Perdidas no vácuo precedente à existência
Flutuavam no espaço espécies estranhas de flores
Coisa alguma tinha sua respectiva aparência
Ainda surgiam discretamente as primeiras cores
Um grito de ninguém ecoou de maneira serena
Vibrou na existência inexistente o primeiro poema
Qualquer coisa como magia
Antes do primeiro dia de tudo nascia
Em 173 antes do nascimento do planeta
Houve uma explosão onde tudo foi exposto
Três mil e cem anos depois abri uma gaveta
E nela achei o meu verdadeiro rosto
Chamei-o de meu e chamei-a de alma
A última lembrança por volta de 1992
Explodi em uma fúria que nunca se acalma
Até que arrefeci e deixei a ira para depois
Ensinaram-me dentro de minha casa
Certas coisas certamente importantes
Aprendi a amar sob um confortável teto
Garoto curioso que não se contentava
Desprovido de ambições, mas sem ideias rasas
Oscilava entre seriedade e princípios infantes
Fui e sou próximo de qualquer coisa que dizem inexistente
Continuo por perto, pois sinto tudo o que me sente
Amigo do vento, das plantas e insetos
Flamejante, mas apenas brasa
Confiante, mas demasiado reto
Chama acesa que nunca se apagava
Na predominância da suavidade
Eu era puro concreto
Em 2000 e qualquer coisa fui triste
A Existência me humilhava de repente
Mantenha sua espada em riste, pois
Nenhum dano é permanente
Quando a gente é capaz e insiste
Combate tudo por um eternamente
que talvez faleça ao pôr do sol
Qual talvez se esqueça escondido no lençol
Caí e me levantei e caí de novo
De novo caí e me levantei vagaroso
Mais uma vez levantei apenas para cair
Ouvi de longe um cachorro latir
Lamentei o meu estorvo
Quase desisti de tudo por volta de 2018
Mas a vida é tão cruel quanto bela
Errei tantas vezes por ser afoito
Li meu destino ao fundo de uma tigela
De Nescau Cereal
Veja como a vidência é algo irracional
Você possui exatamente Nada
O que se perde quando está por um triz?
Não é percorrendo as mesmas estradas
que achará o caminho para ser feliz
Sincronicidade em sintonia
Não me vejo feliz, mas transbordo alegria
Às 22h22 em 29 de junho de 2019 no Brasil
Já era dia 30 lá no Japão
Tudo o que ontem a gente sentiu
Num tempo longínquo não gera a menor comoção
Tenha cuidado, mas não se afaste
Sempre que a vida gritar sobre os riscos e perigos
Às vezes é num jogo improvável que iniciaste
que fará verdadeiros e novos amigos
Alguns anos depois e ao último suspiro
O sentimento é de sorte, pois naquelas épocas
Ainda era inevitável receber o beijo da morte
A humanidade cometeria o erro
de impedi-la posteriormente
É o fim que define o rumo a se seguir
E determina a firmeza do que se sente
Em 2173 depois de Cristo o amor ainda existia
Embora tivessem sido extintos os poetas
Era um futuro onde todos de tudo sabiam
Todos os seres transformados em ascetas
Como, porém, podem não acreditar?
Eu perguntava aos homens futuristas
Se não existe vida sem o amor?
Suas faces repulsavam num esgar
Seguido por sorrisos matreiros de vigaristas
Cada um escolhe sua ilusão e sabor
Em 2425 depois de mim
Já não havia planeta Terra
A vida no planeta acabara, enfim,
Depois de resistirmos à Quarta Guerra,
Dentre os destroços e corpos queimados
Dentre pilhas de ossos e sonhos carbonizados
A personificação da mortalha e um vulto eterno de destruição
É um sonho que já vivi algum dia
Mataram os poetas, mas não a poesia
Resistiremos até a última respiração
Sobreviveremos (ainda que mortos)
Até as batidas findas do último coração…
Manhãdrugada
Não dormi e assim senti como se tivesse acordado cedo. Estranhamente não me senti pesado e nem minimamente cansado. Os picos de energia são malucos. Noite passada fiquei gastando palavras e tentando produzir um texto que eu julgasse razoável, mas falhei. Bati no teclado de maneira insistente, mas sem raiva, embora a cada minuto minha mente se frustrasse com a minha incapacidade. Já faz algum tempo que tenho me sentido assim, compreende? Finja que sim para possamos continuar. Os vizinhos que dormiram tarde muito provavelmente continuam dormindo, mas pelas quatro e tantas vi um homem em um apartamento e uma mulher em outro, apenas de relance, concentrados em não desperdiçar o tempo. Iam para lá e para cá, arrumando-se, mas desordenando a casa. Eles precisam estar prontos. A casa pode esperar. Olha, peço, enxergue-os e pela sensibilidade tente senti-los. Eu me acelerei por dentro e o sono que havia se dissipou. Mesmo às quatro e tantas aqueles dois já tinham um lugar para ir. Vê a beleza de não dormir, mesmo com a necessidade? Você pega um pouco mais da poesia que reside sutilmente apenas na alma da cidade. Acha que estou louco, não é? É óbvio que a alma da cidade é uma soma das almas de cada pessoa que nela vivem, assim, forma-se uma espécie de amálgama não humana feita por humanos, uma centelha do Universo bem presente no nosso cotidiano, uma união invisível das principais partes que transbordam aquilo de que somos formados. Todos personificados em uma unidade qual não se nota. Egrégora.
A cidade é perigosa, eles dizem, mas visto meu casaco e saio para dar uma volta. O horário não é favorável, mas com minhas mãos livres posso me sentir um pouco mais seguro, assim, agradeço por não ser fumante, embora me pareça improvável que o perigo queira tirar o cigarro das mãos de um cidadão. Penso nos fumantes, mas não fumo. Os grandes escritores eram confortáveis com a fumaça, eu, entretanto, não ligo. Mesmo na fumaça que não há, vejo-me ir para um lugar distante. Transporto-me para um passado de dias e estou no Mirante 9 de julho. Gosto do lugar e gosto das pessoas estranhas que ali me cercam. Seus sotaques paulistanos enchem meus ouvidos e eu pareço habituar-me mais rapidamente do que me pensei capaz. Não sinto vontade de conversar, mas talvez eu me derramasse se simplesmente me perguntassem. A paisagem urbana acelera meu coração. Sou eu o carro em alta velocidade e o piloto enfurecido simultaneamente. Sinto-me feliz o suficiente para continuar acelerando, ainda que temeroso pela colisão. Nos picos de adrenalina desconsideramos as consequências para o dia seguinte. Volto à realidade com a aproximação de um pedinte. Quer um dinheiro qualquer para comprar coisas que se compram, mas não posso dar cobertores, pois não se cobrem e trocam por coisas que se vendem. Dou R$ 1,75, como não vou ajudar este que me pede se ajudei até o Wesley com R$ 1,25 para a cachaça? Pergunto para o velho como ele se chama, ele me olha por poucos segundos, inquieta-se e sai sem me responder. Sinto cheiro de fumaça, mas meus ouvidos escutam apenas pneus de carros e buzinas. Ainda existe audição em São Paulo?
Olho apartamentos para alugar e penso que realmente devo morar aqui. Todo mundo nessa cidade parece ser mais duro e maduro e não sou piada por ser escritor ou poeta, pelo contrário. Eu juro que até param para me ler ou olham nos meus olhos, ainda que talvez eu olhe ainda mais dentro dos olhos deles. Meu objetivo de vida é mais importante que meu trabalho de hoje. “Seu olhar é muito fixo em mim e eu fico com vergonha“, ouvi alguém dizer, mas mergulho na profusão de um mar profundamente verde ou castanho, esquecendo-me do que pretendia dizer. Bem, é preciso que vocês saibam, eu sou um mergulhador nato. Geralmente compreendo a natureza selvagem das coisas, quando essas coisas, perceba, lentamente se derramam em mim. Alguns estranhos por aí dizem que sou inspirador. Seco a umidade que há nos dias, ecos longos de poesias, sombra inconfundível de Amor. O amor que tanto duvidei nos últimos meses e transparecia na minha face cansada por meio de tantos reveses, que subia por um fracasso latente que não se mede. Isso tudo aí e eu ainda inspirando. Você vê como a vida pode ser louca. Você vê como a gente realmente nunca sabe a dimensão do nosso alcance. Os mortos me inspiram com grandes textos. Talvez alguns vivos se inspirem com algo que eu fiz. Ser cônscio e capaz disso é o que sempre quis.
Daí vou como posso. Lá de longe alguém me vê partindo, descendo, chorando, subindo, sorrindo. Daí continuo como posso, inconsequente, responsável, prudente, afável, sempre num esforço contínuo que pesa meus ossos. O que não queremos admitir ou apenas o que não gostamos de admitir, é que às vezes escolhemos, entenda, permitimos o que fazem conosco. Não são os outros, mas sim nós mesmos. É fácil ser refém de um sentimento e depois dizer que não teve saída, ainda que estejamos no absoluto controle de nossas vidas. Às vezes pego uma pedra do chão e levo para casa só para sentir que não sou obrigado a fazer tudo sempre igual. Às vezes passo um dia inteiro sem dormir só para me sentir um pouquinho mais especial. Trabalho e sigo firme. Escrevo e sigo acreditando. Passou-se a noite, a manhã, a tarde, outra noite, adentrei a madrugada e é quase manhã de novo. Estou aqui pensando em fritar um ovo, pois agora senti fome. O chocolate amargo não pode mais me alimentar e nem a água mata minha sede. Que é que um dia finda a solidão que me arremete? Gargalho alto com uma piada antiga. Permito-me sonhar. Insisto em realizar. É um tempo estranho no céu de São Paulo. O limite entre a madrugada e manhã. Quantos conhecem essas manhãdrugadas? São perfeitas para o meu coração.
Diz que me quer
Diz que me quer
Logo amanhã de novo
Fica comigo, mulher
Sem charme ou jogo
Aparece aqui agora
Mostra tua parte insensata
O mundo que se dane lá fora
Deixa tudo e me resgata
Leva-me e me esconde
Leva-me para longe
Leva-me embora
pela eternidade
E então me faça cruzar a ponte
Perder toda a minha sanidade
Torna-me louco por você
Que tudo seja sobre
o nosso prazer
Torna-me louco agora
Eu sei que pouco sei
Isso se distancia
de todos os sentidos
O evento desafia o nexo
Você pra mim é alegria
Talvez nem devesse ter acontecido
Como é que acabou em sexo?
E de repente ela gargalha
Eu me pego também sorrindo
A gente então se embaralha
E se pega caindo
Da cama
E a chama
Parece que vai durar
Insana
Inflama
Não posso me controlar
E a gente respira e se separa
E logo em seguida não para
Um toque
Um beijo
Qualquer coisa que a gente faz
É choque
É desejo
Com gosto de quero mais
Ela diz me domina
Some com a rima
Segue meu compasso
Sou tua sina
Divina
Preenche meus espaços
A sincronia anula
a chance de um erro crasso
Ela então me fita
verdejante
Suas poses eternizam cada
mero instante
Então se aproxima
E derrama seus olhos mágicos em mim
Abraça-me e apaga a luz
Esperta desliza outro gesto lesto
que facilmente me seduz
Até que os nossos
corpos se rendem, mas no seu abraço
sou obrigado a permanecer
Gestos cansados de quem
nunca mais quer se mexer
E outra vez a gente ri
Do que até me esqueci
No quarto até o amanhecer.
Vultos
A mulher no corredor foi apenas a segunda mulher que amei. Às vezes os insanos me pedem para explicar. Bobagem! Como se cheiros, sensações e impressões coubessem em resumos. Não cabem. Quiçá descrições funcionarão? Não também. Defini-la ou definir-me no meu estado de torpor é apenas um jeito inédito de perder tempo, mas se o tempo também é meu, desperdiço-o como quiser. Se acaso sugerir que as estrelas falam, você acreditaria em mim? Há quem diga que estourar plástico bolha é relaxante, mas você seria capaz de convencer alguém disso? Explicado este fato, apresento aqui, na medida do possível, todas as verdades quais pude absorver em um momento de epifania. Contarei de como ela foi capaz de me fazer suprir a ausência que sinto de mim mesmo. Minha própria maneira de estourar bolhas, improviso. Falar sobre a segunda mulher que amei seria impossível até mesmo para Tom Cruise, mas amá-la, por outro lado, é uma missão acessível até mesmo para Robinson Crusoé. Ressalto, porém, antes do inevitável sobressalto: não me pergunte quem ela é.
Você vai pensar que eu enlouqueci, eu sei, mas confesso que, na verdade, foi pelo vulto dela que me apaixonei. Cada dia seu andar tinha uma postura diferente e eu? Abarcava tudo o que podia enquanto me enchia por meros lampejos de felicidade adolescente. Não, os vultos nunca mentem e minha animosidade jamais arrefecia quando se deparava com eles. Respirava fundo, acelerava meus passos, ansioso para tornar a imaginação em figura. Quando o rosto finalmente era revelado, aquela velha sensação se quebrava e me dominava a amargura. Um conselho fossilizado ressoa na consciência: nem mesmo a ilusão perdura. Retiro meu chapéu invisível e faço uma mesura. A mulher passa e no corredor do hotel a luz fraca revela sua pálida brancura. Deve ter pensado que eu estava embriagado. Sorrio e insinuo minhas desculpas. “Eu te confundi ainda agora com alguém. Perdão, senhorita. Boa janta e fique bem. Não sou quem você procura”. Esta era simpática e recompôs a postura. Estava de calça de couro, mas imitou uma antiga dama. A delicadeza dos movimentos numa pintura. Toda mulher sabe como tratar quem do jeito certo a ama. Compreendem melhor que os homens que nem tudo que é belo dura.
A rotina de uma semana gira em loop em minha cabeça. Vou narrar um pouco desta aventura, antes que eu me esqueça. Os dias parecem iguais, mas são sutilmente diferentes. O segredo para se adaptar é acreditar que nada é permanente – nem mesmo o que se passa no coração inocente. Descia mais cedo que todos – todos os dias. Gosto da minha particularidade nos cafés da manhã, mesmo entre os desconhecidos novos colegas. Todo mundo merece ser aplaudido de pé ao menos uma vez na vida? Auggie tem razão, mas tenho minha própria opinião e vou dizê-la. Pois bem, acredito que todos mereçam uma semana de café da manhã reforçado em uma boa rede de hotelaria. Cheguei junto dos velhos enrugados e narigudos; mal vejo a hora de ser um deles. No metodismo nos equiparamos: minhas refeições são sempre iguais: café, ovos, linguiça, bolo de laranja, bolo formigueiro e um croissant. É preciso homenagear os franceses de quando em quando. Os velhos parecem retratos nas paredes, incorrigivelmente repetitivos em suas posturas curvadas e tortas, mas uma criança chuta a porta de uma reluzente Mercedes e aparentemente ninguém se importa. O garoto desafia a observação dos poetas: a constatação é que todo pequeno nasce asceta. Ignoro o menino, mas não recuso o aprendizado. Só pais de comportamento viperino criam um garoto tão mimado.
Subo para o meu quarto. Pego uma maçã para comer mais tarde. Percorro o corredor enquanto finjo que sou um arremessador, mas subitamente paro. Uma mulher vem andando distraidamente. Conheço-a pelo faro. É mais sonhadora que eu… Seu vulto parece com a alma do universo. Quando seu rosto se revela, ela me lança uma estranha olhadela e pergunta do que eu preciso. A pergunta vaga me faz viajar, mas observo atento que ela não tem a magia que procuro no olhar. Deixo escapar um largo sorriso. “Obrigado, mas você não é quem estou a procurar”. Afinal, eu havia enxergado errado. O universo não estava ali. No dia seguinte o vulto da mulher se aproximou com pressa. O jeito de andar exalta que ela é alguém que só baixa os olhos para o que a interessa. Os passos barulhentos do salto alto pisam em qualquer encanto ou feitiço ancestral. De que adianta procurar em um robô, qualquer resquício da inocente vestal? Eu teria interesse nesse tipo de mulher, afinal? Seria mais fácil se eu estivesse procurando alguém de verdade.
Tudo isso aconteceu em apenas uma semana. Eu me encantei com os diferentes formatos de imaginação reproduzidos no corredor. Juro que falo a verdade, embora não necessite do consentimento de vocês. O pragmatismo estava me matando e a sensação crescente de tumulto me fazia sentir vontade de sair correndo até me cansar. Consolei-me ao ler diários de homens e mulheres jamais compreendidos. Seria bom ter alguém para abraçar hoje ou apenas alguém para me ouvir falar debilmente sobre meus livros favoritos, mas tudo bem. Seria bom planejar o roteiro da viagem ao Japão, mas tudo bem. Seria bom sonhar que meus livros podem mudar o mundo e encontrar convicção em um olhar gentil e astuto. Eu diria Geffenia e você iria entender. Há sorrisos tão preciosos que, ainda que os veja uma vez a cada dois anos, enchem-me o coração de recordações luminosas. Conforto-me com as lembranças de uma felicidade pueril que talvez eu jamais possa recuperar. Faço perguntas e não confiro as respostas. Quero que digam, mas nem sempre quero saber. Transtorno pessoal, normal, quem liga para o que vai acontecer?
Talvez eu tenha apelidado uma Gabriela de Ana, uma Isabela de Júlia e uma Beatriz de Michele, mas unicamente pelo pretexto de que não sabia seus nomes e honestamente nem queria saber. Desculpe se pensei nestes nomes de maneira errônea. Não esquecer é uma regra do meu coração. Quando digo os nomes em sussurros secretos, sinto-me um andarilho discreto, hábil em disfarçar minha solidão. Seria incrível não estar sozinho esta noite, mas tudo que eu possuo são espaços calculados para abrigar minha tristeza. Contemplativo, percorro minha vida desde o momento em que minhas memórias são exatas e precisas. Basta de imaginação. Preciso arrumar o rumo de minha vida, reflito quando me surpreendo com o tardar da hora. Entro em luto após mais uma despedida. Quem eu fui um dia está morto agora.
Terei de fazer um breve resumo sobre as últimas situações, pois não sou suficientemente hábil ou talentoso para prender pessoas livres aqui por um período longo. A sombra da quarta mulher me deslumbrou; a da quinta me ofendeu; a da sexta me paralisou e a com a da sétima, eu chorei. Todas as mulheres possuíam diferentes aparências e essências, mas seus vultos eram quase idênticos. Deslumbrantes e capazes de tudo. Não me assustavam, mas me deixavam extasiado. Não havia façanhas impossíveis para elas. Enfim, agora chegava o momento de me despedir daqueles corredores escuros quais diversos vultos me desafiavam ao amor. Orgulhoso, aceitei o desafio, ainda que incerto sobre meus atos. Amei tantas sombras desconhecidas, ainda que ninguém tenha visto de fato. Às vezes é uma maldição ser alguém com pouco tato. Ainda que a alma seja nobre, eles te insultarão por ser miseravelmente pobre… Vil sonhador barato.
Despedi-me do hotel e com a partida me despi de uma semana de solidão. No aeroporto carreguei o segredo da vida. Todos que entravam em contato comigo, presenteavam-me com diversos sorrisos e secretas orações. Suponho que por algumas horas, eu mesmo tivesse olhos mágicos. No Mc, uma mulher de verdade, muito mais que um vulto, tirou os sapatos para apoiar os pés no sofá. Cem mil vezes mais que uma sombra. A sua atitude demonstrava personalidade. Na pressa de retornar à minha cidade e no desespero de amar alguém que fosse mais que um mero vulto, eu me contentei em admirá-la discretamente. As mulheres já sofrem o bastante para terem de lidar com os curiosos e intrometidos. Ela estava relaxada e eu não queria estragar isso. Além do mais, eu ansiava mesmo em retornar à minha cidade. Decidi seguir o meu percurso. A vida se acelera e os minutos passam mais rápido. Logo será o dia das bruxas, o dia dos mortos e o dia do natal. Logo quem nasceu em 1989 terá 30 anos e os de 1992 pensarão que são velhos arrelientos. Logo tudo vai mudar e todos os momentos bons de agora vão se perder em um buraco negro. Terá de reaprender a ser feliz com uma vida completamente nova, que hoje o enche de medo. Sento-me vagarosamente no assento 17D. Sinto um estremecimento acompanhado pela pesada vibração do avião. Este pássaro de metal corta o vento enquanto devaneio sobre novos roteiros de ficção. Amanhã é sábado e depois é domingo e depois outubro. A vida passa e não encontro um sentido para tudo o que eu faço. Isso me relaxa… Às vezes é melhor não ser tão cheio de si. Observo pela janela as luzes das cidades durante o caminho. Penso nas pessoas que amo e nos desconhecidos que quero amar. É a sina de quem é assim tão sozinho…
Dou nome a todas as coisas, exceto à segunda mulher que amei. Não sei dizer se foi engano, mas o amor não segue qualquer plano. Digo com segurança que ainda prefiro amar, ainda que o objeto de tanto amor seja uma ilusão. Não há vergonha em não ser completamente são. Quem sabe um dia, eu possa ser sólido e capaz de voar; ao mesmo tempo conseguir aguentar; raramente oscilar… Como faz todo e qualquer avião. Ah, mas é incrível o que se observa quando sobrevoa uma estrada qual costumava percorrer andando ou dirigindo. Sob novas perspectivas você conclui que o mundo é lindo. Quando menos se espera a gente se pega sonhando e sorrindo. Pensando em todos os amigos e amores ou em como nossas vidas são fugazes; em refeições maravilhosas ou bebidas quentes compartilhadas com amigos em bares; em dragões, furacões, verões e também nos antigos lares; na solidão necessária para o crescimento ou na provocação fundamental para o enfrentamento. Por fim, penso naquela que um dia foi a mulher da minha vida; aquela que amei mais do que a mim mesmo. Em seguida, eu penso em centenas de vultos que me bagunçam e me fazem querer vagar a esmo. Continuo sendo decente e ridículo. Nunca fui suficientemente bom para qualquer outro, exceto eu mesmo. Tento revelar a face de cada vulto, mas cada vulto se revela em seu próprio tempo. Queria poder amar todas essas sombras agora, mas suponho que deva esperar pelo devido momento. Sigo fazendo o que posso e se não for o bastante hoje, amanhã novamente eu tento.
Você me envelheceu
Certa feita cheguei em casa completamente exausto. Cumprimentei o meu cão com todo o entusiasmo que ainda me restava. Confesso que, na verdade, quase não restava nada meu em mim. Eu havia deixado que a sonolência se apoderasse de meu corpo. Preocupei-me com meus lapsos de memória, mas sabia que era uma das consequências. Representava apenas uma das portas que cruzei. Prendi a respiração por tanto tempo que me esqueci de como respirar. Arfei longamente e me senti de volta em mim. É difícil, não? Quando as coisas doem dentro e não há ninguém por perto e morre ignorada sua comoção. É difícil. Você sofre e as pessoas com as quais conta estão realmente distantes. Hoje não lhe serve toda a sua inteligência, sua capacidade, sua formação. A infeliz verdade é que o seu alcance não alcança. Não há mãos para segurar e você treme por horas antes de conseguir cochilar. O que será que faz o seu amor? Se você pegar o carro em um acesso súbito de loucura romântica e dirigir até o seu destino, diga-me, como é que sua pessoa te receberia? Talvez um olhar insinuante que acusa o seu lunatismo. Talvez uma face horrenda de esgar interpretada por pura questão de oportunismo. A gente sempre enxerga o que vê?
Saí daquela casa como outras tantas vezes. Era quase tão minha quanto àquela em que morei. Achei que sempre ia voltar. Inocência… as crianças viram jovens, os jovens viram adultos e os adultos se tornam velhos. Cedo ou tarde é preciso aprender e, goste ou não, você aprende. Aprende a lutar contra as injustiças ou a permiti-las ou a participar delas. Aprende a erguer os punhos ou a desviar os olhos. Você se esforça, mas também descobre que nem sempre isso adianta. O que é que funciona de maneira real e objetiva? Você tenta disfarçar suas ambições de maneira furtiva, mas nem sabe o motivo de escondê-las. Acha que é um equívoco crasso sonhar em ter um lugar ao lado das estrelas? Cesso o devaneio para que volte a me concentrar aqui. Meu instinto protetivo nunca arrefeceu, mas uma conversa específica me envelheceu. Ainda que tenha sido durante um sonho, eu me espantei com o seu jeito peculiar de pescar em mim o que melhor havia aqui dentro e eu ainda nem fazia ideia. Disse-me com uma confiança revestida de qualquer coisa bonita, na verdade, coisas realmente interessantes e lindas. Abordou o meu modo de pensar e me fez ver que havia outra maneira de ver. Revi todas as minhas hipóteses com outras perspectivas.
Bom, você me envelheceu. Esse conhecimento não é absolutamente necessário, mas faz bem. É o tipo de coisa que cresce sem medida e sem precisar de qualquer tipo insistente de impulsão. As minhas intenções são bem esclarecidas quanto aos assuntos do coração. Não me permito ser mais inocente, pois me recuso a repetir erros. Não posso me tornar a versão oposta das coisas quais acredito. É o dano que sofri que me reforça (e reforma), portanto, o sofrimento foi bendito. Digo e repito que, o abandono de coisas quais julgamos fundamentais é inevitável, pois é a maneira de nos transportamos sempre para a nossa própria essência. Há coisas, porém, que relutam e não aceitam o abandono. Felizmente não sou como essas coisas. Fecho os olhos e recebo o beijo do sono. É doce e me sinto aquecido e seguro enquanto durmo. Abro os olhos para notar que estou em uma terra metafórica e repleta de revelações que não encerram nada. Vejo a engrenagem que faz o mundo girar e choro por pensar que um dia acreditei que tudo estivesse ao alcance de minhas mãos. Presunção. Alguns mistérios nunca terão solução. Pássaros embranquecidos batem suas asas pelo negrume cósmico da galáxia, mas não consigo compreender. Você apareceu e me explicou sobre empregos novos, coisas novas, cores novas e animais. Confessou que era uma raposa original, da cor certa, mas não entendi suas palavras. A vidente disse para eu tomar cuidado com raposas e aqui estou, enterrando o meu instinto arisco para me arriscar ao risco. Estou envelhecendo.
É você que vai me humilhar diante do povo? É aqui que tudo acaba para começar de novo? Recuperei a expectativa da vida na possibilidade de te encontrar. Ninguém entre nós. Sorri de como você parecia meiga, quase engolida por seu próprio cachecol. Pequenas coisas nunca se apequenam. Grandes coisas nem sempre murcham. Ninguém entende, mas você é capaz de vencer. Resplandece em nossos olhos o brilho de quem compartilha um tipo secreto de prazer.
De repente você me surpreende, age fora do hábito, quando brada sobre o quanto você mesma estava bonita. Indaga ligeiramente em um sobressalto: Você me seguiria pela eternidade em uma noite infinita? Sorrio e balanço a cabeça assentindo, pois sinto o momento exato em que se preenche aquele meu estranho vazio. O âmago desconfiado me recorda que a confiança é um prato que se come frio…
Ainda assim é necessário correr riscos. Valorizar a individualidade é fundamental para que saibamos educar os outros a nos tratarem como nós merecemos. Entendo agora as lições que ela me ensinou. De todo jeito ensinamento e aprendizado são formas de amor.
Você realmente me envelheceu…
round about
It was round about twilight
I saw your beautiful eyes for the first time
and when the darkness ate the day
You became my light
You shone over the world
so intense and bright
I swear
You are always beautiful
like a violent storm in the summer
And a man like me so scared
found the courage to hold the thunder
Just for a little while
This is also what I said
When you told me it was late
and we should probably go
It’s not time to chase
Tomorrow can wait
The night is long and we shouldn’t waste it
I froze looking at your beautiful face
I’ve smiled and replied :
to my house or your house tho?
So you smile to me
Life worth it
Even my stupid dreams
someday they’ll work
We walk on the streets
We dance and we kiss
Simple match of chess
Just like two honeybees
A lock and a key
The clock lost himself into our mess
It’s okay to feel this pointed
thing in my chest?
I want the dawn of the city
Side by side with you
This sounds like eternity
What the hell should I do?
I wrote our names on a sacred stone
You say it was too soon
But my heart was a big bomb
just before the great BOOM
It was round about midnight
I was dizzy and felt not so clever
When I whispered to myself:
“This may last forever”
Tonight I won’t feel sorrow
I’ll destroy everything
that could block
My way to you
I can’t wait till tomorrow
That’s the story
About how I fell in love with a red fox
The mistery of how my grey world
turned so damn blue.
Coração nômade
Faço tudo o que posso, mas
Insisto que não me chame de lar
Um dia ainda acordo e de repente
Abandono este lugar
Meu coração nômade
Sabe realmente amar,
mas ele não pode ser casa
Ainda que haja brasa
para os dias frios
Ainda que preencha
habilmente espaços vazios
Ainda que te defenda
de tantos inimigos
Ainda que surpreenda
com desejos correspondidos
Este coração nunca será
um lar para você
Se alimenta esse ideal
É melhor tentar me esquecer
Sou o melhor de todos e
o pior deles também
Estou te avisando sobre os riscos
Te quero, mas não como refém
Estaremos juntos
Permaneceremos juntos
Nunca vou desaparecer do mundo
Porém, este vagabundo arisco
tem o coração mutante
Tudo que é bom hoje
Será diferente adiante
Muito melhor ou pior
Quem é que pode dizer?
Por isso não me faça lar
Repentinamente posso mudar
Eu só queria te fazer entender.
Medusa
Chega e ordena
que eu tire minha blusa
Olhar que me condena
Medusa
Não te amo
Ainda que seja
minha musa
Não é engano
A gente se usa
Tento assimilar a informação, mas
seu jeito de falar é pura tentação
Hesito e me convenço de uma mentira
Quero me amenizar e decido ir embora
Não sou igual a todo mundo
Tento me convencer de que
homem como eu já não se fabrica
Aos pés dela, porém,
somos todos vagabundos
Vítimas dum olhar que petrifica
Nunca posso resistir
Quando a voz dela me chama
Até tentei fugir, mas
cá estou na cama
Ela vai dizer o
que quero ouvir
Fingir que me ama
Foderemos a noite inteira
Escuridão que inflama
Uma noite boa
Já estava quase dormindo quando ela disse, ei, eu achei aqui na internet, achou o que, perguntei, essas coisas bobas, ela disse e de olhos fechados vi o sorriso, que coisas bobas, posso falar mesmo, ela perguntou, eu disse sim, claro, fale sobre essas coisas bobas. Ok, se você pudesse levar alguém para jantar quem seria, vivo ou morto, indaguei, acho melhor levar alguém vivo, é, os mortos não sentem fome, eu concordo, quem levaria, Hayao Miyazaki, japonês, ela pergunta, sim, é japonês e você, não sou japonesa, bem humorada é, sou, quem levaria, pergunto, Will Smith, ela responde. Penso em chocá-la com meu brilhantismo de conhecimentos diversificados. Sabia que a filha dele chama Willa e o filho Jade porque ele é Jada e a esposa Will, não, ele Will e a esposa Jada e aí usaram os próprios nomes para nomear os filhos. Ela ri, ri bastante e o mundo se torna mais leve. Suspiro sentindo algo parecido com a última felicidade palpável. É, talvez seja felicidade, penso. Sabia ou não sabia, eu digo, do que você está falando, pergunta ela enquanto ainda gargalha, eu não sei direito, respondo, peço perdão então, perdoado, próxima pergunta, o que é um dia perfeito pra você, um que chova e esteja frio e eu possa beber bastante café com intervalos para cochilar com a pessoa que eu gosto, nós somos parecidos, ela diz, você e eu, sim, viu, vi, mas eu sou mais alto, sim, viu, vi. Veja a previsão do tempo, mas vou ter que fechar a página das perguntas, deixa pra depois, a previsão ou as perguntas, a previsão e o dia perfeito, próxima pergunta agora, manda, quando foi a última vez que você cantou para alguém? Eu cantei Frejat bêbado uma vez para a outra, faz tempo, ela pergunta com curiosidade sem parecer incomodada, faz muito tempo, respondo, ela me observa, eu sei mesmo ainda de olhos fechados, mas e você, eu cantei uma romântica do Cazuza para o outro e até gravaram um vídeo meu, jura, juro, um dia me mostra, eu não canto bem, não ligo, tudo bem, eu mostro. Agora algo pelo qual se sente grato, liberdade e você, independência. Mudaria algo na maneira como foi criado? Pediria para que meus pais me incentivassem ao hábito de ler livros. Aprendi depois de bem velho e você, pergunto, eu não mudaria, ela diz e emenda, ei, você dormiu, ela me pergunta e se aproxima para me dar um beijo na boca, ei, ela diz de novo e se debruça em mim sem roupas. Você está acordado, decreta, não tenho certeza, mas acho que sim, ela ri, seu idiota, aguenta firme, ainda faltam muitas perguntas, pergunte, que horas são, isso está no teste, não, confere no celular, duas e quarenta e sete, que horas você precisa acordar mesmo, seis e meia, posso parar, ela diz, eu sei que não pode, ela ri, eu também. Como você se sente sobre o relacionamento com sua mãe, eu primeiro, ela se antecipa, tivemos nossas brigas, não é fácil, mas hoje nos entendemos e você? Não conheci sua mãe ainda, você é um idiota, eu sou, responda, eu me sinto feliz e orgulhoso, somos bons amigos, afinal. Algo que você gosta em mim, eu gosto do som da sua risada, do jeito que você mergulha em mim quando me olha e de como você é irrefreável e pergunta inoportunamente, idiota, diz ela rindo, abraça-me e parece desistir do questionário, mas não sei. Meus olhos pesados cedem ao sono, durmo, sem sonhos, sem nem desconfiar do que é que ela gosta em mim.
Cigana

A dança? Não é movimento
súbito gesto musical
É concentração, num momento,
da humana graça naturalCarlos drummond de andrade
Era a vez da quarta dançarina. Ana seria a sexta. O próximo bailado começaria concomitantemente ao silêncio da plateia, que após o ultimo, fora atingida num arroubo de assobios e palmas. Ao apagar a luz do palco, os assistentes apressavam-se da direita, carregando o cortinado e arranjando o décor pra próxima estrela, enquanto o entusiasmo dos presentes se esfarelava aos cochichos.
Os bastidores escondiam-se atrás da caixa da cena e desembocavam nas laterais do anfiteatro. Lá estavam elas, todas numa tal inocência e graciosidade, que enchiam os olhos de encanto, e ai dum curioso desapaixonado que ali adentrasse. Maquiavam-se e…
Ver o post original 1.386 mais palavras