Foi em uma noite qualquer, quando ela bateu na porta de minha casa. Eu, míope, mas com olhos suficientemente bons, reconheci sua forma e a sua voz, desentendo a lógica da aparição. O amor quando verdadeiro é insensato. Eu não precisava da lógica. Instintivamente, eu sabia. Era ela, inequivocamente era, pois eu havia memorizado até mesmo o jeito de se insinuar. Escutei mais três batidas em uma insistência atípica, fiz-me surdo e perguntei mais de uma vez, apenas para avaliar a minha própria sanidade. Ela respondeu sem titubear.
– Meu bem, você é feliz há tantos dias consecutivos. Tenho convicção de que sentiu a minha falta. Não vai me deixar entrar?
Respirei fundo, enchi-me de coragem para falar o que ela merecia ouvir, tudo o que estava sufocado, preso estreito dentro do peito, mas me flagrei diante da porta e minha mão destra a abriu. Ninguém me conhecia tão bem. O que mais eu poderia fazer? Prometi que lançaria um olhar gélido, mas ela viu que meus olhos estavam impregnados de saudade. Avancei quase contente por reconhecer a Tristeza e sorri triste tendo um vislumbre de que os olhos dela também estavam marejados. Dei o meu sorriso mais acolhedor e pedi para que se sentasse enquanto eu fazia o café. Ela me fitou com mistério, como se fosse me contar algo, eu não perguntei, pois aquilo podia ficar para depois. Só quando enchi as duas xícaras, notei que ainda estava sozinho e havia servido café para dois.