Narrativas doloridas

É estranho como a voz narrativa altera as percepções sobre a realidade na qual nos instalamos. Tenho a mania de abrir as asas e não voar, é duro admitir a minha condição, mas como um doente terminal não pode evitar a morte, eu não posso evitar o chão. Uns dirão que tenho escolho e que tenho evitado a vida. Tenho? Abro as asas e não voo, ao invés disso, eu acolho as pessoas, protejo da chuva e dos danos, esquento-as, blindo-as e isso pode ser considerado bom ou altruísta aos olhos alheios, mas em outras perspectivas é só uma maneira extravagante de me evitar. Você percebe? É que cuidando dos outros, protegendo os outros, ainda que seja na dureza áspera da minha sinceridade sem hesitação, eu me evito e fujo, mais ou menos uma coisa “quanto mais eu puder fazer pelos outros, menos eu posso fazer por mim”. E aí sou humano e erro, mas busco respostas racionais, faço conjecturas e silogismos, chego até a beirada de mim e depois mergulho ao cerne, tentando desesperadamente me fazer sentido para não repetir os equívocos que cometi e canso de ver pessoas que fazem o contrário. Olho e vejo aqueles que por conhecerem o sentido, mergulham no erro e percorrem o caminho às avessas, porque “fazer dar certo”, tanto quanto “fazer dar errado”, podem representar cenários igualmente assustadores. Discernir não me faz melhor. Saber mais me faz sofrer mais?

Desconhecer é perigoso e terrível, porém há certas coisas que nos envenenam para sempre quando as conhecemos. Quão tranquilizador é saber cuidar dos animais e nunca errar o dia de regar as plantas, especialmente quando nos forçamos ao degredo, quando caímos na escuridão? Despenco para dentro de mim mesmo e não me entrego. Estar só me permitiu não ser cego, entretanto, ver a verdade é encarar a luz e a escuridão do mundo. Por vezes preferia ser alheio e me fingir surdo e mudo. Que ninguém jamais pudesse me alcançar nos recônditos de mim. Se no externo nunca terei tranquilidade e paz, encontrarei sossego no fim?

Enxergar a vida como ela é não é uma punição, mas para os honestos natos, é preciso ter tato, sou um péssimo apostador com uma boa mão. Sou um especialista no amor e a cada dia estilhaçam o meu coração. Como alguém que sabe voar pode ficar tanto tempo no chão? Interlúdio dolorido. O meu mundo outrora era mais colorido. Consternações novas e a estética da alma inabalada. Inacabada. Inalada. Se eu ainda me pertencesse, talvez não sentisse falta de nada. Um sorriso plácido brota, plástico, uma alegria infundida subitamente na rotina para que se possa disfarçar os comentários ardilosos feitos subitamente, vontades esmagadoras de humilhação, o que somos atrás das máscaras que vestimos, fealdade, destruição. Ando despido das minhas vaidades, evito os desfiles de moda, a luxúria, o ego, o status, entretanto, conheço-me ao ponto de conhecer o jeito certo de retorcer o nariz diante de um rival, de revirar os olhos, de me enfurecer pela ingenuidade que escolhi conservar. Acreditar nas pessoas é preciso e ainda assim requer um nível de esforço, sinto que vou me esgotar. Por que insisto em acreditar nas pessoas? Se todos são tão mutáveis e oscilantes, eu incluso, como distinguir a mentira sorrateira de uma mente brilhante em face de qualquer verdade que muda de forma dez vezes ao dia em uma cabeça confusa? O que nos distingue dos monstros são os fatos ou as narrativas? Conjecturar como Pessoa e me contentar com a minha própria mediocridade obtusa, sair sem casaco no dia mais frio do inverno. Agradam-me todas as obscenidades somente uma vez por mês e assim desço ao inferno. Observo a paisagem, é a minha maneira de me fazer anjo, rio-me, angelicalmente extravagante, meio diabo, inteiro eu mesmo. Então eu entro nas lojas e todos querem me vender as coisas, captam qualquer coisa convincente no meu jeito de olhar e andar, mas eu apenas sorrio e anuncio que tudo não passava de uma provocação, “obrigado, eu não quero nada, só estou dando uma olhadinha”. Os outros se eriçam e eu gargalho, só estou olhando, isso de querer consumir tudo é um vício de alma, todos temos grandes vícios assim, todos temos buscas por objetos ou objetivos impossíveis, afinal, qual seria a graça de sonhar com o que é palpável? Recordo-me de uma frase maravilhosa e me identifico: “se eu quisesse, eu enlouqueceria”. Será que não quero?

Vim, vivi, cri, olhei e sorri, mais do que o normal, contive os loucos dezenas de vezes e não abandonei nenhum deles, mas penso que se fosse eu o louco, sim, todos me deixariam para trás, pois eu subi a régua e nunca pude abaixá-la. O que nos leva a deturpar a realidade para proteger quem mais amamos? Será que é a nossa carência? Seria mais fácil cortar relações familiares, amizades, amores, se não conservássemos bondades inatas. Quão difícil é aceitar que escolheram nos machucar com palavras ácidas e golpes de facas? Quão difícil é não subjetivar uma atrocidade exata? Rezo para que possa me preservar e consiga me conservar inocente. A verdade é que me machucaram e nunca houve acidentes. Quão doloroso é aceitar que realmente pensam o que pensam e que disseram exatamente o que sentem? Quão impossível é olhar para o pássaro amarelo ao poste e compreender que você deseja uma vida diferente? Quão assustador é amar e o quão desesperador é nunca ter amado? Escuto sem macular meus pensamentos com impressões alheias. Ouço o que me dizem apenas porque o dizem e presto total atenção. Se porventura há recados sigilosos nas entrelinhas, eu geralmente os capto, guardo-os, sem dizer, pois os segredos alheios não me interessam mais que os meus próprios, sim, busco a conexão real ou a ilusão de que isso exista. Espero que eu nunca desista. Dentro do avião busco as janelas acesas e penso nas tantas famílias preocupadas com a fome, o salário e as despesas, penso em tudo o que existe, quase como se algo fosse real fora da minha cabeça. A grande realidade é que ando sozinho, eu sei, não existe nenhum caminho e nem mesmo um rei. A gente acorda neste mundo, nestes lugares e faz alguma coisa, até quando não faz coisa alguma e segue em um fluxo ininterrupto, exceto pelas noites de sono, essas pequenas pausas, intervalos, o horário do almoço da alma, já que representa o único descanso real ao cérebro e ao coração, ainda que as funções mecânicas não desliguem, pois o instinto é forte e o coração sabe, mesmo sem entender, que precisa continuar a bater. Isso é belo e poderia colocar em algum livro, mas o que pensei é que vencer é chegar em casa e não esquecer de amar quem ficou o dia inteiro aguardando, sejam gatos, cães ou pessoas, crianças ou adultos, pois existe sempre quem te espera. Talvez esse lusco-fusco, em um susto, faça todos os dias serem primavera. Quem sabe seja essa a nossa ligação, nossas janelas e porque sou gente, me abato de repente e sinto uma vontade imensa de enlouquecer. Opto pela melatonina e pelo sono. O instinto é forte e o coração sabe, mesmo sem entender. Para evitar a morte é preciso ter sorte e continuar a bater.

Quanto de nós em nós sobra quando focamos em nossas particulares perspectivas? Vivi tanto pelos outros que aos poucos não tenho voz narrativa. Vivi tanto pelos outros que perdi a minha própria vida.

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Carta Destino

Bem, é que você tinha me perguntado se eu andava bem e eu ri, por nunca conseguir evitar o riso indevido, sabe, a vida inteira eu gargalho nas horas erradas e nos cinemas a minha risada reverberava na sala quando eu ria de uma piada que ninguém mais achava graça, mas é assim, o senso de humor, senso de amor, todas essas coisas particulares ou nem tão singulares assim, essas coisas que cruzam nosso caminho e estacionam. É engraçado falar em estacionar, pois hoje mesmo pararam o carro tão torto que eu quase acabei batendo, mas veja, eu ia te falando sobre algo que tinha aprendido, mas me esqueci. Ando tão cansado de tudo e às vezes opto por me fingir de mudo, mas hoje eu vim aqui para dizer que não vale a pena esse fingir eterno, logo menos chega o inverno e só os bons da cabeça e os ruins de coração se lembrarão daquilo que havia acontecido. Ninguém olha muito tempo para as coisas do porão e nem sabe o que ocorre com os anos perdidos, até porque o ontem é uma janela muito próxima e você só precisa fechar os olhos, respirar e então retorna para tudo o que foi. Vai me dizer que nunca percorreu a vida de trás para frente? Você é especial, entretanto, não é assim tão diferente. Rebobina agora, eu sei, essa palavra não é da sua época, você superou o VHS, mas não sabe a magia mística que havia nas locadoras de VHS e jogos de videogame e eu entrava em uma delas e comia todas as bolachas e bebia todo o chá adoçado, pois àquela época eu e o açúcar ainda tínhamos uma boa relação. Hoje rio quando me recordo do andar torto do meu pai que cruzava uma portinha para a sessão de filmes adultos. Havia um ar de proibição espontâneo e nenhuma criança ousava invadir aquele espaço, mas as crianças não se preocupam com isso. Ah, você me perguntou se eu estava bem, eu estou bem e você? Eu mastigo mais devagar, eu sinto o sabor da comida, porém meu nariz ainda não distingue os cheiro

Eu me pergunto se você está bem, se a sua namorada é suficientemente vivaz para te fazer se sentir vivo, porque francamente, havia dias que você era absolutamente fúnebre. Bom, meu amigo, eu não tenho muito o que te dizer, eu talvez não mande mais cartas e perca a capacidade de me importar, não, isso não, você sabe que não, é por isso que eu continuo respondendo, essa empatia exacerbada é um vício, quase um crime, porque toda pessoa lúcida sabe que pensar demais nos outros é pensar de menos em si mesmo. Como é que nós mudamos estes hábitos falsamente bons? Bem, as coisas estão boas por aqui, eu amo os animais mais do que tudo no planeta e estou começando a ter um ligeiro interesse na jardinagem, não, isso não é coisa de fresco, eu intuo que quem sabe cuidar de uma planta sabe cuidar de qualquer coisa e, bem, meu reflexo foi sempre assim protetivo, protetor, eu sempre fui um cuidador nato. Você rompeu os seus parâmetros? Permitiu-se a conhecer os seus barulhos? Andou sozinho por aí e viu o mundo? Espero que tenha superado aquela sua péssima mania de mentir, se for para mentir, que seja só nas quintas-feiras quando por reflexo você confessar suas saudades. Cuidado com o que você pensa, pois estão normalizando tudo por aqui. Eu sinto falta de quando você me dizia exatamente o que eu estava pensando e jazíamos em seguida num silêncio longo, uma concordância tácita e orgulhosa. Bem, o mundo está normalizando tudo, tudo está banal e só não normalizaram ainda os crimes hediondos, você não deve estar olhando para isso, eu sempre admirei sua capacidade de ser alheio e para ser honesto eu almejo ser alheio assim também.

Bom, eu não vim dizer nada propriamente, mas estou dizendo algo e talvez exista algo meu nas entrelinhas, alguma verdade universal, algum segredo traiçoeiro, mas se o pus aqui foi por acidente, eu só queria dizer que queria te ver novamente, ainda que você tenha cruzado o limite, sim, há limites, uma amizade verdadeira se preocupa, aparece, não, você esgotou seus pretextos, eu fiquei e você correu, isso não é uma competição ou uma queda de braços, é segunda-feira e o clima está terrível, eu sinto que vou derreter, eu estou suado e exausto, meus olhos pulsam, eu não sei se sei o que sei, mas bom, nós não somos mais tão jovens assim, não acreditamos que todo amor é eterno, percebemos que a diferença entre a distração e a malícia é curta, bem, olha para dentro e para fora, por favor, eu espero que não se esqueça de preservar as pessoas, de poupar as pequenas vidas que puder e de beber bastante água. As pessoas se tornam monstros se você aposta alto o suficiente, as pessoas surtam e sofrem, para além do seu umbigo. Faça sexo como se fosse a última vez, aliás, faça tudo como se fosse a última vez ou a primeira. Conhecer uma despedida e uma estreia são talentos raros, assim, se por acaso despertar os seus olhos para isso, seja magnífico, estupendo e não deixe migalhas pelo caminho. Eu estou longe, mas preciso te lembrar que é às vezes andar só não significa ser sozinho. Te amo e te cuido, amigo velho, mas já é tempo de você entender. Estamos vivos, mas vamos morrer. Até as desgraças valem a pena. Encontramo-nos para nos perder.

Gentil

            Maria suspirou e repousou as mãos nos joelhos. Estava ofegante, faminta e exausta, afinal, há quantos dias estava andando? Não sabia dizer ao certo. Estava se sentindo entorpecida e tentava se lembrar melhor das coisas. Tinha convicção de que estava brincando com Gentil no quintal antes de estar aqui, embora não soubesse onde era aqui. Maria levou a mão destra até o pingente na corrente que carregava no pescoço e sentiu um conforto familiar ao apertar o pequeno objeto. Estava tudo bem. O colar era um lembrete para seguir em frente em face das dificuldades, um amuleto da sorte, pois só os tolos não reconheciam a importância da sorte. Ela pressentia que Gentil estava vivo e a clareza de sua objetividade era absolutamente ingênua e inexplicável. Só voltaria acompanhada de seu coelho branco e cinza. Maria sorriu. Gentil era gentil, como bem dizia o seu nome, mas era ainda delicado e afável. Tinha olhos amendoados e escuros, como aquele chocolate de uma marca específica da qual não recordava o nome. O seu coelho não era como os coelhos brancos de olhos vermelhos das canções infantis, aliás, a garota sentia que havia uma espécie de conspiração silenciosa entre os coelhos brancos, como se eles não suportassem a presença dos demais animais e até de seus coelhos semelhantes, mesmo que no final das contas todos defecassem bolinhas marrons com a estética de cereal matinal. Havia algo de suspeito nos olhos verdes que se tornavam vermelhos apenas para se tornarem azuis no instante seguinte.

            Maria dava longas e deliciosas gargalhadas quando via Gentil saindo dos buracos que ele cavava no quintal. O coelho, como se a entendesse, fitava-a, sério, mas voltava aos buracos, como quem buscasse novos motivos para se sujar e para fazer a doce Maria sorrir. A menina geralmente acompanhava as peripécias do roedor com uma alegria admirável e com aplausos contidos, como se fosse uma lady que vivera séculos antes. Subitamente a felicidade de Maria era interrompida por um acesso de tosses fortes e contrações pesadas no estômago. Arfava com dificuldades e esperava, sempre com um otimismo marcante, que a crise passasse. Os médicos falhavam em diagnosticar qual seria a doença de Maria, porém, ela não os odiava por isso. Sabia que suas duas irmãs sonhavam com a sua cura, mas havia perdoado o mundo todo por antecipação, mesmo quando o mundo falhava tão feio às vezes. Maria sabia que o mundo não acertava com todas as pessoas e que nem mesmo a religião, fuga óbvia dos ingênuos, continha respostas para tanta dor. Em regra todas as promessas mundanas visavam conter o dano. Maria não ficou brava com Gentil quando ele entrou por um buraco e apareceu fora do jardim de sua casa, perto da rua onde passavam os carros. Ela apenas sentiu uma pontada de medo. Os veículos eram perigosos, pois as pessoas estavam sempre apressadas. Maria então se esgueirou pela parte mais baixa do muro e agradeceu pela sorte de conseguir acompanhar o seu amigo. Era mais uma aventura dos dois. Queria abraçar o coelho e sentir, a partir dos pelos quentinhos em contato com o corpo, a renovação da paz com tudo. Queria que em seu coração aflorassem apenas bons sentimentos.

            Maria não entendia para onde Gentil queria ir. Eles sempre haviam sido tão felizes naquele quintal e naquela casa; havia ali mais vida e amor do que em tantos outros lares ao redor do planeta. Como era a vida daqueles que não tinham um lar assim? Gentil, entretanto, desfrutava deste privilégio. A garota suspirou. Era verdade que Maria queria compreender seu coelho, mas se resignava em aceitar sua decisão, pois às vezes amar significava confiar absolutamente, mesmo sem ver. Gentil não tinha pena de Maria. Sempre a fitava fixamente, olhos com olhos, como dois iguais. Obviamente, por ter polegares e mãos, às vezes Maria limpava os vegetais e legumes na cozinha e levava até Gentil. Os dois comiam juntos, partilhavam a refeição e nunca pareciam satisfeitos. A hora da refeição era um momento de intimidade compartilhada entre aqueles dois amigos. Se havia alimentos, eles estavam ainda comendo, até que não restasse nada. Mastigavam pacientemente, prestando atenção em cada mordida, como se nunca tivessem um compromisso posterior. Maria riu com o comentário de alguém que uma vez lhe disse que ela seria o orgulho da nutricionista futuramente. Não sabia o que isso queria dizer, entretanto, o gesto muscular do sorriso, o conforto quente que provinha da ternura, aquele tanto de amor fazia com que Maria sorrisse por reflexo. Corresponder ao amor verdadeiro quando se ama de volta é apenas um reflexo do corpo, como um espirro. Amar e ser correspondido é uma ação involuntária e uma grande sorte. Maria se flagrava feliz diante dos elogios e repetia mentalmente a palavra “nutricionista”. Sorria exultante e cantarolava baixo, ainda que desconhecesse o significado daquelas lisonjas.

            Maria sentiu a areia entre os dedos e subitamente se assustou. Toda sensação nova potencialmente era aterrorizante, mas só nos primeiros minutos. Respirou fundo e sentiu a brisa em seus cabelos; o chão se desfazendo em grãos microscópicos sob os pés. Sentiu uma tranquilidade enorme e envolvente percorrendo sua corrente sanguínea. Estava satisfeita. Tudo era azul, pacífico e de repente seus ouvidos captaram algo a se quebrar, mas era diferente do vidro ou da porcelana. O reflexo de Maria não foi tapar as orelhas e sim buscar a origem dos sons. O que se quebrava continuamente eram as ondas e ela se lembrou que um dia alguém havia lhe dito que havia uma piscina imensa, quase infinita, feita apenas de água salgada. Sentiu uma vontade de beber a onda, de molhar os cabelos, de se entregar ao que era novo. Também haviam lhe dito que ao anoitecer, este oceano ou mar, refletia o céu e fazia uma imitação das estrelas. Maria estava com sede e a curiosidade fez com que ela avançasse mais um passo na direção do mar. Instintivamente olhou para o sol e perdeu a visão por um instante. Tudo se ofuscou. Piscou forte então para que as cores sumissem e. Gentil estava na areia branca também, mas distante o bastante para que ela sentisse um aperto no coração. Queria o seu coelhinho o quanto antes. Alguém outra vez disse que só o amor não bastava, porém, se nem o amor era uma garantia, o que seria? Sentiu um aperto no peito. Precisava de Gentil. Gritou-lhe e disparou o mais rápido que podia em sua direção. O roedor esperou pacientemente, mas quando Maria estava perto de o alcançar, ele saiu saltitando em alta velocidade para longe dela.

            Maria oscilava entre a frustração e o entusiasmo. Acreditava que o coelho estava apenas brincando com ela, afinal, essa era a eterna dinâmica deles. Corriam e corriam, brincavam e brincavam, comiam lentamente os vegetais, legumes e frutas, os orgulhos da nutricionista, ela pensava na palavra e ria com graciosidade antes de apagar em um sono acolhedor e profundo. Nunca sabia o que Gentil fazia após ela dormir, entretanto, o júbilo que sentia era inenarrável ao despertar. Quando abria vagarosamente os olhos, ela via Gentil repousando ao seu lado. Será que os coelhos dormiam? Maria não tinha certeza. Sempre que abria os olhos, ela evita com maestria produzir qualquer barulho, entretanto, o coelho a observava, como se só estivesse esperando que a pequena acordasse. Maria se indagava sobre há quanto tempo Gentil fazia parte de sua vida e se perdeu em lapsos fugazes de memórias confusas. Tinha oito anos, mas tinha doze, vinte, trinta e quatro, cinquenta e um, sessenta e nove, oitenta e dois. Havia acabado de nascer, de se formar, de se casar, de se arrepender, de ser feliz. Queria conectar as pessoas, queria desaparecer, queria ter mais amigos, queria ser mais sozinha, queria saber o que fazer, queria não ter que fazer coisa alguma. Tudo era vago, confuso e sombrio. Esta sensação lhe apavorava e Maria concluiu que pensar nessas coisas não levavam a lugar nenhum. Concluiu que precisava se concentrar em Gentil. A situação era séria e a garota não podia continuar correndo para sempre, a barriga doía, a garganta doía, a tosse estava pronta a lhe atormentar, assim, ela resolveu gritar o nome completo de seu camarada. Senhor Garboso Gentil, ela berrou, ao que o coelho parou novamente, como quem a esperaria. Estava no topo de uma colina verdejante e não se moveu. Se Gentil disparasse colina abaixo, ele poderia despistar Maria para todo o sempre. O roedor não se mexeu e dessa vez esperou a menina, que, enfim, o alcançou. Ela se postou de cócoras e afagou o pequeno corpo do coelho, curando-se de todos os males e angústias. Quando ergueu a cabeça, a garota se deparou com um belíssimo campo florido. Era a coisa mais bonita que ela já tinha visto em toda sua vida. Voltou os olhos ao coelho e pensou que, na verdade, o coelho era a coisa mais bonita e as flores vinham depois. Há coisas que transcendem o tempo. Há amizades que transcendem os mundos e as cronologias. Havia, afinal, um fato improvável: Gentil e Maria eram amigos ontem, hoje e seriam amigos para sempre. Os olhos dela se encheram de lágrimas, mas eram lágrimas da mais pura alegria. O coelho estava com os olhos marejados também, mas a menina não notou. Gentil deu dois saltos curtos para o lado, como uma espécie de sinal e a encarou solenemente. De alguma forma a garota entendeu que voltariam com a brincadeira. Agora ele desceria na direção das flores e ela o seguiria. Estava tudo bem. Correriam e correriam, brincariam e brincariam e, após isso, comeriam os vegetais, as frutas e os legumes e em algum lugar alguém diria que são os orgulhos da nutricionista.

            Gentil partiu em alta velocidade e Maria correu atrás dele. Não sabia explicar, mas respirava melhor e corria mais rápido. Gentil acelerava mais e mais e ela o seguia, acompanhava-o perfeitamente em corridas repletas de curvas acentuadas e saltos. Nunca mais tossiria. As flores exalavam um perfume doce e inebriante. Nunca mais sentiria dores. Seus músculos pareciam alegres com o esforço da corrida. Nunca mais haveria o desconforto chato de tantas ausências. Tudo o que perdemos é para a eternidade, até o dia do reencontro. Gentil continuava em uma corrida alucinada e Maria no seu encalço. Os dois corriam sem descanso, sem hesitação, sem remorsos. Correr era viver e viver era correr. Gentil Garboso era tão veloz que era quase inacreditável, mas a outra o seguia contente, em toda a glória de suas quatro patas. Dois coelhos corriam e brincavam incessantemente pelos campos de flores coloridos produzindo nuvens de poeira por onde passavam. Dois coelhos estavam destinados a correrem juntos para sempre, pois eram amigos pela eternidade e esperavam juntos para roerem rúculas e cenouras.

Os trapezistas.

– O ato do trapezista é o mais lindo por ser o mais arriscado.
– Você acha que a beleza está condicionada ao risco?
– A vida está condicionada ao risco. Quem não se arrisca passa uma vida inteira destinado a inércia ou ao silêncio dos covardes.
– Você está afiado.
– Estou eu.
– Afiado. O que é isso de silêncio e covardia? Bom, eu achei que ao menos os trapezistas dispensassem a filosofia e os pensamentos.
– Quem sabe dispensem? Quem sabe não seja eu a única razão meditativa por de trás de um ato puramente instintivo?
– Instintivo nada! Eu não quis dizer que algo que não receba pensamentos precise ser necessariamente instintivo. Bom, os trapezistas também treinam, ensaiam para valer e só então se revelam no palco principal.
– Todo ensaio é o ato principal quando um erro leva à morte.
– Você perde a magia do espetáculo com tantas conjecturas! Bom, para mim o ato do trapézio não é somente sobre o risco e sim sobre confiança. Isso quer dizer que, se quem deveria te segurar, porventura, não te segura, você perde tudo.
– O risco! O trapézio é como uma história de amor. Você se arrisca e espera que alguém do outro lado segure a sua mão. A vida inteira pendendo em um salto. Tudo está em jogo.
– O trapézio como uma analogia aos amores. Você anda bastante criativo, mas nota que este número do show não foi feito para durar?
– Desde quando a finitude é motivo para a descrença?
– Logo chegam os palhaços que você tanto detesta. Por mais lindo que seja este ato, logo as cortinas se fecham, a iluminação muda e tudo se altera.
– Você parece subestimar o ato dos trapezistas. Se todo ensaio é ato principal para um trapezista, ama-se não somente quando os holofotes estão mirados nele.
– A vida inteira dependendo de um salto… Eu não sei se gosto da ideia. Se é como você disse, como conseguirei acreditar nas histórias, poesias e romances com esse tipo de exemplo? O que dignificará o amor sendo que ele possui vida tão curta? E se eu quiser uma vida diferente dessa?
– Qual seria a sua motivação em fugir do amor?
– Sobrevivência?
– Amar é um salto no escuro. É simultaneamente temer a queda e desejar cair, entretanto, por mais que seja difícil fazer com que esse tipo de discernimento caiba na razão, amar é alcançar o inalcançável.
– Posso viver sem isso, obrigada.
– Só uma pessoa que nunca amou diria isso, mas se você pode compreender como é sutil e perfeito o ato do trapezista, você pode compreender o amor.
– Não foi feito para durar, olha lá ao longe, os palhaços estão chegando e logo esse seu papo todo vai para o beleléu.
– Esqueça os palhaços. É o que eu tento fazer. Você provavelmente está certa. O trapézio é um momento mágico no circo, mas é fugaz. O que você não pode entender é que aos amantes verdadeiros o tempo nunca é curto, mesmo quando as histórias são contadas em poucos capítulos e se encerram de repente. Há quem tenha passado uma vida inteira esperando amar e tenha amado apenas um mês, mas que trocaria estes trinta dias por todo o resto.
– Você trocaria?
– Sim.
– Uau! Nenhuma hesitação.
– E você?
– Não sei…. Eu acho que ainda não vivi isso. Como você quer me convencer a crer no amor se me dá razão no argumento? Como você espera que eu deposite tudo em algo que não vejo? Sou desprovida de dons circenses. Não sou trapezista.
– Eu não quero te convencer de nada, mas você nunca voará se não tirar os pés do chão. Faz-se necessário deixar o ninho. Já ouviu dizer que viver é perigoso? Há um mundo inteiro oculto depois da zona de segurança.
– Então não posso optar por uma vida segura e estável?
– Qualquer ilusão é segura e estável. O voo é imprevisível, bem como a magia. Para explorar novos horizontes é preciso pular.
– É diferente saltar para tocar o teto e saltar sem ter a menor noção de qual é a altura da queda.
– Pois lhe digo que o impacto da queda pode ser terrível, insuperável. Existem os que nunca se recuperam…
– Você está me fazendo odiar os trapezistas da maneira como você odeia os palhaços.
– A única maneira de amar é pular na escuridão e esperar esperançosamente que alguém segure a sua mão.
– Eu ainda tenho medo do escuro.
– Um dia isso tudo passa. É lindo, emocionante, requer esforço e prática, mas por que temer a vida e o amor se o ato dos trapezistas é curto e acaba? Mais vale apostar tudo do que viver eternamente condenado ao nada.
– Você está afiado!
– Estou eu…

Queria ser como os anjos

Eu me lembro que disse uma vez que queria ser como os anjos. Queria poder fazer o bem secretamente, pois a mídia, a repercussão e a recompensa nunca me interessaram. Quem me olhava de fora via silêncios e quem convivia de perto conhecia a profusão do meu barulho.

Era estranho me saber estranho e carregar um orgulho tosco em ser estranho. Sim, os outros, não tão alheios quanto eu, rotulavam-me de estranho e creio que o que queriam fazer ao me adjetivar era, na realidade, desmotivar-me. Calado e discreto, eu sorria, inconformado ou contente, eu não podia negar aquele lampejo de alegria que me fazia acreditar que eu era diferente.

Eu me lembro que disse uma vez que não tinha interesse em ser como os outros e me disseram que me faltava ambição. Seus sonhos são muito poucos e você se alimenta constantemente de uma ilusão. Mora na ilusão. As palavras áridas que recebi me feriram, mas não foram o fim do meu caminho. Aprenderia que confiar no meu coração era o melhor jeito para nunca me sentir sozinho.

A solidão, confesso-lhes, não me assustava, por ter essa mania intrépida de querer me conhecer internamente. Se a Terra orbitava ao redor do Sol e simultaneamente girava em torno de si mesma, quem é que me convenceria que eu não poderia construir o mundo que urgia dentro de mim?

Assim, criei-me como ficcionista, por ser amante da realidade e simultaneamente avesso a ela. Era excelente em mentir, embora fosse o mais verdadeiro. Raramente era até o lobo na pele do cordeiro. Condenado por ser inconstante, satisfeito por me sentir inteiro. Como é que sou humano e me sinto tão estrangeiro?

Tenho sido espontâneo a minha vida inteira, até por isso ninguém me enxerga como sou, por ter eu mesmo ostentado meus tantos fracassos. Tenho narrado epopeias de amor e sucumbido para o meu cansaço. Às vezes esse tanto de dor, faz-me querer fugir para o meu próprio Tempo-Espaço.

Eu me lembro que disse uma vez que queria ser como os anjos e hoje não tenho mais certeza que os anjos existem.

Sonho ou Vertigem.

Estranhamente vertiginoso
arqueei minhas sobrancelhas
Havia bebido muito vinho
Escutei sons e silêncios
Meu cão roncava alto
Eu respirava baixo
Os domingos
não possuem
Meio-termo
Não se negociam
São bons ou horríveis
Nunca medianos
Nunca
Memórias
vaguem pela sala
Os olhos perseguem vultos
A boca agora cala
Para apreciar
a presença dos fantasmas
é preciso manter a calma
Estranhamente satisfeito
Sentei no sofá sem acender a luz
Iluminar o ambiente
é uma ofensa
Quem vê bem
enxerga no escuro
Quem tem o coração grande
geralmente é mais duro
Olhos acesos e indiscretos
Nunca liguei a televisão e vi
Vi a alegria matreira dos espectros
Enquanto brincavam entre si
Eu permanecia imóvel
como um objeto
O crucifixo jaz
no centro da sala
Sinto uma vontade súbita
de arrumar a mala
Quanto desperdício
Queria ser
reciclável
Sou um
Apenas um
Humano
Descartável
Estranhamente alegre
subitamente me entristeci
Agora vou contar algo
que um dia aprendi
Toda bebida alcoólica foi feita
para nos fazer esquecer
Exceção feita para o vinho
Ele pode nos fazer relembrar
de tudo o que houve no caminho
Estranhamente soporífero
Insisto em permanecer
Acordado
Isto não é um poema
São sentimentos que deram
Errado
Ouço sem orelhas
Falo sem boca
Vejo sem olhos
Tudo vai se
perdendo
Encontro-me
Há pirâmides em mim
Egípcio
Cigano
Encontro-me
Regra
Exceção
Alto
Baixo
Perto
Longe
Sonho
Sonho fundo
Sonho real
Tudo é sonho
Tudo é realizável,
mas realizar é perder
Onde está a
ambição?
Mentira
Verdade
Reflexo
Verdade
Mentira
Nexo
Sexo
Cidade
Eu queria dizer
que não queria dizer
mais nada
A vida é
somente a estrada
Se o carro estragar
Você se fodeu
Olha por um momento
Olha para um momento
Olha para dentro
Faz em cima de si
novo significado
A fome
O milagre
Escuta o canto das sereias
Não entrega o teu coração
Contraria os grandes discursos
Ousa ser indivíduo
Exceção
Ouço o tique-taque
O tempo é um conceito
transformado em realidade prática
É como transmitir a mensagem
ignorando a gramática
Se tu me escuta,
Sou feliz por ter te atingido
Se tu ainda sofre
é por estar vivo
Não seja frívolo
Criança fútil e pedante
Entenda a diferença entre
destempero, desespero e esperança
Tu é só mais um amante
De ti já não espero nada
Se faz pouco a pouco
uma enorme piada
Esqueço-te
Focalizo outra coisa
Hipnotizo-me
Penso nos deuses gregos
Devaneio com santuários persas
Sento no trono e repouso o queixo
no meu punho destro 
Contenho multidões
dentro de mim
Quando o relógio marcar
Zero horas
Estarei sem tempo
para sempre
Centauros galopam
por campos verdejantes
Metade cavalo
Metade homem
Que sorte
não ser homem
por inteiro
O que é folclore
é mais verdadeiro
Onde me vejo?
O espelho me revela
Não sou Dorian
Tampouco vampiro
Que pecado
imperdoável
cometerei?
Fui obtuso
Inconcluso
Livro aberto
Páginas ao vento
Sorriso branco
Editoriais
Marketing
Tudo o que nunca
poderei ter
Tudo o que sempre
quase existirá
Quase é pouco,
mas é o que tenho
Rejeito o túmulo
Tornar-me-ei fantasma
Puxarei teu pé na noite
Brincaremos
Olha, que quando eu for
Nada
Talvez sinta falta
de ser alguma coisa
que ainda não sei
Sei que é rápida
A vida
E ainda assim
preciso fazer a barba
duas vezes por semana
Sei que a gente
destrói o que ama
Procuro o teu
Rosto
Procuro a minha
Face
Que nome tinha
antes de ter sido
Inventado?
Confia no teu
coração
Lembra que
todo o resto
é imaginação
Caí e me levantei
repleto de fuligem
Tive uma epifania
Desvendei a vida
Mas já não sei se foi
Sonho ou Vertigem.

Escute-me quando eu tiver partido e se lembre daquele rabisco no centro da mesa de madeira ou do último segredo que não te confessei no penúltimo natal, ria quando eu falar da camisa verde que entorta o varal, como se tudo fosse sonho ou devaneio, invenção minha, claro, eu era um grande inventor ou, pelo menos costumava ser e fale daquele um gigante que gostava de esportes mais violentos, sim, o contato é bom para a sobrevivência, tenha paciência, olha, não é conversa mole ou papo jogado fora, é estranho, não basta plantar e regar, você precisa entender um pouco sobre as estações, bem, são tempos propícios para os sonhos, julho vai se encerrando, muitos morreram, muitos ainda estão vivos e isso não significa absolutamente nada, o quintal precisa de reformas, eu preciso de dinheiro e, na verdade, preciso parar de ser a babá de todo mundo, foda-se, eu queria gritar algo e descer a avenida completamente nu sem sentir vergonha do meu nudismo, bem, que fizeram com os nossos corpos não é nada comparado ao que tentam fazer com as nossas almas, é importante entender e crer nos fantasmas, mesmo para os ascetas e teístas, digo-lhes, fantasmas existem, ainda que não queira estremecer vocês sobre suas crenças ou descrenças em Deus, olha para dentro, tudo é sonho e milagre ou tudo é pesadelo, se fomos feitos para sorrir, por que tanto sofrimento pelo caminho? A poesia salva o sonhador e o sonhador salva o mundo, mas o mundo não liga para o poeta ou para a poesia, assim, faz-se difícil cumprir a missão de cumprir a missão, alimentar o propósito fadado ao fracasso e alimentar a vida fadada a terminar em morte. Que preciso além de energia e sorte? Tomara que você não seja um obtuso estúpido propenso a jogar tudo no lixo. Eu parei de contar as estrelas no céu, pois desacredito no milagre das cadentes e ainda sonho em confiar nessa gente indecente, olha, que é que faço de mim se não me sei? Preciso confiar no que um dia sonhei. O Sonho e a Alma sobrevivem após a morte.

A Renúncia de personalidade.

Ter a personalidade e não abrir mão dela é exigir-se em demasia? Se porventura me forçarem a acreditar que realmente devo abrir mão de mim, ainda que eu esteja cônscio que todo disfarce é inútil, o que restará meu em mim?

Penso no escuro, onde nada vejo, longe dos santos e criminosos, longe do que me ensina a experiência, apenas para que eu possa ver claramente além das situações complicadas. Há vezes que me odeio pela insistência, entretanto, aprendi que a razão superior não deve se sobrepor à razão inferior, assim, insisto no que é preciso, afinal, fazer-nos a nós mesmos é a tarefa, não?

A noção de pertencimento é, em regra, perturbadora, principalmente para quem nunca pertenceu. Há pessoas que comumente elegem ídolos, elevam pessoas até patamares divinos, mesmo que a atenção recebida seja só uma consequência de outra atenção não recebida. Quando dois solitários se unem, abraçam-se e sonham longe com o fim do pesadelo de existir sozinho, entretanto, utilizar-se de outrem para findar a solidão, quando não se tem mais ninguém para contar, é mesmo assim tão valoroso? Calar a personalidade não traduz o emudecimento da alma? Só me arrependi de não ter sido mais eu antes. Se renunciamos o que somos, o que resta de nós? Se abdico de ser quem sou, o que, enfim, torno-me?

Diminuir-me para que os outros se sintam grandes é inadequado. Apagar a minha luz não fará com que os outros brilhem mais. É importante reconhecer quando erro para que possa me desculpar, mas é raso se desculpar em todos os momentos apenas para evitar o conflito. O orgulho é importante quando não é venenoso. Os perdões são gestos imensos, quando sinceros. Quem não sabe perdoar só aprendeu coisas pequenas.

Há centenas de desculpas frágeis e perdões falsos. O tom de voz muda, a necessidade da presença, os pretextos, entretanto, tudo é límpido, absolutamente claro para quem está habituado a ver o mundo. Não posso me sujeitar a isso. Cumpro meus deveres de amigo, ainda que talvez só reconheçam o valor da minha amizade décadas depois. A covardia não me veste e digo o que tenho que dizer, mesmo que erre na forma. A grande ironia de ser verdadeiro é ser execrado por quem não me iguala em verdades. Fui sincero, de todo o coração e há um número notável de pessoas que nunca se recuperaram das injustiças que cometeram comigo.

Pulamos etapas, metaforicamente, quando aumentamos o salário, quando saltamos de estágios na vida, iludindo-nos com a sensação de que somos mais do que somos e de que furamos a ordem cronológica de existência. No fundo continuamos realmente jovens, minuciosos e delicados. Lá para dentro, devagar e longe, a maioria carrega um vasto leque de puerilidades. A maioria não move um dedo para resolver uma desavença ou um conflito, porém esbravejam sobre como tudo é incerto e errado. Apontam os dedos julgando as inconsistências alheias, ignorando todas as próprias. Não, meu caríssimo Jean, nós não nos alcançamos nunca. Eu nunca fui culpado pelos problemas que você tinha aí dentro e nunca teve a coragem de externar.

A ilusão da evolução pelo avanço dessas ditas etapas é notório e muitos se perdem. É como se tivessem desvendado uma espécie de fórmula de desvendar a vida, eu sei, ingenuidade, mas e daí? Mera mudança não é crescimento. Uma mudança real, dura, verdadeira, exige continuidade e aprendi que sem continuidade não há crescimento. Perdoei todos os que me foderam e sinto que concluí a tarefa mais difícil de aprender a me perdoar pelos meus erros. Nunca caminhei longe da humildade e entoei em voz alta tudo o que um dia me feriu. Nunca carreguei mágoas e a ironia é que alguns nunca se recuperaram das injustiças que cometeram comigo.

Por vezes penso que nasci do avesso, cresci ao contrário e me guiei por incertos instintos cósmicos. Era velho na infância e me sinto rejuvenescer com o decorrer dos tantos anos perdidos. Seria eu uma criatura interplanetária perdida na Terra? Foi em uma manhã de março que vim ao mundo para lidar, dia após dia, com despedidas. Nunca me esqueço de que um dia partirei também. A maioria sobrevive hostil, vil, sem memórias ou lembranças. Queria antever o dia da morte para sorrir em uma última dança.

Tudo em mim é muito por pouco tempo, mas me percebo expandir de maneira extravagante, ilimitada, lépida. Quase tudo me interessa, ainda que seja apenas por alguns dias ou meses e noto que a prolixidade dos meus sentidos contradiz minhas atitudes sucintas. Fito o rosto que tinha antes da criação do Universo e sinto urgência de alimentar a minha alma. Posso desapontar desconhecidos, porém avanço passo-a-passo em direção a mim, encontrando o que sou e significo.

Tenho sentido uma evolução, estou mais saudável, mais imperfeito, mais humano. Não posso aceitar tudo e não vou. Não posso concordar com tudo e não vou. Existo para as pessoas que amo, porém, é preciso me recordar de que eu sou uma delas, sim, amo-me primeiro como se o amor pudesse garantir a minha sobrevivência. Amo-me primeiro e não me ajoelho, pois o amor é a minha essência.

Bem, Gunnever, Aurum B, September, todos os filhos de fantasias e ficções, sim, vocês que traduzem o meu coração nobre, bom, eu talvez insista em vocês tanto quanto tenho insistido em mim. Se sou humano o suficiente para conhecer meus limites e humilde o suficiente para me arrepender e me desculpar, se sou objetivo e resolvo meus conflitos, ainda que não resolvam comigo, o que carrego para me arrepender? Nada! Não, daqui em diante vou, outra vez sem arrependimentos.

Ter a personalidade e não abrir mão dela é exigir-se em demasia? Se porventura me forçarem a acreditar que realmente devo abrir mão de mim, ainda que eu esteja cônscio que todo disfarce é inútil, o que restará meu em mim?

Estou lúcido e consciente, não posso me destratar, não posso estender tapetes. Sei que não basta ser amigável. É preciso ser amigo. Sei que não basta ouvir. É preciso falar. Há silêncios que envenenam e segredos demasiadamente grandes sufocam. Não estou mais paralisado por meus medos. Outra vez me flagro a disparar verdades pelas pontas dos dedos.

Mudo devagar e de forma contínua por compreender que a repetição reforça a missão. Ando distraído, porém não me perco entre as estrelas, mas amo os planetas e a lua; não me desoriento buscando dentro dos aviões o meu propósito de vida. Morro de pena de quem nunca conheceu o seu lugar. Cada dia é uma cena eterna para quem não sabe perdoar. A vida em si é meu propósito e me sinto grato por notar. Sobre a vida e a morte, a saúde, a sorte, eu não tenho respostas, mas estaco e respiro enquanto admiro essa velha cidade.

Renuncio o Universo, mas não abro mão da minha personalidade.



Ausência.

Outra noite dessas ansiei pelo teu corpo
Eu, fantasma de mim, caminhava, sôfrego
Percebi que cambaleava notavelmente trôpego
Ajoelhei-me e vomitei meus restos até me sentir oco
Que é que sobrara de mim agora tão sem sorte?
Pensei que a tragédia encontrava o fim junto com a morte
Contrariando todo o senso de lógica contemplei Deus
Aprendi que ele morava na Escuridão e no Silêncio
Essa gelidez nos ossos é a presença divina?
Liberta-me, Senhor, sofrer não pode ser uma sina
O destino amaldiçoado de ser o rei da inconstância
Príncipe condenado a amar somente à distância
Pesadelo febril onde algo tenta destruir a minha casa
Sonho sombrio onde arrancam de vez estas asas
Outrora brancas, agora minhas penas jazem negras no chão
Que tu esperava, Anjo Mau, além da vituperação?
Tento evitar o sonho e não me sei, mas falho
Estou perdido entre duas realidades que não se parecem
Estou rezando para partir deste mundo que não me merece
O vento ululante sacode meus cabelos
Queria exibir minha coragem, mas estremeço
Fito esta lápide com a memória da saudade
Já não sinto o seu toque e choro sem lágrimas
Já não sinto tuas fúrias e nem tuas calmas
Já não provo teus beijos, pois nem tenho boca
Já não fito tuas cores agora tão foscas
Outra noite dessas ansiei pelo teu corpo
Eu, fantasma de mim, insinuava-me ardente
Senti o teu último abraço frio contra meu peito quente
Gritei aos céus, aos infernos e demônios que mudassem
Que fazeis com esse tanto sofrimento?
Que monstro vil se regozija da minha dor última?
Deve haver alguma explicação que facilite
Eu queria te dizer que estou bem, mas não consigo
Guia minha mão, espectro belo, para outro caminho
Sorria docemente mais uma vez e eu te sigo
Para o destino inexorável e cruel que compartilhamos
Para o que fica resguardado secretamente no fim do oceano
Para a memória falha daqueles teus planos
Apenas me leve de volta contigo para onde quer que esteja
Céu, Inferno, Purgatório, não importa, abre a porta e me beija
Receba-me como se nunca houvesse me traído
Trate-me como amante, amor, e marido
Respeite-me como se eu tivesse sido o pai dos teus filhos
Não me repreenda se eu me debulhar em lágrimas
Sobrevivo hoje no fio da navalha
Disseram-me que um dia me acostumaria com sua ausência
Cem anos se passaram e já não tenho paciência
Você domina meu futuro sem insistência
Outra noite dessas ansiei por você
Não havia mais ninguém na cama
Disseram-me que passou uma década,
Jurei que só havia sido uma semana
Baila na nossa história com tua ginga cigana
Confessa aos sussurros nos meus ouvidos
Diga-me para onde foram os anos perdidos
e aquelas tantas memórias de amor
Eu morreria por você e me arrancaste este privilégio
Sigo confuso e sonâmbulo em sonhos régios
Rei no reino dos bilhões de solitários e sofredores
Aprendi tudo sobre a morte dos amores
Ensinei quem pude a amar também
Ainda assim foi condenado a nunca poder ir além
Que me pertence ainda, se me arrancaram a vida?
Que continuação justifica se não procuro as saídas?
Outra noite dessas eu era uma criança ingênua
Outra noite dessas eu rabiscava um poema
Sobre qualquer lembrança suada e obscena
Qualquer coisa que me fizesse quase te sentir
Porquanto a morte for mesmo o único fim
Nunca mais voltarei a sorrir
A única dúvida que não tenho é que
aquela nossa história de amor realmente aconteceu
Às vezes saio de noite e te procuro em lugares
nos quais você nunca se escondeu
Às vezes ainda fecho os olhos e finjo
que você nunca morreu.

Uma noite qualquer.

Foi em uma noite qualquer, quando ela bateu na porta de minha casa. Eu, míope, mas com olhos suficientemente bons, reconheci sua forma e a sua voz, desentendo a lógica da aparição. O amor quando verdadeiro é insensato. Eu não precisava da lógica. Instintivamente, eu sabia. Era ela, inequivocamente era, pois eu havia memorizado até mesmo o jeito de se insinuar. Escutei mais três batidas em uma insistência atípica, fiz-me surdo e perguntei mais de uma vez, apenas para avaliar a minha própria sanidade. Ela respondeu sem titubear.

– Meu bem, você é feliz há tantos dias consecutivos. Tenho convicção de que sentiu a minha falta. Não vai me deixar entrar?

Respirei fundo, enchi-me de coragem para falar o que ela merecia ouvir, tudo o que estava sufocado, preso estreito dentro do peito, mas me flagrei diante da porta e minha mão destra a abriu. Ninguém me conhecia tão bem. O que mais eu poderia fazer? Prometi que lançaria um olhar gélido, mas ela viu que meus olhos estavam impregnados de saudade. Avancei quase contente por reconhecer a Tristeza e sorri triste tendo um vislumbre de que os olhos dela também estavam marejados. Dei o meu sorriso mais acolhedor e pedi para que se sentasse enquanto eu fazia o café. Ela me fitou com mistério, como se fosse me contar algo, eu não perguntei, pois aquilo podia ficar para depois. Só quando enchi as duas xícaras, notei que ainda estava sozinho e havia servido café para dois.

Qualquer dia desses.

Qualquer dia desses, eu parto e não volto. Quem sabe, antes de ir, eu avise minha mãe do meu paradeiro, apenas para que ela se tranquilize. Não há mãe que mereça perder o sono pelas aventuras de um filho, entretanto, todas as mães do mundo entram na estatística da insônia e se tornam vítimas da indústria farmacêutica.

Todos falam o tempo inteiro e, exigem-me coisas, atitudes, posicionamentos e eu, tão feito de pausas quanto de silêncios, enervo-me perante ao esdrúxulo espetáculo da dramatização do tédio alheio. Por ter pacificado a minha relação com o nada, por ter me tornado um mestre dos espaços vazios, não tumultuo meu próprio silêncio com barulho. A minha mente, que costumava ser uma tela constantemente colorida, hoje em dia surge, vez ou outra, como uma tela em branco. Aprecio o interlúdio e respiro.

Todos falam tanto e raramente escutam o mínimo. Eu já nem lembro quais foram minhas últimas demandas atendidas. Quantos pedidos meus foram colocados na fila de espera? A realidade é que muito se exige e pouco se entrega.

Estou exausto de fazer solicitações e concessões. Esqueceram o meu aniversário e como tudo sucede ao contrário, eu fui alvejado de reclamações. Ainda eu, vítima da vituperação alheia, recebo a recomendação de ficar calado. Insisto tanto em ser leve que todos supõem que eu não sei “pegar pesado”. Afaste-se, acaso pretenda me ferir, deixe-me, se quer provar o sabor do meu sangue. Use a prerrogativa da honestidade direta e indiscreta, mas não me ataque com oportunismos que visam minha derrota e vexame.

Se odeia alguém, não seja simpático. Se possui algo contra, seja enfático. Se são bons os seus motivos, aplique-os e seja prático. Essa praticidade que tanto me exigem, ninguém nunca me deu.

Até quando eu deveria pedir licença por existir? Até quando será que me vão me exigir retratações frágeis seguidas por deificações de falsos ídolos? Eles não são o planeta inteiro. Eles são a única coisa que você possui. Estou farto dessa arrogância constante, destes sorrisos plásticos, dessa constante atuação. Vá ou não vá. Estreite ou rompa o laço. Faça ou não faça, mas se porventura alimentar o rancor, recuse beijos e abraços.

Se me exigem tanto, comecem por vocês mesmos. Quero ser apenas unidade, eu sou apenas um. Quantas vezes terei que repetir para que me ouçam? Não escravizo ninguém segundo minhas vontades e estou cansado de viver pelos outros. Todo o muito que entrego, em réplica, sempre soa pouco. O que ofereço nunca é o bastante? Saiba que é tudo o que tinha neste instante.

Sina desesperadora de existir é ter que liderar. Todo mundo quer que eu os faça sorrir, mas ocultamente se aprazem de me ver falhar. Não sou eu também humano, feito de falhas, derrotas e medos? Se estou no meu tempo, por que alguém sempre diz que cheguei tarde ou cedo? Aceitem a minha ausência de pontualidade. Eu falto em muitas coisas, porém, eu sobro também. Sou um especialista em ser quem sou e essa teimosia de amor ainda vai me levar além.

Só por hoje imploro para que cesse esse drama, oro, mesmo sem crer, para que me sobre um vislumbre de felicidade, um pedaço onírico de sonho para sonhar, uma realidade que me seja menos pungente, uma ou outra pessoa que me escute e que tente, realmente tente me entender…

Estou preso a não sei o quê, mas qualquer dia desses me solto. Se eu me cansar de vocês, eu parto e nunca mais volto. Se isso acontecer, neste ínterim final, lembrem-se, enfim, que eu era humano. Acostumados a heroísmos e obrigações que não deveriam me pertencer, recordem-se de que eu era apenas mais uma gota neste imenso oceano.

Cuidado com o que constroem em suas cabeças vãs. Se vocês desconhecem até os seus parceiros, que é que vocês sabem dos outros? Essa mentalidade de clã transborda uma hostilidade lúcida somente aos loucos. Preciso sobreviver, ainda que não saiba mais os meus motivos. Preciso permanecer… é a única chance de encontrar os tantos sonhos e anos perdidos.

Estou me desapegando para não me apagar. Estou me acendendo para que possa continuar. Estou sendo, cada vez mais, eu mesmo.

Como todos me exigem e nada me entregam, eu aprendi que as verdadeiras ânsias da alma são individualistas e cegas. Este altruísmo de boteco não vai me levar a nenhum lugar. Se essa é a minha maior verdade, por que não consigo mudar?

Desligue suas obsessões. Desapegue-se das suas expectativas. Vocês todos acham muitas coisas e eu…

Eu sou apenas o que sou, longe dos achismos e opiniões. Repleto de puerilidade, eu me habituei a ser franco e não fazer comparações. Eu sou apenas o que sou e firo por ser, coisa que é realmente rara. Às vezes me constranjo, mas estampo minhas verdades na cara. Se a mim permaneço um mistério, insondável, profundo, complexo, como vocês ousam tentar me antever? A única realidade lógica é que vou cair e perder.

Esqueçam o que supuseram de mim. Nunca mais me idealizem. Vocês todos acham muitas coisas e eu sou diferente. Vocês todos acham muita coisas e eu apenas…

Sou.