Intuição.

Tinha um hábito velho, mas não envelhecido, hábito pronto, feito herança que a alma traz de longe. Outro passado, outro corpo, outro rosto, ainda que de uma forma complexa, vil, irreconhecível, eu compartilhasse a mesma essência que minha versão atual. O mundo mudara e meus hábitos metódicos permaneceram. Era de sorrisos fáceis, risadas altas, mas tratos longos, demorados. Sabia ser feito de qualquer coisa antiga e às vezes tinha que tirar a poeira de mim, como um livro esquecido no meio da prateleira, páginas amarelecidas pelo desgaste das décadas.

Por que é que me sinto vencido? Para onde foram tantos anos perdidos? Quase sempre não me sentia bem, mas tinha um talento raro de ouvir e entender, de olhar e ver, de tocar e fazer com que me sentissem. Fantasma de tantos mausoléus, eu arrepiava a todos, mas me sentia frio, solitário e distante. Como explicar aos outros que os outros não bastam? Como me confessar, sem ser ingrato, mantendo o tato, que não são eles que me faltam?

Obstinadamente, eu insistia em buscar a primeira verdade do mundo. Eu queria saber qual o rosto que a minha alma tinha antes da criação do Universo ou que magia, encanto, gesto fútil e estúpido, que fez um homem triste e inútil se apaixonar pelos versos. A poesia, a prosa, as frases, todo detalhe me encantava. Aprendi por coincidência a perseguir o rabo da palavra. Como quem pega um bicho fugidio, um peixe pescado, a palavra pode se debater. Ofereça-lhe ternura e escute o que você tem a se dizer.

Olha, que não se adivinhem os fins, pois o mais importante é o que há na jornada. Se todos nascem e morrem, nossa única obrigação é tentar desfrutar da própria estrada. Tudo sucede expansivo, crescente, dominante. Tentei pendurar minhas esperanças em outras pessoas, mas a verdade é que elas sempre precisaram mais de mim do que eu delas. Desenvolvi ainda novo uma relação prodigiosa com a solidão. Aprendi a preencher os espaços com silêncio ou música, assim, acostumei-me a ouvir o coração. Quem é que sabe de nós senão nós mesmos?

A Tristeza bateu a minha porta entre 2010 e 2014. Foram quatro anos de crises de vômito, mais de vinte e cinco internações. Antevi o destino último da Terra enquanto vomitava tudo o que havia comido e depois o que nem havia comido e depois a bile e depois qualquer líquido escuro, preto, que saía de dentro de mim. Isso é o que meus órgãos fizeram para me punir por não saber lidar com a raiva?

Nunca amansei, mas aprendi. Meu pai me dizia para sorrir mais, meu avô me dizia para sorrir mais, filho, você sorria tanto e o tempo inteiro. Como diria a eles que isso foi antes de ler os gestos e os olhares? A melancolia funda que se aloja atrás dos olhos, os medos, os segredos, tudo o que infla por dentro e pesa por fora. Nunca mais sorri igual antes, pois comecei a ser uma espécie de esponja e absorvia instintivamente todas as dores. Cada recorte mínimo de tragédia era meu e eu tentava puxar para mim. Quando a minha mãe chorava e se rasgava na época da perda do amor, do conforto, da vida, eu fazia uma dança estranha em momentos específicos, estrategicamente aguardados. A dor então cedia, uma rachadura de alegria em uma montanha de traumas, entretanto, por ali entrava a luz do sol e a gargalhada soluçante de minha mãe preenchia os ambientes. Que é que me importava vomitar oito, dez ou doze horas seguidas? Eu tinha uma relação formidável com a solidão e, bem, se eu acabasse perdendo, seria uma derrota. Não quer dizer que eu não lutava, certo?

Nunca amansei, entretanto, observar cautelosamente as pessoas me fez compreender. A vaidade, a alegria, o medo, o desejo, a inveja. Tudo isso passeava estrangeiro no campo dos meus pensamentos e eu aprendia cada vez mais. Não tardei em notar que a maioria não tinha coragem. É preciso se indispor se o objetivo é a justiça. Quantas vezes não se feriram comigo e retrucaram com o silêncio? Não é nossa obrigação adivinhar o que não nos contam.

Acostumei a não se acostumarem comigo. Uns tantos amigos jovens ficaram furiosos quando eu os interpelei a respeito de adultérios. Disseram-me, ei, somos adolescentes, ei, somos novos, ei, nesta idade podemos errar. A equação perfeita dessas idiotices não incluía o quanto estes erros eram premeditados. Não incluíam também a outra parte, como se fosse obrigação de alguém suportar uma traição, apenas pela juventude. Cresci tão correto e valente que muitas vezes quiseram me prensar contra a parede, como se eu não tivesse direito de ser covarde, de falhar. Sempre fui imperfeito, entretanto, recusei a agir sem inteligência, domando o instinto tosco de animal selvagem. Talvez cada um de nós tenha esse instinto puro, essa bravura indômita, essa coisa qualquer que não se sabe o nome ou o motivo, essa razão em ser irracional. Talvez cada um de nós acumule tantas obscuridades secretas que, cedo ou tarde, elas escorrem, mágoas, raivas, sonhos, zombarias. Tudo se mistura em um caldeirão de sentimentos.

Quem é que sabe o que quer? Quem é que sabe o que é? Quem está sozinho e deseja desesperadamente alguém? Quem não consegue seguir o próprio caminho por se ver refém? Vez ou outra ainda me enxergo no passado, calado, escurecido para dentro, entretanto, desprovido de instintos amargos, nu de qualquer coisa animalesca, apenas um menino distraído e com fama de desatento, apenas por prestar atenção em coisas que ninguém dá a mínima. Que é que somos além do que sonhamos?

A solidão é cômoda demais para os solitários. Quem está sozinho por covardia ou por consequências e não por escolha, está fadado a viver para sentir o peso das ausências. Quem preenche o espaço com companhias e nunca pôde estar sozinho, cedo ou tarde vai se perder e hesitar sobre o destino e o caminho. A solidão propositada lapida, enobrece e nos prepara para dividir o espaço quando outrem entra na nossa vida.

O trabalho anda me consumindo muito tempo nas últimas semanas, eu tenho ficado bom em resolver as coisas, estou melhor, mais rápido, mas não consigo dividir meu foco e a rotina implacável me esmaga. Como se persegue o sonho quando se esquece de sonhar? Tudo entra na frente do sonho maior. Entra antes o sono, o exercício físico, as obrigações de casa, a família, os amigos, a namorada, entra na frente ir ao banheiro ou beber água, entram antes os aniversários, os adversários, as distrações. Como seguir em linha reta com tantas confusões?

Confessei ao meu psicólogo que estava farto dos outros e que estava disposto a assumir uma atitude mais rebelde. Chega de ser babá, psicólogo, cuidador, amigo, conselheiro romântico. É preciso se virar sem a minha presença. Não que eu seja um anjo mal, radical, eu só optei por mudar um pouco o que era antes.

A sensação das sensações, o todo, não apenas a sombra, a inteireza, eu preciso entender, eu preciso me entender, abra a porta, deixe-me caminhar pelas ruas geladas nesta noite úmida ou dirigir a esmo sem pensar amanhã que a gasolina está cara, por favor, ouça a minha súplica, a tua súplica, eu preciso me entender, eu preciso entender, não apenas o superficial, mas o que existe além das regras, quero vislumbrar o que há além desta obediência cega, deixa-me apreciar a inversão, deixe-me uma vez trocar o dia pela noite, quero gritar na beira do mar ou na beira do parque, quero me estrear, antes que tudo isso se acabe e correr por aí, medir os barrancos e pular os muros, como se fosse adolescente outra vez, como quem cai e se suja e ri, por não temer nada, por não querer nada, deixa-me compartilhar o segredo com uma coruja, deixa-me olhar para este segredo do portão, este detalhe, lusco-fusco da criação, empresta-me tuas lentes para que eu possa olhar diferente e mudar meu jeito de mudar o jogo, entrego-me à sensação das sensações, sou uma peça pequena no todo.

Cuidado, pois a beleza não dura para sempre. Há coisas que você só pode ter agora e outras que só pode ter mais para frente. O passado não respeita o seu espaço e está presente. Só promete tomar cuidado para não perder seus motivos para sorrir. Não temos garantias de que o arrependimento não vai nos engolir. Somos apenas humanos contraditórios, complexos e incalculavelmente delicados. Preocupamo-nos com o futuro enquanto tememos o passado.

Este hábito envelhecido, nunca esquecido, é o que me faz ter a ousadia de buscar tudo o que eu quero. Não tenho dúvidas de que mereço e com paciência eu espero. Que meus sonhos me encontrem antes do próximo inverno. Desejo ardentemente tudo o que desejava antes. Se a idade é uma ilusão, eu aproveito minhas oportunidades e instantes. Nada me remete e nada se repete. Eu sei que preciso continuar brutalmente sincero e voraz, com meus olhos buscadores e vívidos, para sobreviver. Penso sobre o tempo e tento esquecer o relógio. Se me sinto diferente por dentro, posso existir fora do óbvio? O senso comum não me interessa. Anuir por praticidade, aceitar o pragmatismo de quem já perdeu a identidade, isso tudo me estressa. Se há só a jornada, meu objetivo deveria ser eu mesmo. Será que penso tanto em mim quanto deveriam ou ainda me devo? Será que tenho vivido sob as leis dos outros e esquecido o que tanto almejo? Já quase não penso sobre vitórias e derrotas, mas intuitivamente sei.

Não sonhar é perder.

Não escrever é perder.

Não ler é perder.

Desistir
de mim                                                                                                                                              é perder

E estou necessitado de uma vitória para acreditar mais uma vez.               

A história oculta

a história oculta
alguns detalhes
foi na cidade de Tebas
que teu olhar me fez
pedra
este episódio
ocorreu há milênios
quando tu era guerreira
e eu ainda era gênio
antes de me saber
ignorante
mil anos se passaram e
crescia a fome do meu desejo
tantas vezes me reencarnaram
sempre longe dos teus beijos
pisca rápido
olha
linha
pesca rápido
isca
até que um dia
agora
morde
sê minha
sem demora
a língua revela
alguns detalhes
complexos
exploro o teu corpo
completo
jorramos em uma explosão
simultânea
somos dois, porém um
crime perfeito incomum
a perícia oculta
alguns detalhes
repugnantes
cuspe,
esperma,
suor e
sangue
ninguém sabe
o que nunca perguntou
tudo é muito, não cabe
amar demais é
desamor
quem nunca se aprendeu
na madrugada se esquece
ontem, abril, natal,
no final enlouquece
nem os pintores são
exatamente o que pintam
você conhece o golpe do Machado
o interno não aguenta tinta
segue-me com os olhos
ora para que se quebre este meu espelho
eu tenho notado
querem-me de joelhos
dei tudo o que pude,
só não pude ir além
o querer ser quem se é, Paulo,
nunca nos deixa bem
tenho mostrado meu
rosto
tenho sido o fulgor
na noite escura
entretanto,
este meu brilho eterno
não dura
apaga-se a memória,
as lembranças,
esperanças,
dançamos a última vez
antes do estrago
se aproxima e me usa
medusa
empedernido
te espero em desespero
aceso como uma chama
me oferece teu corpo
mente que me ama
a gravida oculta
alguns detalhes
iludimo-nos com o voo,
mas estamos presos à regra
até a nossa rebeldia
é frágil e quebra
seguimos fixados ao chão,
escravos patéticos do coração
eu oculto
alguns detalhes
tenho insistido em
amar um mundo
que pretende me odiar
internamente só há uma verdade
um dia vou para nunca mais voltar
uma noite dessas durmo
sem a intenção de acordar
sorrio triste e resignado
antevejo o futuro e relembro o passado
a história oculta alguns detalhes
noutra tarde infinita
se reencontrarão os nossos
olhares.

Gentil

            Maria suspirou e repousou as mãos nos joelhos. Estava ofegante, faminta e exausta, afinal, há quantos dias estava andando? Não sabia dizer ao certo. Estava se sentindo entorpecida e tentava se lembrar melhor das coisas. Tinha convicção de que estava brincando com Gentil no quintal antes de estar aqui, embora não soubesse onde era aqui. Maria levou a mão destra até o pingente na corrente que carregava no pescoço e sentiu um conforto familiar ao apertar o pequeno objeto. Estava tudo bem. O colar era um lembrete para seguir em frente em face das dificuldades, um amuleto da sorte, pois só os tolos não reconheciam a importância da sorte. Ela pressentia que Gentil estava vivo e a clareza de sua objetividade era absolutamente ingênua e inexplicável. Só voltaria acompanhada de seu coelho branco e cinza. Maria sorriu. Gentil era gentil, como bem dizia o seu nome, mas era ainda delicado e afável. Tinha olhos amendoados e escuros, como aquele chocolate de uma marca específica da qual não recordava o nome. O seu coelho não era como os coelhos brancos de olhos vermelhos das canções infantis, aliás, a garota sentia que havia uma espécie de conspiração silenciosa entre os coelhos brancos, como se eles não suportassem a presença dos demais animais e até de seus coelhos semelhantes, mesmo que no final das contas todos defecassem bolinhas marrons com a estética de cereal matinal. Havia algo de suspeito nos olhos verdes que se tornavam vermelhos apenas para se tornarem azuis no instante seguinte.

            Maria dava longas e deliciosas gargalhadas quando via Gentil saindo dos buracos que ele cavava no quintal. O coelho, como se a entendesse, fitava-a, sério, mas voltava aos buracos, como quem buscasse novos motivos para se sujar e para fazer a doce Maria sorrir. A menina geralmente acompanhava as peripécias do roedor com uma alegria admirável e com aplausos contidos, como se fosse uma lady que vivera séculos antes. Subitamente a felicidade de Maria era interrompida por um acesso de tosses fortes e contrações pesadas no estômago. Arfava com dificuldades e esperava, sempre com um otimismo marcante, que a crise passasse. Os médicos falhavam em diagnosticar qual seria a doença de Maria, porém, ela não os odiava por isso. Sabia que suas duas irmãs sonhavam com a sua cura, mas havia perdoado o mundo todo por antecipação, mesmo quando o mundo falhava tão feio às vezes. Maria sabia que o mundo não acertava com todas as pessoas e que nem mesmo a religião, fuga óbvia dos ingênuos, continha respostas para tanta dor. Em regra todas as promessas mundanas visavam conter o dano. Maria não ficou brava com Gentil quando ele entrou por um buraco e apareceu fora do jardim de sua casa, perto da rua onde passavam os carros. Ela apenas sentiu uma pontada de medo. Os veículos eram perigosos, pois as pessoas estavam sempre apressadas. Maria então se esgueirou pela parte mais baixa do muro e agradeceu pela sorte de conseguir acompanhar o seu amigo. Era mais uma aventura dos dois. Queria abraçar o coelho e sentir, a partir dos pelos quentinhos em contato com o corpo, a renovação da paz com tudo. Queria que em seu coração aflorassem apenas bons sentimentos.

            Maria não entendia para onde Gentil queria ir. Eles sempre haviam sido tão felizes naquele quintal e naquela casa; havia ali mais vida e amor do que em tantos outros lares ao redor do planeta. Como era a vida daqueles que não tinham um lar assim? Gentil, entretanto, desfrutava deste privilégio. A garota suspirou. Era verdade que Maria queria compreender seu coelho, mas se resignava em aceitar sua decisão, pois às vezes amar significava confiar absolutamente, mesmo sem ver. Gentil não tinha pena de Maria. Sempre a fitava fixamente, olhos com olhos, como dois iguais. Obviamente, por ter polegares e mãos, às vezes Maria limpava os vegetais e legumes na cozinha e levava até Gentil. Os dois comiam juntos, partilhavam a refeição e nunca pareciam satisfeitos. A hora da refeição era um momento de intimidade compartilhada entre aqueles dois amigos. Se havia alimentos, eles estavam ainda comendo, até que não restasse nada. Mastigavam pacientemente, prestando atenção em cada mordida, como se nunca tivessem um compromisso posterior. Maria riu com o comentário de alguém que uma vez lhe disse que ela seria o orgulho da nutricionista futuramente. Não sabia o que isso queria dizer, entretanto, o gesto muscular do sorriso, o conforto quente que provinha da ternura, aquele tanto de amor fazia com que Maria sorrisse por reflexo. Corresponder ao amor verdadeiro quando se ama de volta é apenas um reflexo do corpo, como um espirro. Amar e ser correspondido é uma ação involuntária e uma grande sorte. Maria se flagrava feliz diante dos elogios e repetia mentalmente a palavra “nutricionista”. Sorria exultante e cantarolava baixo, ainda que desconhecesse o significado daquelas lisonjas.

            Maria sentiu a areia entre os dedos e subitamente se assustou. Toda sensação nova potencialmente era aterrorizante, mas só nos primeiros minutos. Respirou fundo e sentiu a brisa em seus cabelos; o chão se desfazendo em grãos microscópicos sob os pés. Sentiu uma tranquilidade enorme e envolvente percorrendo sua corrente sanguínea. Estava satisfeita. Tudo era azul, pacífico e de repente seus ouvidos captaram algo a se quebrar, mas era diferente do vidro ou da porcelana. O reflexo de Maria não foi tapar as orelhas e sim buscar a origem dos sons. O que se quebrava continuamente eram as ondas e ela se lembrou que um dia alguém havia lhe dito que havia uma piscina imensa, quase infinita, feita apenas de água salgada. Sentiu uma vontade de beber a onda, de molhar os cabelos, de se entregar ao que era novo. Também haviam lhe dito que ao anoitecer, este oceano ou mar, refletia o céu e fazia uma imitação das estrelas. Maria estava com sede e a curiosidade fez com que ela avançasse mais um passo na direção do mar. Instintivamente olhou para o sol e perdeu a visão por um instante. Tudo se ofuscou. Piscou forte então para que as cores sumissem e. Gentil estava na areia branca também, mas distante o bastante para que ela sentisse um aperto no coração. Queria o seu coelhinho o quanto antes. Alguém outra vez disse que só o amor não bastava, porém, se nem o amor era uma garantia, o que seria? Sentiu um aperto no peito. Precisava de Gentil. Gritou-lhe e disparou o mais rápido que podia em sua direção. O roedor esperou pacientemente, mas quando Maria estava perto de o alcançar, ele saiu saltitando em alta velocidade para longe dela.

            Maria oscilava entre a frustração e o entusiasmo. Acreditava que o coelho estava apenas brincando com ela, afinal, essa era a eterna dinâmica deles. Corriam e corriam, brincavam e brincavam, comiam lentamente os vegetais, legumes e frutas, os orgulhos da nutricionista, ela pensava na palavra e ria com graciosidade antes de apagar em um sono acolhedor e profundo. Nunca sabia o que Gentil fazia após ela dormir, entretanto, o júbilo que sentia era inenarrável ao despertar. Quando abria vagarosamente os olhos, ela via Gentil repousando ao seu lado. Será que os coelhos dormiam? Maria não tinha certeza. Sempre que abria os olhos, ela evita com maestria produzir qualquer barulho, entretanto, o coelho a observava, como se só estivesse esperando que a pequena acordasse. Maria se indagava sobre há quanto tempo Gentil fazia parte de sua vida e se perdeu em lapsos fugazes de memórias confusas. Tinha oito anos, mas tinha doze, vinte, trinta e quatro, cinquenta e um, sessenta e nove, oitenta e dois. Havia acabado de nascer, de se formar, de se casar, de se arrepender, de ser feliz. Queria conectar as pessoas, queria desaparecer, queria ter mais amigos, queria ser mais sozinha, queria saber o que fazer, queria não ter que fazer coisa alguma. Tudo era vago, confuso e sombrio. Esta sensação lhe apavorava e Maria concluiu que pensar nessas coisas não levavam a lugar nenhum. Concluiu que precisava se concentrar em Gentil. A situação era séria e a garota não podia continuar correndo para sempre, a barriga doía, a garganta doía, a tosse estava pronta a lhe atormentar, assim, ela resolveu gritar o nome completo de seu camarada. Senhor Garboso Gentil, ela berrou, ao que o coelho parou novamente, como quem a esperaria. Estava no topo de uma colina verdejante e não se moveu. Se Gentil disparasse colina abaixo, ele poderia despistar Maria para todo o sempre. O roedor não se mexeu e dessa vez esperou a menina, que, enfim, o alcançou. Ela se postou de cócoras e afagou o pequeno corpo do coelho, curando-se de todos os males e angústias. Quando ergueu a cabeça, a garota se deparou com um belíssimo campo florido. Era a coisa mais bonita que ela já tinha visto em toda sua vida. Voltou os olhos ao coelho e pensou que, na verdade, o coelho era a coisa mais bonita e as flores vinham depois. Há coisas que transcendem o tempo. Há amizades que transcendem os mundos e as cronologias. Havia, afinal, um fato improvável: Gentil e Maria eram amigos ontem, hoje e seriam amigos para sempre. Os olhos dela se encheram de lágrimas, mas eram lágrimas da mais pura alegria. O coelho estava com os olhos marejados também, mas a menina não notou. Gentil deu dois saltos curtos para o lado, como uma espécie de sinal e a encarou solenemente. De alguma forma a garota entendeu que voltariam com a brincadeira. Agora ele desceria na direção das flores e ela o seguiria. Estava tudo bem. Correriam e correriam, brincariam e brincariam e, após isso, comeriam os vegetais, as frutas e os legumes e em algum lugar alguém diria que são os orgulhos da nutricionista.

            Gentil partiu em alta velocidade e Maria correu atrás dele. Não sabia explicar, mas respirava melhor e corria mais rápido. Gentil acelerava mais e mais e ela o seguia, acompanhava-o perfeitamente em corridas repletas de curvas acentuadas e saltos. Nunca mais tossiria. As flores exalavam um perfume doce e inebriante. Nunca mais sentiria dores. Seus músculos pareciam alegres com o esforço da corrida. Nunca mais haveria o desconforto chato de tantas ausências. Tudo o que perdemos é para a eternidade, até o dia do reencontro. Gentil continuava em uma corrida alucinada e Maria no seu encalço. Os dois corriam sem descanso, sem hesitação, sem remorsos. Correr era viver e viver era correr. Gentil Garboso era tão veloz que era quase inacreditável, mas a outra o seguia contente, em toda a glória de suas quatro patas. Dois coelhos corriam e brincavam incessantemente pelos campos de flores coloridos produzindo nuvens de poeira por onde passavam. Dois coelhos estavam destinados a correrem juntos para sempre, pois eram amigos pela eternidade e esperavam juntos para roerem rúculas e cenouras.

Queria ser como os anjos

Eu me lembro que disse uma vez que queria ser como os anjos. Queria poder fazer o bem secretamente, pois a mídia, a repercussão e a recompensa nunca me interessaram. Quem me olhava de fora via silêncios e quem convivia de perto conhecia a profusão do meu barulho.

Era estranho me saber estranho e carregar um orgulho tosco em ser estranho. Sim, os outros, não tão alheios quanto eu, rotulavam-me de estranho e creio que o que queriam fazer ao me adjetivar era, na realidade, desmotivar-me. Calado e discreto, eu sorria, inconformado ou contente, eu não podia negar aquele lampejo de alegria que me fazia acreditar que eu era diferente.

Eu me lembro que disse uma vez que não tinha interesse em ser como os outros e me disseram que me faltava ambição. Seus sonhos são muito poucos e você se alimenta constantemente de uma ilusão. Mora na ilusão. As palavras áridas que recebi me feriram, mas não foram o fim do meu caminho. Aprenderia que confiar no meu coração era o melhor jeito para nunca me sentir sozinho.

A solidão, confesso-lhes, não me assustava, por ter essa mania intrépida de querer me conhecer internamente. Se a Terra orbitava ao redor do Sol e simultaneamente girava em torno de si mesma, quem é que me convenceria que eu não poderia construir o mundo que urgia dentro de mim?

Assim, criei-me como ficcionista, por ser amante da realidade e simultaneamente avesso a ela. Era excelente em mentir, embora fosse o mais verdadeiro. Raramente era até o lobo na pele do cordeiro. Condenado por ser inconstante, satisfeito por me sentir inteiro. Como é que sou humano e me sinto tão estrangeiro?

Tenho sido espontâneo a minha vida inteira, até por isso ninguém me enxerga como sou, por ter eu mesmo ostentado meus tantos fracassos. Tenho narrado epopeias de amor e sucumbido para o meu cansaço. Às vezes esse tanto de dor, faz-me querer fugir para o meu próprio Tempo-Espaço.

Eu me lembro que disse uma vez que queria ser como os anjos e hoje não tenho mais certeza que os anjos existem.

A Renúncia de personalidade.

Ter a personalidade e não abrir mão dela é exigir-se em demasia? Se porventura me forçarem a acreditar que realmente devo abrir mão de mim, ainda que eu esteja cônscio que todo disfarce é inútil, o que restará meu em mim?

Penso no escuro, onde nada vejo, longe dos santos e criminosos, longe do que me ensina a experiência, apenas para que eu possa ver claramente além das situações complicadas. Há vezes que me odeio pela insistência, entretanto, aprendi que a razão superior não deve se sobrepor à razão inferior, assim, insisto no que é preciso, afinal, fazer-nos a nós mesmos é a tarefa, não?

A noção de pertencimento é, em regra, perturbadora, principalmente para quem nunca pertenceu. Há pessoas que comumente elegem ídolos, elevam pessoas até patamares divinos, mesmo que a atenção recebida seja só uma consequência de outra atenção não recebida. Quando dois solitários se unem, abraçam-se e sonham longe com o fim do pesadelo de existir sozinho, entretanto, utilizar-se de outrem para findar a solidão, quando não se tem mais ninguém para contar, é mesmo assim tão valoroso? Calar a personalidade não traduz o emudecimento da alma? Só me arrependi de não ter sido mais eu antes. Se renunciamos o que somos, o que resta de nós? Se abdico de ser quem sou, o que, enfim, torno-me?

Diminuir-me para que os outros se sintam grandes é inadequado. Apagar a minha luz não fará com que os outros brilhem mais. É importante reconhecer quando erro para que possa me desculpar, mas é raso se desculpar em todos os momentos apenas para evitar o conflito. O orgulho é importante quando não é venenoso. Os perdões são gestos imensos, quando sinceros. Quem não sabe perdoar só aprendeu coisas pequenas.

Há centenas de desculpas frágeis e perdões falsos. O tom de voz muda, a necessidade da presença, os pretextos, entretanto, tudo é límpido, absolutamente claro para quem está habituado a ver o mundo. Não posso me sujeitar a isso. Cumpro meus deveres de amigo, ainda que talvez só reconheçam o valor da minha amizade décadas depois. A covardia não me veste e digo o que tenho que dizer, mesmo que erre na forma. A grande ironia de ser verdadeiro é ser execrado por quem não me iguala em verdades. Fui sincero, de todo o coração e há um número notável de pessoas que nunca se recuperaram das injustiças que cometeram comigo.

Pulamos etapas, metaforicamente, quando aumentamos o salário, quando saltamos de estágios na vida, iludindo-nos com a sensação de que somos mais do que somos e de que furamos a ordem cronológica de existência. No fundo continuamos realmente jovens, minuciosos e delicados. Lá para dentro, devagar e longe, a maioria carrega um vasto leque de puerilidades. A maioria não move um dedo para resolver uma desavença ou um conflito, porém esbravejam sobre como tudo é incerto e errado. Apontam os dedos julgando as inconsistências alheias, ignorando todas as próprias. Não, meu caríssimo Jean, nós não nos alcançamos nunca. Eu nunca fui culpado pelos problemas que você tinha aí dentro e nunca teve a coragem de externar.

A ilusão da evolução pelo avanço dessas ditas etapas é notório e muitos se perdem. É como se tivessem desvendado uma espécie de fórmula de desvendar a vida, eu sei, ingenuidade, mas e daí? Mera mudança não é crescimento. Uma mudança real, dura, verdadeira, exige continuidade e aprendi que sem continuidade não há crescimento. Perdoei todos os que me foderam e sinto que concluí a tarefa mais difícil de aprender a me perdoar pelos meus erros. Nunca caminhei longe da humildade e entoei em voz alta tudo o que um dia me feriu. Nunca carreguei mágoas e a ironia é que alguns nunca se recuperaram das injustiças que cometeram comigo.

Por vezes penso que nasci do avesso, cresci ao contrário e me guiei por incertos instintos cósmicos. Era velho na infância e me sinto rejuvenescer com o decorrer dos tantos anos perdidos. Seria eu uma criatura interplanetária perdida na Terra? Foi em uma manhã de março que vim ao mundo para lidar, dia após dia, com despedidas. Nunca me esqueço de que um dia partirei também. A maioria sobrevive hostil, vil, sem memórias ou lembranças. Queria antever o dia da morte para sorrir em uma última dança.

Tudo em mim é muito por pouco tempo, mas me percebo expandir de maneira extravagante, ilimitada, lépida. Quase tudo me interessa, ainda que seja apenas por alguns dias ou meses e noto que a prolixidade dos meus sentidos contradiz minhas atitudes sucintas. Fito o rosto que tinha antes da criação do Universo e sinto urgência de alimentar a minha alma. Posso desapontar desconhecidos, porém avanço passo-a-passo em direção a mim, encontrando o que sou e significo.

Tenho sentido uma evolução, estou mais saudável, mais imperfeito, mais humano. Não posso aceitar tudo e não vou. Não posso concordar com tudo e não vou. Existo para as pessoas que amo, porém, é preciso me recordar de que eu sou uma delas, sim, amo-me primeiro como se o amor pudesse garantir a minha sobrevivência. Amo-me primeiro e não me ajoelho, pois o amor é a minha essência.

Bem, Gunnever, Aurum B, September, todos os filhos de fantasias e ficções, sim, vocês que traduzem o meu coração nobre, bom, eu talvez insista em vocês tanto quanto tenho insistido em mim. Se sou humano o suficiente para conhecer meus limites e humilde o suficiente para me arrepender e me desculpar, se sou objetivo e resolvo meus conflitos, ainda que não resolvam comigo, o que carrego para me arrepender? Nada! Não, daqui em diante vou, outra vez sem arrependimentos.

Ter a personalidade e não abrir mão dela é exigir-se em demasia? Se porventura me forçarem a acreditar que realmente devo abrir mão de mim, ainda que eu esteja cônscio que todo disfarce é inútil, o que restará meu em mim?

Estou lúcido e consciente, não posso me destratar, não posso estender tapetes. Sei que não basta ser amigável. É preciso ser amigo. Sei que não basta ouvir. É preciso falar. Há silêncios que envenenam e segredos demasiadamente grandes sufocam. Não estou mais paralisado por meus medos. Outra vez me flagro a disparar verdades pelas pontas dos dedos.

Mudo devagar e de forma contínua por compreender que a repetição reforça a missão. Ando distraído, porém não me perco entre as estrelas, mas amo os planetas e a lua; não me desoriento buscando dentro dos aviões o meu propósito de vida. Morro de pena de quem nunca conheceu o seu lugar. Cada dia é uma cena eterna para quem não sabe perdoar. A vida em si é meu propósito e me sinto grato por notar. Sobre a vida e a morte, a saúde, a sorte, eu não tenho respostas, mas estaco e respiro enquanto admiro essa velha cidade.

Renuncio o Universo, mas não abro mão da minha personalidade.



Uma noite qualquer.

Foi em uma noite qualquer, quando ela bateu na porta de minha casa. Eu, míope, mas com olhos suficientemente bons, reconheci sua forma e a sua voz, desentendo a lógica da aparição. O amor quando verdadeiro é insensato. Eu não precisava da lógica. Instintivamente, eu sabia. Era ela, inequivocamente era, pois eu havia memorizado até mesmo o jeito de se insinuar. Escutei mais três batidas em uma insistência atípica, fiz-me surdo e perguntei mais de uma vez, apenas para avaliar a minha própria sanidade. Ela respondeu sem titubear.

– Meu bem, você é feliz há tantos dias consecutivos. Tenho convicção de que sentiu a minha falta. Não vai me deixar entrar?

Respirei fundo, enchi-me de coragem para falar o que ela merecia ouvir, tudo o que estava sufocado, preso estreito dentro do peito, mas me flagrei diante da porta e minha mão destra a abriu. Ninguém me conhecia tão bem. O que mais eu poderia fazer? Prometi que lançaria um olhar gélido, mas ela viu que meus olhos estavam impregnados de saudade. Avancei quase contente por reconhecer a Tristeza e sorri triste tendo um vislumbre de que os olhos dela também estavam marejados. Dei o meu sorriso mais acolhedor e pedi para que se sentasse enquanto eu fazia o café. Ela me fitou com mistério, como se fosse me contar algo, eu não perguntei, pois aquilo podia ficar para depois. Só quando enchi as duas xícaras, notei que ainda estava sozinho e havia servido café para dois.

Saiba ser sozinho e adote um animal.

Eu me peguei refletindo sobre a persistência, sobre uma vontade insistente de agir e ser diferente, de não sucumbir diante das mazelas mundanas e concluí que não sabia se tinha esse tipo de força. Você sabe reconhecer suas fraquezas? Li ainda hoje na internet alguém dizer que sofreu centenas de traições e me imaginei assim tão traído. Acho que, se fosse o meu caso, eu me fecharia para todos e escolheria a solidão absoluta, em ordem de me manter seguro, sem me tornar ríspido, sem correr o risco de descontar as minhas frustrações nos outros. Nunca fui traído nos romances que tive e tampouco traí, assim, localizo-me distante deste local de fala, ainda assim, penso-me traído e nas traições que nunca foram e essa ira muda que sinto brevemente me leva para longe.

Os corações sensíveis assim o são, viciados na melancolia, acostumados com a voracidade alheia que contrasta com a paciência serena. Pessoas assim, tão furiosamente delicadas, não raramente são testadas, como se o ato único da vida, esse viver cotidiano, zombasse incessantemente da nossa fibra e nos guiasse para um hedonismo como solução geral. Se me permito a acreditar que devo viver a vida somente pelos prazeres, ignorando todo o resto, eu estou fatalmente perdido. Custam a aceitar, mas há muito mais envolvido. Quando criança e adolescente presenciei muitas traições, umas tantas ocorriam no ambiente familiar, envolvendo o que acontecia na minha própria casa ou nas casas dos meus amigos. Não tanto depois vi esses mesmos amigos copiando o comportamento de seus pais e dando sequência a um ciclo potencialmente infinito. Furioso e frágil, eu bravejava que escreveria minha história diferente. Não falhei, pelo menos não ainda e admito que por vezes não sei de onde tirei forças para ser exatamente quem eu sou. Não subestime a capacidade de ser autêntico. Ser exige esforço e persistência, pois é preciso ser continuamente. Ser é, sobretudo, navegar contra a maré e ter a consciência de si. Aos dezessete, certa feita, minha mãe me olhou e disse que eu estava me tornando um homem incrível e lindo. Aquelas palavras, poucas, retas e sinceras, foram suficientes e me serviram como combustível para que continuasse no caminho para ser alguém de quem eu sempre me orgulhasse, mas e se as pessoas que mais amo de repente me traíssem? E se o punhal ensanguentado removido de mim pudesse ter sido a arma de alguém que adoro? O que seria do Daniel nos dias de hoje?

Para ser honesto, eu não sei o que me seria e nem a minha argúcia intelectual pode de verdade prever uma realidade alternativa. Só o que foi realmente foi e todas as outras possibilidades morreram. A dualidade é incômoda e estranha. Fui e sou correto, sem exigir da vida recompensas, porém nunca esperei que houvesse tanta punição. Sim, se você for como eu, um maldito certinho, muitas vezes se sentiu mal por estar fazendo o bem, pois parece que agir direito é digno de castigo. Acho que é por essas e outras que tanto acabam cedendo aos tantos perigos ou sedentos pelos perigos. Eu até brincaria com fogo, entretanto, jamais incendiaria a casa. Sou o último acordado antes dos outros dormirem por sentir o dever de zelar pelos que convivem comigo. Tudo é vago e longe. Acreditava no Amor romântico e eterno e nas Amizades românticas e eternas, até que me dissuadiram destas crenças. Necessitei de quase três anos para, enfim, recuperá-las, mas não foi nada fácil. A vida nos testa ao contrário.

Um dos grandes amigos que tive, uma vez, veio se gabar de uma mulher com quem havia transado. Eu o confrontei, sem dar bola para o assunto e o indaguei sobre o motivo de ter feito algo assim sendo que namorava com outra. O resultado desta satisfação foi catastrófico. Fui eu acusado de ser traíra, afastado do meu grupo de amigos e colocado em isolamento, apenas por não ser conivente com algo que nunca poderia tolerar. Passei anos com pouquíssimos amigos por ter a coragem do embate e meu prêmio foi a retaliação. A pior parte é que eu sentia falta desse meu amigo, ainda que não reconhecesse nele valor moral. Quem nunca deu um “foda-se” para a moral? Como dizia Victor Hugo, “que sejam maus e inconsequentes, mas corajosos e fiéis“. Ele era inconsequente e custo a utilizar a palavra “mau”, porém era covarde e não havia fidelidade dele aos amigos ou aos amores. Sofri pelo afastamento, sim, mais do que eu gostaria de admitir. Tantas horas compartilhadas e eu havia perdido o meu amigo para os meus próprios valores. É muito nesta vida questionar a veracidade de outros amores? Sim e não, entretanto, se alguém que amo passa dos limites, não estou obrigado de forma tácita a me posicionar? Se me silencio diante do errado, vejo-me conivente e aprendi há anos que há silêncios que envenenam. Quando quase havia me convencido de que ser duro, mesmo com as coisas certas, sempre nos afastava das pessoas, a vida finalmente me deu amigos novos, amigos significativamente melhores. Com esses novos eu poderia ser sincero sem correr o risco de que facilmente se ofendessem. Quem exige não se importa em ser exigido e com os meus novos amigos eu poderia esperar um caráter férreo em retribuição. Com essas novas pessoas que apareceram os conselhos eram verdadeiros e entravam direto no coração.

Antes disso, entretanto, aprendi a acreditar na solidão. Se há solidões maléficas, depressivas e sufocantes, há solidões largas, espaçosas, onde se encaixam todos os mundos com seus respectivos países, cidades e praças. Aprendi a acreditar no trabalho, embora não tenha me sentido mais digno. Eu, sempre sensível em escutar os outros, aprendi a escutar os meus silêncios e a amar os meus barulhos. Sem o grande afastamento, eu jamais teria amadurecido tanto. Fazia as coisas da maneira correta por instinto e me esticava para a compreensão alheia por ser empático, entretanto, só após ficar completamente solitário é que me entendi e se entender representa um passo importante para tentar entender a sociedade que me cerca. Não posso me considerar exceção de coisa alguma, se sou tão humano quanto os outros, mas quanto mais você vive e vê, mais chances surgem de encontrar pessoas que valham mais que o ouro. Aguardo o fim do expediente pensando nessas pessoas, outrora tão distantes ao ponto de serem inexistentes em imaginação, hoje tão próximas que posso as encontrar em algumas horas. Toda essa noção é estrangeira e confusa e sofro, porém, imagino-me feliz em breve ao chegar no meu próximo destino e, enfim, encontrar-me com pessoas que me tornam mais alegre e me tornam ainda mais efusivo, apenas por existir. Abraço-os ou aperto suas mãos e os nossos sorrisos são luminescentes. Sim, eu os amo e sou amado de volta. Ouvi muitas vezes sobre o quanto sou importante como amigo, filho, namorado e isso nunca fica enjoativo. Respiro essas tantas palavras e me sinto bem. As palavras e os gestos são, em regra, o único conforto.

A solidão de Dourados ensinou a mim tudo. A fábrica de tratores, os céus laranjas ou rosados, a poeira vermelha, o coelho branco perto do supermercado, a BR-163, a jornada de trabalho, tudo isso se consolidou em mim como uma amálgama de coisas inúteis dotadas de uma importância celestial. Numa tarde, naquele posto de rodovia, a abelha gigante que sobrevoava o meu energético venceu. Não sei se faria tão bem para seu corpo diminuto o energético e imaginei que o coração fosse uma coisa insignificante, mas a abelha bebeu e depois disparou rumo ao desconhecido, mostrando-me sua coragem selvagem, provando meu erro. Aquele coração suportava mais do que eu supunha. Eu nada entendia de abelhas. O Nada ensina muito sobre o Tudo. Só o silêncio que traz sentido aos barulhos. E então eu absorvia da vida a própria vida e me preparava para algo que não sabia. Acumulei decepções e fui o príncipe de horas sombrias e me vi esquecido e distante. Nas sextas e sábados e domingos eu trabalhava. Todo o resto fumava, bebia e fodia. Eu era o único esquecido pela humanidade e longe do que me fazia humano, eu me reinventava do zero, como se tivesse acabado de nascer ali. Busquei não me ressentir com os outros, pois eventualmente seriam eles isolados e eu me divertindo. Quem nunca pôde viver um período de isolamento não tem sequer um parâmetro mínimo, básico, para o autoconhecimento. A solidão nos ensina a buscar nós mesmos, conhecer essas pequenas e preciosas coisas que revelam nosso propósito de vida. Fui talhado por essas noites infinitas e vivi o sábado sem fim. Só por ser só é que ainda tenho todos os sonhos do mundo em mim. Por vezes, ainda que quatro anos tenham se passado, eu fecho os olhos e me enxergo preso naquele sábado dolorido.

Olhos fechados. Imersão. É sábado novamente, 2018. O que eu posso fazer além de ficar recluso? Ir na pizzaria? Entrar em uma festa como penetra? Não, eu não conheço ninguém nessa cidade. Sou muito afável e polido para as zonas; muito direto para o romance, muito tímido para fazer amizades e estou cansado de ser engando por mulheres nos aplicativos. Só eu sou quem sou e mais ninguém é quem deveria ser. Tantos questionamentos sem respostas e um bafo de morte me seduz dizendo que tudo se iguala e que um dia virarei pó. Eu, resignado com a solidão, devo aproveitar então a condição de ser só? Como se aproveitar se a solidão é assustadora? Tenho medo de mim ou do que não conheço ainda? Eu preciso acordar. Eu preciso me acordar. Alguém me sacuda agora. Eu quero muito sair daqui. Tanto faz Campo Grande ou Paris. Eu quero qualquer cidade que não seja essa e qualquer dia que não seja sábado. Alguém me acorda longe. Emersão. Olhos fechados.

Quatro anos depois e me vejo lá naquele passado sem ter a menor noção de mim. O sábado infinito vive a uma janela do presente. Eu vivia em automatismos, quase robô de mim mesmo, com ações previsíveis e espelhadas. Nessa época, havia uma moça do supermercado que sorria para mim e só um ou dois anos depois percebi. Um jovem vagaroso, descuidado e inocente. Ela queria ser convidada para sair, porque aquele sorriso era exclusivo, íntimo e intransferível. Eu, ingênuo de tudo, confundia com uma simpatia natural, mas só em uma epifania notei que ela nunca sorria para os outros. Tudo o que não soube naquelas tardes, eu aprendi depois. Assim vai a vida. Acontece o tempo inteiro, mesmo quando não percebemos. Por vezes até supomos perceber e a ignoramos. Tudo é real, às vezes, até algumas mentiras e é preciso tomar cuidado com o que ensombra e é, na realidade, armadilha. Não é toda sombra de árvore que oferece descanso. Respiro e fecho os olhos. A fúria cessa e me sinto manso.

Se é na ausência que se percebe as tantas nuances da falta de alguém, pergunto-lhes, como é tão comum que nos relacionamentos distantes ocorram tantas traições? Como alguém, ao perceber extenuada a falta de outrem, preenche-se de coragem e consegue trair alguém? Vileza cruel e sombria! É por isso que me criei contra os relacionamentos ao longe, por ver neles a maior possibilidade de imaginação e amor, até se provarem mais venenosos do que a maioria. Cumprem a falta de um em qualquer outro e essa astúcia estética me soa perniciosa. Odeio os relacionamentos ao longe por deduzir que se encerrarão em dor e sofrimento. Se o amor precisa tanto de presença, crer na distância faz a diferença? Estamos apostando no desconhecido a nossa fé cega ou isso é outra coisa? Não entendo agora, portanto, não me meto. É mentira que cada um sabe o que faz, mas é verdade que geralmente não devemos meter o dedo. O que fazer para os esforços se revelarem válidos? Como conseguir a astúcia de tentar de novo após acumular tantos revezes? Como se regozijar com a memória de tantos fracassos? Respiro e medito. Há partes que entendo e repenso. Há partes que ainda não entendo e faço as pazes com o desconhecimento. Quem sabe daqui uma década eu seja sábio o bastante? Vou perder para a vida, mas pretendo existir longe.

Aprendi que a minha linguagem do amor é o tempo de qualidade, assim, esforço-me ao máximo para estar presente e ser uma boa companhia na vida das pessoas que me cercam. Todo o restante perde o encanto quando estão longe de mim ou quando, por algum motivo, estão presentes e simultaneamente distantes. A presença física, quando não acompanhada de sintonia emocional, pode ser nula. Não posso me acostumar a ser ignorado, principalmente quando, vez ou outra, sinto a latente necessidade de ser visto. Que fazer de mim quando quem me ama se esquece que eu existo? Respiro e medito. Persisto? Penso a vida inteira e encontro paz, mesmo que não encontre respostas. Cogito a condição de solidão para afiar meus pensamentos e afinar meus conhecimentos. Será que sozinho entenderia parte dessas tantas coisas que me escapam? Por vezes desejo ficar sozinho e me parece que o mundo se ofende, como se eu não tivesse direito de me pertencer. Sou mais dos outros do que meu? Sou overthinker por natureza e se não tento compreender, os pensamentos me matam (ou tentam). Tenho a impressão de que vim falar de sensibilidade e de que acabei por narrar tudo sobre a solidão, mas lhes pergunto: não seria a sensibilidade uma característica marcante de quem aprendeu a conhecer a solidão? Quem nunca se conhece corre o risco de viver fugindo de si mesmo, porém nossos pensamentos são mais rápidos que nós e nos alcançam. O que fazer para não viver eternamente sem esperanças?

“Conhece-te a ti mesmo”, disse Sócrates. “Se só me faltassem os outros, vá; um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mas falto eu mesmo, e esta lacuna é tudo”, como neste relato agudo de Machado de Assis em Dom Casmurro. Aprendemo-nos sozinhos? Interlúdio e respiração ofegante e difícil. O peso ou a leveza? Não sei ainda. Meço meus desejos e posteriormente meus sonhos. Como li anteontem, “nossos sonhos merecem nossa disciplina”. Como tantas vezes falho até nas próximas rimas? Os meus romances aguardam mais palavras e mais coragem. A vida pungente quer me mostrar algo. O que estou deixando escapar? Não tenho convivido o bastante comigo mesmo. Estou sempre claudicante, exausto e queria me deitar em uma banheira de gelo, para restaurar meu corpo. Poderia o gelo restaurar também a minha mente? Qualquer detalhe faria a minha vida diferente. Que sejamos ocultos a quem é alheio e que toda a honestidade do mundo fira os outros, entretanto, quando se olhar no espelho nas manhãs, você deve dizer a si mesmo o que deseja, sem se avexar ou enrubescer. A vida exige que saibamos o que queremos querer.

Bem, sinto que cheguei ao fim destes relatos e sustento um orgulho tosco, quase vil, em apreciar o meu tempo sozinho. Tenho a impressão insistente de que quem não sabe ser só, simplesmente não se tolera e eu, mais do que me tolerar, aprendi desde cedo a me amar. Quem é que passeia no shopping e não repara nas famílias com filhos pequenos? Quem corre nos parques e não para numa apreciação lenta dos animais? Quem nunca se admirou com o sopro súbito do vento que faz as folhas dançarem? Quem nunca deitou no chão gelado de pedra e contemplou as tantas estrelas no teto do céu? Os meus gatos e o meu cão me ensinam todos os dias sobre a importância das coisas frágeis. Que mais me resta dizer?

Saiba ser sozinho, eu imploro, assim, você nunca correrá o risco de se perder das coisas que são realmente importantes na sua vida. E se não tiver animais de estimação, eu recomendo fortemente que arranje um. Em princípio, você sentirá que precisará cuidar deles, mas a realidade que se prova é avessa. Nossos bichos cuidam mais de nós e nos ensinam em menos tempo muito mais sobre a delicadeza, o carinho e o amor, portanto, enfim, altero a minha sentença final. Retifico-a e digo:

– Saiba ser sozinho e adote um animal!

Meu coração não é meu.

Meu coração não é meu,
embora me pertença desde que nasci
Quando estreei no mundo
já tinha uma identidade estética
O meu rosto aprendi a conhecer porque
crescemos todos cercados por espelhos e reflexos,
Entretanto, busco ainda a face original da alma que tenho
Só quem se desvê realmente se conhece um pouco
É preciso mergulhar fundo para deixar de ser oco
Sou um inútil e me chamam de idiota por acreditar
Eles não sabem que todos somos idiotas, acreditando ou não
Suspiro, deito na pedra e fito o céu sem usar fitas
Analiso a forma de uma nuvem branca
Ela dança e se divide até se dissipar
Existe nuvem que quer chover
como se quisesse chorar
Existe nuvem que vai desaparecer
depois de tanto dançar
Os físicos explicarão o fenômeno segundo suas Leis
Só que não há muitos fisicistas que bailem
Fecho os olhos e enxergo novas coisas
Tudo o que saiu da minha cabeça é meu
Amo os espaços vazios e sou incompreendido
Quando me observavam, ainda criança,
vagando e divagando pelo quintal
sempre se perguntavam: – Que será que está fazendo?
Eu apenas fazia, entendendo-me menos ainda
O que acontece dentro do peito é estreito
Confesso que nunca me soube tão bem
Queria ser convicto de tudo, entretanto, emudeço
Será que os desajustados vão além?
Sou uma espécie de confusão acumulada
prestes a irromper em uma certeza
Se soubesse qual parafuso me falta
eu mesmo me martelava até me consertar
Só que sinto que sei quando algo está com defeito
Reconheço tudo que está quebrado
Eu só estou do meu jeito
E tudo o que não surgiu
da minha mente é estrangeiro,
mas não necessariamente mentira
A única verdade que creio é que o mundo gira
Meu coração não é meu,
embora me pertença desde que nasci
Sou eu tudo o que vi
Sou eu tudo o que vivi
Sou eu ainda tudo o que não sei
Sou eu, enfim,
tudo o que nunca saberei
Este coração que não é meu desaparecerá
no dia que o meu corpo se decompor
Sou inútil a ponto de acreditar, que mesmo morto,
sobreviverão os meus versos de amor.

o jardineiro.

Avancei para averiguar a avenca
Era uma coisinha diminuta, porém bela
Eu especialista nas inutilidades antevi
que poderia crescer por onde e como quisesse
O trabalho do correto é cometer acertos, assim,
pus-me a regar a planta todos os dias
Sorria enquanto a aguava e lhe pedia paciência
É claro que sabia que um dia poderia estar tão alta
que nunca mais olharia para mim
Também estava cônscio de que talvez me esquecesse,
embora no meu peito entendesse que jamais a esqueceria
É estranho que se me marque a violência
Que me recordem através dos impulsos reativos
Justo eu que sempre me ajoelhei para afagar os seres vivos
Eu que deitei meu olhar dócil para o bosque sem fim e
que me vi acocorado e grato por existir
O peso da sensibilidade exacerbada, da empatia, é fatal
Ainda que você melhore a vida dos outros
São poucos que se lembram que você um dia existiu
Que é essa tanta aversão ao costume?
O que é esse cheiro de memória repleto de perfume?
Que faço para recuperar meu antigo lume?
Esqueço-me, sim, essa é a resposta
Estou vivo, mas oco, sem novas apostas
Condenado ao peso de nunca poder me sentir leve
Em sonhos áureos sou feito de sol e neve
Despenco sem a pressão de ser cobrado e não solto o ar
porque, enfim, tornei-me o ar e parti
Sou invisível ou argênteo, astronauta de prata
Interplanetário não impressionável
Contemplo outros mundos e galáxias e estrelas e sonhos
Quando avistares um animal com a cor do cobre
Quiçá se lembrem de um vislumbre do meu coração nobre
que de tanta nobreza constante e dureza férrea
fez lânguido e embriagado o meu corpo outrora forte
A minha vastidão me fazia invencível, porém
a honra me prostrava de joelhos e defronte aos espelhos
chorava pela solidão e sentença de só poder ser eu mesmo
Suspiro profundo no escuro e eu dentro dos eixos
Por que o breu me assusta se é Nele que existe o Amor?
Por que nada me ofusca esse tanto de dor?
Talvez seja a verdade que uns nascem para se cumprir
enquanto outros nascem para assistir
Quem sabe possa me fazer satisfeito
apenas por me reconhecer e me saber imperfeito?
Libero a minha respiração e recobro o ar
Estava aprisionado dentro da minha ansiedade
Estava insano dentro da minha sanidade
O escuro é onde mora Deus
O escuro é onde mora todo o resto também
Queria ser objetivo e traçar e realizar um plano
Sou errado demais para ser humano
Sou exato demais para ser humano
Estou exausto demais para ser humano
Que me sobra então para ser?
Uma sombra qualquer que se alegra com a jardinagem
A cautela com as flores, a sutileza com os amores,
é o remédio para o meu coração selvagem
Essa expansividade deveria ser domesticada?
Essa vontade de longevidade deveria ser remediada?
Avancei para averiguar a avenca
Tenho regado muitas plantas ao longo da vida
Especialistas nas inutilidades sorri satisfeito
ao notar que haviam se modificado radicalmente
Palmeiras, sequoias, salgueiros, figueiras, sibipirunas
Cada qual enorme e deslumbrante e perfeita
Não adivinhava fragilidade nelas
E fiquei com cara de bobo com a lembrança da fragilidade
No fundo, nas raízes fixadas na terra, ainda têm a mesma idade
Entretanto, altas e imponentes, não se lembram de mim
Engulo meu orgulho tosco e percebo que essa é minha sina
Criar coisas belas, regar, ser esquecido
e seguir para a próxima rima.

A CIDADE FEIA

            Talvez por qualquer distração minha, eu nunca me cumpra. A culpa pode ser do TDAH, da memória, da inconstância, não importa. Não se realizar traz uma clareza sobrenatural sobre a vida. Nunca deixo de sentir que continuar é falhar, ainda assim, algo me impele, por reflexo ou também por distração, a seguir em frente. Quem dera os meus (nossos) mistérios fossem facilmente solucionáveis e a gente não precisasse aumentar o volume da cabeça para continuar processando a quantidade avassaladora de mudanças que ocorrem. Mudo de opiniões, porém me flagro em um esforço hercúleo para preservar minha essência. O que não contradiz o âmago, de um jeito ou de outro, resguarda-me. Há vezes, entretanto, que me pergunto a razão de me resguardar tanto, a razão de não me admitir desarrazoado e cometer loucuras, porque isso tudo flutua distraidamente na nossa cabeça e tudo se sucederá súbito e semelhante enquanto todos compartilharmos o mesmo fim. Despropósito pessoal e outra enxurrada de informações. Na vida a gente aceita migalhas de amor, mesmo sabendo que são migalhas. Queremos todas as lutas, mesmo quando é vazio o valor da batalha. Queremos desesperadamente vencer e sermos lembrados. Precisamos da ilusão de que seguiremos aqui, mesmo depois de mortos, ainda que em um vulto distante de lembrança, um detalhe passageiro na recordação de alguém. É difícil contemplar o reflexo no espelho e ver ninguém.

            São Paulo é uma cidade ambivalente. A realidade crua choca e aterroriza. Pessoas deitadas e esquecidas, muitas delas dormindo, algumas outras pedindo insistentemente e ao mesmo tempo surgem artistas produzindo belas músicas e paisagens únicas e significações. Tudo está ali quase como se não estivesse. O Beco do Batman, agora Buraco de Minhoca, abriga secretamente aventura e prazer, mas me flagro andando solto, distraído e leio uma frase “você se orgulha de quem tanto tenta ser”. A frase me comove e na releitura percebo que esqueci a interrogação, mas tudo fica bem porque há perguntas que são certezas no meu coração. São Paulo é uma cidade feia e intrigante, eu digo com certeza que em quesito beleza não se compara com a minha Campo Grande. Que há nesta cidade antiga e suja que me atrai? Julgo ser a capacidade de tornar tudo indiferente. Existe uma obrigação tácita, algo nas entrelinhas, que te força a abrir mão da vaidade em um limite extremo. Há méis que são venenos. Será que eu abandonaria a minha sensibilidade tão constante acaso morasse em um lugar assim? A feiura não deve ser romantizada, entretanto, percebo-me deificando os especialistas na indiferença como se a abstração definisse quem sabe realmente viver a vida. Quem se aprofunda demais em tudo acaba afogado e foi assim, quase sem ar, vomitando água que parecia nunca terminar, que me desfiz da convicção de que se importar é sempre benéfico. Se olho para todos com a intenção de zelo, eu contenho meus impulsos que urgem por retribuição. Todo ato de amor deve ser genuíno, direto e sem intenções, mas posso eu controlar meu âmago, a minha sede de justiça? Vez ou outra me vituperaram por me assumir cru, incontível e incontido, escancarado. Quando zombam o meu sonho sacro de escrever livros, quando escarnecem dos contos ou crônicas, quando me provocam, eu retribuo com agressividade. Sinto que sou e sempre serei furiosamente delicado e essa indolência, essa indiferença paulistana é inatingível pra mim. Até mesmo os vendedores, que por antecipação supomos que agirão com delicadeza, destratam os clientes tranquilamente, como se a grosseria fosse motivo de celebração. Ah, São Paulo! Tão inigualável nas noites e tão ridícula nos modos! Ah, São Paulo! Tão triste, agitada e comovente… A cidade feia é repleta de magia. Chame do que quiser, mas aprendi que há algo de especial nesta feiura. Julgo que a personalidade da cidade é fria e dura.

            Flagro-me pensativo sentado dentro do carro e observo o céu e as pichações. Muros, paredes, pontes, prédios, tudo alvo da arte de rua. Quem é que sobe tão alto para desenhar um símbolo que pouquíssimos saberão o significado? Não, claro, eu deveria saber melhor. Quem sobe alto sobe por conta própria e por si. É sobre fazer o que deve ser feito, ainda que os outros não entendam. Julgo que os grafiteiros e os pichadores e os artistas ajam todos por instinto, pois só o que é feito por instinto representa realmente arte autêntica. Sofrer é pensar, assim, para a criação de coisas frágeis é preciso se entregar de corpo e alma ao trabalho. Se mudará vidas ou não, isso não pode interessar, mas quando algo belo e legítimo cruzar a minha mente, que meus dedos desnudem minhas verdades e me narrem por inteiro. Talvez por qualquer distração minha, eu nunca me cumpra, mas isso não interessa. Quando não puderes mais permanecer neste mundo, erguerei a cabeça, recobrarei o ar e seguirei caminhando. A jornada não acaba enquanto eu puder continuar sonhando. Talvez eu nunca me cumpra e isso não faz diferença. Não há fatalidades e a liberdade é a minha única sentença.