Idas e Vindas

Nas idas e vindas das tantas jornadas
Escutava teu sorriso romper a neblina espessa
As rodas do carro amassavam o asfalto
ou pelo menos é o que eu imaginava
Temendo nunca mais te ver,
eu me tornava o melhor dos motoristas
E vivia por reflexo de querer viver
Ninguém sabe de quantos acidentes fugi
Quando vencia a tempestade, a neblina e até a noite,
eu me sentia como um deus sem nome e esquecido
Os demônios assustadores eram apenas caminhões
e me apavorava a hipótese de ser esmagado como uma lata
Não gostaria de desaparecer junto com os faróis
Vencer a estrada era vencer a vida e assim
eu respirava o ar fresco das pequenas vitórias
Meus fantasmas me aplaudiam como se sobreviver importasse
E eu me alegrava pelo estrondoso som da celebração
Até chegar no meu apartamento silencioso
O silêncio possui diversas naturezas distintas
e de vez em quando é tão profundo que abriga outros silêncios
Os meus geralmente tinham três partes ou mais
Àquela época, eu me encontrava apenas comigo
e toda noite era potencialmente infinita
Soltava o meu corpo no sofá e fitava a TV desligada
Suspirava profundamente e me sentia vago
Quando cessaria a busca pelo rosto de minha alma?
Piscava os meus olhos e estava outra vez
vivendo a minha rotina de trabalho
O dinheiro faz falta, isso todos sabem,
mas sinto mesmo saudade é dos curtos intervalos
Sentava no banco desconfortável da lanchonete
que havia naquele velho posto de gasolina
e a minha bunda magra doía
Os marimbondos moribundos e mentecaptos
 tentavam insistentemente beber meu energético  
Apostavam suas vidas por um gole
E eu sorria da ousadia deles
Quem não desejaria a coragem de arriscar tudo?
Rabiscava versos, frases e palavras soltas
na minha caderneta preta e esperava mudanças
Àquela época sequer imaginava
quão maravilhoso seriam meus anos futuros
Amaldiçoe o capitão que nos amarrou ao navio
Ele esperava que afundássemos perto do fim do mundo,
mas nós conseguimos voltar
Nas idas e vindas das tantas jornadas
Pude me lembrar do esgar de ódio
e da expressão dolorosa da indiferença
A tua feiura me obrigava a ser feio
E bebi o meu sal enquanto lamentava
a monstruosidade que você havia se tornado
Muita gente morre sem sequer ter morrido
Já sentiu como se estivesse preso em um ciclo?
Soltei o ar após prender a minha respiração
Parece que durou uma eternidade, mas
enfim pude me sentir completamente livre
Nas idas e voltas das tantas jornadas
Tanta coisa acontecia que eu mal sabia dizer
Crescemos com a dor e com a felicidade
Quando não queremos ser alguém além de quem somos
Vencemos
Quando queremos ser quem somos e ansiamos por melhorar
Vencemos
Há dias em que só me vejo derrotado
E abro três garrafas pequenas de cerveja escura
O preto sempre me vestiu bem
Caminho pelas ruas desérticas com a companhia
de minha sombra veloz
Quando não a vejo, aceito não vê-la, assim,
prossigo projetando-me para frente,
por não saber andar no sentido contrário,
O que o futuro traz nos assombra de uma maneira diferente
O meu primeiro gato foi o último
Os meus bons tratos me trouxeram infortúnios
E toda expectativa de novo começo soava como um fim
Tantas vezes fiz de mim coisas que nem sabia, entretanto,
reencontrava-me nas contemplações junto da BR-163
Nas idas e vindas das tantas jornadas
não ousei tanto quanto os marimbondos,
mas fui tão fundo quanto eu podia no momento que podia
Arrisquei, perdi, venci, mas não abaixei a cabeça
Meus olhos raivosos e astutos incineravam o mundo
Queimavam tudo até o momento em que eu pudesse amar outra vez
Ninguém neste planeta amou tão bem quanto eu
Começa com um olhar discreto, um sorriso, uma coincidência
E tudo se acaba em centenas de problemas
Preciso aprender com os marimbondos e com as abelhas
Preciso alimentar cada uma de minhas pequenas centelhas
Que Deus tenha piedade de nós todos e que possamos querer
exatamente o que queremos
Não preciso estimular coisas que não sinto
Sou grato por tudo, mas não me ajoelho por ninguém
Conheci as praias, as cidades e os silêncios
Conheci a mim mesmo e deixei de me fazer tanta falta
Nas idas e vindas das minhas jornadas
notei que não havia um caminho só
As coisas acontecem livremente de nossas ações
Ainda que as ações impactem severamente
Fomos outra pessoa e hoje somos diferentes
Está tudo bem sentir a falta da sua antiga versão,
pelo menos por um instante ou outro
Você agora é mais do que aquele seu outro pouco
Atravessa os campos verdes com uma segurança inédita
Ama ainda melhor do que antes e poderia amar tudo
ainda assim não perdoa quem exalta a forma e humilha o conteúdo
A vileza caótica nos destrói
Somos todos patéticos e perdidos
Somos todos astros caídos
Apoia teu queixo na mão e contempla
Tudo o que ainda não destruímos
Segura a tua mão na minha e veja
os perigos e aventuras que prometo te oferecer
Deixa-me te mostrar o que ainda vai acontecer
Meus olhos não se dividem mais entre passado e futuro
Ouço muito melhor quando largado no escuro
Mergulho na solidão de mim sem me antecipar
De quando em quando soo imprevisível
Afundo nas cores que costumava ter e me perco
Estou em um ponto sem pontos
Decido preparar quatro xícaras de café
Não necessito da doçura para prosseguir
Levanto o escudo sem saber do que tento me proteger
Sangro tanto que percebo que posso fazer sangrar
Somos todos tão pontiagudos
Por vezes me vejo como forma geométrica
tão distante das minhas antigas humanidades
quanto fui outrora quando ainda não me sabia
Hoje que presumo saber o pouco que sei
Desconfio de mim
Os pensamentos mais vis cruzam a minha mente
e por um milésimo de segundo sonho ser vilão
Isso passa
Estou sem tempo e alternativas
Estou sem roupas novas e dinheiro
Estou sem amigos e sem perspectivas
Quando passo todos sentem um cheiro putrefato
como coisa qualquer em decomposição
Quando passo todos sentem um perfume chamativo,
hipnótico e me olham como se quisessem me obedecer
Estou entrando em extinção e choro
pelo fim da minha espécie
Será que um dia haverá outro igual?
Naufrágio no ralo do banheiro e escorro
junto com a água quente do chuveiro
Minha pele queima e penso nos lugares que conheço
Campo Grande nem é tão grande assim,
Dourados, Berlin, São José dos Campos, Bonito, Londrina,
Em todas essas cidades havia perigos nas esquinas
Ervas daninhas são como pelos no sovaco do demônio
E o chão que se pisa é como o diabo encarnado
Vivemos condenamos à morte e não nos entregamos
Não, vivemos destinados à morte e nos toleramos
Escondemos nossos lados vergonhosos e torpes
como se alguém pudesse proibir nossas infantilidades
Na minha imaginação todos os cenários já aconteceram
Sorrio maliciosamente por entender que reinei o mundo
Patéticos, eu sussurro, vocês são patéticos
Queres ser forte, jovem rebelde, rígido,
deita-te no chão e faça mil flexões por dia
Abdominais são para quem tem tempo sobrando
Nos meus olho te vejo
Nos meus glóbulos oculares narro meu desejo
Nas minhas gotículas de suor transpiro
implorando por teu beijo
Talvez eu perca meu interessa,
Quase tudo se perde,
Quase tudo se recupera,
Você é para mim mais bonita
do que todas as flores na Primavera,
Eu conheço lugares e esquinas e pessoas
Sou um péssimo apostador, viciado em jogos de azar
Zonzo, eu deixo o vento me levar
De um jeito ou de outro estou à deriva no mar
Sou um especialista na arte de saber amar
e quando não amo estou sendo vexatório
Tudo o que é meu se perde
Sinto a dor percorrendo a minha pele
Os fracassos e falhas se acumulam em mim
Sinto vontade de desistir
Um latido me transporta de volta para o apartamento
Cuido das urgências no trabalho, pois não posso ser demitido
Sei muito mais e mereço muito mais, mas que se pode fazer?
Para não ser escravo do dinheiro tive de dizer não
Quão diferente seria a vida se tivesse mudado uma escolha?
Estourei todas as minhas confortáveis bolhas
Ando nu pela casa e preparo mais um café
Sou dono de mim, pelo menos parcialmente,
Visto minhas roupas e tiro o lixo
Separo o lixo orgânico do lixo reciclável
e me vejo deprimente ao tentar fazer minha parte
A arrogância de supor que posso salvar o planeta
Ergo-me outra vez para ver com mais clareza
Hoje meus lucros são menores que as despesas
Beijo meu cachorro na testa e meus dois gatos também
Estou entrando em extinção e choro
Não sei quem vai cuidar deles quando eu me for
Sou o melhor no planeta em amar de verdade
Ainda que em algum momento pregresso já tenha mentido
Quem é que nunca foi traído por si mesmo?
É nosso dever aprender com os erros
Os voos noturnos se perdem no negrume
Nossos melhores pilotes jazem esquecidos no céu
As janelas de luzes acesas piscam como estrelas
Meu coração se acelera e sinto frio
Febre alta no final do mês de abril
Que será que me aguarda no final do ano?
Cada lágrima derramada conta a história do oceano
E se nosso mergulho subjetivo nas imensas hipóteses
for apenas uma ilusão conveniente?
Enganamo-nos para crer que há vida além da fatalidade?
Nascemos, morremos, sem nunca fazer o que queríamos
O que diabos tanto queremos?
Pressinto a minha extinção mais próxima
Estou prestes a me destruir
sem antes ter a minha grande oportunidade
Meus livros são obras de arte
nunca lidas pelas editoras grandes
As editoras por vezes publicam livros péssimos
E no meu canto outra vez escorre o pranto pelo que não obtive
Quase tudo morre, mas minhas emoções sobrevivem
Faço outro café para tomar sozinho
Meus gatos lutam e brincam pela casa
Meu cachorro dorme no meu pé direito e não me movo
Decidir é uma ilusão estéril e necessária
Imaginar é preciso para seguir em frente
A gente é tudo aquilo que sente?
Sinto que ser apenas o que se sente parece vago
Eu bem que queria ter a sabedoria dos antigos magos
que eram cautelosos, mas se arriscavam como os marimbondos
Tudo ou nada
Pilhas de tesouros ou escombros
Queria sentir menos que o peso do planeta
nos meus tão fracos ombros
Não aguentarei para sempre e preciso dividir o fardo
Divido-me e me vejo separado
Sou um só e também milhões de pedaços
É difícil me ver por inteiro e encaixado
Nas tantas idas e vindas
rezei para que Deus tivesse misericórdia de mim
Mesmo não acreditando Nele cem por cento
Como eu esperaria que ele lesse meus textos gigantes
se nem eu me leria se eu fosse hoje o eu que era antes?
Eu habito os corações alheios e me deixo para trás
Passo a existir nas ervas, cactos e flores
Existo nos cantos da casa, nas vozes antigas,
na delicadeza dos animais e nos absurdos
A prolixidade é o meu maior mérito
Escrevo ainda que seja absoluto o meu cansaço
Escrevo aqui e em outro Tempo-Espaço
Estou morto e vivo ao mesmo tempo
Habito o canto dos pássaros e o ritmo do vento
Talvez você me ouça se a minha voz se perder
Talvez você se recorde de mim,
mesmo se um dia eu me esquecer
Bom, este é o começo de mais um fim
ou o fim de mais um começo?
Nas tantas idas e vindas
Conheci muito, aprendi muito, perdi muito,
Fui tão entusiasmado que não reconheci a apatia
Prostrei-me no chão abraçando meus joelhos
E foram duro comigo
Não me tornei o que tentaram me tornar
Endureci, entretanto, nesta saga de terror
percebi-me muito bem sozinho
A minha natureza é o ferro e o vinho
Levantei a minha cabeça e lhes devolvi amor
Sequestrei a Lua e aprendi a absorver as nuvens
Chovia toda vez que gargalhava ou me enraivecia
Ninguém sabe nada de mim e ninguém nunca antes
Milagres de temporadas gélidas que antecedem a invernia
Andei para cima e para baixo buscando encontrar
qualquer coisa que não fosse poesia
Esvaziei-me de mim e não tinha mais nada para entregar
Sorte é uma palavra forte
Há quem te ame e não exija nada em troca?
Essa é a maior sorte dos sortudos
Meus olhos estiveram quase sempre
atrás de telas de computadores
Aumentava a minha miopia conforme crescia
minha vontade de estimular amores
E me expandia sonhando que um dia
teria tudo que eu quisesse
Tudo é muito, vagabundo, abre os olhos, esquece
Volta para a margem da casa perto daquela clareira
Confia nas intuições ancestrais
Ouça a voz da tua mãe que previu
“Você será um homem bonito, meu filho”
A Dama do Lago chama o nome como uma oração
Escondo-me das convocações do chamado
Entretanto escrevo e produzo como um escritor enlouquecido
Memorizo ditados e medito sobre a cidade sem mim
Amo tudo, mesmo o que não me merece
As construções se descontroem e dirijo meu carro preto
recordando da vez que me emocionei com um relâmpago
Amante das tempestades e das estradas,
Eu tanto penso e nada concluo,
Eu tanto sinto e nada descubro
Nessas tantas idas e vindas
Acostumei-me com todo tipo de adversidade
Só não me acostumei a não escrever
Escreverei uma história nova e feliz agora
e do resto vou me esquecer.
Nessas tantas idas e vindas,
Um dia fui e nunca mais voltei.

Publicado por

drpoesia

Escritor de hábitos relativamente saudáveis que gosta de escrever crônicas, poemas, contos e principalmente romances de ficção fantástica. Três livros prontos, porém, ainda sem publicação física. Trimestralmente faço o registro dos meus novos textos no Escritório dos Direitos Autorais. Tenho 27 anos de idade e sou formado em Direito. Creio no amor, embora o sinta meio ingrato neste ano. Só posso ser quem eu sou e é assim que vou continuar. Confio no mestre Leminski. "Isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além". Se você continuou até aqui espero que conheça meu blog aqui na WordPress e que possa dar uma visitadinha nas minhas páginas de poesias no Instagram e no Facebook! Obrigado! Volte sempre!

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