Divagações Prolixas

Àquela época, juro, não havia como entregar mais do que eu já entregava. Não me entenda mal, eu não era dado a perversões, não era particularmente viciado em coisa alguma e me sobrava a disposição juvenil para o labor que só transborda nos realmente jovens e espirituosos. Eu era, hoje vejo, ainda ingênuo. Alimentava minhas crenças na possibilidade de crescer na empresa em que trabalhava e acreditava fervorosamente na meritocracia, assim, não me importava em me matar de trabalhar, na verdade, até desejava trabalhar até a exaustão, mesmo que minhas mãos estivessem trêmulas ao final do expediente e meus olhos avermelhados. Não era como os japoneses que trabalhavam até quinze horas por dia, entretanto, com uma personalidade obstinada, firme como o aço, eu dificilmente me dobrava para o cansaço ou qualquer outra coisa. Se eu era capaz de lidar com a exaustão era sinal de que estava tudo bem. Meus esforços resultariam inevitavelmente em uma carreira bela e sólida.

Quando se quer trabalhar, porém e, surgem centenas de obstáculos entre você e o objetivo, há de se respirar sem pressa e recuperar a confiança. Mantenha a calma e contenha o entusiasmo. É preciso fazer um esforço hercúleo em não se esforçar. A primeira vez que me vi defronte ao dilema senti um torpor crescente, pois as informações pareciam e ainda me parecem antagônicas. Como absorver uma informação que soa como uma brincadeira? Você pode estar chocado, entretanto, eu falo a verdade sobre isso de se esforçar em não se esforçar. É mais ou menos como a expressão se fechar em concha, mesmo que não guarde pérolas. Há ambientes em que há um empenho notável em não levar qualquer tipo de conhecimento além. Tudo pede discrição? Tudo. Sabemos o que sabemos e ninguém nos ensinou, logo, também não me sinto obrigado a fazer o mesmo já que nunca o fizeram por mim. Bem, há duas maneiras claras de fazer a leitura da situação: lendo-a ou evitando lê-la. Só os banais se desgastam sem a necessidade.

Àquela época, juro, fechava os olhos da minha intuição para evitar o pior que antecipava dos outros. Nestes tempos de isolamento, é mais fácil se esquecer de si mesmo. Sente saudade de quem costumava ser no mês passado? Sente o peso das culpas do extenso mês de fevereiro? Sente o cheiro da maresia e o aroma de vida nova da cabeça do seu sobrinho? Por quanto tempo vale a pena ser o que é? O que você faria para se adaptar e se sentir um pouco melhor a respeito de si mesmo? Proteja-se, rápido, seja com a sua afiada argúcia intelectual ou com seu notável porte físico. Ninguém transporá suas armaduras e você estará certo em se sentir seguro, desde que nunca perguntem. Você reconhece os facilmente impressionáveis por também ser assim, certo? Não ter um rumo para onde seguir é a personificação da jornada de solidão no deserto. Toda a atenção do mundo não te faz sentir mais esperto. Falhar consigo mesmo não é uma possibilidade. Você sequer existe quando não há estímulo e atenção dos outros.

Agora estenda os raciocínios e vá além. Desabroche no asfalto, quebre o silêncio com um grito, erga os punhos e não se deixe abater tão facilmente. Respire fundo e aguente firme. A jornada quase nunca é simples. A vida exige de nós um pouco de jogo de cintura e há quem confunda um rebolado discreto com um curso profissional de dança. Não devemos nos esticar distâncias impressionantes e difíceis de calcular apenas para tentar impressionar os outros. O que resta de nós quando abrimos mão de nós? Os preços, altos ou baixos, geralmente são pagos. Os fins, dizem, justificam os meios. Qual é a sua opinião sobre fins e meios? Sinto um arrepio e não sei se é devido ao pensamento perigoso ou ao café ruim do meio de uma tarde de trabalho. Sorrio e temo pelo dia em que puxarão o meu tapete. Deveria viver objetivando deslumbrar as pessoas? Conheço meios para ser o centro das atenções, portanto, deveria colocar uma melancia na cabeça e fazer com que tudo seja sobre mim o tempo todo? Sou desprezado e detestado por pessoas viciadas em impressionismos baratos. Não me esforço para dobrá-los ou convencê-los. Eles, por sua vez, irritam-me de vez em quando e me tiram do sério. Respiro e me recomponho. Não preciso tornar relevante quem não o é. Calo o meu lado intelectual, privo o planeta da minha existência, sou o que resta de mim em mim, sem plateia, sem aplausos, sem assovios ou tomates. Penso antes de abrir a boca e por vezes a fecho sem nada dizer. Os sonhos inadequados, se eu os tivesse, não os compartilharia como quem percorre trilhas secretas, sorrateiro, deixando pedaços de pele e de presença. O que será que querem? O que eu diria se não tenho o que dizer? Será que deveria forjar opiniões aprazíveis para me encaixar e ser adorado pelas pessoas? Todo mundo gosta tanto de quem tem a fala fácil e a adaptação rápida. Todo mundo gosta tanto de amar quem é completamente desconhecido. Algo dentro de mim pede para sair e reflito que isso talvez não agrade meu público, conscientizo-me de que isso tudo talvez amargure o meu grande espetáculo. Dou de ombros. Quando o que urge dentro pede para existir fora, respiro fundo e aliviado, solto o ar do meu peito.

Não devemos calar a nossa voz interior apenas para encontrar um tom que agrade a multidão. Não devemos nos apagar do que somos para nos apegar ao que não somos porque queremos desesperadamente pertencer. Apego-me muitas vezes ao que não sou para continuar não o sendo. Os prêmios pelas melhores atuações são excepcionais, mas os troféus fictícios não podem ser ostentados na estante. Na galeria dos troféus de mim, só me orgulho de quando consigo me manter “Eu” em face do horror reproduzido pelo mundo. Estou consciente de que sou capaz de reproduzir Beleza e Horror. Opto, na maior parte do tempo, pela difícil tarefa de valorizar o Belo através da exaltação das discretas coisas frágeis.

Os erros são, na verdade, tão legítimos quanto os acertos. Àquela época, juro, exprimia da vida todo o suco que ela podia me entregar. Os erros aconteciam aos montes, mas os acertos ocorriam em frequência ainda maior. Veja, não é como se eu não estivesse tentando ir para algum lugar, entretanto, os nossos alvos internos são, geralmente, invisíveis aos olhos dos outros. Nos aprazemos em tornar defectíveis os que jazem longe e nos apressamos em aperfeiçoar os que estão perto o bastante ao ponto de parecerem figuras místicas. Franzimos o cenho, cruzamos nossos braços e, não raramente, atacamos quem ataca nossas pessoas amadas. Somos o escudo que se levanta e ampara as flechas, mesmo quando os disparos são realmente merecidos. Alguém já te defendeu quando você estava errado? Como isso faz você se sentir?

Por vezes sinto como se meu cérebro fosse pifar e me lanço outra vez em esforços hercúleos, homéricos ou qualquer coisa assim, sobre lendas que nunca me fizeram a menor diferença, apenas para pensar menos e me acalmar. Quem não sabe perdoar só sabe coisas pequenas e quem se apequena para se encaixar pode muito bem ser esmagado, mesmo que sem querer. A vida é linda e feroz. Minha expansividade baila com um sorriso brincalhão de júbilo na face quando me percebo convicto a respeito de uma opinião que posteriormente se configura completamente verdadeira em um tempo-espaço futuro. Não sei o que falo, o que calo, mas aos poucos compreendo que Deus mora no escuro. Não só na escuridão qual temo, bem como no sol que cega meus olhos. Deus é um amigo que esquenta e esfria e tenho que me esforçar para ser um filho pertinente. Tento me acostumar com quem não me exige costumes falsos. Pertenço a quem não me obriga ou me estimula a me disfarçar e a quem me aceita exatamente como eu sou. Olho-me e me reconheço confuso. Quantas divagações espirituais e divinas para alguém que quase nunca reza. A minha fé, porém, subsiste nas coisas certas. Quando falho com o que considero correto, falho comigo, fecho-me e me envergonho. Volto outra vez a escutar gritos assombrosos, miados fantasmagóricos e os calafrios agora são mais assustadores. Meus pelos se eriçam e me vejo pronto para o combate. Espécie de fera arisca, sou feito de amor, mas o meu coração de guerreiro bate. Estou de joelhos, mas me levanto cambaleante. Luto quando é preciso lutar. Faria sangrar pelo que é certo. Faria sangrar pelas pessoas que amo. Banharia meu corpo em vilezas, desde que feitas de certezas, ainda que a maioria do mundo considerasse um engano. O tempo todo nos conduzem por um processo estreito qual nos empurra para um pensamento de massa. Tudo se polariza e você deve escolher um dos lados. De que lado você está?

É preciso, eu juro, empreender um esforço sobrenatural para não escolher. Não é fácil apontar os erros dos outros enquanto reconhece os seus próprios. Não é fácil parar de amar ídolos fracos e falsos só porque um dia lumiaram os nossos olhos. A vida é o caminho que escolhemos e os milhares que deixamos para trás. Quem sabe fôssemos mais felizes, quem sabe tivéssemos sucumbido diante das trevas do Universo, quem sabe a solidão nos fortalecesse ou nos matasse de vez. Quem sabe o que teria acontecido se eu não tivesse entregado todas as moedas ao mendigo ou doasse meu casaco ou cortasse o papo do coreano. Carrego a lanterna como a prova de algo que não sei o que provar, mas sempre sorrio com a lembrança do presente. Quem sabe a lanterna do coreano me faça me sentir mais lanterneiro, como o menino naquele avião ou quem sabe eu precise me alimentar de coragens alheias para fortalecer a minha própria. Quem sabe esse Vide Noir cresça, diminua e cresça outra vez. Quem sabe abrir mão de alguns casacos tenha me garantido eternamente aquecido. Quase fui engolido, mas saí do fundo do poço. Quase pelo mundo fui esquecido e ninguém se recordaria do meu nome no meio dos destroços. É estranho não tentar e crescer. As pessoas dizem e nunca cumprem o que prometem fazer. Sei de memória de pelo menos dez pessoas que juraram ler meu livro. Elas, na verdade, estão mais interessadas em quaisquer futilidades nas rotinas ou nos feriados e domingos. Talvez todo mundo minta que se importa. Talvez a solidão outra vez me bata à porta. Talvez o meu destino seja ser triste, entretanto, luto ferrenhamente contra o destino. Se tenho força para me levantar posso então mudar o meu destino?

Sigo, trêmulo, oco, repleto, opaco, cego, confiante, hesitante, claudicante, alegre, triste, entusiasmado, pelas centenas de estradas da vida. Talvez devesse escrever mais doze contos sobre realidades tão comumente esquecidas. As mesmas pessoas que então juraram me ler, por sua vez, jurariam de novo e novamente não leriam. O que nos resta quando nada interessa e tudo soa como uma péssima poesia? Rimo, faço anagramas, sigo, sorrio menos, deveria sorrir mais, Anna diz, meu avô dizia, meus avós diziam, meu pai dizia. Dani, seu sorriso é tão lindo, por favor, sorria mais, mas não posso deixar de ver o que vejo e há coisas de mais espalhadas pela cidade e os outdoors foram removidos e eu não sinto saudades, mas os outros parecem o tempo inteiro quererem voltar ao cerne de uma vida sem expectativas. Sairemos todas as noites e que nossas vidas sejam esquecidas. Noctívagos de olhos espertos espreitam a escuridão e eu sei que já fui um deles. Distrações não me distraem e eu choro. Distrações não me distraem e me permito respirar. Os cochilos são sagrados, mas às vezes Deus me furta o sono e compartilho um silêncio de roncos baixos com a mulher que amo. Melhor seria apagar, mas permanecer acordado também é precioso. Tenho medo de não a ver roncar mais. Tenho medo dos medos. Secretamente encaro meus maiores desesperos.

Lá vou eu, como um navio, desbravar o mar em uma noite de tempestade, livre do medo de soçobrar. Nem a criatura mais forte diminui a potência das marés. Eu talvez morra essa noite ou essa tarde porque meus entendimentos falharam em ser entendidos por todos, inclusive, por mim. Vencemos todas as vezes que apostamos em nossas individualidades. Fracassamos toda vez que nos disfarçamos. Ser pequeno não serve ao mundo e, respiro-me, saio de mim, para encarar essas tantas adversidades. Talvez eu perca a minha vida, mas quero observar o sono da mulher que amo e deixar que meus braços lhe confiram uma sensação de segurança. Talvez eu perca a minha vida, mas um dia vou matar o dia de trabalho para passar uma manhã inteira com o meu cachorro e a minha gata. Talvez eu perca a minha vida, mas estarei onde tenho que estar, prostrado, eu, dono de mim, convicto de não estar convicto, mas sem me vestir de outra pessoa para impressionar. Lá vou eu, na escuridão de Deus, amar a vida que nem sempre me ama de volta. Lá vou eu, outra vez me importando com quem nem sempre comigo se importa. Ao redor do buraco tudo é beira, sorrio, encaro o abismo e ele me encara de volta. Não tenho medo de altura e ergo a minha cabeça e sorrio. Os sonhos foram feitos para serem sonhados. Alguns se realizarão e outros não. Será que há alento para os que fracassam? Canções novas agitam o meu peito e sinto que podem brotar, a qualquer momento, novos contos para que eu possa cantar. Se um dia eu me perder de tudo por decidir mergulhar bem fundo, você me ajuda a voltar?

Acordo no meio da noite e ando pelo apartamento sem acender as luzes. A cidade silenciosa existe sem mim e a fito pela sacada. A escuridão é o lugar de Deus, portanto, não acendo as luzes. Permito-me, aos poucos, a me acostumar. A brisa gélida trespassa meu corpo na madrugada e sinto meus instintos de criatura noctívaga. Existo, sei que sim, sorrio, pois Deus vai cuidar de mim. Todos somos filhos do mesmo. Sorrio por não ser meramente religioso. Sei que tenho grandes sonhos e a vida não pode acabar mal. A morte é o destino que une a humanidade, assim, convenço-me de que, cedo ou tarde, iremos nos encontrar em outros planos. Não sei o quanto valho, mas a vida é só uma, até onde eu sei e creio honestamente que não é saudável desperdiçar meu tempo sendo quem eu não sou. O que me oferecem em troca de atuação é audiência e não amor. Sorrio e meus olhos enxergam cada vez melhor. A escuridão começa a ficar clara ao meu redor. Nem todos os dias são bons, mas tudo vai ficar bem. O incenso queima e o calor do fogo me confirma: ser o que se é ainda nos levará além.  

Não sei onde chegarei, juro, mas caminho em uma direção previamente estabelecida, sem imitar os outros e nem seguir milhares de trilhas. A minha personalidade não se confunde com a dos outros e sinto um alívio. Não há como entregar mais do que eu já entrego. Não me entenda mal, eu não sou dado a perversões e continuo não sendo particularmente viciado em coisa alguma. Não divido meus hábitos, mas divido a minha jornada com quem nunca solta a minha mão. Há quem pense que os dragões são todos ferozes e que as raposas são todas matreiras, entretanto, as sutilezas das feras são de uma leitura mais lenta e atenta. A disposição que me sobra não me transborda, mas é direcionada para o destino certo. Eu era, hoje vejo, ainda ingênuo e sinto um estranho orgulho da minha ingenuidade. Cuido como ninguém das pessoas que me cercam. Nunca me esqueço dos meus acertos e dos meus erros. Há muito o que errar, mas muito mais o que acertar daqui para frente. Tudo é como é, mas permaneço forte enquanto andar lado a lado com pessoas que me reforçam na essência. Quanto aos que exigirem que eu seja qualquer outra coisa, balanço a cabeça em negativa e tenho paciência. Um dia quem sabe eu possa fazer alguma diferença.

Publicado por

drpoesia

Escritor de hábitos relativamente saudáveis que gosta de escrever crônicas, poemas, contos e principalmente romances de ficção fantástica. Três livros prontos, porém, ainda sem publicação física. Trimestralmente faço o registro dos meus novos textos no Escritório dos Direitos Autorais. Tenho 27 anos de idade e sou formado em Direito. Creio no amor, embora o sinta meio ingrato neste ano. Só posso ser quem eu sou e é assim que vou continuar. Confio no mestre Leminski. "Isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além". Se você continuou até aqui espero que conheça meu blog aqui na WordPress e que possa dar uma visitadinha nas minhas páginas de poesias no Instagram e no Facebook! Obrigado! Volte sempre!

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