Sensações.

            Acabo de percorrer o caminho de volta do Bairro da Liberdade. Todos alertam sobre os perigos de São Paulo e eu não relaxo, mas admito que a sensação é ambígua enquanto carrego minhas sacolas pelos metrôs e pelas ruas. Tenho a impressão de que é como trancar toda a casa antes de dormir e, ainda assim, ser surpreendido por um bandido que sai de dentro do meu guarda-roupas. Verifico os armários antes de me deitar, apenas para me sentir ainda mais seguro e durmo com a televisão ligada para evitar a escuridão. Essas sensações antigas retornam junto com os meus tantos pesadelos.

            Notei, ligeiramente abismado, que chamei a cidade de São Paulo de casa. Poderia uma cidade tão agitada servir para alguém tranquilo como eu? Deixo essas questões ridículas e precipitadas para outro momento. Tenho o péssimo costume de deixar toda sorte de coisas para depois e devo me encontrar com a cidade no meu próprio tempo.

Voltei do passeio e trouxe alguns bonecos dos animes que mais gosto, quatro camisetas, bem como três pôsteres que vão se transformar em lindos quadros. Minhas aquisições são positivas e me sinto renovado e feliz pelo passeio. Ninguém me incomoda na ida e nem na volta. Talvez seja por conta da minha altura ou pelo fato de que forço meus músculos e não abro mão de minha carranca irritadiça. É possível que comprem a ilusão de raiva quando olham para a expressão dura de meu rosto, porém desabrocho meus melhores sorrisos assim que me encontro com pessoas. Intuitivamente sei que é muito importante continuar a ser gentil.

A vida vai esquisita e encontro novas maneiras de ganhar dinheiro. Nenhuma delas até hoje me fez feliz. Chego no apartamento e meu irmão está dormindo às 19h00. Nenhum de nós sabe que em um ano e meio ele vai ter um emprego qual ama e menos ainda desconfiamos que ele será pai. Neste instante agradeço o privilégio de desfrutar das coisas presentes. O computador está livre e posso escrever um texto.

Honestamente não me lembro exatamente do que aconteceu depois. Nesta época, tudo detinha a minha atenção na cidade de São Paulo. De quando em quando me levantava animado e passava o dia todo caminhando por ruas extensas e entrando em lojas com cheiros peculiares e tamanhos improváveis. Noutros eu empenhava esforços homéricos para convencer meu irmão a sair comigo e, vez ou outra, era recompensado com sua companhia. Em algumas manhãs e tardes vaguei a esmo, sem medo do perigo, procurando um lugar pacífico para tomar um café e ler um livro. Numa dessas incursões até ganhei uma pedra do meu signo e uma profecia de uma velha esquisita que previu meu sucesso, o que não foi assustador, mas achei de bom tom da parte de uma excelente vendedora. Houve noites quais saí em primeiros encontros na Padaria Palmeiras e olhei pela primeira vez em olhos azuis como o oceano.

Quem diria que meus olhos castanhos se reconheceriam naquela imensidão azulada e profunda. É que carregar uma dor no peito transforma nosso jeito de se mover e até os nossos olhares e acontece que duas dores distintas podem se encontrar como semelhantes, ainda que sejam completamente diferentes na forma. Eu não apostei em nada mais do que a minha própria gentileza e descobriria muito depois só uma pessoa que me fizesse apostar tudo outra vez. De toda forma, estávamos sentados na mesa estreita, meus joelhos batiam em tudo e nos olhávamos. Trocamos nossas histórias, nossas primeiras impressões e onde dois opostos se encontraram como semelhantes surgiu uma fagulha que resultou em uma explosão. Ela havia sido largada pelo noivo semanas antes do casamento e partiria dentro de dois dias, sozinha, para a lua de mel na Austrália. Eu ainda meditava sobre o meu desamor e meu sofrimento no último semestre e me questionava a respeito da durabilidade das relações. Em outros cantos do país outras pessoas passavam por traumas maiores e descontavam em distrações diferentes ou se alegravam por coisas mais discretas e eram felizes por gestos mínimos. Eu não poderia antecipar o que interligaria o meu destino ao de outros.

A vida vai como vai e é inevitavelmente estranha. Creio que na realidade perfeita desta mulher de olhos azuis, ela se casa com o homem com o qual passou anos juntos e vive uma lua de mel incrível e repleta de passeios. Ela certamente não esperava passar a véspera da viagem com um cara que conheceu na noite anterior. Eu certamente não esperava ser o cara da noite anterior e nem esperava estar sentado no sofá do apartamento em São Paulo assistindo Baki na metade do mês de abril. Ainda sem sair do sofá me peguei imaginando a mulher da noite passada descendo sozinha em solo australiano. Um sorriso espontâneo surgiu em meu rosto e naquela noite tomei a vida por inevitável, mas ri de minha própria tolice pela improbabilidade do avião ter chego tão rapidamente em um país tão distante.   

Ainda assim, eu reconheço que tenho falado muito de pessoas, principalmente das outras e, muito provavelmente, discorrido pouquíssimas vezes em retrospectiva pessoal, intransferível, individual. Estive tentando me evitar? Não tenho certeza, nunca fui de fugas, mas suponho que todos sejamos capazes de contradições.

Volto a falar de destinos que se entrelaçam e felicidades inéditas, como as que vivi no meio do agitado ano de dois mil e dezenove e do esquisito ano de dois mil e vinte. Coisas importantes se renovaram dentro de mim e me tornei alguém melhor. Amei e fui feliz como nunca imaginei. Oscilei mais do que pretendia, entretanto, vejo que fui forte como pude, pelo menos na maioria das vezes. Pilotos franceses subitamente me abriram os olhos e não pude deixar de ver o que por tanto tempo evitei.

O mistério do êxito não é tão misterioso assim. Para fazer o que poucos fizeram é preciso fazer o que poucos fizeram. Sorrio com a afirmação boba e estremeço. Os aviões decolam incessantemente e vejo suas luzes fracas iluminando discretamente o ambiente do céu noturno pelo qual passam. Jazo dentro de um deles, ainda que seja sempre incerto o momento, mas me vejo partindo no meio do breu, insistindo sempre em luzes, veja só, essas luzes que brecam a escuridão aterrorizante, essas luzes que nos salvam a todo instante, essas luzes que me seguem e que me preenchem, essas luzes quais me tornam luz também. Diversas sensações sambam alegremente dentro de mim. Sinto que preciso acender as luzes apagadas, trocar lâmpadas, mostrar o caminho. Aqui hoje assim não posso. Aqui hoje assim não consigo.

Tenho a sensação atemporal de que a minha solidão pode me matar, entretanto, simultaneamente vejo que apenas sozinho sou capaz de parar de me esconder das tantas responsabilidades que tenho para com minhas capacidades. Sei sobre o meu tamanho e tenho que ficar longe de casa, seja lá o que me faça sentir em casa, para atingir meus limites e cumprir com meus objetivos. Até onde sei, tenho esta vida para sentir orgulho de minhas capacidades e me derramar neste mundo tão vil, violento e frágil. Confesso que posso ser exatamente como o Universo se parece aos meus olhos e choro.

            Essas sensações antigas retornam junto com meus pesadelos e me defendo em um estado inconsciente. Quando me percebo em pé com os punhos cerrados, flagro-me em um medo descontrolado da morte e um apego feroz pela vida, assim, convenço-me de que continuar vivendo é uma questão de necessidade e que todo esse papo que faz voltas e mais voltas faz algum sentido. Essas sensações antigas retornam, mas quando o mar da escuridão tenta me engolir e me tornar melancólico ou sorumbático, eu sorrio com os olhos na direção qual seguirei. Tenho a sensação de que sou uma luz forte, dessas que cegam momentaneamente nossas visões, em um mundo escuro e esquecido. O meu jeito de existir é continuar convivendo com as sensações e tomando o cuidado para não queimar subitamente. Quem sabe um dia exista mais claridade que escuridão. Quem sabe um dia eu dormirei sem a televisão ligada. Quem é que sabe?

            Um dia…

Aos que acharem meu corpo.

Diga aos que acharem o meu corpo
Duro, inflexível e pálido
Tentei até o último instante

Diga que certas vezes me apavorei
Até errei o meu caminho
Algumas vezes iludido pensei
que faria tudo melhor sozinho

Diga aos médicos legistas
que fui um homem de poucos medos
Peça para que sejam detalhistas
e cuidadosos com meus segredos

Diga que nunca consegui me recompor
E que nunca mais pude ser quem fui
A sombra de uma versão melhor
certas vezes ainda me possui

Diga aos que acharem o meu corpo
que não permaneçam em luto por mim
Se estou estirado e morto
é porque tinha que acabar assim

Diga aos que acharem o meu corpo
que eu sempre maldisse os descuidados
Que notava a vituperação provinda do porco
ainda que ele jurasse ser meu aliado

Diga que eu vi a argêntea adaga
antes de ser tingida por meu sangue rubro
O golpe traiçoeiro de uma amiga espada
nunca pode ser parado por um escudo

Diga que eu sofri pela latência da dor,
E admita que não gemi por sequer um momento
Narre que humilhado despenquei de joelhos
no vazio imenso do silêncio violento

Diga que parti com certa humanidade
Carregando sentimentos estranhos
Confesse que deixei esta vida com dignidade
Sustentada por meu férreo olhar castanho

Peça para que não lamentem
nossas tantas manhãs e tardes de café
Diga para apostarem no que sentem
E que tenham sempre aquela velha fé

Diga para acreditarem nas próprias forças
como eu um dia acreditei

Diga que minha alma flutua por eternidades
Ensombrando a existência de quem ainda existe
Diga que aparecerei na velha cidade
quando o coração ecoar demasiado triste

Diga que eu fui para nunca mais voltar
Fantasma errante e viajante sempre fora de lugar

Diga aos que acharem o meu corpo
Que ele já não é mais meu
Que tudo que um dia tive
Jamais me pertenceu

Diga aos que acharem meu corpo
para que queimem meus restos
ou me arremessem em uma vala

Peça que desliguem todos os dias
a televisão que fica na sala
Diga para os que jazem funestos
que nenhum morto fala

Diga que foi por um triz
Mas que fui muito feliz
Antes de abraçar o Nada

Diga aos que acharem o meu corpo
Duro, inflexível e pálido

Tentei até o último instante
Ser melhor do que antes
Não foi o bastante
Esforços inúteis,
ainda que válidos

Diga para que sigam em frente
Que eu apenas fui primeiro
Sigam como se nada tivesse acontecido

Depois da morte há outro continente
Não há razão para o desespero
E eu reverei todos os meus amigos

Diga aos que acharem o meu corpo
não há nada que devam dizer
Neste mundo imprevisível e louco
só lhes resta continuar a viver.

Chão gelado.

Deita-te no chão gelado de pedra
Recebe os raios solares do verão
Abra os braços para a memória doce

As coisas seguem acontecendo
exatamente como devem acontecer

Dedica teu amor aos que te cercam
Supera tua história de trauma, querida
Liberta-se na imaginação e depois na vida

Não se esquece de que o Tempo é o único algoz
Entretanto viva momento por momento
Essa vida que vivemos passa veloz
Passam até os grandes arrependimentos

Deita-te no chão gelado de pedra
Recebe os raios solares do verão
Desliza os dedos pela aspereza

As coisas seguem acontecendo
exatamente como devem acontecer

Não se esquece de quem te inflama
E por ti arde em desejos
Revira tua vida e tua cama
Clama sempre por teus beijos

Deita-te no chão gelado de pedra
Se esta vida é o teu lugar
A resposta é sempre uma sentença
Tudo bem se você então mudar

Deita-te no chão gelado de pedra
Observa as várias cores da torre de sempre
Acredita no infinito contando estrelas

Lembra-te que tudo um dia se encerra                    
Até a torre de sempre um dia some
bem como todas as certezas

E a Dor surge como um fio de escuridão
no meio de tantas lembranças felizes
Siga em frente com orgulho do coração
que sobrevive com tantas cicatrizes

Antes que tudo isso se acabe
Deita-te no chão gelado de pedra
E nunca se esqueça
As coisas seguem acontecendo
exatamente como devem acontecer.

Dor no peito.

Madruga para ver o mar
Espera encontrar respostas
Quando ouve uma voz a sussurrar
no ouvido sobre uma antiga aposta

Oração insistente de marinheiro
Cada noite mais calejado e sofrido
Nunca hesita o velho timoneiro
Coração mais resistente que o vidro

Sua sorte é a descoberta da nova terra
Seu espírito livre nunca se encerra
Para tudo nessa vida se dá um jeito

Esteve em tantos lugares
E só nos mais selvagens mares
É que alivia sua eterna dor no peito.

Nunca mais saia de perto.

Pudera neste ínterim lúcido compreender
A diferença sutil dos diversos amores
Quisera neste íntegro ser surpreender
com o perfume adocicado das flores

Lumia repentinamente milhares
que jazem esquecidos na escuridão
Teus gestos simples são espetaculares
Tua presença fora de imaginação

Teu corpo me leva ao delírio
Teus olhos são o meu colírio
Personificação perfeita do meu desejo

Nunca mais saia de perto
Sem você o errado é certo
Cobre-me infinitamente de infinitos beijos.

Era uma vez.

Tantas horas tardias na madrugada
Cravam em minha pele o flagelo
Tantas doçuras agora tão amargas
Transformam fogo imortal em puro gelo 

Sinto uma espécie de autopiedade
Seguida pela raiva que advém da pena
Na memória o eterno gosto da saudade
Minha língua provando tuas lindas pernas

Tantos afagos e tantos beijos
Tantas noites de incessantes desejos
O que nunca se pode esquecer 

Gestos discretos e atitudes simplórias
O que houve e se tornou história
Quando era uma vez eu e você.

Meet Criativo de fim de ano: Coletivo Um Tinteiro debate sobre o ato de escrever

Nuvem Laranja - Plataforma Criativa

João Cabral de Melo Neto já dizia que “Escrever é estar no extremo de si mesmo”. Em tempos de pandemia, tal afirmação encontrou novos desafios e significados em meio aos tortuosos acontecimentos do ano.

Lidar com a ansiedade e o bloqueio, aflorar a criatividade, estruturar um bom desenvolvimento de ideias, manter as metas de escrita em dia e se adaptar ao mundo do isolamento social e da massiva presença on-line foram apenas alguns dos perrengues vivenciados. E foi pensando nisso que a Pós-Graduação de Escrita Criativa da Faculdade Novoeste realizou o último Meet Criativo de 2020, com o tema “Por que Escrever?”.

Para o bate-papo, foram convidados Daniel Possari (28), Luis Spaziani (24) e Beca Casal (29), escritores do coletivo Um Tinteiro.

Coletivo Um Tinteiro: da esquerda para a direita, Daniel Possari, Beca Casal e Luis Spaziani.
Foto: Anna Bissacot.

A sociedade de poetas vivos

Com inspiração no roteiro de…

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Monólogo para um ouvinte calado

            Sonho que sou o inventor deste mundo e faço uma mistura questionável das conclusões que obtenho antes de acordar. Quando acordo, sinto-me estranho e o peso da realidade destoa do que me é costumeiro. Que se pesa mais no decorrer dos dias?

            Há este ponto confuso onde me vejo Perfeito e Imperfeito e a contraposição de ideias que me parecem impossíveis em coexistência certamente coexistem. Como alego ser Feliz e Triste? Como vou do Tudo ao Nada? Como penso apenas nos outros ou apenas em mim? Como admito ter encontrado a satisfação suprema e necessitar abrir mão disso por compreender, seja precipitado ou não, que o regozijo da calmaria me afasta de um Propósito tão grandiloquente? Você está me acompanhando aqui, senhor?

            Esqueço os propósitos, as missões e os anseios por coisas que julgo serem boas e, faço-me terreno, humano e mortal, como fingia não saber que sempre fui. Experimento a vituperação e o sabor amargo de uma realidade que não me é comum. Sofro por julgar que o sofrimento é a conclusão mais real da vida. Outra vez deito meus pensamentos para o Bem e o que é Bom, exatamente para essas coisas livres de vícios ou falsas virtudes. É possível alcançar isso senão em pensamentos? Que é que vejo quando fecho os olhos e não há mais o que ver?

            Que se convençam do que podem, eu me convenço da dureza das coisas e me puno com o que julgo errado. Se ajo errado, certo ou incerto, castigo-me por tempo indeterminado. Minhas punições podem durar eras quando eu sou o carrasco, mas tenho aprendido a perdoar rápido os outros. Deveria? Não há coisa que se deva nessa vida, há? Não sei. Creio que em situações de dúvida apostar no instinto seja a melhor opção. Ensaio uma despedida antecipada, mas em breve vou me despedir definitivamente. E daí se eu nunca mais voltar? E daí se tudo mudar abrupta e radicalmente? Quem é que pode se preocupar realmente comigo?

            Não, estes não são os caminhos, embora seja difícil ver com clareza. O hedonismo é tão cego quanto a religião. Que prazeres recompensam uma vida sem recompensas? Que realidades compensam uma vida hipoteticamente sublime? Há necessidade de desejar algo assim tão distante e distinto? Compensaria optar pela Abstração?

Neste ínterim de insanidade, mergulha-se o peito num mundo-fundo vazio e me afogo em coisa nenhuma. Meus questionamentos não mudam. E daí se eu nunca voltar? E daí se tudo mudar abrupta e radicalmente? Quem vai pular no oceano gélido para me resgatar se eu estiver afundando?

            Qual subjetividade humana te satisfaz, senhor? Qual te faz mais completo? A simplicidade? O entendimento limitado nos permite fixar raízes mais fundas em nossas relações interpessoais? A amálgama que faço de diversificados assuntos me assusta. Creio que parte de mim já tenha enlouquecido. Perdi meu senso de objetividade? Não sorrio e nem choro. Estático olho pela janela e vejo telhas, telhados e árvores. O céu vai mudando de cor e prevejo que a noite será incalculavelmente longa. Já esteve preso em uma dessas, senhor? Noites que duram meses ou até anos?

O que há para enxergar quando cai a noite? A luz da lua, o brilho das estrelas e as nuvens cinzas nas noites mais claras? Os olhos se acostumam com o céu noturno e me pego sentado perto da piscina que está esvaziada pela metade. Não é um caso de copo meio cheio, meio vazio. A piscina pela metade não faz sentido, entretanto, é a piscina que eu tenho na casa qual vivo. Se hoje a piscina é lar de novos seres, assim seja, brindamos às realidades quais podemos suportar! E se não pudermos suportar? Reticências, suspense, continuação sem continuidade. E daí se eu deitar na pedra e dormir? E daí se eu não acordar? E daí se eu nunca mais voltar?

            Não sei, confesso sempre ter me sentido bastante distanciado da sensação de inveja, mas olha-me, eu às vezes queria ter resoluções mais simples, exatamente como o senhor. As nuvens são nuvens, o céu é o céu e os animais precisam dos potes de ração cheios ou morrerão de fome. Os aviões são apenas aviões e tudo é apenas o que é, bem como, certamente por seus olhos certeiros, eu sou apenas o que sou. Se me perguntasse, porém, quem eu sou ou como sou, como poderia eu me explicar? Percebe a diferença de nossas maiores diferenças? Queria ver simples, ser simples, desejar simples. Queria ser sintetizado. Recente, te juro, senti Amor maiúsculo e quanto mais eu sentia, menos eu era quem eu era, pois não fui quem eu precisava ser antes de me encontrar com isso. Há hora errada para essas coisas todas? Amor maiúsculo cessa de sentir? Desta vez parece-me impossível. Perco-me nesta divagação confusa? Se eu te perguntasse quem você é, você riria e responderia “apenas eu”, resumindo a falta de necessidade da prolixidade em uma pergunta tão direta e boba. Desanuvio a mente e volto para a pergunta que me fiz agorinha. Há horas erradas?

            Se há hora errada, eu nunca me errei, mas ainda vou, pois todos se equivocam grande ou pequeno, estreito ou largo, ao longo da vida. Você sabe melhor do que eu, senhor, nossas estradas são apenas estradas, mais ou menos esburacadas, com mais ou menos acidentes, que importa? Fases feias que vão e vêm, vômito, vergonha, asco, raiva, tristeza, miséria, mas e daí? Alguns se erram jovens, outros velhos e ainda há os que erram jovens e também velhos. São estradas esburacadas e acidentadas simplesmente. Nota o poder da dualidade que há nelas? Abre-se a janela e a vida se significa em uma brisa dentro de um carro em alta velocidade. Perde-se do reflexo de motorista e a vida se encerra em uma batida violenta. A dualidade de tudo me apavora. Qualquer um pode me destruir. Eu posso destruir qualquer um. Ter consciência do poder é perigoso. Talvez a falta de consciência seja ainda mais aguda e fatal.  

Meu relato soa tão confuso, senhor, estranho que você ainda não tenha me pedido pausas, mas se está me compreendendo, vejo-me na obrigação de seguir. Prometo maneirar com meus tantos silogismos. Lágrimas? Gotículas repentinamente escorrem por meus olhos. É, sim, o sal do mar que habita os oceanos de nossa humanidade. Que é que há? Choro por não conseguir aplicar o descaso no descaso e sinto a minha prolixidade sentimental envenenar minha alma e minhas futuras escolhas. E daí se eu furar todas as minhas bolhas? E daí se eu optar pelo desconforto? E daí se vivo, eu às vezes sinto, como se estivesse morto? E daí se eu me machucar? E daí se eu partir e não voltar?

Venho dizendo em alta voz uma frase estranha, ouça bem, digo que todo mundo sangra igual, você também consegue perceber, senhor? Assim não se importe com o quanto me venho trôpego, o quanto pareço retalhado, faz-se necessário essa dureza de espírito e essa frigidez de não mudança para alcançar certas coisas tão incertas assim. Caí e quebrei. Agora, por ora, é a minha vez de ser um caco quebrado pontiagudo e pronto a ferir. Afaste-se, senhor, pois eu não te invejo, mas se me der escolha de prontidão, verá que eu te machuco sim. Não é o momento, senhor, mantenha-se longe, eu posso te fazer sangrar.

            Queria ver simples, eu disse, desejar simples, eu também disse, mas quando Deus ou eu mesmo, que inventei o mundo, vi-me diante desta hipótese, recusei-a. Explica-se aos outros o que nem completamente se entende para si? A vida se interrompe enquanto observo a gata se divertir preguiçosamente na janela. Ela não precisa de ninguém, mas busca ficar perto de mim, quando eu estou em casa. O companheirismo velado vale tanto quanto o barulhento, senhor? Dividir a estrada é possível, mesmo quieto, mesmo de tão longe? Nem todos os companheiros fazem alarde?

            Senhor, eu lhe disse antes, inveja não é a palavra certa, escute, você vê um avião e vê apenas um avião. Eu vejo a máquina terrível e majestosa que transporta pessoas ao redor do globo. Senhor, você dentro do avião apenas cochila sabendo que vai acordar no seu destino! Eu? Eu nem sei se o avião chegará e toda vez que me pego pensando em destinos finais, vejo-me em seguida em conjecturas sobre acasos, vidas e mortes. Você não olha para a janela, senhor e eu agora confesso que observo àquelas tantas cidades em miniaturas e àquelas luzes tão distantes que enchem meu peito de algo que não sei o que. Você sabe, senhor?

Eu inventei o mundo e queria contar um pouco sobre as coisas que descobri sobre todo o resto. Eu inventei o mundo ou será que apenas sonhei isso? Minha alma quiçá possui o mesmo tamanho da egrégora deste planeta? Perdi-me de novo, senhor, suplico que me desculpe. Confesso não me recordar mais da diferença entre sonho e realidade e nem do que realmente é e do que realmente não é. Esta dicotomia entre planos astrais e reais, este valor subjetivo qual etiquetamos a alma, tudo isso soa tão vago como os que imploram por clemência.

            Em termos gerais, escolho um caminho de sofrimento individual.

            Os começos, certo? Estou a começar pelas estranhas maneiras que agimos ou deixamos de agir, pelas manifestações tão absurdas e incoerentes e certeiras.

            É que essas coisas belas estão por aí e existem, olha, eu sinto que poderia falar sobre pelo menos uma delas o dia inteiro, veja, não é sobre conquistas, fracassos, dor, mira? É sobre ser e apenas ser, nesta tortuosidade má e insana que a gente carrega de vez em quando para com a visão do mundo, eu não me entendo, quando criei o mundo eu ainda era jovem e não percebi a desnecessidade de imprimir maldade nele? Entende sobre a maldade, senhor? Só sendo mal que se entende ela?

            Eu criei o mundo e fui derrotado pela melhor impressão que já encontrei. Soa hoje esquisito me ouvir falar disso? Escute bem, pois é com duas orelhas e dois olhos que mandei fazer essa gente toda e assim de carece de ter que confiar mais no que escuta e no que vê e é bom, realmente bom a gente tomar cuidado com o que fala, veja, outra noite tu também vais perceber que língua corta tanto quanto espada e minha mãe me falava isso sobre duas orelhas e dois olhos e agora já não sei qual de nós dois inventou essa confusão caótica de existência.

            Ainda está me escutando, senhor? Sustento a impressão certeira de que escutou pouco ou nada, mas tudo bem. Gente simples escuta pela metade ou nem escuta e sabe ser feliz com menos da metade que escuta e com menos da metade de coisas que todo mundo sonha em ter.

            Senhor, eu te juro, não é inveja que isso chama, não, nutro honesta admiração por ti e por toda essa sua maneira de ser, prática, obsequiosa, elegante, sim, senhor, todo homem simples é mais elegante e, veja, você não consegue ver as coisas como eu vejo e nem eu como você vê e deve ser bom nunca ter sonhado que inventou o mundo e nunca nem ter saído do quintal de casa e não passado frio muito longe daqui, meu caríssimo senhor e bem, eu não sei, mas você deve saber… Está farto deste monólogo, senhor? Pois percebi que é um ouvinte calado e fala pouco com a boca e muito com expressões, não estou certo? Seus olhos são comunicativos e me admiro com essa capacidade de transmitir ideias sem dizê-las. Eu não sei se sei o que sei, mas respeito a sua sabedoria, senhor e você deve saber muito mais que eu…

            Gente simples se basta exatamente com a vida que vive, mesmo que ocorram vários pormenores ao longo dela.

            Gente complicada igual eu, senhor, está sempre tentando mais, buscando fazer melhor, arriscando tudo… mesmo sem ter a certeza do que significa tudo, mesmo sem ter a certeza que esse tanto de riscos vale a pena.

            Você acha que vale, senhor?

Milagre

Surge como uma espécie única
Criatura rara que prova a existência divina
Comoção alegre, objetiva e insuspeita
Personificação de um milagre
formado por mil lágrimas
Aparece como quem estreia
em uma peça teatral gigantesca
Não treme, não hesita, não se perde
Uma estrela cadente com pernas e olhos
Seus caminhos são sempre exatos,
embora nem sempre enxergue os caminhos
Suas decisões são sempre puras,
ainda que tenha tomado algumas ruins
Destas feitas choro, lágrimas e violência
Aposta na resistência e com paciência sobrevive
Continua firme, pôr do sol púrpura,
Raposa lépida, selvagem e imprevisível
Ergue a cabeça, flor do asfalto,
pois você desabrochou bela na feiura do mundo
Venceu todos os obstáculos e andou nas brasas
sem sequer ter notado que eram tão quentes
As noites de chuva querem banhar seu corpo
e escorrer por sua pele lisa
Os ecos de memória clamam por você
Chamam exclusivamente seu nome
Continua firme, anja sensual
Lusco-fusco tardio em plena meia-noite,
Ergue a cabeça, sereia cósmica
Flutua pelo Espaço Sideral como se fosse o seu Mar,
pois você é maior que todos os oceanos somados
Inunda-se pela coragem solar do pensamento reto,
Signifique sua vida fitando o rosto de sua alma
Acalme-se e busque não compreender o que não precisa
Seus caminhos são sempre exatos,
embora nem sempre enxergue os caminhos
Sinta o que tiver de sentir e saiba
Essa dor é imensa e não há onde caiba,
porém você se expande e se aprimora e evolui
Cada dia mais ampla poderá então comportar tudo
Abarca em abraços ternos novos mundos
Continua firme, fantasma feliz
Sua prole ainda chega para alegrar o Universo
Ergue a cabeça, rainha do tabuleiro de xadrez,
Não esquece que metáforas jamais são esquecidas
e que certas coisas desafiam a lógica definida
Cuida da tua saúde e tinge vidas alheias
com essa capacidade singular de amar
Lembra do Sangue que flui em suas veias
E nunca deixa de lutar
Borboleta lendária que chega da floresta,
Segue tua jornada completamente leve
Muitos por aí te carregaram e ainda te carregam
O que você obviamente não percebe
Continua lumiando o breu profundo
de quem se sente absolutamente sozinho
Nos eventos mais iracundos, isola-se,
e se permite sofrer também baixinho
Ergue a cabeça, milagre ancestral
Você é a prova de que existe um sentido
profundamente oculto na Beleza e na Dor
Milagre das mil lágrimas que nasceu neste mundo
para provar a improbabilidade do Amor.


Otário

            Engana-se quem pensa que é impossível assaltar um otário logo pela manhã. A aurora favorecia os êxitos.

            João Miguel subiu na duna mais alta para observar atentamente os transeuntes, porém não parecia interessado neles, afinal, nem eram tantos assim. Seu ar era despreocupado e sua face não demonstrava a mínima intenção do que pretendia fazer. Seus olhos grandes e agudos encaravam o esverdeado mar de Cabo Frio. João sempre se convencia de que era um grande ator, embora ninguém nunca tivesse lhe dito isso especificamente, mas entender o que se passava em seus pensamentos era algo especialmente complicado, principalmente pelo fato de que agia costumeiramente por instinto e ignorava grandes reflexões. Passou a faca da mão destra para a canhota em gestos distraídos. Havia a utilizado o instrumento vezes demais para não saber como agir e reagir. Cada dia que passa chego mais cedo na praia. Não consigo mais ficar em casa. É claro que não consegue, seu otário, cale a boca, gringo. Vai fazer alguma coisa? Foi o que eu pensei. Cale a boca, otário. Isso… me obedeça. É melhor chegar cedo do que tarde. Deus ajuda quem cedo madruga, mas está muito cedo. Não sei se adianta chegar aqui tão cedo. Não sei se…

João olhou para o relógio que marcava 5h57 e refletiu que os cidadãos com jornadas ordinárias de trabalho geralmente começavam às sete ou sete e meia ou até mesmo às oito horas no período matutino. Era justo categorizar e estereotipar ladrões como indivíduos que queriam uma vida fácil se alguns deles se levantavam antes de todo o resto? João riu e se lembrou de não mostrar muito os dentes. Sua presença era discreta, mas seu sorriso era perfeito e brilhante, luzia, assim, sorrir era um gesto impossível. A mãe e a irmã com os dentes tortos e amarelados se enraiveciam pelo que parecia ser um capricho de Deus para o filho caçula que nunca havia ido ao dentista. Os olhares atentos continuavam sua função e em movimentos lestos, João acompanhava a movimentação pela areia. Definitivamente os velhos com suas panças redondas e seus peitorais grisalhos e cabeludos eram predominantes em quantidade àquele horário na praia. Muitos iam na direção da Praia do Forte, quase todos, na realidade e, apenas uns pouquíssimos percorriam o sentido contrário. João estimava que uma centena de idosos já tivesse percorrido a praia logo cedo, quase todos homens, bom, as mulheres estavam certas, eram alvos relativamente mais fáceis e deveria caminhar pelo calçadão onde se avistava viaturas da polícia com notável periodicidade. Elas podem reagir, você bem sabe, quase se fodeu por causa disso, você sabe, é melhor não tentar fazer tudo o que você vê os outros fazendo, otário, você não passa de um otário, mereceu o chifre que levou, otário, segure a onda, o problema é que você é frouxo, cuidado, tome cuidado, não, você só precisa ser um pouco mais vingativo, sim, mais resoluto e duro e irritadiço. Cada dia que passa chego mais cedo na praia… estou pensando muito. Desse jeito vou ficar com dor de cabeça. Preciso parar de pensar.  

Outra vez o relógio: 6h25. Um grupo de mulheres passa e mais alguns velhos em seguida. João reflete que Cabo Frio é realmente uma cidade de aposentados e não fosse pelo mar, a cidade certamente cheiraria a naftalina, pelo menos em baixa temporada. Obviamente em alta temporada qualquer cidade atulhada de gente cheira a suor e lixo. João sorri por alguns segundos, mas retoma o semblante sério com a aparição de seu alvo. Um homem jovem com o celular na mão, erro de principiante, um típico otário dando mole. Guarda a faca no bolso e deixa as mãos segurarem a alça da mochila. Sempre leva uma mochila para o caso de furtar algum objeto grande, mas há só uma garrafa d’água dentro dela. João nunca se planeja e a mãe costuma lhe dizer que isso é um erro grave e que será sua grande ruína, mas com uma espécie de birra insistente na cabeça, João desliza pela duna de areia e desce subitamente, sem pensar, sem se preparar e apenas improvisa no que pretende ser outro assalto.

– Oi. – João diz e posiciona o corpo de uma maneira que dificulte a reação de fuga do homem. Será que ele é desses que foge ou que encara?

– Oi. – Resposta seca. Não é um bom sinal. Já está desconfiando das minhas intenções. Talvez eu devesse ter sacado a faca antes.

– Meu nome é Davi e o seu? – A desconfiança cresce. João pressente que será mais trabalhoso do que pensara. Não conseguiu reparar tão bem no modelo do celular. A tentativa de furto com a possibilidade de confronto vale mesmo o risco? O rapaz é mais alto e musculoso que ele.

– Victor. – Isso não vai nada bem. Tenho que resolver isso logo. Já consegui muito tempo sem que um idoso aparecesse.

– Você é daqui, Victor?

– Sou.

– Daqui mesmo? Daqui?

– Daqui mesmo. Moro perto daqueles prédios ali, viu? – João não se virou. Victor não parecia ser o cara mais inteligente do mundo, na verdade, tinha uma cara de otário e estava sendo mais perspicaz do que João supunha que poderia ao apontar uma direção. O celular qual segurava descuidadamente instantes antes agora estava longe do alcance das mãos de João. O ladrão estava travado. – Davi, com licença, mas eu não tenho o hábito de parar minhas corridas matinais para tagarelar com estranhos e eu nunca te vi na vida. Vou nessa! – O sujeito correu atrás de um desses atletas idosos que passava no mesmo momento. Se fosse tentar algo no desespero também teria que lidar com o velho.

– Peraí! Vamos conversar um pouquinho! – Disse, mas a voz perdeu a força com surpreendente velocidade e o homem foi diminuindo conforme se afastava para partes distantes da praia.

João Miguel retoma seu posto após escalar outra vez a duna. Havia tempos que uma tentativa de furto não se revelava tão destrambelhada. O homem era alto e parecia capaz de revidar ou perseguir, mas se ele tivesse descido com a faca na mão a história seria outra. Por que diabos havia hesitado? O problema não estava na vítima e sim nele. Os pensamentos falavam mais alto do que nunca e João já não conseguia se evitar. As tantas noites anteriores vinham com um lembrete de susto e as imagens eram vívidas. A mãe espanca a filha porque acha que o comportamento dela é indecente. Ela pensa que a filha é uma vagabunda desde pegou o namorado argentino dela se masturbando espiando a garota na porta do quarto. A culpa não podia ser do namorado, mas podia ser da irmã. João tenta inflamar a irmã com a mesma raiva que sente, sugere que saiam de casa, a irmã dá de ombros, diz que Pablo já a espiona há anos e não há o que fazer e, além do mais, a mãe está velha e é melhor não comprar briga, João cerra os punhos como se fosse socar alguém ou alguma coisa, sente uma raiva latente da própria irmã, mas quer mesmo matar Pablo, João provoca novamente a irmã e ela dá de ombros, larga disso seu garoto otário, agora João desconfia de que a irmã e o argentino tenham relações sexuais, João pergunta para a irmã se ela e Pablo compartilham de alguma intimidade, ela manda ele ir tomar no cu, João insiste de maneira truculenta, ela revela que namora Hugo, João pergunta se Hugo não era o melhor amigo gay, se ele fosse gay não me comia, João fica em silêncio e perde a animosidade, mas pergunta o que ela esconde sobre Pablo, a irmã manda João ir pra casa do caralho, a mãe escuta a gritaria e chega xingando a garota, pois sente raiva dela, João não aguenta mais tanto barulho…

João Miguel restabelece agora sua conexão com a realidade. Odeia quando pensamentos insistentes surgem na cabeça e não o deixam. Sabe que faria qualquer coisa para não pensar. Odeia a irmã. Era sua pessoa favorita no mundo e agora não passa de uma vagabunda que dá para o argentino escroto e para o namorado viadinho. Odeia a mãe. Espanca a irmã gratuitamente só por acreditar que ela dá trela para o gringo fudido e vagabundo. Uma vez a mãe deformou a face da irmã de tanta pancada. Odeia Pablo acima de tudo e de todos. Sabe que o argentino espanca a mãe quando chega bêbado. O desgraçado do argentino já bateu nele também. Na irmã não bate, mas possui intenções secretas. Pablo é mais robusto, mais imponente e se comporta como se não tivesse medo de morrer. A próxima vítima surge diante de seus olhos.

Ela é mais atenta que o primeiro rapaz qual abordara para assaltar, mas desta vez ele vai descer logo com a faca e vai pegar o que precisa e ir para casa. Não, talvez não vá para casa. Em casa eles estarão lá, todos os três, talvez mais gente, em casa eles vão me perseguir e me machucar e ninguém liga para os meus esforços e nem dá a mínima pra minha vida, não. João escorrega pela areia e desliza pela duna. Ninguém dá a mínima pra mim, duas vagabundas e um argentino brocha filho da puta, não, eu ainda chego com o que furto com o meu esforço e tenho que comprar comida pra todo mundo, foda-se, cambada de idiota, eu vou alugar meu canto e não ter que pensar em ninguém batendo em ninguém, vou arrumar uma namorada e… João continua seu avanço na direção da mulher. As namoradas que eu tive me traíram, é porque você não passa de um otário, não, não se pode confiar em mulher, minha mãe mesmo não confia na filha dela e talvez esteja certa, se ela tá dando pro gringo imagino pra quem mais ela não tá dando, não se pode confiar em mulher e agora aquele cara lá quer dizer que é meu pai, argentino filho da puta, meu pai sumiu quando eu nem me lembro, ninguém mais pode ser meu pai, ele nunca vai voltar, não se pode confiar nos pais também e nem nos homens, os homens são ainda menos confiáveis que as mulheres, droga, o que foi, seu otário? Cale-se! Eu tenho que fazer tudo sozinho e é isso, João para diante da mulher, ninguém me valoriza, ninguém é confiável, ninguém se importa e parece que ninguém liga para a minha vida, eu não tenho alguém que realmente me ame, eu, para agora, para de pensar, não grita, porra, eu odeio esse argentino cuzão, eu espero que ele morra e quero que minha mãe pague por espancar a minha irmãzinha de graça e quero que uma bomba, cala boca, para de pensar, eu quero que minha irmã fuja com o melhor amigo gay dela e morra com a bomba, ninguém nessa vida vale a pena, para, furta o que tem que furtar e vai pra casa, olha a cara dela, para de gritar, parou de gritar, ela não tá entendendo, fala alguma coisa, fala, vai dividir a recompensa com sua mãe, fala alguma coisa, o argentino viado tá de olho no que você trouxe, parou de gritar, caralho, não trava duas vezes no mesmo dia, não…

– Isso é um assalto! Calminha… Passa já suas coisas que eu não vou te machucar, eu prometo. – Nenhuma resposta. Você pensa que pode me ignorar? – Eu disse que isso é um assalto! Entrega suas coisas, puta! – Nenhuma resposta. João começa a sacodir vigorosamente o corpo da mulher e só então percebe que está deitado acima da cintura dela e os dois estão na areia da praia. O branco suave da praia tingido de escarlate e as ondas empurrando e puxando uma quantidade impressionante de sangue. João ainda se movimenta e nem percebe que está molhado por sangue e sal. Ele ainda desfere facadas sem nem perceber que está com a arma na mão. Os pensamentos não o alcançam e ele continua com uma facada após a outra. O braço ameaça travar e ele cai resignado acima do corpo morto da mulher.

Engana-se quem pensa que é impossível ser preso por assassinato na metade da manhã de uma quinta-feira.

O relógio marcava 8h12 e o rapaz João já estava algemado dentro de uma viatura policial. Não estava comovido com o assassinato ou desesperado com a prisão, mas as vozes que ecoavam no fundo de sua mente faziam com que ele tivesse vontade de se matar. Crianças cantavam em uníssono.

Otário, bundão,

não serve nem pra ser ladrão

Otário, bundão,

Partindo pra prisão,

Otário, cuzão,

Dentro do camburão,

Otário, imbecil

Até o argentino riu

Otário…

Otário.