Você não leu minhas cartas.

Você não leu minhas cartas.

Você não leu as cartas que eu escrevi e nem entendeu os sentimentos que senti. Não quis. Tornou-me, ressalto, por escolha, inequivocamente inútil. Existe coisa pior do que se sentir impotente?

É triste.

Admitir a derrota. Os seus poderes tão magnificentes e extravagantes não funcionam. Ler mentes não impressiona, voar é para os idiotas e o teletransporte é uma fantasia estúpida para quem ainda desentende que na vida só é possível ter de pouco em pouco. Quem tenta segurar muita coisa fica sem nada nas mãos.

Você se tornou gelo puro.

Você não leu minhas declarações de amor com os olhos de quem verdadeiramente ama. Cruzou os braços, licença poética ao tempo e ao cansaço, disse “fogo não queima para sempre, veja como não viceja nossa velha chama”.

Você se fez incêndio e nos queimou.

Tudo o que era nosso, perdeu-se em menos de um instante de falta de lucidez. O que é que enxergávamos? De quem eram aquelas mãos? O riso tão leve e a acidez de quem precisa se aliviar, agora, voltadas para o alvo que disse que nunca miraria. Nós poderíamos fazer mais, mas você me passou uma rasteira, eu caí de cabeça e sangrei. Veja, eu não ligo de sangrar, mas note, eu vi o vislumbre do descaso nos seus olhos antes do impacto. O amor havia morrido em seus olhos e demorei para assimilar o fato.

E é decepcionante.

Você construiu muros entre os nossos caminhos seguros, cimentou as frestas que faziam entrar luz e o mais assustador é que você sabia do meu medo do escuro. Não, o mais assustador é que, de repente, eu me peguei te ajudando a destruir o que tanto quisemos construir. Foi a sua confusão que me deixou confuso ou meu coração desnorteado entrou em parafuso? Você me olhava e não me via.

Você me fez um vampiro no seu espelho.

Perdi meu reflexo na sua vida e segui firme, embora nem sempre forte, ao longo dos anos. A pele cada vez menos tocada, os beijos cada vez mais curtos, os silêncios de paz transformados em surtos. A minha vida pela sua e a sua vida apenas pela sua. O seu umbigo era a única coisa que existia. Sua incoerência quase foi a estaca de madeira no meu peito, mas eu sobrevivi.

Você não é quem era.

Eu havia decorado seus vários sorrisos e sabia exatamente como consegui-los. O cheiro do seu perfume marcava minha pele e eu que nem respiro direito, às vezes, inalava apenas você. E você dormia com minha camiseta para se sentir protegida, pois dizia que eu era o seu porto seguro, mas não hesitou na sua estranha saída. Pensei tolamente sermos a exceção da regra, mas tudo que é frágil sempre quebra. Quebramos.

Você não é quem era e tudo bem. Eu não sou o mesmo também.

Espero que sua nova jornada não seja tão uniforme, que você se permita e se transforme, pois eu juro que vou além. Das coisas que você nunca tentou me provar, mas conseguiu, há apenas uma com a qual me comovo. O amor em tempos sombrios, perto do fim, agoniza em gritos de socorro.

Honestamente só espero vida nova, algo para não me lembrar de quem tão facilmente me esqueceu, afinal, você mudou, eu mudei, mas…

Você nunca me leu.

Publicado por

drpoesia

Escritor de hábitos relativamente saudáveis que gosta de escrever crônicas, poemas, contos e principalmente romances de ficção fantástica. Três livros prontos, porém, ainda sem publicação física. Trimestralmente faço o registro dos meus novos textos no Escritório dos Direitos Autorais. Tenho 27 anos de idade e sou formado em Direito. Creio no amor, embora o sinta meio ingrato neste ano. Só posso ser quem eu sou e é assim que vou continuar. Confio no mestre Leminski. "Isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além". Se você continuou até aqui espero que conheça meu blog aqui na WordPress e que possa dar uma visitadinha nas minhas páginas de poesias no Instagram e no Facebook! Obrigado! Volte sempre!

3 comentários em “Você não leu minhas cartas.”

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