a história oculta
alguns detalhes
foi na cidade de Tebas
que teu olhar me fez
pedra
este episódio
ocorreu há milênios
quando tu era guerreira
e eu ainda era gênio
antes de me saber
ignorante
mil anos se passaram e
crescia a fome do meu desejo
tantas vezes me reencarnaram
sempre longe dos teus beijos
pisca rápido
olha
linha
pesca rápido
isca
até que um dia
agora
morde
sê minha
sem demora
a língua revela
alguns detalhes
complexos
exploro o teu corpo
completo
jorramos em uma explosão
simultânea
somos dois, porém um
crime perfeito incomum
a perícia oculta
alguns detalhes
repugnantes
cuspe,
esperma,
suor e
sangue
ninguém sabe
o que nunca perguntou
tudo é muito, não cabe
amar demais é
desamor
quem nunca se aprendeu
na madrugada se esquece
ontem, abril, natal,
no final enlouquece
nem os pintores são
exatamente o que pintam
você conhece o golpe do Machado
o interno não aguenta tinta
segue-me com os olhos
ora para que se quebre este meu espelho
eu tenho notado
querem-me de joelhos
dei tudo o que pude,
só não pude ir além
o querer ser quem se é, Paulo,
nunca nos deixa bem
tenho mostrado meu
rosto
tenho sido o fulgor
na noite escura
entretanto,
este meu brilho eterno
não dura
apaga-se a memória,
as lembranças,
esperanças,
dançamos a última vez
antes do estrago
se aproxima e me usa
medusa
empedernido
te espero em desespero
aceso como uma chama
me oferece teu corpo
mente que me ama
a gravida oculta
alguns detalhes
iludimo-nos com o voo,
mas estamos presos à regra
até a nossa rebeldia
é frágil e quebra
seguimos fixados ao chão,
escravos patéticos do coração
eu oculto
alguns detalhes
tenho insistido em
amar um mundo
que pretende me odiar
internamente só há uma verdade
um dia vou para nunca mais voltar
uma noite dessas durmo
sem a intenção de acordar
sorrio triste e resignado
antevejo o futuro e relembro o passado
a história oculta alguns detalhes
noutra tarde infinita
se reencontrarão os nossos
olhares.
Tag: poesia
Os trapezistas.
– O ato do trapezista é o mais lindo por ser o mais arriscado.
– Você acha que a beleza está condicionada ao risco?
– A vida está condicionada ao risco. Quem não se arrisca passa uma vida inteira destinado a inércia ou ao silêncio dos covardes.
– Você está afiado.
– Estou eu.
– Afiado. O que é isso de silêncio e covardia? Bom, eu achei que ao menos os trapezistas dispensassem a filosofia e os pensamentos.
– Quem sabe dispensem? Quem sabe não seja eu a única razão meditativa por de trás de um ato puramente instintivo?
– Instintivo nada! Eu não quis dizer que algo que não receba pensamentos precise ser necessariamente instintivo. Bom, os trapezistas também treinam, ensaiam para valer e só então se revelam no palco principal.
– Todo ensaio é o ato principal quando um erro leva à morte.
– Você perde a magia do espetáculo com tantas conjecturas! Bom, para mim o ato do trapézio não é somente sobre o risco e sim sobre confiança. Isso quer dizer que, se quem deveria te segurar, porventura, não te segura, você perde tudo.
– O risco! O trapézio é como uma história de amor. Você se arrisca e espera que alguém do outro lado segure a sua mão. A vida inteira pendendo em um salto. Tudo está em jogo.
– O trapézio como uma analogia aos amores. Você anda bastante criativo, mas nota que este número do show não foi feito para durar?
– Desde quando a finitude é motivo para a descrença?
– Logo chegam os palhaços que você tanto detesta. Por mais lindo que seja este ato, logo as cortinas se fecham, a iluminação muda e tudo se altera.
– Você parece subestimar o ato dos trapezistas. Se todo ensaio é ato principal para um trapezista, ama-se não somente quando os holofotes estão mirados nele.
– A vida inteira dependendo de um salto… Eu não sei se gosto da ideia. Se é como você disse, como conseguirei acreditar nas histórias, poesias e romances com esse tipo de exemplo? O que dignificará o amor sendo que ele possui vida tão curta? E se eu quiser uma vida diferente dessa?
– Qual seria a sua motivação em fugir do amor?
– Sobrevivência?
– Amar é um salto no escuro. É simultaneamente temer a queda e desejar cair, entretanto, por mais que seja difícil fazer com que esse tipo de discernimento caiba na razão, amar é alcançar o inalcançável.
– Posso viver sem isso, obrigada.
– Só uma pessoa que nunca amou diria isso, mas se você pode compreender como é sutil e perfeito o ato do trapezista, você pode compreender o amor.
– Não foi feito para durar, olha lá ao longe, os palhaços estão chegando e logo esse seu papo todo vai para o beleléu.
– Esqueça os palhaços. É o que eu tento fazer. Você provavelmente está certa. O trapézio é um momento mágico no circo, mas é fugaz. O que você não pode entender é que aos amantes verdadeiros o tempo nunca é curto, mesmo quando as histórias são contadas em poucos capítulos e se encerram de repente. Há quem tenha passado uma vida inteira esperando amar e tenha amado apenas um mês, mas que trocaria estes trinta dias por todo o resto.
– Você trocaria?
– Sim.
– Uau! Nenhuma hesitação.
– E você?
– Não sei…. Eu acho que ainda não vivi isso. Como você quer me convencer a crer no amor se me dá razão no argumento? Como você espera que eu deposite tudo em algo que não vejo? Sou desprovida de dons circenses. Não sou trapezista.
– Eu não quero te convencer de nada, mas você nunca voará se não tirar os pés do chão. Faz-se necessário deixar o ninho. Já ouviu dizer que viver é perigoso? Há um mundo inteiro oculto depois da zona de segurança.
– Então não posso optar por uma vida segura e estável?
– Qualquer ilusão é segura e estável. O voo é imprevisível, bem como a magia. Para explorar novos horizontes é preciso pular.
– É diferente saltar para tocar o teto e saltar sem ter a menor noção de qual é a altura da queda.
– Pois lhe digo que o impacto da queda pode ser terrível, insuperável. Existem os que nunca se recuperam…
– Você está me fazendo odiar os trapezistas da maneira como você odeia os palhaços.
– A única maneira de amar é pular na escuridão e esperar esperançosamente que alguém segure a sua mão.
– Eu ainda tenho medo do escuro.
– Um dia isso tudo passa. É lindo, emocionante, requer esforço e prática, mas por que temer a vida e o amor se o ato dos trapezistas é curto e acaba? Mais vale apostar tudo do que viver eternamente condenado ao nada.
– Você está afiado!
– Estou eu…
Queria ser como os anjos
Eu me lembro que disse uma vez que queria ser como os anjos. Queria poder fazer o bem secretamente, pois a mídia, a repercussão e a recompensa nunca me interessaram. Quem me olhava de fora via silêncios e quem convivia de perto conhecia a profusão do meu barulho.
Era estranho me saber estranho e carregar um orgulho tosco em ser estranho. Sim, os outros, não tão alheios quanto eu, rotulavam-me de estranho e creio que o que queriam fazer ao me adjetivar era, na realidade, desmotivar-me. Calado e discreto, eu sorria, inconformado ou contente, eu não podia negar aquele lampejo de alegria que me fazia acreditar que eu era diferente.
Eu me lembro que disse uma vez que não tinha interesse em ser como os outros e me disseram que me faltava ambição. Seus sonhos são muito poucos e você se alimenta constantemente de uma ilusão. Mora na ilusão. As palavras áridas que recebi me feriram, mas não foram o fim do meu caminho. Aprenderia que confiar no meu coração era o melhor jeito para nunca me sentir sozinho.
A solidão, confesso-lhes, não me assustava, por ter essa mania intrépida de querer me conhecer internamente. Se a Terra orbitava ao redor do Sol e simultaneamente girava em torno de si mesma, quem é que me convenceria que eu não poderia construir o mundo que urgia dentro de mim?
Assim, criei-me como ficcionista, por ser amante da realidade e simultaneamente avesso a ela. Era excelente em mentir, embora fosse o mais verdadeiro. Raramente era até o lobo na pele do cordeiro. Condenado por ser inconstante, satisfeito por me sentir inteiro. Como é que sou humano e me sinto tão estrangeiro?
Tenho sido espontâneo a minha vida inteira, até por isso ninguém me enxerga como sou, por ter eu mesmo ostentado meus tantos fracassos. Tenho narrado epopeias de amor e sucumbido para o meu cansaço. Às vezes esse tanto de dor, faz-me querer fugir para o meu próprio Tempo-Espaço.
Eu me lembro que disse uma vez que queria ser como os anjos e hoje não tenho mais certeza que os anjos existem.
Sonho ou Vertigem.
Estranhamente vertiginoso
arqueei minhas sobrancelhas
Havia bebido muito vinho
Escutei sons e silêncios
Meu cão roncava alto
Eu respirava baixo
Os domingos
não possuem
Meio-termo
Não se negociam
São bons ou horríveis
Nunca medianos
Nunca
Memórias
vaguem pela sala
Os olhos perseguem vultos
A boca agora cala
Para apreciar
a presença dos fantasmas
é preciso manter a calma
Estranhamente satisfeito
Sentei no sofá sem acender a luz
Iluminar o ambiente
é uma ofensa
Quem vê bem
enxerga no escuro
Quem tem o coração grande
geralmente é mais duro
Olhos acesos e indiscretos
Nunca liguei a televisão e vi
Vi a alegria matreira dos espectros
Enquanto brincavam entre si
Eu permanecia imóvel
como um objeto
O crucifixo jaz
no centro da sala
Sinto uma vontade súbita
de arrumar a mala
Quanto desperdício
Queria ser
reciclável
Sou um
Apenas um
Humano
Descartável
Estranhamente alegre
subitamente me entristeci
Agora vou contar algo
que um dia aprendi
Toda bebida alcoólica foi feita
para nos fazer esquecer
Exceção feita para o vinho
Ele pode nos fazer relembrar
de tudo o que houve no caminho
Estranhamente soporífero
Insisto em permanecer
Acordado
Isto não é um poema
São sentimentos que deram
Errado
Ouço sem orelhas
Falo sem boca
Vejo sem olhos
Tudo vai se
perdendo
Encontro-me
Há pirâmides em mim
Egípcio
Cigano
Encontro-me
Regra
Exceção
Alto
Baixo
Perto
Longe
Sonho
Sonho fundo
Sonho real
Tudo é sonho
Tudo é realizável,
mas realizar é perder
Onde está a
ambição?
Mentira
Verdade
Reflexo
Verdade
Mentira
Nexo
Sexo
Cidade
Eu queria dizer
que não queria dizer
mais nada
A vida é
somente a estrada
Se o carro estragar
Você se fodeu
Olha por um momento
Olha para um momento
Olha para dentro
Faz em cima de si
novo significado
A fome
O milagre
Escuta o canto das sereias
Não entrega o teu coração
Contraria os grandes discursos
Ousa ser indivíduo
Exceção
Ouço o tique-taque
O tempo é um conceito
transformado em realidade prática
É como transmitir a mensagem
ignorando a gramática
Se tu me escuta,
Sou feliz por ter te atingido
Se tu ainda sofre
é por estar vivo
Não seja frívolo
Criança fútil e pedante
Entenda a diferença entre
destempero, desespero e esperança
Tu é só mais um amante
De ti já não espero nada
Se faz pouco a pouco
uma enorme piada
Esqueço-te
Focalizo outra coisa
Hipnotizo-me
Penso nos deuses gregos
Devaneio com santuários persas
Sento no trono e repouso o queixo
no meu punho destro
Contenho multidões
dentro de mim
Quando o relógio marcar
Zero horas
Estarei sem tempo
para sempre
Centauros galopam
por campos verdejantes
Metade cavalo
Metade homem
Que sorte
não ser homem
por inteiro
O que é folclore
é mais verdadeiro
Onde me vejo?
O espelho me revela
Não sou Dorian
Tampouco vampiro
Que pecado
imperdoável
cometerei?
Fui obtuso
Inconcluso
Livro aberto
Páginas ao vento
Sorriso branco
Editoriais
Marketing
Tudo o que nunca
poderei ter
Tudo o que sempre
quase existirá
Quase é pouco,
mas é o que tenho
Rejeito o túmulo
Tornar-me-ei fantasma
Puxarei teu pé na noite
Brincaremos
Olha, que quando eu for
Nada
Talvez sinta falta
de ser alguma coisa
que ainda não sei
Sei que é rápida
A vida
E ainda assim
preciso fazer a barba
duas vezes por semana
Sei que a gente
destrói o que ama
Procuro o teu
Rosto
Procuro a minha
Face
Que nome tinha
antes de ter sido
Inventado?
Confia no teu
coração
Lembra que
todo o resto
é imaginação
Caí e me levantei
repleto de fuligem
Tive uma epifania
Desvendei a vida
Mas já não sei se foi
Sonho ou Vertigem.
Escute-me quando eu tiver partido e se lembre daquele rabisco no centro da mesa de madeira ou do último segredo que não te confessei no penúltimo natal, ria quando eu falar da camisa verde que entorta o varal, como se tudo fosse sonho ou devaneio, invenção minha, claro, eu era um grande inventor ou, pelo menos costumava ser e fale daquele um gigante que gostava de esportes mais violentos, sim, o contato é bom para a sobrevivência, tenha paciência, olha, não é conversa mole ou papo jogado fora, é estranho, não basta plantar e regar, você precisa entender um pouco sobre as estações, bem, são tempos propícios para os sonhos, julho vai se encerrando, muitos morreram, muitos ainda estão vivos e isso não significa absolutamente nada, o quintal precisa de reformas, eu preciso de dinheiro e, na verdade, preciso parar de ser a babá de todo mundo, foda-se, eu queria gritar algo e descer a avenida completamente nu sem sentir vergonha do meu nudismo, bem, que fizeram com os nossos corpos não é nada comparado ao que tentam fazer com as nossas almas, é importante entender e crer nos fantasmas, mesmo para os ascetas e teístas, digo-lhes, fantasmas existem, ainda que não queira estremecer vocês sobre suas crenças ou descrenças em Deus, olha para dentro, tudo é sonho e milagre ou tudo é pesadelo, se fomos feitos para sorrir, por que tanto sofrimento pelo caminho? A poesia salva o sonhador e o sonhador salva o mundo, mas o mundo não liga para o poeta ou para a poesia, assim, faz-se difícil cumprir a missão de cumprir a missão, alimentar o propósito fadado ao fracasso e alimentar a vida fadada a terminar em morte. Que preciso além de energia e sorte? Tomara que você não seja um obtuso estúpido propenso a jogar tudo no lixo. Eu parei de contar as estrelas no céu, pois desacredito no milagre das cadentes e ainda sonho em confiar nessa gente indecente, olha, que é que faço de mim se não me sei? Preciso confiar no que um dia sonhei. O Sonho e a Alma sobrevivem após a morte.
A Renúncia de personalidade.
Ter a personalidade e não abrir mão dela é exigir-se em demasia? Se porventura me forçarem a acreditar que realmente devo abrir mão de mim, ainda que eu esteja cônscio que todo disfarce é inútil, o que restará meu em mim?
Penso no escuro, onde nada vejo, longe dos santos e criminosos, longe do que me ensina a experiência, apenas para que eu possa ver claramente além das situações complicadas. Há vezes que me odeio pela insistência, entretanto, aprendi que a razão superior não deve se sobrepor à razão inferior, assim, insisto no que é preciso, afinal, fazer-nos a nós mesmos é a tarefa, não?
A noção de pertencimento é, em regra, perturbadora, principalmente para quem nunca pertenceu. Há pessoas que comumente elegem ídolos, elevam pessoas até patamares divinos, mesmo que a atenção recebida seja só uma consequência de outra atenção não recebida. Quando dois solitários se unem, abraçam-se e sonham longe com o fim do pesadelo de existir sozinho, entretanto, utilizar-se de outrem para findar a solidão, quando não se tem mais ninguém para contar, é mesmo assim tão valoroso? Calar a personalidade não traduz o emudecimento da alma? Só me arrependi de não ter sido mais eu antes. Se renunciamos o que somos, o que resta de nós? Se abdico de ser quem sou, o que, enfim, torno-me?
Diminuir-me para que os outros se sintam grandes é inadequado. Apagar a minha luz não fará com que os outros brilhem mais. É importante reconhecer quando erro para que possa me desculpar, mas é raso se desculpar em todos os momentos apenas para evitar o conflito. O orgulho é importante quando não é venenoso. Os perdões são gestos imensos, quando sinceros. Quem não sabe perdoar só aprendeu coisas pequenas.
Há centenas de desculpas frágeis e perdões falsos. O tom de voz muda, a necessidade da presença, os pretextos, entretanto, tudo é límpido, absolutamente claro para quem está habituado a ver o mundo. Não posso me sujeitar a isso. Cumpro meus deveres de amigo, ainda que talvez só reconheçam o valor da minha amizade décadas depois. A covardia não me veste e digo o que tenho que dizer, mesmo que erre na forma. A grande ironia de ser verdadeiro é ser execrado por quem não me iguala em verdades. Fui sincero, de todo o coração e há um número notável de pessoas que nunca se recuperaram das injustiças que cometeram comigo.
Pulamos etapas, metaforicamente, quando aumentamos o salário, quando saltamos de estágios na vida, iludindo-nos com a sensação de que somos mais do que somos e de que furamos a ordem cronológica de existência. No fundo continuamos realmente jovens, minuciosos e delicados. Lá para dentro, devagar e longe, a maioria carrega um vasto leque de puerilidades. A maioria não move um dedo para resolver uma desavença ou um conflito, porém esbravejam sobre como tudo é incerto e errado. Apontam os dedos julgando as inconsistências alheias, ignorando todas as próprias. Não, meu caríssimo Jean, nós não nos alcançamos nunca. Eu nunca fui culpado pelos problemas que você tinha aí dentro e nunca teve a coragem de externar.
A ilusão da evolução pelo avanço dessas ditas etapas é notório e muitos se perdem. É como se tivessem desvendado uma espécie de fórmula de desvendar a vida, eu sei, ingenuidade, mas e daí? Mera mudança não é crescimento. Uma mudança real, dura, verdadeira, exige continuidade e aprendi que sem continuidade não há crescimento. Perdoei todos os que me foderam e sinto que concluí a tarefa mais difícil de aprender a me perdoar pelos meus erros. Nunca caminhei longe da humildade e entoei em voz alta tudo o que um dia me feriu. Nunca carreguei mágoas e a ironia é que alguns nunca se recuperaram das injustiças que cometeram comigo.
Por vezes penso que nasci do avesso, cresci ao contrário e me guiei por incertos instintos cósmicos. Era velho na infância e me sinto rejuvenescer com o decorrer dos tantos anos perdidos. Seria eu uma criatura interplanetária perdida na Terra? Foi em uma manhã de março que vim ao mundo para lidar, dia após dia, com despedidas. Nunca me esqueço de que um dia partirei também. A maioria sobrevive hostil, vil, sem memórias ou lembranças. Queria antever o dia da morte para sorrir em uma última dança.
Tudo em mim é muito por pouco tempo, mas me percebo expandir de maneira extravagante, ilimitada, lépida. Quase tudo me interessa, ainda que seja apenas por alguns dias ou meses e noto que a prolixidade dos meus sentidos contradiz minhas atitudes sucintas. Fito o rosto que tinha antes da criação do Universo e sinto urgência de alimentar a minha alma. Posso desapontar desconhecidos, porém avanço passo-a-passo em direção a mim, encontrando o que sou e significo.
Tenho sentido uma evolução, estou mais saudável, mais imperfeito, mais humano. Não posso aceitar tudo e não vou. Não posso concordar com tudo e não vou. Existo para as pessoas que amo, porém, é preciso me recordar de que eu sou uma delas, sim, amo-me primeiro como se o amor pudesse garantir a minha sobrevivência. Amo-me primeiro e não me ajoelho, pois o amor é a minha essência.
Bem, Gunnever, Aurum B, September, todos os filhos de fantasias e ficções, sim, vocês que traduzem o meu coração nobre, bom, eu talvez insista em vocês tanto quanto tenho insistido em mim. Se sou humano o suficiente para conhecer meus limites e humilde o suficiente para me arrepender e me desculpar, se sou objetivo e resolvo meus conflitos, ainda que não resolvam comigo, o que carrego para me arrepender? Nada! Não, daqui em diante vou, outra vez sem arrependimentos.
Ter a personalidade e não abrir mão dela é exigir-se em demasia? Se porventura me forçarem a acreditar que realmente devo abrir mão de mim, ainda que eu esteja cônscio que todo disfarce é inútil, o que restará meu em mim?
Estou lúcido e consciente, não posso me destratar, não posso estender tapetes. Sei que não basta ser amigável. É preciso ser amigo. Sei que não basta ouvir. É preciso falar. Há silêncios que envenenam e segredos demasiadamente grandes sufocam. Não estou mais paralisado por meus medos. Outra vez me flagro a disparar verdades pelas pontas dos dedos.
Mudo devagar e de forma contínua por compreender que a repetição reforça a missão. Ando distraído, porém não me perco entre as estrelas, mas amo os planetas e a lua; não me desoriento buscando dentro dos aviões o meu propósito de vida. Morro de pena de quem nunca conheceu o seu lugar. Cada dia é uma cena eterna para quem não sabe perdoar. A vida em si é meu propósito e me sinto grato por notar. Sobre a vida e a morte, a saúde, a sorte, eu não tenho respostas, mas estaco e respiro enquanto admiro essa velha cidade.
Renuncio o Universo, mas não abro mão da minha personalidade.
Qualquer dia desses.
Qualquer dia desses, eu parto e não volto. Quem sabe, antes de ir, eu avise minha mãe do meu paradeiro, apenas para que ela se tranquilize. Não há mãe que mereça perder o sono pelas aventuras de um filho, entretanto, todas as mães do mundo entram na estatística da insônia e se tornam vítimas da indústria farmacêutica.
Todos falam o tempo inteiro e, exigem-me coisas, atitudes, posicionamentos e eu, tão feito de pausas quanto de silêncios, enervo-me perante ao esdrúxulo espetáculo da dramatização do tédio alheio. Por ter pacificado a minha relação com o nada, por ter me tornado um mestre dos espaços vazios, não tumultuo meu próprio silêncio com barulho. A minha mente, que costumava ser uma tela constantemente colorida, hoje em dia surge, vez ou outra, como uma tela em branco. Aprecio o interlúdio e respiro.
Todos falam tanto e raramente escutam o mínimo. Eu já nem lembro quais foram minhas últimas demandas atendidas. Quantos pedidos meus foram colocados na fila de espera? A realidade é que muito se exige e pouco se entrega.
Estou exausto de fazer solicitações e concessões. Esqueceram o meu aniversário e como tudo sucede ao contrário, eu fui alvejado de reclamações. Ainda eu, vítima da vituperação alheia, recebo a recomendação de ficar calado. Insisto tanto em ser leve que todos supõem que eu não sei “pegar pesado”. Afaste-se, acaso pretenda me ferir, deixe-me, se quer provar o sabor do meu sangue. Use a prerrogativa da honestidade direta e indiscreta, mas não me ataque com oportunismos que visam minha derrota e vexame.
Se odeia alguém, não seja simpático. Se possui algo contra, seja enfático. Se são bons os seus motivos, aplique-os e seja prático. Essa praticidade que tanto me exigem, ninguém nunca me deu.
Até quando eu deveria pedir licença por existir? Até quando será que me vão me exigir retratações frágeis seguidas por deificações de falsos ídolos? Eles não são o planeta inteiro. Eles são a única coisa que você possui. Estou farto dessa arrogância constante, destes sorrisos plásticos, dessa constante atuação. Vá ou não vá. Estreite ou rompa o laço. Faça ou não faça, mas se porventura alimentar o rancor, recuse beijos e abraços.
Se me exigem tanto, comecem por vocês mesmos. Quero ser apenas unidade, eu sou apenas um. Quantas vezes terei que repetir para que me ouçam? Não escravizo ninguém segundo minhas vontades e estou cansado de viver pelos outros. Todo o muito que entrego, em réplica, sempre soa pouco. O que ofereço nunca é o bastante? Saiba que é tudo o que tinha neste instante.
Sina desesperadora de existir é ter que liderar. Todo mundo quer que eu os faça sorrir, mas ocultamente se aprazem de me ver falhar. Não sou eu também humano, feito de falhas, derrotas e medos? Se estou no meu tempo, por que alguém sempre diz que cheguei tarde ou cedo? Aceitem a minha ausência de pontualidade. Eu falto em muitas coisas, porém, eu sobro também. Sou um especialista em ser quem sou e essa teimosia de amor ainda vai me levar além.
Só por hoje imploro para que cesse esse drama, oro, mesmo sem crer, para que me sobre um vislumbre de felicidade, um pedaço onírico de sonho para sonhar, uma realidade que me seja menos pungente, uma ou outra pessoa que me escute e que tente, realmente tente me entender…
Estou preso a não sei o quê, mas qualquer dia desses me solto. Se eu me cansar de vocês, eu parto e nunca mais volto. Se isso acontecer, neste ínterim final, lembrem-se, enfim, que eu era humano. Acostumados a heroísmos e obrigações que não deveriam me pertencer, recordem-se de que eu era apenas mais uma gota neste imenso oceano.
Cuidado com o que constroem em suas cabeças vãs. Se vocês desconhecem até os seus parceiros, que é que vocês sabem dos outros? Essa mentalidade de clã transborda uma hostilidade lúcida somente aos loucos. Preciso sobreviver, ainda que não saiba mais os meus motivos. Preciso permanecer… é a única chance de encontrar os tantos sonhos e anos perdidos.
Estou me desapegando para não me apagar. Estou me acendendo para que possa continuar. Estou sendo, cada vez mais, eu mesmo.
Como todos me exigem e nada me entregam, eu aprendi que as verdadeiras ânsias da alma são individualistas e cegas. Este altruísmo de boteco não vai me levar a nenhum lugar. Se essa é a minha maior verdade, por que não consigo mudar?
Desligue suas obsessões. Desapegue-se das suas expectativas. Vocês todos acham muitas coisas e eu…
Eu sou apenas o que sou, longe dos achismos e opiniões. Repleto de puerilidade, eu me habituei a ser franco e não fazer comparações. Eu sou apenas o que sou e firo por ser, coisa que é realmente rara. Às vezes me constranjo, mas estampo minhas verdades na cara. Se a mim permaneço um mistério, insondável, profundo, complexo, como vocês ousam tentar me antever? A única realidade lógica é que vou cair e perder.
Esqueçam o que supuseram de mim. Nunca mais me idealizem. Vocês todos acham muitas coisas e eu sou diferente. Vocês todos acham muita coisas e eu apenas…
Sou.
Saiba ser sozinho e adote um animal.
Eu me peguei refletindo sobre a persistência, sobre uma vontade insistente de agir e ser diferente, de não sucumbir diante das mazelas mundanas e concluí que não sabia se tinha esse tipo de força. Você sabe reconhecer suas fraquezas? Li ainda hoje na internet alguém dizer que sofreu centenas de traições e me imaginei assim tão traído. Acho que, se fosse o meu caso, eu me fecharia para todos e escolheria a solidão absoluta, em ordem de me manter seguro, sem me tornar ríspido, sem correr o risco de descontar as minhas frustrações nos outros. Nunca fui traído nos romances que tive e tampouco traí, assim, localizo-me distante deste local de fala, ainda assim, penso-me traído e nas traições que nunca foram e essa ira muda que sinto brevemente me leva para longe.
Os corações sensíveis assim o são, viciados na melancolia, acostumados com a voracidade alheia que contrasta com a paciência serena. Pessoas assim, tão furiosamente delicadas, não raramente são testadas, como se o ato único da vida, esse viver cotidiano, zombasse incessantemente da nossa fibra e nos guiasse para um hedonismo como solução geral. Se me permito a acreditar que devo viver a vida somente pelos prazeres, ignorando todo o resto, eu estou fatalmente perdido. Custam a aceitar, mas há muito mais envolvido. Quando criança e adolescente presenciei muitas traições, umas tantas ocorriam no ambiente familiar, envolvendo o que acontecia na minha própria casa ou nas casas dos meus amigos. Não tanto depois vi esses mesmos amigos copiando o comportamento de seus pais e dando sequência a um ciclo potencialmente infinito. Furioso e frágil, eu bravejava que escreveria minha história diferente. Não falhei, pelo menos não ainda e admito que por vezes não sei de onde tirei forças para ser exatamente quem eu sou. Não subestime a capacidade de ser autêntico. Ser exige esforço e persistência, pois é preciso ser continuamente. Ser é, sobretudo, navegar contra a maré e ter a consciência de si. Aos dezessete, certa feita, minha mãe me olhou e disse que eu estava me tornando um homem incrível e lindo. Aquelas palavras, poucas, retas e sinceras, foram suficientes e me serviram como combustível para que continuasse no caminho para ser alguém de quem eu sempre me orgulhasse, mas e se as pessoas que mais amo de repente me traíssem? E se o punhal ensanguentado removido de mim pudesse ter sido a arma de alguém que adoro? O que seria do Daniel nos dias de hoje?
Para ser honesto, eu não sei o que me seria e nem a minha argúcia intelectual pode de verdade prever uma realidade alternativa. Só o que foi realmente foi e todas as outras possibilidades morreram. A dualidade é incômoda e estranha. Fui e sou correto, sem exigir da vida recompensas, porém nunca esperei que houvesse tanta punição. Sim, se você for como eu, um maldito certinho, muitas vezes se sentiu mal por estar fazendo o bem, pois parece que agir direito é digno de castigo. Acho que é por essas e outras que tanto acabam cedendo aos tantos perigos ou sedentos pelos perigos. Eu até brincaria com fogo, entretanto, jamais incendiaria a casa. Sou o último acordado antes dos outros dormirem por sentir o dever de zelar pelos que convivem comigo. Tudo é vago e longe. Acreditava no Amor romântico e eterno e nas Amizades românticas e eternas, até que me dissuadiram destas crenças. Necessitei de quase três anos para, enfim, recuperá-las, mas não foi nada fácil. A vida nos testa ao contrário.
Um dos grandes amigos que tive, uma vez, veio se gabar de uma mulher com quem havia transado. Eu o confrontei, sem dar bola para o assunto e o indaguei sobre o motivo de ter feito algo assim sendo que namorava com outra. O resultado desta satisfação foi catastrófico. Fui eu acusado de ser traíra, afastado do meu grupo de amigos e colocado em isolamento, apenas por não ser conivente com algo que nunca poderia tolerar. Passei anos com pouquíssimos amigos por ter a coragem do embate e meu prêmio foi a retaliação. A pior parte é que eu sentia falta desse meu amigo, ainda que não reconhecesse nele valor moral. Quem nunca deu um “foda-se” para a moral? Como dizia Victor Hugo, “que sejam maus e inconsequentes, mas corajosos e fiéis“. Ele era inconsequente e custo a utilizar a palavra “mau”, porém era covarde e não havia fidelidade dele aos amigos ou aos amores. Sofri pelo afastamento, sim, mais do que eu gostaria de admitir. Tantas horas compartilhadas e eu havia perdido o meu amigo para os meus próprios valores. É muito nesta vida questionar a veracidade de outros amores? Sim e não, entretanto, se alguém que amo passa dos limites, não estou obrigado de forma tácita a me posicionar? Se me silencio diante do errado, vejo-me conivente e aprendi há anos que há silêncios que envenenam. Quando quase havia me convencido de que ser duro, mesmo com as coisas certas, sempre nos afastava das pessoas, a vida finalmente me deu amigos novos, amigos significativamente melhores. Com esses novos eu poderia ser sincero sem correr o risco de que facilmente se ofendessem. Quem exige não se importa em ser exigido e com os meus novos amigos eu poderia esperar um caráter férreo em retribuição. Com essas novas pessoas que apareceram os conselhos eram verdadeiros e entravam direto no coração.
Antes disso, entretanto, aprendi a acreditar na solidão. Se há solidões maléficas, depressivas e sufocantes, há solidões largas, espaçosas, onde se encaixam todos os mundos com seus respectivos países, cidades e praças. Aprendi a acreditar no trabalho, embora não tenha me sentido mais digno. Eu, sempre sensível em escutar os outros, aprendi a escutar os meus silêncios e a amar os meus barulhos. Sem o grande afastamento, eu jamais teria amadurecido tanto. Fazia as coisas da maneira correta por instinto e me esticava para a compreensão alheia por ser empático, entretanto, só após ficar completamente solitário é que me entendi e se entender representa um passo importante para tentar entender a sociedade que me cerca. Não posso me considerar exceção de coisa alguma, se sou tão humano quanto os outros, mas quanto mais você vive e vê, mais chances surgem de encontrar pessoas que valham mais que o ouro. Aguardo o fim do expediente pensando nessas pessoas, outrora tão distantes ao ponto de serem inexistentes em imaginação, hoje tão próximas que posso as encontrar em algumas horas. Toda essa noção é estrangeira e confusa e sofro, porém, imagino-me feliz em breve ao chegar no meu próximo destino e, enfim, encontrar-me com pessoas que me tornam mais alegre e me tornam ainda mais efusivo, apenas por existir. Abraço-os ou aperto suas mãos e os nossos sorrisos são luminescentes. Sim, eu os amo e sou amado de volta. Ouvi muitas vezes sobre o quanto sou importante como amigo, filho, namorado e isso nunca fica enjoativo. Respiro essas tantas palavras e me sinto bem. As palavras e os gestos são, em regra, o único conforto.
A solidão de Dourados ensinou a mim tudo. A fábrica de tratores, os céus laranjas ou rosados, a poeira vermelha, o coelho branco perto do supermercado, a BR-163, a jornada de trabalho, tudo isso se consolidou em mim como uma amálgama de coisas inúteis dotadas de uma importância celestial. Numa tarde, naquele posto de rodovia, a abelha gigante que sobrevoava o meu energético venceu. Não sei se faria tão bem para seu corpo diminuto o energético e imaginei que o coração fosse uma coisa insignificante, mas a abelha bebeu e depois disparou rumo ao desconhecido, mostrando-me sua coragem selvagem, provando meu erro. Aquele coração suportava mais do que eu supunha. Eu nada entendia de abelhas. O Nada ensina muito sobre o Tudo. Só o silêncio que traz sentido aos barulhos. E então eu absorvia da vida a própria vida e me preparava para algo que não sabia. Acumulei decepções e fui o príncipe de horas sombrias e me vi esquecido e distante. Nas sextas e sábados e domingos eu trabalhava. Todo o resto fumava, bebia e fodia. Eu era o único esquecido pela humanidade e longe do que me fazia humano, eu me reinventava do zero, como se tivesse acabado de nascer ali. Busquei não me ressentir com os outros, pois eventualmente seriam eles isolados e eu me divertindo. Quem nunca pôde viver um período de isolamento não tem sequer um parâmetro mínimo, básico, para o autoconhecimento. A solidão nos ensina a buscar nós mesmos, conhecer essas pequenas e preciosas coisas que revelam nosso propósito de vida. Fui talhado por essas noites infinitas e vivi o sábado sem fim. Só por ser só é que ainda tenho todos os sonhos do mundo em mim. Por vezes, ainda que quatro anos tenham se passado, eu fecho os olhos e me enxergo preso naquele sábado dolorido.
Olhos fechados. Imersão. É sábado novamente, 2018. O que eu posso fazer além de ficar recluso? Ir na pizzaria? Entrar em uma festa como penetra? Não, eu não conheço ninguém nessa cidade. Sou muito afável e polido para as zonas; muito direto para o romance, muito tímido para fazer amizades e estou cansado de ser engando por mulheres nos aplicativos. Só eu sou quem sou e mais ninguém é quem deveria ser. Tantos questionamentos sem respostas e um bafo de morte me seduz dizendo que tudo se iguala e que um dia virarei pó. Eu, resignado com a solidão, devo aproveitar então a condição de ser só? Como se aproveitar se a solidão é assustadora? Tenho medo de mim ou do que não conheço ainda? Eu preciso acordar. Eu preciso me acordar. Alguém me sacuda agora. Eu quero muito sair daqui. Tanto faz Campo Grande ou Paris. Eu quero qualquer cidade que não seja essa e qualquer dia que não seja sábado. Alguém me acorda longe. Emersão. Olhos fechados.
Quatro anos depois e me vejo lá naquele passado sem ter a menor noção de mim. O sábado infinito vive a uma janela do presente. Eu vivia em automatismos, quase robô de mim mesmo, com ações previsíveis e espelhadas. Nessa época, havia uma moça do supermercado que sorria para mim e só um ou dois anos depois percebi. Um jovem vagaroso, descuidado e inocente. Ela queria ser convidada para sair, porque aquele sorriso era exclusivo, íntimo e intransferível. Eu, ingênuo de tudo, confundia com uma simpatia natural, mas só em uma epifania notei que ela nunca sorria para os outros. Tudo o que não soube naquelas tardes, eu aprendi depois. Assim vai a vida. Acontece o tempo inteiro, mesmo quando não percebemos. Por vezes até supomos perceber e a ignoramos. Tudo é real, às vezes, até algumas mentiras e é preciso tomar cuidado com o que ensombra e é, na realidade, armadilha. Não é toda sombra de árvore que oferece descanso. Respiro e fecho os olhos. A fúria cessa e me sinto manso.
Se é na ausência que se percebe as tantas nuances da falta de alguém, pergunto-lhes, como é tão comum que nos relacionamentos distantes ocorram tantas traições? Como alguém, ao perceber extenuada a falta de outrem, preenche-se de coragem e consegue trair alguém? Vileza cruel e sombria! É por isso que me criei contra os relacionamentos ao longe, por ver neles a maior possibilidade de imaginação e amor, até se provarem mais venenosos do que a maioria. Cumprem a falta de um em qualquer outro e essa astúcia estética me soa perniciosa. Odeio os relacionamentos ao longe por deduzir que se encerrarão em dor e sofrimento. Se o amor precisa tanto de presença, crer na distância faz a diferença? Estamos apostando no desconhecido a nossa fé cega ou isso é outra coisa? Não entendo agora, portanto, não me meto. É mentira que cada um sabe o que faz, mas é verdade que geralmente não devemos meter o dedo. O que fazer para os esforços se revelarem válidos? Como conseguir a astúcia de tentar de novo após acumular tantos revezes? Como se regozijar com a memória de tantos fracassos? Respiro e medito. Há partes que entendo e repenso. Há partes que ainda não entendo e faço as pazes com o desconhecimento. Quem sabe daqui uma década eu seja sábio o bastante? Vou perder para a vida, mas pretendo existir longe.
Aprendi que a minha linguagem do amor é o tempo de qualidade, assim, esforço-me ao máximo para estar presente e ser uma boa companhia na vida das pessoas que me cercam. Todo o restante perde o encanto quando estão longe de mim ou quando, por algum motivo, estão presentes e simultaneamente distantes. A presença física, quando não acompanhada de sintonia emocional, pode ser nula. Não posso me acostumar a ser ignorado, principalmente quando, vez ou outra, sinto a latente necessidade de ser visto. Que fazer de mim quando quem me ama se esquece que eu existo? Respiro e medito. Persisto? Penso a vida inteira e encontro paz, mesmo que não encontre respostas. Cogito a condição de solidão para afiar meus pensamentos e afinar meus conhecimentos. Será que sozinho entenderia parte dessas tantas coisas que me escapam? Por vezes desejo ficar sozinho e me parece que o mundo se ofende, como se eu não tivesse direito de me pertencer. Sou mais dos outros do que meu? Sou overthinker por natureza e se não tento compreender, os pensamentos me matam (ou tentam). Tenho a impressão de que vim falar de sensibilidade e de que acabei por narrar tudo sobre a solidão, mas lhes pergunto: não seria a sensibilidade uma característica marcante de quem aprendeu a conhecer a solidão? Quem nunca se conhece corre o risco de viver fugindo de si mesmo, porém nossos pensamentos são mais rápidos que nós e nos alcançam. O que fazer para não viver eternamente sem esperanças?
“Conhece-te a ti mesmo”, disse Sócrates. “Se só me faltassem os outros, vá; um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo”, como neste relato agudo de Machado de Assis em Dom Casmurro. Aprendemo-nos sozinhos? Interlúdio e respiração ofegante e difícil. O peso ou a leveza? Não sei ainda. Meço meus desejos e posteriormente meus sonhos. Como li anteontem, “nossos sonhos merecem nossa disciplina”. Como tantas vezes falho até nas próximas rimas? Os meus romances aguardam mais palavras e mais coragem. A vida pungente quer me mostrar algo. O que estou deixando escapar? Não tenho convivido o bastante comigo mesmo. Estou sempre claudicante, exausto e queria me deitar em uma banheira de gelo, para restaurar meu corpo. Poderia o gelo restaurar também a minha mente? Qualquer detalhe faria a minha vida diferente. Que sejamos ocultos a quem é alheio e que toda a honestidade do mundo fira os outros, entretanto, quando se olhar no espelho nas manhãs, você deve dizer a si mesmo o que deseja, sem se avexar ou enrubescer. A vida exige que saibamos o que queremos querer.
Bem, sinto que cheguei ao fim destes relatos e sustento um orgulho tosco, quase vil, em apreciar o meu tempo sozinho. Tenho a impressão insistente de que quem não sabe ser só, simplesmente não se tolera e eu, mais do que me tolerar, aprendi desde cedo a me amar. Quem é que passeia no shopping e não repara nas famílias com filhos pequenos? Quem corre nos parques e não para numa apreciação lenta dos animais? Quem nunca se admirou com o sopro súbito do vento que faz as folhas dançarem? Quem nunca deitou no chão gelado de pedra e contemplou as tantas estrelas no teto do céu? Os meus gatos e o meu cão me ensinam todos os dias sobre a importância das coisas frágeis. Que mais me resta dizer?
Saiba ser sozinho, eu imploro, assim, você nunca correrá o risco de se perder das coisas que são realmente importantes na sua vida. E se não tiver animais de estimação, eu recomendo fortemente que arranje um. Em princípio, você sentirá que precisará cuidar deles, mas a realidade que se prova é avessa. Nossos bichos cuidam mais de nós e nos ensinam em menos tempo muito mais sobre a delicadeza, o carinho e o amor, portanto, enfim, altero a minha sentença final. Retifico-a e digo:
– Saiba ser sozinho e adote um animal!
Meu coração não é meu.
Meu coração não é meu,
embora me pertença desde que nasci
Quando estreei no mundo
já tinha uma identidade estética
O meu rosto aprendi a conhecer porque
crescemos todos cercados por espelhos e reflexos,
Entretanto, busco ainda a face original da alma que tenho
Só quem se desvê realmente se conhece um pouco
É preciso mergulhar fundo para deixar de ser oco
Sou um inútil e me chamam de idiota por acreditar
Eles não sabem que todos somos idiotas, acreditando ou não
Suspiro, deito na pedra e fito o céu sem usar fitas
Analiso a forma de uma nuvem branca
Ela dança e se divide até se dissipar
Existe nuvem que quer chover
como se quisesse chorar
Existe nuvem que vai desaparecer
depois de tanto dançar
Os físicos explicarão o fenômeno segundo suas Leis
Só que não há muitos fisicistas que bailem
Fecho os olhos e enxergo novas coisas
Tudo o que saiu da minha cabeça é meu
Amo os espaços vazios e sou incompreendido
Quando me observavam, ainda criança,
vagando e divagando pelo quintal
sempre se perguntavam: – Que será que está fazendo?
Eu apenas fazia, entendendo-me menos ainda
O que acontece dentro do peito é estreito
Confesso que nunca me soube tão bem
Queria ser convicto de tudo, entretanto, emudeço
Será que os desajustados vão além?
Sou uma espécie de confusão acumulada
prestes a irromper em uma certeza
Se soubesse qual parafuso me falta
eu mesmo me martelava até me consertar
Só que sinto que sei quando algo está com defeito
Reconheço tudo que está quebrado
Eu só estou do meu jeito
E tudo o que não surgiu
da minha mente é estrangeiro,
mas não necessariamente mentira
A única verdade que creio é que o mundo gira
Meu coração não é meu,
embora me pertença desde que nasci
Sou eu tudo o que vi
Sou eu tudo o que vivi
Sou eu ainda tudo o que não sei
Sou eu, enfim,
tudo o que nunca saberei
Este coração que não é meu desaparecerá
no dia que o meu corpo se decompor
Sou inútil a ponto de acreditar, que mesmo morto,
sobreviverão os meus versos de amor.
A CIDADE FEIA
Talvez por qualquer distração minha, eu nunca me cumpra. A culpa pode ser do TDAH, da memória, da inconstância, não importa. Não se realizar traz uma clareza sobrenatural sobre a vida. Nunca deixo de sentir que continuar é falhar, ainda assim, algo me impele, por reflexo ou também por distração, a seguir em frente. Quem dera os meus (nossos) mistérios fossem facilmente solucionáveis e a gente não precisasse aumentar o volume da cabeça para continuar processando a quantidade avassaladora de mudanças que ocorrem. Mudo de opiniões, porém me flagro em um esforço hercúleo para preservar minha essência. O que não contradiz o âmago, de um jeito ou de outro, resguarda-me. Há vezes, entretanto, que me pergunto a razão de me resguardar tanto, a razão de não me admitir desarrazoado e cometer loucuras, porque isso tudo flutua distraidamente na nossa cabeça e tudo se sucederá súbito e semelhante enquanto todos compartilharmos o mesmo fim. Despropósito pessoal e outra enxurrada de informações. Na vida a gente aceita migalhas de amor, mesmo sabendo que são migalhas. Queremos todas as lutas, mesmo quando é vazio o valor da batalha. Queremos desesperadamente vencer e sermos lembrados. Precisamos da ilusão de que seguiremos aqui, mesmo depois de mortos, ainda que em um vulto distante de lembrança, um detalhe passageiro na recordação de alguém. É difícil contemplar o reflexo no espelho e ver ninguém.
São Paulo é uma cidade ambivalente. A realidade crua choca e aterroriza. Pessoas deitadas e esquecidas, muitas delas dormindo, algumas outras pedindo insistentemente e ao mesmo tempo surgem artistas produzindo belas músicas e paisagens únicas e significações. Tudo está ali quase como se não estivesse. O Beco do Batman, agora Buraco de Minhoca, abriga secretamente aventura e prazer, mas me flagro andando solto, distraído e leio uma frase “você se orgulha de quem tanto tenta ser”. A frase me comove e na releitura percebo que esqueci a interrogação, mas tudo fica bem porque há perguntas que são certezas no meu coração. São Paulo é uma cidade feia e intrigante, eu digo com certeza que em quesito beleza não se compara com a minha Campo Grande. Que há nesta cidade antiga e suja que me atrai? Julgo ser a capacidade de tornar tudo indiferente. Existe uma obrigação tácita, algo nas entrelinhas, que te força a abrir mão da vaidade em um limite extremo. Há méis que são venenos. Será que eu abandonaria a minha sensibilidade tão constante acaso morasse em um lugar assim? A feiura não deve ser romantizada, entretanto, percebo-me deificando os especialistas na indiferença como se a abstração definisse quem sabe realmente viver a vida. Quem se aprofunda demais em tudo acaba afogado e foi assim, quase sem ar, vomitando água que parecia nunca terminar, que me desfiz da convicção de que se importar é sempre benéfico. Se olho para todos com a intenção de zelo, eu contenho meus impulsos que urgem por retribuição. Todo ato de amor deve ser genuíno, direto e sem intenções, mas posso eu controlar meu âmago, a minha sede de justiça? Vez ou outra me vituperaram por me assumir cru, incontível e incontido, escancarado. Quando zombam o meu sonho sacro de escrever livros, quando escarnecem dos contos ou crônicas, quando me provocam, eu retribuo com agressividade. Sinto que sou e sempre serei furiosamente delicado e essa indolência, essa indiferença paulistana é inatingível pra mim. Até mesmo os vendedores, que por antecipação supomos que agirão com delicadeza, destratam os clientes tranquilamente, como se a grosseria fosse motivo de celebração. Ah, São Paulo! Tão inigualável nas noites e tão ridícula nos modos! Ah, São Paulo! Tão triste, agitada e comovente… A cidade feia é repleta de magia. Chame do que quiser, mas aprendi que há algo de especial nesta feiura. Julgo que a personalidade da cidade é fria e dura.
Flagro-me pensativo sentado dentro do carro e observo o céu e as pichações. Muros, paredes, pontes, prédios, tudo alvo da arte de rua. Quem é que sobe tão alto para desenhar um símbolo que pouquíssimos saberão o significado? Não, claro, eu deveria saber melhor. Quem sobe alto sobe por conta própria e por si. É sobre fazer o que deve ser feito, ainda que os outros não entendam. Julgo que os grafiteiros e os pichadores e os artistas ajam todos por instinto, pois só o que é feito por instinto representa realmente arte autêntica. Sofrer é pensar, assim, para a criação de coisas frágeis é preciso se entregar de corpo e alma ao trabalho. Se mudará vidas ou não, isso não pode interessar, mas quando algo belo e legítimo cruzar a minha mente, que meus dedos desnudem minhas verdades e me narrem por inteiro. Talvez por qualquer distração minha, eu nunca me cumpra, mas isso não interessa. Quando não puderes mais permanecer neste mundo, erguerei a cabeça, recobrarei o ar e seguirei caminhando. A jornada não acaba enquanto eu puder continuar sonhando. Talvez eu nunca me cumpra e isso não faz diferença. Não há fatalidades e a liberdade é a minha única sentença.
Sem reticências
Encontra-me hoje sem reticências
Percebe-me como sou: inédito
Não dê muita esperança para tua crença
Deixe que falem os gestos e a presença
Aquele outro eu de ontem já não existe
Aquela outra você de ontem também não
Outro dia me palpitou ao peito um súbito desejo
Capricho desforme do meu grande coração?
Não, o coração não anseia por muito
Satisfaz-se com a função de bombear sangue
A alma urge por um passeio solitário
e a maioria dos otários só anda em gangue
Sacode o meu corpo com tua força brusca
Nenhuma amizade de verdade te ofusca
Cuidado com o que tanto busca
Há sempre o risco de encontrar
Por existir demasiado tarjaram minha testa
O dia que me matarem, chorarão e farão festa
Contarão minhas melhores memórias e os cultos
descrerão estupefatos diante da minha cronologia inútil
A classe artística não recebe o apoio que merece
O artista que sobressai esnoba quem nunca surgiu
Alimentam-se da farta fama que os envaidece
O desfile deslumbrante do ego macio
Não obstante, fingem que esquecem
Quem solitariamente os aplaudiu
O único jeito de se encarar é subutilizar os espelhos
Dizem-nos tantas coisas o tempo inteiro e nos convencem
Sim, eles nos persuadem de que não somos bons
Eles nos persuadem de que somos muito bons
E nesta descompactação pessoal passamos a crer
As verdades se misturam com as mentiras
O velho não é necessariamente sábio
Bobagem, isso é o suco da idiotice,
Veja como é possível que um estúpido como eu
tenha escrito novelas, histórias e contos de fadas
Persevera nessa vida quem marca o papel com a tinta
e persegue o desfecho até o rabo da palavra
A constância é a perfeição e somos imperfeitos
Fúteis, inúteis, imersos nessas reticências
Acordamos e predizemos o dia, a semana, o futuro,
A arrogância de antecipar o imprevisível
Vê, filho, pessoas nascem e morrem todos os dias
Ninguém dá a mínima para a porra da poesia
até perder o avô, até ser demitido, até o fundo do poço,
De repente uma rima distraída cessa seu período fosco
Extravaso minhas humanidades em uma delicadeza furiosa
E repudio a crença em um mundo indolente e passivo
Te humilham, te cospem, te pisam e quando você reage
AH! VOCÊ… VOCÊ FOI MUITO AGRESSIVO
Ó vida, sonora estúpida de motivação
Você se fode todos os dias e não há comoção
Os cristãos erram propositadamente e julgam
Os não cristãos seguem o exemplo e se Deus existir
deve certamente estar envergonhado de nós
Entretanto os réprobos trajados de santos
são os primeiros que apontam e dizem que você não presta
Foi por escolher ser eu entre tantos
que sigo com a porra do alvo na testa
Estereótipos que não me comportam
Previsões que não me completam
Ainda assim, escrevo tudo isso como um desabafo
Outros humanos com suas humanidades se achegarão e dirão
Daniel, obrigado, ei, obrigado, eu realmente entendo
E nessa confissão secreta de intimidade
Odeio um pouco menos essa cidade
Por mais que me vituperem o tempo inteiro
Por mais que antes dos olhos, olhem minha roupa e meu dinheiro
Ó, VIDA! ELO ESTÚPIDO FINDÁVEL
Estarei a afundar eternamente?
Rasgo o papel, doo dezesseis livros, recito dois poemas
Passo um café, lavo a louça, como qualquer porcaria,
O sapo cangaceiro me cobra sobre as publicações
Não posso reclamar da simplicidade dos anfíbios
Eu o posicionei ao lado e o exigi que me exigisse
Um relâmpago cruza o céu antes do meio-dia
e me comovo ao ponto de provar meu próprio sal
Se os sapos choram, eles estão a cometer suicídio?
Torno-me sorumbático e pessimista
Tentei colocar no papel um pouco de poesia e falhei
Alguns amigos queriam me ver hoje
Disseram que estão com saudades e que tenho crédito
Até os encontraria, se me recordassem sem reticências
e me percebessem inédito
Entretanto, sendo pouco e tanto,
Resigno-me ao meu escritório repleto de tédio
A coluna por coincidência dói e não tomarei remédios
Queria escrever algo magnífico e devaneei sobre o nada
Quem poderia me ver como sou se sou invisível?
A minha imaginação é um milagre
que não odeia o que é real
Ainda assim, às vezes, eu queria ser menos fatal
Negar-se, entretanto, é decretar a morte de mim
Se tudo um dia acaba, vou atrás do rabo da palavra
Escolher eu mesmo meu fim.