É estranho como a voz narrativa altera as percepções sobre a realidade na qual nos instalamos. Tenho a mania de abrir as asas e não voar, é duro admitir a minha condição, mas como um doente terminal não pode evitar a morte, eu não posso evitar o chão. Uns dirão que tenho escolho e que tenho evitado a vida. Tenho? Abro as asas e não voo, ao invés disso, eu acolho as pessoas, protejo da chuva e dos danos, esquento-as, blindo-as e isso pode ser considerado bom ou altruísta aos olhos alheios, mas em outras perspectivas é só uma maneira extravagante de me evitar. Você percebe? É que cuidando dos outros, protegendo os outros, ainda que seja na dureza áspera da minha sinceridade sem hesitação, eu me evito e fujo, mais ou menos uma coisa “quanto mais eu puder fazer pelos outros, menos eu posso fazer por mim”. E aí sou humano e erro, mas busco respostas racionais, faço conjecturas e silogismos, chego até a beirada de mim e depois mergulho ao cerne, tentando desesperadamente me fazer sentido para não repetir os equívocos que cometi e canso de ver pessoas que fazem o contrário. Olho e vejo aqueles que por conhecerem o sentido, mergulham no erro e percorrem o caminho às avessas, porque “fazer dar certo”, tanto quanto “fazer dar errado”, podem representar cenários igualmente assustadores. Discernir não me faz melhor. Saber mais me faz sofrer mais?
Desconhecer é perigoso e terrível, porém há certas coisas que nos envenenam para sempre quando as conhecemos. Quão tranquilizador é saber cuidar dos animais e nunca errar o dia de regar as plantas, especialmente quando nos forçamos ao degredo, quando caímos na escuridão? Despenco para dentro de mim mesmo e não me entrego. Estar só me permitiu não ser cego, entretanto, ver a verdade é encarar a luz e a escuridão do mundo. Por vezes preferia ser alheio e me fingir surdo e mudo. Que ninguém jamais pudesse me alcançar nos recônditos de mim. Se no externo nunca terei tranquilidade e paz, encontrarei sossego no fim?
Enxergar a vida como ela é não é uma punição, mas para os honestos natos, é preciso ter tato, sou um péssimo apostador com uma boa mão. Sou um especialista no amor e a cada dia estilhaçam o meu coração. Como alguém que sabe voar pode ficar tanto tempo no chão? Interlúdio dolorido. O meu mundo outrora era mais colorido. Consternações novas e a estética da alma inabalada. Inacabada. Inalada. Se eu ainda me pertencesse, talvez não sentisse falta de nada. Um sorriso plácido brota, plástico, uma alegria infundida subitamente na rotina para que se possa disfarçar os comentários ardilosos feitos subitamente, vontades esmagadoras de humilhação, o que somos atrás das máscaras que vestimos, fealdade, destruição. Ando despido das minhas vaidades, evito os desfiles de moda, a luxúria, o ego, o status, entretanto, conheço-me ao ponto de conhecer o jeito certo de retorcer o nariz diante de um rival, de revirar os olhos, de me enfurecer pela ingenuidade que escolhi conservar. Acreditar nas pessoas é preciso e ainda assim requer um nível de esforço, sinto que vou me esgotar. Por que insisto em acreditar nas pessoas? Se todos são tão mutáveis e oscilantes, eu incluso, como distinguir a mentira sorrateira de uma mente brilhante em face de qualquer verdade que muda de forma dez vezes ao dia em uma cabeça confusa? O que nos distingue dos monstros são os fatos ou as narrativas? Conjecturar como Pessoa e me contentar com a minha própria mediocridade obtusa, sair sem casaco no dia mais frio do inverno. Agradam-me todas as obscenidades somente uma vez por mês e assim desço ao inferno. Observo a paisagem, é a minha maneira de me fazer anjo, rio-me, angelicalmente extravagante, meio diabo, inteiro eu mesmo. Então eu entro nas lojas e todos querem me vender as coisas, captam qualquer coisa convincente no meu jeito de olhar e andar, mas eu apenas sorrio e anuncio que tudo não passava de uma provocação, “obrigado, eu não quero nada, só estou dando uma olhadinha”. Os outros se eriçam e eu gargalho, só estou olhando, isso de querer consumir tudo é um vício de alma, todos temos grandes vícios assim, todos temos buscas por objetos ou objetivos impossíveis, afinal, qual seria a graça de sonhar com o que é palpável? Recordo-me de uma frase maravilhosa e me identifico: “se eu quisesse, eu enlouqueceria”. Será que não quero?
Vim, vivi, cri, olhei e sorri, mais do que o normal, contive os loucos dezenas de vezes e não abandonei nenhum deles, mas penso que se fosse eu o louco, sim, todos me deixariam para trás, pois eu subi a régua e nunca pude abaixá-la. O que nos leva a deturpar a realidade para proteger quem mais amamos? Será que é a nossa carência? Seria mais fácil cortar relações familiares, amizades, amores, se não conservássemos bondades inatas. Quão difícil é aceitar que escolheram nos machucar com palavras ácidas e golpes de facas? Quão difícil é não subjetivar uma atrocidade exata? Rezo para que possa me preservar e consiga me conservar inocente. A verdade é que me machucaram e nunca houve acidentes. Quão doloroso é aceitar que realmente pensam o que pensam e que disseram exatamente o que sentem? Quão impossível é olhar para o pássaro amarelo ao poste e compreender que você deseja uma vida diferente? Quão assustador é amar e o quão desesperador é nunca ter amado? Escuto sem macular meus pensamentos com impressões alheias. Ouço o que me dizem apenas porque o dizem e presto total atenção. Se porventura há recados sigilosos nas entrelinhas, eu geralmente os capto, guardo-os, sem dizer, pois os segredos alheios não me interessam mais que os meus próprios, sim, busco a conexão real ou a ilusão de que isso exista. Espero que eu nunca desista. Dentro do avião busco as janelas acesas e penso nas tantas famílias preocupadas com a fome, o salário e as despesas, penso em tudo o que existe, quase como se algo fosse real fora da minha cabeça. A grande realidade é que ando sozinho, eu sei, não existe nenhum caminho e nem mesmo um rei. A gente acorda neste mundo, nestes lugares e faz alguma coisa, até quando não faz coisa alguma e segue em um fluxo ininterrupto, exceto pelas noites de sono, essas pequenas pausas, intervalos, o horário do almoço da alma, já que representa o único descanso real ao cérebro e ao coração, ainda que as funções mecânicas não desliguem, pois o instinto é forte e o coração sabe, mesmo sem entender, que precisa continuar a bater. Isso é belo e poderia colocar em algum livro, mas o que pensei é que vencer é chegar em casa e não esquecer de amar quem ficou o dia inteiro aguardando, sejam gatos, cães ou pessoas, crianças ou adultos, pois existe sempre quem te espera. Talvez esse lusco-fusco, em um susto, faça todos os dias serem primavera. Quem sabe seja essa a nossa ligação, nossas janelas e porque sou gente, me abato de repente e sinto uma vontade imensa de enlouquecer. Opto pela melatonina e pelo sono. O instinto é forte e o coração sabe, mesmo sem entender. Para evitar a morte é preciso ter sorte e continuar a bater.
Quanto de nós em nós sobra quando focamos em nossas particulares perspectivas? Vivi tanto pelos outros que aos poucos não tenho voz narrativa. Vivi tanto pelos outros que perdi a minha própria vida.
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