Você me envelheceu

        Certa feita cheguei em casa completamente exausto. Cumprimentei o meu cão com todo o entusiasmo que ainda me restava. Confesso que, na verdade, quase não restava nada meu em mim. Eu havia deixado que a sonolência se apoderasse de meu corpo. Preocupei-me com meus lapsos de memória, mas sabia que era uma das consequências. Representava apenas uma das portas que cruzei. Prendi a respiração por tanto tempo que me esqueci de como respirar. Arfei longamente e me senti de volta em mim. É difícil, não? Quando as coisas doem dentro e não há ninguém por perto e morre ignorada sua comoção. É difícil. Você sofre e as pessoas com as quais conta estão realmente distantes. Hoje não lhe serve toda a sua inteligência, sua capacidade, sua formação. A infeliz verdade é que o seu alcance não alcança. Não há mãos para segurar e você treme por horas antes de conseguir cochilar. O que será que faz o seu amor? Se você pegar o carro em um acesso súbito de loucura romântica e dirigir até o seu destino, diga-me, como é que sua pessoa te receberia? Talvez um olhar insinuante que acusa o seu lunatismo. Talvez uma face horrenda de esgar interpretada por pura questão de oportunismo. A gente sempre enxerga o que vê? 

       Saí daquela casa como outras tantas vezes. Era quase tão minha quanto àquela em que morei. Achei que sempre ia voltar. Inocência… as crianças viram jovens, os jovens viram adultos e os adultos se tornam velhos. Cedo ou tarde é preciso aprender e, goste ou não, você aprende. Aprende a lutar contra as injustiças ou a permiti-las ou a participar delas. Aprende a erguer os punhos ou a desviar os olhos. Você se esforça, mas também descobre que nem sempre isso adianta. O que é que funciona de maneira real e objetiva? Você tenta disfarçar suas ambições de maneira furtiva, mas nem sabe o motivo de escondê-las. Acha que é um equívoco crasso sonhar em ter um lugar ao lado das estrelas? Cesso o devaneio para que volte a me concentrar aqui. Meu instinto protetivo nunca arrefeceu, mas uma conversa específica me envelheceu. Ainda que tenha sido durante um sonho, eu me espantei com o seu jeito peculiar de pescar em mim o que melhor havia aqui dentro e eu ainda nem fazia ideia. Disse-me com uma confiança revestida de qualquer coisa bonita, na verdade, coisas realmente interessantes e lindas. Abordou o meu modo de pensar e me fez ver que havia outra maneira de ver. Revi todas as minhas hipóteses com outras perspectivas. 

       Bom, você me envelheceu. Esse conhecimento não é absolutamente necessário, mas faz bem. É o tipo de coisa que cresce sem medida e sem precisar de qualquer tipo insistente de impulsão. As minhas intenções são bem esclarecidas quanto aos assuntos do coração. Não me permito ser mais inocente, pois me recuso a repetir erros. Não posso me tornar a versão oposta das coisas quais acredito. É o dano que sofri que me reforça (e reforma), portanto, o sofrimento foi bendito. Digo e repito que, o abandono de coisas quais julgamos fundamentais é inevitável, pois é a maneira de nos transportamos sempre para a nossa própria essência. Há coisas, porém, que relutam e não aceitam o abandono. Felizmente não sou como essas coisas. Fecho os olhos e recebo o beijo do sono. É doce e me sinto aquecido e seguro enquanto durmo. Abro os olhos para notar que estou em uma terra metafórica e repleta de revelações que não encerram nada. Vejo a engrenagem que faz o mundo girar e choro por pensar que um dia acreditei que tudo estivesse ao alcance de minhas mãos. Presunção. Alguns mistérios nunca terão solução. Pássaros embranquecidos batem suas asas pelo negrume cósmico da galáxia, mas não consigo compreender. Você apareceu e me explicou sobre empregos novos, coisas novas, cores novas e animais. Confessou que era uma raposa original, da cor certa, mas não entendi suas palavras. A vidente disse para eu tomar cuidado com raposas e aqui estou, enterrando o meu instinto arisco para me arriscar ao risco. Estou envelhecendo.  

        É você que vai me humilhar diante do povo? É aqui que tudo acaba para começar de novo? Recuperei a expectativa da vida na possibilidade de te encontrar. Ninguém entre nós. Sorri de como você parecia meiga, quase engolida por seu próprio cachecol. Pequenas coisas nunca se apequenam. Grandes coisas nem sempre murcham. Ninguém entende, mas você é capaz de vencer. Resplandece em nossos olhos o brilho de quem compartilha um tipo secreto de prazer.

        De repente você me surpreende, age fora do hábito, quando brada sobre o quanto você mesma estava bonita. Indaga ligeiramente em um sobressalto: Você me seguiria pela eternidade em uma noite infinita? Sorrio e balanço a cabeça assentindo, pois sinto o momento exato em que se preenche aquele meu estranho vazio. O âmago desconfiado me recorda que a confiança é um prato que se come frio… 

        Ainda assim é necessário correr riscos. Valorizar a individualidade é fundamental para que saibamos educar os outros a nos tratarem como nós merecemos. Entendo agora as lições que ela me ensinou. De todo jeito ensinamento e aprendizado são formas de amor.

        Você realmente me envelheceu… 

Publicado por

drpoesia

Escritor de hábitos relativamente saudáveis que gosta de escrever crônicas, poemas, contos e principalmente romances de ficção fantástica. Três livros prontos, porém, ainda sem publicação física. Trimestralmente faço o registro dos meus novos textos no Escritório dos Direitos Autorais. Tenho 27 anos de idade e sou formado em Direito. Creio no amor, embora o sinta meio ingrato neste ano. Só posso ser quem eu sou e é assim que vou continuar. Confio no mestre Leminski. "Isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além". Se você continuou até aqui espero que conheça meu blog aqui na WordPress e que possa dar uma visitadinha nas minhas páginas de poesias no Instagram e no Facebook! Obrigado! Volte sempre!

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