Ferro & Vinho

Ter a personalidade e não abrir mão dela é exigir-se em demasia? Se porventura me forçarem a acreditar que realmente devo abrir mão de mim, ainda que eu esteja cônscio que todo disfarce é inútil, o que restará meu em mim?

Penso no escuro, onde nada vejo, longe dos santos e criminosos, longe do que me ensina a experiência, longe dos ímpetos de heroísmos e vícios, apenas para que eu possa ver claramente além das situações mais complicadas.

Há vezes que me odeio pela insistência, entretanto, aprendi que a razão superior não deve se sobrepor à razão inferior, assim, insisto no que é preciso, afinal, fazer-nos a nós mesmos é a tarefa, não?

Diminuir-me para que os outros se sintam grandes é inadequado. Apagar a minha luz não fará com que os outros brilhem mais. O sol é para todos e se o aquecimento das hipóteses. Tudo existe e deve ser considerado. É fundamental reconhecer os erros que cometo e me desculpar por eles, mas é raso se desculpar em todos os momentos apenas para evitar o conflito. O orgulho é importante quando não é venenoso. Os perdões são gestos imensos, quando sinceros. Quem não sabe perdoar só aprendeu coisas pequenas.

Por vezes penso que nasci do avesso, cresci ao contrário e me guiei por incertos instintos cósmicos. Era velho na infância e me sinto rejuvenescer com o decorrer dos tantos anos perdidos. Só me encontro quando perco completamente o sentido. Seria eu uma criatura interplanetária perdida na Terra? Foi em uma manhã de março que vim ao mundo para lidar, dia após dia, com despedidas. Nunca me esqueço de que um dia partirei também.

Tudo em mim é muito por pouco tempo, mas me percebo expandir de maneira extravagante, ilimitada, lépida. Preencho espaços improváveis. Quase tudo me interessa, ainda que seja apenas por alguns dias ou meses e noto que a prolixidade dos meus sentidos contradiz minhas atitudes sucintas e diretas. Subo em uma árvore para contemplar o horizonte e não há respostas ou perguntas, apenas cores. Fito o rosto que tinha antes da criação do Universo e sinto o dever urgente de alimentar a minha alma. Posso desapontar desconhecidos, entretanto, avanço passo-a-passo em direção a mim, encontrando o que sou e significo.

Mudo devagar e de forma contínua por compreender que a repetição reforça a missão. Não envergo fácil e nem me desdobro para atender expectativas alheias. Sou fantástico. Sou desapontador. Sou. Encaro o meu objetivo e me sinto transbordar. Minhas hesitações desaparecem e minhas compreensões se estreitam em um sentido mais claro. Já não me perco entre as estrelas, mas amo os planetas e a lua; já não me desoriento buscando nos aviões e pilotos o meu propósito de vida. A vida em si é o meu propósito e me sinto grato por perceber. Não entendo nada de gráficos e sou demasiado humano para os números frios. Desconheço as melhores estratégias de venda, quiçá por ainda não ter fixado meus valores ou por acreditar piamente que não tenho preço. Sou ferro e vinho, inflexível e seco e me deparo com a realidade de que nunca serei suave. Às vezes posso ser aprazível e inebriante, mas isso não impede, vez ou outra, uma ressaca no dia seguinte. Relaxo os ombros e sorrio. Ter a personalidade e não abrir mão dela é exigir-se em demasia e eu me exijo, sem me arrepender.

Publicado por

drpoesia

Escritor de hábitos relativamente saudáveis que gosta de escrever crônicas, poemas, contos e principalmente romances de ficção fantástica. Três livros prontos, porém, ainda sem publicação física. Trimestralmente faço o registro dos meus novos textos no Escritório dos Direitos Autorais. Tenho 27 anos de idade e sou formado em Direito. Creio no amor, embora o sinta meio ingrato neste ano. Só posso ser quem eu sou e é assim que vou continuar. Confio no mestre Leminski. "Isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além". Se você continuou até aqui espero que conheça meu blog aqui na WordPress e que possa dar uma visitadinha nas minhas páginas de poesias no Instagram e no Facebook! Obrigado! Volte sempre!

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