pois é nela que se firmam todas as nossas teses e se continuamos a acordar no dia seguinte e no dia depois, é, apenas pelo fato de que em um lugar dentro de nós, existe uma fé cega em nossas próprias capacidades. Antes de Deus ou da ideia de Deus ou de qualquer ideia que não o envolva, a realidade nos guia para uma fé cega em nós mesmos e quanto mais arrogante somos em pensamento menos altruístas (verdadeiramente) tendemos a ser em nossas atitudes. Há humildade só no agir simples. A bondade na simplicidade é geralmente discreta. Desconfie dos que fazem barulho por qualquer coisa. Afaste-se dos que sentenciam à morte quem cometeu qualquer erro frugal. Se puder, seja humilde, peça desculpas, mas evite se humilhar. Não devemos baixar a cabeça, pois não somos servos de Rainhas ou Reis. Acaso não possa ser humilde, seja coisa nenhuma. Ainda que cada indivíduo seja a meditação contemplativa da memória do que um dia foi, o que ele é agora é apenas expectativa do que o que imagina ser.


     Assim, por ora, encerro em mim todas as questões existenciais essenciais tanto como as francamente patéticas. A chance de que os cruéis, os pernósticos, os ascetas e os desmedidos sejam felizes é absurdamente maior do que a chance de felicidade dos ingênuos e dos coerentes. A ausência de culpabilidade, o não remorso, faz com que a arrogância predominante da alma se eleve. Elevado, supostamente há leveza no ser, mas não o há, porém, para os que se martirizam por erros que nunca cometeram. A própria expectativa de liberdade geralmente é uma artimanha ilusória para com a verdadeira liberdade. Somos prisioneiros da suposição do que poderíamos ou deveríamos ser.  Associamo-nos à pessoas degradantes para nos impedirmos do privilégio de pensar. Juntamo-nos aos réprobos, pois queremos evitar a solidão. Que sentido há em viver? Há sentido em qualquer coisa? Tornar o sonho real faz com que se perca a possibilidade do sonhar, mas, creio, embora sem forçar expectativas demasiadas, que realizar o sonho nos torna complacentes. Se é importante ser bom ninguém jamais soube dizer. Do mesmo modo ainda não tenho a resposta para a pergunta que me fez escrever e pensar inutilmente em tudo isso. Há amor depois do amor? Há lealdade em um mundo de oportunistas? Para o que se vive é o mesmo para o que se morre? A palavra futuro é ridícula. Tudo que é, obviamente, é agora. Erro-me por medo de não ter errado o bastante, pois deveria ter dito algumas coisas que não disse. Ainda assim, quando tive a oportunidade de dizer, falei muito em silêncio, mas quando tentei me expressar com a voz, disse tanto e ainda assim nada transmiti. Como são curiosos os caminhos, vê? Forçaram-me a estar aqui neste sábado. Lancei um débito errado e esqueci de dar o desconto de um centavo. Na segunda-feira cedo, eu vou perder mais trinta minutos da minha vida por isso, mas o que serão trinta minutos quando já estou fadado a perder nove horas? Desejo o tempo livre que tinha. Desejo ser um pouco mais do que fui e um pouco menos do que sou. Não penso para depois. Não passo para depois. Sou o que sou e sou agora. Apenas isso importa, mas que há de acontecer?


     Não há justiça no mundo. A ordem é uma palavra inventada para frear o eterno caos que passa por cima de tudo. Por dentro, quase todos, vi com meus próprios olhos e senti com minha própria carne, são selvagens. Parte de mim também compartilha dessa animalesca selvageria, mas sou um desses coitados infelizes que se presta a pensar além do próprio umbigo. Constatei sem derramar lágrimas que só há felicidade destinada a mim em sonhos. O mais belo deles se resume em um homem recostado em uma árvore lendo um livro; uma mulher cochila está deitada nas coxas dele. Uma menina, um menino e um cachorro correm ali perto, exultantes, ninguém saberia dizer o porquê. Respiro longamente e sou toda aquela cena. Se sou o homem, sou feliz. Se sou a mulher, a filha, o filho ou até mesmo o cachorro, sou igualmente feliz. Se sou a árvore que observa aquele instante, viverei mais por conta disso. Se sou o sol que faz suar as crianças, sorrio, mas cedo espaço à chuva, pois creio que ainda aqui cabe um arco-íris nesta utopia. Sonha-se acordado, vive-se dormindo. Não há rumo novo. Não há alegria nova. Felicidade é ser e ser é existir sem expectativa e sem pensar. Os outros decidem muito sobre nós; eles não importam. Decido-me hoje sobre alguns velhos desejos matreiros que ainda matutam em meu coração. Quero fazer uma viagem para fora do país, pois não quero entender completamente as línguas que falarão comigo. Que seja uma aventura. Quero descobrir o que há depois do mar, para onde os dragões verdes partem e onde dormem os corações partidos. Quero descobrir se há morte após a vida ou se até isso é ilusão. Quero desenrolar meu próprio ser, eu mesmo me saber, entender meu coração. Quero descobrir se há como viver desperto, além dos sonhos e se há amor depois do amor. Talvez nada disso te faça sentido, raramente sinto o sentido, mas ainda assim, é uma jornada longa e dura para que eu a faça sozinho. Quem sabe alguns se juntem a mim antes, durante ou ao final do caminho? Tanto faz. O pouco que sei é insignificante, sigo inconstante, chutando para longe os mais belos diamantes. Quero sonhar acordado, não pensar nos dilemas morais, fazer algo pela existência, mas me aflijo ao pensar, há como acreditar neste mundo que vive por aparências? Não sei. Partirei em breve. Se quiser ir comigo, será bem-vindo. Prometo que será leve, mas não sei se será lindo. Desconheço o destino ainda, mas chegaremos aos lugares que pretendemos. Saiba que está convidado a ser parte da minha tripulação. Tudo bem se ainda tiver medo, nós vamos nos superar. Coragem não é ausência de medo e por de trás um mundo de segredos quem sabe eu ainda possa amar.

Uma espécie de limbo tenta me engolir por mais uma semana,
mas ele se engana se acha que esse espaço vazio me fará desacreditar…
Se há amor depois do amor? Eu me pergunto e me respondo: claro que há. 

Gabriel Medina

     Dois anos e meio às vezes me soam como dois dias. Tenho tentado fazer a diferença enquanto o tempo é meu aliado, pois jamais me esqueço de que um dia será meu único inimigo. 

     Eu morava em outro apartamento e já nem sei se foi o antepenúltimo ou ainda antes disso. Eu me mudei seis vezes, mas à época, creio que ainda estivesse na quarta. Chegava cansado do meu trabalho, qual faço também enorme confusão sobre qual era, pois troquei de empregos várias vezes nos últimos anos. Largava-me na sala, apenas para fazer nada ou qualquer coisa não tão importante assim. Até que o interfone tocava.

     Não havia dúvidas de que era o porteiro. Tudo começou em um dia como outro qualquer. Desculpa, mas você por acaso não pode arrumar a televisão do senhor Medina? Eu aceitei, é claro, se na vida você não puder tentar arrumar uma televisão, o que é que você pode? 

     Acontece que o senhor Medina sempre perdia a batalha contra a televisão e quando eu não podia ajudá-lo, quem o ajudava era o meu irmão Caio. Quando o Caio não podia, era eu. Vai lá. É a sua vez de ajudar o Medina. Em uma espécie de rodízio silencioso e sem reclamações, nós nos revezávamos para ajudá-lo.

     Um cachorro idoso nos recebia, ornando com o casal de idosos do terceiro andar. Às vezes ele fedia como quem pisava no próprio mijo, mas o que se pode fazer? Os cães envelhecem também. Geralmente ele latia bastante e ainda bem, pois é preciso proteger os donos da casa. Que o meu cachorro envelheça juntamente com suas manias! 

     A esposa do senhor Medina nunca me disse seu nome, mas sempre agradecia toda vez que eu arrumava a televisão. Sorridente e meio constrangida, ela dizia: agradece o menino, Gabriel. Agradece o menino. 

     Algumas vezes eles apertavam o input quando queriam desligar a TV. Outras vezes desligavam o sinal da NET. E quando eu arrumava, o Medina me olhava desconfiado, como se eu estivesse trapaceando e sempre me perguntava: o que foi que você fez? Como você arrumou? Eu explicava com calma, mesmo sabendo que ele se esqueceria .Havia certa ironia em saber que sabia mais sobre o velho Medina do que sobre seu homônimo surfista. 

     Nossas visitas eram tão frequentes que ele perguntava de vez em quando: você é o Caio? Você é aquele menino lá de cima? Você é o Daniel? E o porteiro sempre que interfonava dizia que ele pediu para chamar o Caio ou o Daniel ou o menino lá do nono andar. 

     Gabriel Medina sempre se vestia com calças sociais e sapatos marrons. Nunca o vi descalço ou usando chinelos e é impossível imaginar alguém mais avesso ao surf. A imagem do velho de bermudas era impossível. Será que eu serei um velho que usa bermudas? Ele também tinha um cabelo branco ligeiramente arrepiado, mas bem penteado com gel, como quem preserva a vaidade de maneira ritualística. Eu não sabia como sabia, mas era ele quem se penteava, como alguém que sabe valorizar um dos poucos hábitos de antigos tempos.

     Mudei de casa mais algumas vezes e por algumas outras tantas vezes me compadeci de como deve ter sido penoso para o senhor Gabriel Medina o nosso sumiço. Será que isso é verdade ou ajudar um velho era alento para um rapaz quebradiço? 

     Sinto pesar-me o fardo de ter um coração. Tenho pensamentos grandiloquentes, mas há uma bagunça intermitente, interna e sem muita comoção. O senhor Medina com certeza encontrou rápido alguém para arrumar a sua televisão. Só espero que ele não assista canais de surf.

Eu preciso de uma carteira nova.

     Eu preciso de uma carteira nova. Eu preciso de uma carteira nova e não compro, não pela falta do dinheiro, mas sim pela falta de convicção na afirmação de que eu realmente preciso do que preciso. Eu preciso do que acho que preciso? Não sou consumista e nem extremista e quase nunca me deixo ser tomado por minhas futilidades. O que acontece é que a carteira atual está remendada em três pontos diferentes. O único ponto positivo é que ainda consigo guardar meus cartões com bastante segurança. Ela costumava ser preta à época que a comprei, porém, agora é de um marrom desbotado, cor de vida desgastada, forma de sombra exausta, rosto de passagem do tempo. Quem é que vê esses anos que voam?

     Às vezes tudo o que fazia sentir ou fazia sentido perde, você talvez tenha notado, subitamente a singularidade. Compreensões nos fogem no momento exato da explicação, pois ainda que algo se derrame inexplicável, temos a mania persistente de teimar em enxergar quando nossos olhos se desacostumam a ver o que é preciso. Não queremos a bula e nem manuais, não temos tempo, dê-me apenas o remédio. Os detalhes, sim, como eu sempre digo, essas coisas frágeis e rápidas e até mesmo perigosas, essas coisas nos definem mais do que todo o resto. Essas coisas frágeis, sim, são absurdamente fortes na essência. O vidro quebrado ergue suas pontas para ferir, mostra que ainda pode te fazer sangrar. O ovo quebra fácil, mas suporta como poucos a pressão, o calor. E você nessa mania de inferioridade canta aos quatro cantos da cidade que não existe amor. Você acha que não o merece.

     No que é que você pensa quando sabe que ninguém pensa em você? Quem você não finge que é, quando sabe que ninguém vai saber? Os perfumes perderam o cheiro ou eu mesmo bloqueei minhas narinas? Não, eu preciso me acalmar. Tudo flutua por dentro, mas eu me sinto centrado. Vejo aqui e ali o que se vê com os olhos que se ganha da natureza e agradeço pelo privilégio de notar coisa ou outra. O Universo foi cruel comigo, mas com a minha idade já possuo maturidade para tolerar. Quando tudo ocorre errado, quando a vida gira ao contrário, eu me inverto e estou no lugar.

     Qual lugar, perguntariam, se existissem pessoas por perto com dúvidas, não sei ainda, eu responderia e sairia para a cozinha preparar um café. Leio Leminski, Poe, Solano, Martin, Exupéry e Saramago, um pouco de tudo na mesma tarde, antecipo aqui meu estrago, corpo largo estirado no deserto, consciência que lateja e arde. Levanto-me, como quem possui uma agilidade sobrenatural adormecida. Continuo, aqui e ali cicatrizado, sorriso largo, como se nunca antes houvesse feridas. Que é que se leva, perguntaram-me, desta vida?

     Eu gostaria que levássemos pelo menos nossas memórias. Queria que o Real Folk Blues tocasse no meu coração antes de uma evidente tragédia e que o telefone tocasse, sim, eu gostaria da excitação que antecede uma ligação, mas apenas se fosse para minguar a falsa paz que antecede a guerra. Reclamam de quem vive com a cabeça no ar, mas ninguém aprecia a terra. E as pessoas odeiam cada vez mais a ligação, pois a fala imediata reflete a necessidade de uma resposta urgente. Por mensagens e áudios gravados a gente disfarça o que sente. E o que levar desta vida, volto-me, notando que me perdi em pensamentos. E eu honestamente também gostaria de levar embora o meu cão. Ele dorme e acorda habitando o espaço mais próximo do meu coração.

     Perdi-me de novo e ontem mesmo a chaleira do ovo quase explodiu. Onde é que ando com a cabeça, se ela parece no mesmo lugar de sempre, mas já não a domino? Que é que se sente quando por dentro quente, a invernia transborda pela pele gelada do exausto menino? Quem sou eu que não sou poeta, mas rimo?

     E minhas olheiras agora marcam e eu não era cansado assim. E outrora como Pessoa tive todos os sonhos do mundo em mim. Os óbvios olham e dizem “você parece cansado“. E meus músculos murcham e eu nunca ficava três dias seguidos sem me exercitar. E as pernas tremem de quando em quando, mas caminho. Agora eu não correria nem que pudesse. Logo mais desconhecidos acenam, notam sua presença, conforme você agora se esquece. Os olhos avermelhados, o suor, o instinto, você vê, cansado de ser sobrepujado por razões inferiores, exausto de ser cercado pelas mesmas cores. Apostando, uma vez por ano, todo tipo de plano em novos amores. Que é que se faz com o que resta das dores?

     Na era da ascensão financeira, eu juro, eles dizem que amor é pura bobeira. Talvez eles estejam parcialmente certos, pois eu ainda não os refutei com incontestáveis provas. Eu aqui, madrugada adentro, evitando todo o esquecimento, recordo-me de que preciso de uma carteira nova. E tenho feito o meu melhor e isso, eu digo e repito, é bom o bastante. O que importa é não permanecer o mesmo de antes, porém, uma espécie de energia má e assassina tenta me derrubar. Tenho feito o meu melhor, mas um dia todos vão me deixar?

     Suspiro profundo, eco da alma, pele marcada pelo corte. Quando todos saem, evita-se a morte. Sozinho, imundo, mas com a mente calma, você se sente em falta ou se sente com sorte? Sente-se aqui, por favor, bem pertinho, bem do meu lado. Narre-me sua história.

    E as ondas quebram, eu sigo inteiro.
    E no mar em tormenta, eu me torno timoneiro.
    E no olho do furacão,
    eu entrei em um balão,
    em busca do que é Verdadeiro.
    Podemos desperdiçar tantas flechas ou
    o tiro deve ser certeiro?

    Perco-me, acho-me, conforme a madrugada segue. O filme qual eu estava gostando agora está pausado e neste momento sou o deus que decide se essa história termina ou não. Encontro-me e perdoo o que passou. Minha alma já não passeia em cidades fantasmas com a memória do que ressonava como amor. Eu talvez já saiba de tudo, pois imaginei de modo tão real que pude sentir. Vivi tantas vidas em ficção, que, às vezes em realidade me sinto com um pé na cova. Eu tanto divaguei e descobri que me derramei em palavras exageradas, quando só queria mesmo uma carteira nova.

Sonho dos Esquecidos – Parte 1 – Maura.

     Maura observava a televisão e somente a televisão. Ouvia ecos de vozes que, ela juraria se ainda pudesse falar, soavam simultaneamente próximos e distantes.

Mãe.

Ela não entende mais.

Mãe.

Ela está aqui, mas não está.

Mãe.

O pai se foi há anos. É coisa de…

Família é assim mesmo.

Ela deu azar. O Alzheimer é genético.

Sim.

Mãe, a senhora quer alguma coisa?

Mãe, a senhora está com frio?

Mãe?

     As palavras passavam pela memória de Maura como se estivessem passeando apressadas em um shopping com a urgência de evitar a cobrança do ticket do estacionamento. Elas seguiam trôpegas, como se estivessem embriagadas, para os recônditos da cada vez mais inconsciente consciência de Maura. Ela ainda se lembrava de coisa ou outra, sabia diferenciar os seis filhos pelos sons das vozes e pelos ritmos das falas. Não se esquecia de que havia dois que jamais a visitavam, um deles homem e a outra uma mulher, mas como é que ela poderia reclamar na atual conjectura? Não tinha voz. Maura suspirava, mas seus pulmões eram tão fracos que os filhos não distinguiam uma arfada de ar simples de uma respiração prolongada. A velha senhora estava totalmente entregue, ainda assim, era obrigada a escutar os resmungos de quem dividia o ambiente com ela.

Ele foi embora, Paula. Descobriu sobre os meus dois casos. É, eu sei que você é uma santa e nunca faz nada errado, mas eu fiz.

Engraçado. Eu achei que ele fosse um bundão incorrigível.

Eu não sei o que eu achei.

Você vai sentir a falta dele agora, irmã, mas ele não vai sentir a sua. Quer água, mãe?

Por que você defende ele? Eu sou a sua irmã!

Você é a pessoa que errou. Fosse você mesma a mamãe ou o papai, que Deus o tenha, eu ainda falaria sobre o seu erro.

Por que você é tão má comigo?

A minha honestidade te fere? Você foi ruim com as pessoas por anos. Parece que nunca aprende.

     Maura nem se recordava de como a alimentavam, mas já não fazia tanta diferença. A vida era uma tragédia sem importância agora que ela era a extensão do cômodo, apenas uma nova parte envelhecida da mobília. Quando se lembrava de sentir e via, enxergava com atenção tudo ao redor, porém, mantinha-se imóvel. Os gestos que era capaz de fazer com a cabeça fugiam à compreensão dos filhos. Ninguém entendia o vagaroso menear de seu pescoço. Os olhares cheios de significados eram respondidos com frases confortáveis, repletas de pena na intenção e na réplica falada. Maura se sentia velha para isso e seus lábios formaram por um instante seu antigo e discreto sorriso juvenil, afinal, ela estava realmente velha para qualquer coisa. Suspirou outra vez. Maura se recordava de que uma ou outra vez os filhos haviam conversado sobre a infância compartilhada e as melhores refeições que mamãe preparava. Uma ou outra vez discorreram sobre memórias felizes. Uma ou outra vez o mundo real, qual ela já não tinha mais certeza da realidade, voltava a ser palatável para quem se acostumou a sentir o gosto de coisas ruins ou a não sentir qualquer gosto sequer.

Água.

Mãe?

Mamãe? A senhora aceita água?

Acho que ela já ficou surda.

Por que perguntamos se ela aceita água? Ela não responde mais.

Precisamos conversar com ela para estimulá-la.

Estimulá-la com qual finalidade?

Que horror! Você parece tão fria!  

Seja racional. Ela parece ouvir algo?

Ela pode ser surda, mas definitivamente não é cega.

E como você sabe?

Olha o jeito que ela assiste a televisão.

É.

É o quê?

Parece que ela presta atenção.

Pobre, mamãe.

Se você diz que sente essa compaixão deveria aparecer mais vezes.

Pelo menos eu me importo de verdade em aparecer.

Eu sei bem como se importa…

Sua rata egoísta!

Sua porca interesseira!

     Sobre uma coisa, porém, as filhas estavam certas: ela gostava de mergulhar profundamente na televisão.     

    Foi em uma terça-feira do mês de janeiro, não que Maura fosse se lembrar da data, mas havia assistido a televisão por volta de oito horas consecutivas. Os filhos não estavam presentes, mas ela também não deu pela ausência deles. A enfermeira que ficava na casa algumas vezes na semana falava em voz alta com seu namorado na sala ao lado. Suas conversas eróticas seriam facilmente escutadas se houvesse mais alguém por perto, mas ela acreditava piamente que a senhora Maura havia passado para a outra vida, deixando só o corpo, uma sombra vaga que fica e habita, mesmo quando todo o resto insiste, implora, para ser deixado para trás. A indiferença era a única característica que marcava a velha senhora. Sentia como se toda a indignação de evitar conflitos e situações dignas de asco fosse apenas um privilégio da juventude. Respirou profundamente, mas ainda que alguém estivesse por perto, não teria notado a diferença entre a leveza e o peso. A enfermeira seguia na chamada.

Cale a boca, seu idiota. Ela está vegetativa! Só a carcaça envelhecida fica ali o dia inteiro. Sim, eu sei o que estou falando. Você pode relaxar. Eu vou…

O que você vai fazer comigo?

Você não dá conta.

Cala a boca.

Eu já disse que a velha é surda.

Se eu ligar a televisão ela fica parecendo um bebê.

Você pode aparecer hoje?

Ela dorme no sofá. A gente usa a cama grande.

    A enfermeira estava parcialmente equivocada sobre a morte precoce da senhora. Maura se sentia tão bem quanto uma mulher de noventa e quatro anos podia se sentir. No começo, quando perdeu os movimentos, irritava-se com a incapacidade de trocar o canal da televisão, mas aprendeu a gostar de tudo o que estava passando, inclusive dos esportes. Naquela noite especificamente, ela juraria se pudesse falar, sentia-se completamente confortável com a programação. Na televisão A Sociedade dos Poetas Mortos havia encerrado para, em seguida, começar a sessão da madrugada com O Exterminador do Futuro. Depois de envelhecer, quando se percebeu incapaz de se expressar, Maura se reconheceu como uma grande fã do famoso ator Arnold Schwarzenegger. Talvez lhe faltasse versatilidade na interpretação, admitia, porém, adorava um brutamontes com cara de maluco que era capaz de explodir tudo. Estreitou os olhos para prestar melhor atenção no filme e sentiu o cansaço lhe pesar. Não era tarefa fácil ser uma velha que vivia para assistir TV. Maura fechou os seus olhos, sem nunca saber se os abriria no dia seguinte. Havia inúmeros relatos de pessoas que morriam durante o sono, ela não estava livre da ameaça da morte nem durante o repouso. Os lábios se abriram discretamente em um sorriso fraco, que desapareceu em instantes. Ela honestamente já não se importava em viver ou morrer. Cada novo dia era quase igual ao anterior, só os filmes eram diferentes. Quando fechou os olhos naquela noite, Maura nem desconfiava do que a esperava quando despertasse. Tudo seria diferente na próxima vez em que abrisse seus olhos.