Rotação

Acordo e busco na geladeira
algo para saciar a fome
Ouço uma risada zombeteira
Esse vazio ainda não tem nome
Que ilusão se alimenta por acreditar
que pode se saciar subitamente nas madrugadas?
A vida é ou muito simples ou muito complicada
Tenho dificuldades de compreender as caretas
que são expressivas e claras na representação de si mesmas
O que poderia ser mais claro do que a pureza?
As dores no trapézio voltaram e eu me preocupo
por não ser um habilidoso trapezista
A minha nuca quase travou de dor
Hoje sinto um pavor absurdo de hospitais
pressentindo que um dia de lá não mais voltarei
Às vezes vejo gente que soa como se desejasse outra vida
Eu não consigo existir tão longe assim da minha
Rotação
É que quando tudo dorme
Eu acordo ouvindo gritos e sirenes
Esperando que a minha dor se transforme
Que meus vazios se tornem silentes
Eu tenho olhado para as coisas e visto
a sutileza vil de quem se disfarça
Um toque desnecessário a mais na perna
Uma imaginação mais longilínea e distante
Um gesto despretensioso cheio de pretensão 
Uma qualquer coisa aqui que não se pareça com isso
Sonhei que nós fazíamos sexo naquele banheiro
Confessou com uma espontaneidade ingênua, risonha,
Passei a língua nos dentes e fitei a cena
Tudo muda incrivelmente rápido
Apenas eu não consigo sair de minha
Rotação
Outros teriam prêmios que eu nunca terei
Quiçá eu pudesse me fragmentar de acordo
com quem faz parte dos meus dias?
Às vezes vejo gente que soa como se desejasse outra vida
Eu não consigo existir tão longe assim da minha
Rotação
E as coisas modernas e degradantes
Eu as detesto e as afasto
Sou um pequeno perdido entre gigantes,
entretanto, por vezes me basto
E sigo um caminho singular
Único
Ninguém imita minhas marcas no asfalto
Há quem me considere teimoso ou estúpido
Percebi, porém, que eu mesmo não me falto
Por tentar me aproximar e criar e crer em magias
Por ir além para tentar
Gargalho quando tentam me dissuadir
de coisas triviais e supostamente insignificantes
Vocifero quando me tratam como se eu fosse um inseto
Mostro os dentes quando me traduzem pedante
Desanimo quando me confundem
Eu tenho tentado ser claro durante a minha vida toda
E tenho falhado
Eu tenho tentado acertar e
meus dardos nunca acertam os alvos
Talvez essas coisas confusas nos doam
e nos estremeçam
Uma dor aguda na ponta do peito
Uma forte pressão na cabeça,
Talvez eu devesse fazer diferente,
mas insisto no meu jeito
Luto para melhorar, mas convivo com os fracassos
Faço o que posso, mas não sou feito de aço
As ilusões não são saudáveis, mas algumas
nos ajudam a permanecermos vivos
Alguns defeitos são o alicerce de nossa estrutura
e até deles precisamos para sorrirmos
Em uma festa comum, eu sou o mais incomum
E os assuntos verdadeiros e artificiais
Plásticos e gentis e desestimulantes,
como frutas falsas no centro da sala
Fazem-me pensar em coisas que não sei
Isso tudo dói e sufoca
E os gestos súbitos a mais
entram para uma inconsciência consciente
Absorvo tudo o que vejo e observo
Quando os sentidos se esvaem
Eu me fecho e me preservo
É uma resposta automática, defesa robótica
para o meu eu exageradamente humano
É que lido com esse terror
desde os meus primeiros anos
Passava noites em claro olhando vultos
Os brinquedos nas estantes eram sombrios
Ganhavam vidas e suas formas se assomavam
Uma sombra engolindo a outra
E virando coisa alheia qualquer
O vazio sempre brincou comigo
Provocação barata e sedutora
Algum dia você irá cair
Talvez faça um gesto a mais
Talvez aceite mais dos outros em você
do que você está acostumado a deixar
Talvez um dia deseje ser outro e viver outra vida
como frequentemente sente que os outros desejam
Tantos deles querem existir longe da própria
Rotação
Eu, rodo e me rodo, giro, sem cair no chão
Giro como um girassol, amarelo,
E personifico um violento furacão
Ainda assim insisto na minha própria versão
Quando tudo o que é alheio se sobrepõe ao que é meu
recordo do apanhador no campo do centeio
E da vida triste que ele viveu
Alinhar os desejos não é perder os próprios
Sonhar é viver
Agir é se perder em vida
Reinei tudo nos sonhos
Todas as vidas foram minhas
Cumpri com todas as minhas vontades
Atingi todas as minhas metas
Do jeito mais torto eu me tornei
um fruto do poema em linha reta
Aos poucos todos se enraiveciam com meus gestos,
mas não eram os gestos que haviam mudado
Dialoguei tanto com Deus que nos tornamos amigos
Recebi o seu emprego por uma semana
com a condição que estabeleci de continuar na minha
Rotação
Deus riu alto de mim, mas não tirou satisfação
A confiança é um prato que se come frio
Você verá o rosto da tua alma quando
conhecer a profundidade do seu vazio
Um toque a mais na perna
pode parecer mais sutil que um olhar
A frieza é algo que nos consterna
Há coisas que tardamos para mudar  
Tive medo de mim quando o escuro me atingiu
Tive medo de tudo quando seu sorriso sumiu
E o jeito com que me olhava todos os dias
mudou severamente
Por um instante de segundo
Tive medo do quem estava em minha frente
Às vezes me flagro vil
em imaginação
Neste mundo pueril, entretanto,
tenho sentido orgulho do meu coração
E tenho me antecipado quase sempre
E não atolado quase nunca
E pagado minhas contas
E não sentido tantas tonturas
Em mim eu vejo quem sou e vejo os outros rostos
vivazes ou mordazes,
Em mim eu vejo os outros e sinto
devagar a dor que eles também sentiram
Farto-me dos camaleões e me pergunto quantos
não seriam mais adaptáveis com a oportunidade ideal
Cuspo no chão para espantar o azar
Choro ao ver um relâmpago clarear o céu
Um dia brilharei fulminante e desaparecerei
Distinto e distante em mim
com a nobreza de um verdadeiro rei
Sem escapatórias e ébrio, oscilante,
Preso em parafuso na minha própria
Rotação
Tenho sentido muito medo
Quase tudo eriça meus pelos
Por muitas vezes eu sinto que me ofusco
para não atingir outra
Rotação
E bebo meus cafés como se significassem
desejando beber outros cafés
E esses gestos pequenos e significativos
Por noites e dias, de quando em quando, serão esquecidos
A gata preta dorme próxima dos meus dedos
e é pela ponta deles que se contam os segredos
E é pela insistência deles que se enfrentam os medos
E é pelos impulsos afetivos ou reativos
que mostramos nossa coragem
Muito é esquecido e muito é lembrado
Nada é definitivo
até ser definitivamente encerrado
Tenho sentido falta de ser um fracasso ambulante
Irresponsável, sem contas, sem pampas, sem tantas ou tantos,
Frequentador de botecos e escritor de qualquer coisa
Na minha antiga memória esquecida
Eu era irrelevante ao mundo, mas existia na minha
Rotação
E quando eu saía sempre alguém dizia
“Você faz falta”
E quando eu me ausentava alguém gritava
“Que silêncio nessa casa”
E quando em brigava, furioso, alguém sussurrava
“Esse aí é bem bravo”
E eu sorria sabendo que tudo era verdade
naquela minha ancestral
Rotação
Os gestos simples significam muito
Não queremos que nos peçam o que não devem
Queremos que nos entregam o que não querem entregar
Há um misticismo em colocar as peças no lugar
E os quebra-cabeças, difíceis, complexos, longos,
Ainda me deixam anuviado e completamente zonzo
Tenho vivido mais aventuras que Dom Quixote,
Tenho tratado queimaduras profundas como simples cortes
Quando me enxergam erguido
geralmente se encolhem
Ainda assim quase implodi quando ouvi
alguém depreciar outrem por conta de simples poemas
Subitamente uma vontade de desistir
se assomou aos meus tantos problemas
Que males a língua viperina traz
e nos entrega?
Viver é sobreviver na selva?
Revolvi-me para dentro de mim
Mergulhei mais fundo
O oceano é cheio de mistérios e eu também
Querer ser o que sou vai me levar além?
A água ficava mais gelada e eu
não aceitava o desânimo
Mergulhei mais fundo e percebi que morreria
sem ar
Melancolia é sentir que estar certo
é existir fora de lugar
Sinto-me desprezado e isso dói,
mas é melhor do que me sentir e me saber desprezível
Tudo é encarado como uma obrigação séria
Já não sei se me sei
Estar atento é rasgar minhas entranhas
Será que necessito mesmo dessa atenção total?
Revolvido em mim, eu abri os olhos
No lusco-fusco da existência
Vi meu corpo boiar pela correnteza
de um rio dourado
Contemplei corpos afogados
Tudo soa vago como se a vida não fosse assim
Ainda lembro dos tempos em que tinha
todos os sonhos do mundo em mim
Como ir adiante sem fraquejar?
Como ser constante se só posso me falhar?
Vivi sempre no preto e no branco
Desinteressado ou em encanto
Hoje me percebo completamente cinza
quando faces conhecidas me olham com náusea
Eu as carbonizo
E me visto de cinza dançando em destruição
O caos não é meu maior inimigo
Eu sou este algoz de minhas próprias capacidades
Sinto que falta o ímpeto
para o livro que me tornará celebridade
Falta ainda a chance para os meus romances,
mas tenho me anulado de todas as formas possíveis
Por vezes sei que tenho tempo de sobra
e sempre o desperdiço
Amaldiçoo-me, por não conseguir sair
de minhas próprias rotações
Sou o mesmo em cada uma das estações
E bebo café preto e sem açúcar
para me encontrar, enfim,
Quem sabe, amargo, desperto,
eu não saiba a resposta para um fim
E nos escritórios alheios os amantes
se deliciam com os corpos e prazeres carnais
Queremos acreditar nessas tantas diferenças,
mas a maioria destes tolos são iguais
E me inundo no desgosto da ingratidão
Dos maus amigos, das más pessoas, dos viciados em cenas,
Quem não sabe perdoar só sabe coisas pequenas,
Entretanto, o orgulho, deve existir e te manter de pé,
Como o rabo de um gato que continua balançando,
mesmo quando ele já está dormindo
É preciso se defender quando há tantos murros vindo,
As pedras desmoronam e quase me cobrem
Sei que estou vivo, mas este dia tem gosto de morte
Suspiro cansado, errado, imaginando quantos erros cometi hoje
E continuo na minha própria
Rotação
Interplanetário avanço,
Conto os planetas e estrelas na minha
Rotação
Distraio-me tentando entretê-las
Nunca me canso
Ainda bem que sigo meu coração
Levanto-me,
Deito-me,
Aperta o meu peito essa
Rotação
No espaço vejo a constelação de leão
Um velho blues que anuncia
Rotas antigas de separação
Destas pessoas de agora
Nunca vou me separar
Exceto quando chegar a hora
da morte nos levar
Choro até tarde e meus olhos ardem
tenho tantas coisas boas na vida
Odeio quando me confundem
Espero não odiar a minha partida
Escrevo romances para não morrer antes
E entre cozinheiros e ratos,
Entre poetas, reis e magos,
Há o melhor do que já existiu um dia em mim,
Penso em mapas antigos e crio criaturas,
Talvez em outro mundo eu escreva em eternidades
este amor que sinto e nunca acaba
Essas apostas que faço
Tornam-me gélido como o aço,
mas por você eu sei que insisto
Que nada nos dilacere e nos pare e que sempre
a gente se veja
Cada um na sua própria
Rotação
Girando suficientemente juntos
para sentirmos os ritmos de outro coração
Fazendo com que exista sentido
em uma canção sem som
Distraio-me quando o sono se aproxima
Perco-me de mais de meia dúzia de rimas,
Ainda assim fico com os punhos erguidos,
Estou completamente pronto para me defender
Rabo de gato distraído, eu às vezes me sinto perdido,
mas rezo para um dia vencer
Todos me abandonaram por alguns dias inteiros
e no futuro de longe no passado me vejo
Alheio numa casa grande repleta de solidão
Tudo bem, homem, erros são cometidos
Vão empedernir no teu valente peito
Continue na tua rotação,
Sinta orgulho do seu coração,
Ainda que nunca possa ser perfeito
Tenho sentido que os outros
não podem mais suportar serem quem são
Eu continuo devagar, perdido,
encontrado e esquecido na minha
Rotação.

Publicado por

drpoesia

Escritor de hábitos relativamente saudáveis que gosta de escrever crônicas, poemas, contos e principalmente romances de ficção fantástica. Três livros prontos, porém, ainda sem publicação física. Trimestralmente faço o registro dos meus novos textos no Escritório dos Direitos Autorais. Tenho 27 anos de idade e sou formado em Direito. Creio no amor, embora o sinta meio ingrato neste ano. Só posso ser quem eu sou e é assim que vou continuar. Confio no mestre Leminski. "Isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além". Se você continuou até aqui espero que conheça meu blog aqui na WordPress e que possa dar uma visitadinha nas minhas páginas de poesias no Instagram e no Facebook! Obrigado! Volte sempre!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s