O apartamento.

Há um pedaço grande e indefinido
que penso me pertencer, sem certezas,
Ele, que também sou eu, faz exigências
Exige horas solitárias para o processo criativo
Já eu exijo meu café quente para me sentir vivo
Há horas em que as exigências se mesclam
e não sei qual voz fala mais alto e quem escuto
Se o pedaço solto também é meu, afirmo, a outra voz é minha
devo hesitar em seguir as minhas próprias sugestões?
Não sei se nesta manhã confio muito em mim
Subo as escadas e estou no terceiro andar
Viro as chaves e entro no meu apartamento
Ninguém me espera e respiro fundo
É um apartamento espaçoso para uma pessoa
Ganho dinheiro o suficiente, mas não há nada
Um barulho me distrai e ando até a sacada
É a primeira vez em mais de setenta dias
que posso contemplar uma manhã
Meus olhos vislumbram tratores e
me dou conta do tamanho como algo novo
Meu coração se enche de tristeza
Observo homens carregando caixas
Operando empilhadeiras e tratores
Raramente rindo acima da confusão
dos sons altos das máquinas pesadas
Não há mulheres entre os trabalhadores e
ainda assim os homens são mais felizes que eu
Falta-me qualquer luz mínima para findar o breu
Olho para dentro e penso no tanto que já me aconteceu
O sexo é o consolo que temos quando o amor não nos alcança?
Não há mulheres na minha vida, tampouco há amor, sexo e esperança
Há o apartamento no qual moro e existo solitário
Aqui passo minhas pouquíssimas horas fora do trabalho
O bolso cheio, às vezes, coloca-me um sorriso no rosto,

entretanto, ando até a sacada e observo os tratores
Não tenho amores, amizades, carinho, sexo ou respeito,
Não sinto o ódio ou o descaso ou as distrações
É como se a cidade estivesse abandonada ou
tivesse optado por me rejeitar desde o princípio
Tudo o que tenho é este apartamento silencioso
e o suco de limão mais caro do mercado
Bebo o suco de uma só vez e calculo
quantos centavos vale cada gole
É a vingança da minha vida de solidão
Não entendo, mas sei que preciso passar por isso
No futuro passarei por coisas piores e a dor de hoje
me moldará para os desafios inexplicáveis de amanhã
Todo mundo morre no final, eu me ouvi dizer,
É preciso tomar cuidado com a linha que traduz vencer
Respiro fundo e sinto uma brisa gélida
Fecho os olhos e vejo paisagens lindas e lúgubres
através de janelas que nunca pude ver
Sinto como se estivesse ficando louco,

mas há os tratores e a pizzaria na esquina
A realidade é pesada e o barulho me situa
Há um pedaço grande e indefinido,
que penso me pertencer, sem certezas,
A escuridão que assola a minha vida hoje
não chega perto da que eu sentirei um dia,
entretanto, lido sozinho com a cidade alaranjada
Repleta de coelhos brancos e ofensas no trânsito,
Vislumbro um bebê no meu colo
em algum lugar perto de lugar nenhum
Sonho diurno com a vespertina carioca,
Sou o único que capta o momento
em que um camaleão troca de cores
A vil adaptação quando não é feita apenas
por motivos de sobrevivência
Pisco os olhos e descubro o que acontece
após um assalto mal planejado
Olho de frente para uma mentira
que não faz o menor sentido
Conto coisas que canto e canto coisas que conto
As palavras me abraçam nesta desértica solidão laranja
O céu rosa subitamente acinzenta e a tempestade
me convence de que haverá alegrias e tristezas aos montes
Preciso ser feliz e triste para aprender melhor
A vida será ridiculamente mais difícil no futuro, entretanto,
Lá adiante não ando mais sozinho
O apartamento não é mais meu último conforto
O trabalho com números não é o único caminho.

Publicado por

drpoesia

Escritor de hábitos relativamente saudáveis que gosta de escrever crônicas, poemas, contos e principalmente romances de ficção fantástica. Três livros prontos, porém, ainda sem publicação física. Trimestralmente faço o registro dos meus novos textos no Escritório dos Direitos Autorais. Tenho 27 anos de idade e sou formado em Direito. Creio no amor, embora o sinta meio ingrato neste ano. Só posso ser quem eu sou e é assim que vou continuar. Confio no mestre Leminski. "Isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além". Se você continuou até aqui espero que conheça meu blog aqui na WordPress e que possa dar uma visitadinha nas minhas páginas de poesias no Instagram e no Facebook! Obrigado! Volte sempre!

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