Você mentiu me olhando nos olhos
Sob a máscara da expressão mais singela
E eu aprendi o que era ter meu coração
dilacerado por uma fera
Eu me escorria rubro
tingindo de vermelho a neve
Quanto mais eu a descubro
Mais meu peito ferve
Leve-me ao tempo qual
tudo era mais leve?
Você mentiu me olhando nos olhos
Com palavras que contornavam o globo
E eu acuado com frio e febre me perguntava
Quantos dentes têm o lobo?
A temperatura da pele aumentava
Quantas verdades cabem dentro do engodo?
A selvageria, em regra, é bem-vinda
O complexo é lidar com esse jogo
Eu sabia que tudo se finda,
mas não esperava ser alvo do lobo
Assim, antes do fim, também uivo
Meus soluços nunca alcançarão a matilha
Os pensamentos subitamente turvos
“Nenhum homem é uma ilha”
Quando andamos lado a lado
Pensei que fôssemos iguais
Quando de repente fui descartado
Fui menosprezado por seus olhos
“Você nunca foi nada demais”
Não obstante,
Não me dei por vencido
Eu te achava tanto
Como podia recusar
tudo que eu havia oferecido?
Meu corpo,
Seus desejos,
Minha alma e
meus beijos
Meu coração e
meus segredos
Você, sempre ouvinte calado,
Agia com sutileza
Nunca pensei que havia calculado
Como explorar minhas fraquezas
Não era suficiente
Eu era tão seu
Esperei que você me encontrasse
E você me deixou em um buraco,
Arremessou-me pela proa
Sem você havia me esquecido
de que um dia soubera nadar
Não boiei ou flutuei naquela imensidão
A água salgada me preenchia e me infiltrava
Não movia meus braços e pernas
Tentava aceitar o destino inexorável
da sua eterna ausência
Afundei
Há armadilhas nas quais entramos
Conscientemente
Outras vezes supomos o melhor
Nada é mais fatal que o otimismo
Quem sabe comigo seja diferente
Olha, que são parentes dos cães e ouvi dizer
que podem sim serem domesticados
Olha, que se comportam de um jeito previsível
Acreditamos no que queremos
No fundo eu sempre soube
que te resgatar me comprometeria
Havia poupado a vida de quem não pouparia a minha
No fundo, eu sempre soube
Te cuidei com a convicção de que seria o meu algoz
Pensei que a minha devoção faria a diferença entre nós
Dói rememorar tua paixão sob os lençóis
Acreditei que havia algo especial e
Entretanto, aos prantos, escutei uivos como cantos,
enquanto você se deleitava com a minha carne
Éramos dois como apenas um
até você se esqueceu do meu nome
Os lobos são como homens comuns
Matam quando sentem fome
A lealdade que presumi nos seus atos
Era uma projeção
Eu tentei te inventar e
Morri
Avisem aos empáticos e simpáticos
que é preciso tomar cuidado
Avisem que o certo
será interpretado como errado
Avisem que espalharam armadilhas
para levarem os últimos espontâneos
Você mentiu me olhando nos olhos
Eu te dei a minha vida
Você jurou que havia me dado a sua
Conquistou-me sob a falsa face da candura
Você me entregou uma chave
que não abria a fechadura
Onde havia se guardado
Onde havia se
Onde havia
Onde?
Onde é que eu havia parado?
Minhas tripas e partes e sangue no chão espalhados
Você me deixou prestes a morrer
e me convenceu de que levar meu coração
perfurado entre seus dentes era uma prova de amor
Quarenta e dois, eu disse sorrindo
E você me olhou surpreendida
Enquanto arrancava a minha pele e meus ossos
percebi que eram quarenta e dois dentes
Sempre sabemos uma ou outra coisa
que não faz sentido saber
Eu sabia que te amava
e não aceitava te perder
Eu sabia que você não me amava
e não sabia como proceder
Quando a sua violência chegava
Eu estava pronto para receber
Ainda assim, eu nunca bastei
Você me trocou por instinto e reflexo
Abandonou-me pela fome
E enquanto escrevi seu nome nas estrelas,
Você me consagrou ao destino banal dos homens
Eu te dei vida e te ensinei ser forte
Eu te dei vida e mudei sua sorte
Você nem agradeceu ou se compadeceu
Mordeu e me largou para a morte
Você mentiu me olhando nos olhos
Sob a máscara da expressão mais singela
E eu aprendi o que era ter meu coração
dilacerado por uma fera.
Autor: drpoesia
Depois da bile.
É que eu não podia seguir em frente, nota? É que a distância entre o castigo e o merecimento muitas vezes é milimétrica. Veja, é fácil de constatar, olhar e ver, entretanto, é mais difícil e há certa complexidade no cumprimento da tarefa. Sinto que querem sempre me impedir de ser livre e que o impedimento, vez ou outra, é uma meta. Querem minha estrada curva, a minha visão turva, porque personifiquei um poema em linha reta. O detalhe é sutil, mas um poema em linha reta é menor que o poema em linha reta, embora nem toda pessoa saiba disso, Pessoa. Toda vez que fui, disseram-me que fui muito, rejeitaram que eu fosse tanto, todos se flagravam em espanto, eu era, mesmo quando era sem intenção de ser, mas era o quê especificamente? Livre de pretensões, livre de preconceitos, livre de tudo o que era alheio. A minha maior vergonha foi ter me equiparado a Holden Caulfield em seu campo de centeio, não, eu nunca esqueço, eu faço um esforço homérico para lembrar de tudo, apego-me a memórias e quero ainda recordar, eu quero nunca esquecer a dor que ensina mais do que o pensar. Senti um turbilhão de memórias em questão de segundos, todo começo representa também um novo fim de mundo. Esqueça essas hipocrisias, você ousou ser sincero e foi sincero sozinho, príncipe regente do trono de si mesmo, pode sentar na poltrona vermelha e aveludada, eis que você aparecerá e colocará a coroa em outra versão de si mesmo que já está sentada, não há miséria ou sono, pode até ser que não existam alegrias, mas não há tragédias que te alcançam no trono e nem vilanias. Desça mais um degrau, erga-os, faça-os olhar para cima. Segure os humanos mais covardes e humilhados pelos braços, levante-os e os obrigue a viver a vida. Faça com que superem as violências e vituperações; siga o ofício do mecânico e conserte corações, ainda que a empatia seja um castigo para lidar na solidão do quarto. Sofro indivisível e individualmente, como toda mãe em trabalho de parto. Tudo o que não importa nunca me escapa, mas me preocupo inversamente. Todos dizem que minha atenção está no lugar errado. Eles querem me saber, mesmo que nunca tenham se encontrado. Olha, a minha sina é ser esquecido e caminhar sozinho, logo eu, que tanto me rebaixei para devolver a humanidade que vocês tinham perdido. O dedo quebrado, a saliva, o xingamento, o vil, o vulto e o sangue. Todos se acovardam, mas com meus punhos enfrentei a ignomínia mais infame. Se em mim se revolvesse ao peito o sentimento de retribuição, eu pagaria ao mundo essas tantas lágrimas com raiva e destruição, mesmo que não retenha raivas. Toda ira é passageira, mas por vezes o lapso de ódio deixa tudo por um fio e quando a fumaça se dissipa estamos expostos ao vazio. Como estava tão quente lá fora e aqui dentro seguia tão frio? A sociedade se construiu na ganância monetária e intelectual. Quem não seguir as regras será abandonado como um velho animal. Não acompanho os jornais, sinto que todas as minhas tragédias e flagelos me ocupam imensamente. Todos querem ser iguais e eu sofro por ser sempre diferente. Quem não merece é quem mais recebe os aplausos e prêmios. Quanto mais comuns, mais são tratados como gênios. E eu, que sou só humano, ao que tanto me presto? Bem, é que eu vivia no meu mundo, feito de magia, dragões, robôs e livros, eu vivia no cemitério dos pensamentos mais distantes e esquecidos, reinava solitário por entre selvas, até que me forçaram a crescer. Ah, a ilusão do crescimento. Dormimos criança, acordamos adultos e o dentro da cabeça é obrigado a expandir. A altura do corpo nunca acompanha a extensão da alma, mas que se adiem os existencialismos, certo? Flagrei-me pensando para trás, desmistificando a vida do passado até o futuro. Para sobreviver é preciso ser duro? Há o vômito e depois do vômito há a bile e depois de doze horas de bile o que sai de dentro é um líquido mais escuro que o café. Os órgãos estão se entregando? Estou derretendo de dentro para fora? O que é essa aflição que me assola? A limpidez do vaso desaparece e o reflexo não mostra mais quem você é, eu vazo, escorro, bem como a minha antiga fé. Estou perdendo a capacidade de crer. Pesadelo febril da passagem do tempo. Sou o que sou, mas ainda o que fui em outros tempos. Minha função de viver costumava ser feroz. Cada um pensa apenas em si e eu sou um imbecil olhando o Nós, afinal, se cada um tem seu corpo e sua voz, por que a minha capacidade de me importar se esticar tanto assim? Sofro com o sofrimento dos outros e só queria guardar meus sonhos dentro de mim. É que eu não podia seguir em frente, eu queria uma ou duas ou até três coisas, eu que tenho me dedicado por milhões, eu que tenho me aprofundado e mudado minhas percepções, eu que fiz tudo de mim para que nem todo mundo precisasse se desfazer de si mesmo. Quantos de vocês coloquei de volta nos eixos? Há uma mania insana de buscar o esquecimento e eu que me lembro de tudo, como fico por dentro? E quem nasceu para conquistar o mundo irá conquistá-lo, mas quem carrega ao peito a ingenuidade do cuidado está sempre incorrendo no risco de ser esfacelado. Aprendi muita coisa e logo em breve aprenderei a cozinhar. Vou ganhar mais dinheiro e continuar a me importar. Eu me adaptarei por duas, dez ou vinte pessoas, mas quando for a vez de fazerem por mim, não haverá quem me estenda um guarda-chuvas para me proteger da garoa. Eles não eram iguais, não estavam no mesmo nível, ele não tinha tantas ambições, não era quem não podia ser, a incerteza fatal de sermos punidos por sermos expostos e francos. Seja, mas evite exagerar no tanto. Sou a alma mais sensível representada na figura mais dura. A água mole nunca irá furar a minha armadura, ainda, cônscio de que a fraqueza por vezes é uma arma de domínio da força, deixo-me ser dominado pela delicadeza da ilusão da falta de vigor. Fui feroz para defender tanta gente, rosnei, ergui os punhos e até cerrei meus dentes, mas quando era a minha honra em jogo, quem é que colocou o corpo na minha frente? Essa minha mania estúpida de heroísmos me faz me precipitar para frente, eu sou sempre o primeiro no combate, eles pensam que aguentarei permanentemente, porém também se fere quem sempre está na fila para o abate. Quantas vezes não promoveram a minha execução no meio da praça? Quantas vezes riram do que nunca teve graça? Disseram certa feita que o mal é banal e o maior mistério é o do bem, estavam certos, mesmo sem a promessa de uma recompensa, eu sigo sendo o que sou e carregando o peso da sentença, queria acreditar que há recompensas positivas para quem faz a diferença, entretanto, neste ínterim, é fácil realizar que só os individualistas conseguem o que querem em absoluto, o hedonismo não é um pecado, Dorian, você vê? Entretanto, há ofertas gigantescas que nunca passarão de perto do que eu almejo. Sou vetado de sentir e por vezes sinto que devo me manter em segredos. As prisões de mim em mim, eu existo e sou e todos os que brincam por aí, vestindo suas suntuosas máscaras, guardando suas luxúrias e fazendo da vida um jogo, todos eles parecem conseguir mais e ir mais, é estranho e confesso que isso me assusta, mesmo me lembrando que a vida pende em um falso equilíbrio e se sustenta em uma sorte injusta, eu que sempre quis o que quis, talvez nunca possa ir tão longe no querer. Eu não posso querer algo tão banal. Os bons são “superiores” e devem lidar com essa superioridade. Não há presentes do Papai Noel para as crianças levadas, mas a realidade é que as crianças que não se deixam ser levada também não ganham nada no Natal. Castigo e desconforto? Devo sempre ser moral? Olha que todas essas coisas me parecem grandes brincadeiras, eu tentei levar tudo com humor, mas me vi conversando com caveiras, corte de cena, dança das cadeiras, que grosseria, fui me sentar e removeram o meu lugar, caí de bunda no chão e me olharam e riram. Tudo bem, essa ideia de viver é realmente tosca, eu vou te (me) confessar que sempre que viajo para longe sinto um tremendo orgulho. É como se minha alma sussurrasse e dissesse, ei, garoto, em outras vidas fomos assim, enquanto você viajar, não vai se bastar, está tudo bem, é que você olha para dentro e vê o coração só para depois olhar para fora e procurar uma solução, é insano, eu sei, mas a maioria das pessoas nunca se olha, como se fossem feitas de carne, osso e obviedades, não, elas não ligam de serem reproduzidas no piloto automático e consomem mídias dobrando a sua velocidade, eles têm pressa e não sabem seus porquês. Eles têm pressa e se esquecem de que um dia vão morrer. Eu faria tudo pelos meus amores e por meus amigos, eu faria tudo para vê-los sorrir e principalmente para livrá-los dos perigos, ainda que a maioria não se esticasse sentimentalmente por mim até a própria esquina. Há muitos que não valham meu próximo verso ou próxima rima e me flagro semiacordado, ansiando por espressos duplos, Europa Trens Expressos, ninguém sai do lugar e eu transito entre três tempos desconexos. Talvez por isso seja tão difícil para mim. Muitos se esquecem de que a vida acaba, eu nunca me esqueço de que tudo tem fim. Saber, entretanto, não me impede de sonhar com a eternidade. A promessa de um para sempre há de ser carregada na alma, se os para sempre são imbuídos de verdades. Que força há nas palavras ditas, que força há nos sentimentos sentidos, como se esticar tanto por tanta gente e ainda ser julgado como vilão ou bandido. É que quem com o ferro fere pelo ferro será ferido, mas a verdade é que uns serão considerados justiceiros e outros malditos. Eu nunca pude ser considerado justiceiro de nada. Eles adoravam me espancar, mas clamavam por socorro quando eu sacava a espada, ah, Daniel, que figura pesada, ah, Daniel, seus sonhos não valem nada, você precisa entender que alguém pode zombar dos seus sonhos em um bar e ainda assim estará certo, você pode perceber a armadilha, mostrar provas e trilhas e ainda te enterrarão no deserto, ah, Daniel, seja mais esperto, ó, Tu, que figura pesada, ah, Daniel, você sabe tanto e não sabe de nada. Sinto isso com meu âmago, se eu quisesse enlouquecia, levantava e sumia para os confins do mundo, voltava para onde o velho espírito surgiu bem antes da invenção do conceito do tempo, entretanto, criei raízes tão profundas que pouco posso diante de outros lamentos. À procura do rosto que tinha antes da criação do Universo e a procura que me faz sentir fútil e detestar meu reflexo. Acho que no fundo todos são complexos, mas a maioria segue obstinadamente simples, arranjar um emprego, ganhar dinheiro, viver, morrer, ninguém pensa em mudar o mundo com os livros e nem se dá liberdade no prazer, não, ninguém pensa em ajudar outra pessoa, exceto se ganhar algo em troca, não, ninguém terá pena de você, apesar dos seus esforços, se o resultado final for outra derrota. Os carniceiros estão te esperando de braços abertos. Suas falhas são cômicas, grotescas, afinal, você tinha mesmo jeito de que faria o que faria da maneira como faria e todo mundo sabia e aqui haverá a implacabilidade do abandono, se você falhar todos te deixarão, ainda que ocupe o seu próprio trono, mas se acaso suceder de vencer, se porventura sustentar uma ou outra vitória, eles surgirão com sorrisos plásticos, fabricados, eles treinam esse tipo de sorriso a vida inteira, eles treinam, você vê os gestos musculares da face e o arquear discreto das sobrancelhas, você repara o ferrão, mesmo encantado com a beleza das abelhas, você percebe que estão prontas para te ferir ou te picar, eles sorrirão, te abraçarão, até o momento em que possam te derrubar, isso é o melhor para eles, você incomoda sempre que existe e que se prostra em pé, loucura, eu só quero escrever livros e beber café, ainda assim, por vezes sinto que sou uma estrela resplandecente em uma noite escura. Se sou um quadro na parede, eles querem estragar até a minha moldura, sim, eu sei, contudo, nada paga o privilégio de se pertencer. Eles querem me matar, mas isso não vou deixar acontecer. Instinto felino, instante algoz, ferino, menino, eu, você, nós. Se as atitudes fossem apenas instintos, você ainda seria orgulhosamente selvagem? Você precisa se libertar, faça imediatamente uma lavagem. Os remédios não trarão libertação, não, é preciso lidar com as coisas de dentro do porão. O poder de fazer e não fazer, a capacidade de dizer não para todas as oportunidades, alguém que pudesse te alcançar no limiar dos três mundos. Queria que alguém me escutasse, mas geralmente estão surdos. Veja que ironia, contemple a inevitabilidade da incompreensão Ele não estava no mesmo nível dela, não tinha o emprego que ela queria que ele tivesse, não bastava, ah, as suficiências, não bastava, mas eu estava ali desde que a rua era feita de barro, outrora não parecia que alguém ligava para o modelo do meu carro, a minha astronomia de playboy, a minha estética de mim em mim mesmo, isso de não querer ser outro me faz ter uma boa relação com os espelhos, mas é estranho o quanto amo que meus olhos sejam castanhos e o quanto nunca desejei que fossem verdes, é estranho como não sei a diferença entre BMW e Mercedes, somente se prestar muita atenção, eu me rio e não caio na provocação, só estamos salvos através da distração, mas é estranho o quanto posso insistir em corujas e correr e rir e cantar. As pessoas não sabem de si e se evitam e há tempos conheço o meu lugar. De propósito ou não, colocaram em mim um propósito, esse de escrever para aliviar o coração, esse de escrever e falar sobre vidas. Cheguei para ficar e a maioria só visualiza as rotas de saída. Eu não quero ir embora, passe um café e faça a minha alma ficar novamente aquecida. Que lindo é o companheirismo fatal dos gatos, enquanto me escrevo, Hadec me acompanha nos relatos, eu que construí outro Hadec, bem antes do nascimento deste felino, penso que posso reescrever a ferocidade e a mansidão do personagem através do afeto do meu bichinho. Quem é que podendo dar amor escolhe a outra face? Bem, eu estava dizendo que quando se ama alguém, vez ou outra, fazemos sacrifícios, sim, muitas vezes me flagrei em flagrante discordância com minhas próprias atitudes, estava fazendo o que não queria, não entendia, mas é importante que a gente mude. Os tais sacrifícios, eu vejo, eram todos banais. Eu daria a minha vida e todo o resto para as pessoas que considero especiais. O que pesava uma tonelada ontem de repente está leve. Não há muito o que eu queira, mas também pretendo ver a neve. O calendário, os aniversários, a vida… Tudo avança. Acumulei felicidades, porém por vezes senti que seria punido cada vez que ousasse ser livre. Qual é o tamanho de tudo o que cabe no espírito? Quantas galáxias cabem na alma de uma única pessoa? Sorrir, correr, pular ondas, sentir a areia nos pés, trocar um olhar demorado, não se limitar ao que o senso comum dita como certo ou errado, escapar das obviedades, tentar não esquecer, ter uma boa relação com a realidade. Quanto mais fundo se mergulha, mais somos livres, mas isso nem sempre nos orgulha. Quanto mais profundamente somos, mais estamos perto de conhecer nossas partes feias e aí temos de perdoar os nossos próprios monstros. Se pudesse te dar um conselho, eu pediria para que você aprenda a cultivar a sobrevivência básica. É preciso saber nadar para mergulhar fundo. É preciso se conhecer e se amar antes de sonhar em mudar o mundo, ainda que seja preciso admitir que a sua vontade não pode muito. A sua ou a minha, eu quero dizer. Não se faça de confuso para tentar não me entender. Acordei no escuro, mas sentia que já estava acordado. O sono ensina mais do que pode ser interpretado. Se não nos desligarmos ao menos um pouco todos os dias, morremos. O sono faz com que seja possível continuarmos vivendo. Ah, veja, a importância dos intervalos, interlúdios, metades, ah, veja, como é importante tornarmos mais leves certas coisas, eu tornei tudo tão mais leve para tantas pessoas, entretanto, sinto que tudo o que me envolve seja sempre pesado. Por quê o certo para os outros para mim sempre chega como errado? Ninguém se mete na vida de ninguém, mas todo mundo ousa se meter na minha. Eu que não quero nada, eu que sou o que sou, eu que talvez não esteja no mesmo nível, ah, esses níveis, esses intermináveis nivelamentos, o que ganho por ser o que sou e revelar o que sinto por dentro? O vexame de expor a face em um mundo onde todos estão fantasiados, atuando, disfarçando, escondendo, ah, que vergonha, que vexame, estou me expondo, estou sem máscaras, estou nu, não sinto vergonha, mas sinto que deveria sentir, essa ausência de embaraço, essa glamourização do cansaço, ah, que é que faço do que nunca pude ser neste dia? Bom, depois do vômito chega a bile e depois da bile há aquele líquido preto e denso cor de piche, viscoso, escuro, como se através do espesso líquido escuro escorressem sonhos e suspiros provindos direto da alma, ah, por favor, me matem, mas não removam a minha essência, por favor, eu tenho sobrevivido com tanta paciência, vejam, não removam o que me faz ser exatamente quem sou, impeçam o vômito ou a bile ou, se chegarmos tão longe, impeçam que eu me escorra de mim, levem até meus órgãos, mas me deixem por inteiro, às vezes me faço contraditório, mas me mantenho verdadeiro. Que resolução desoladora. Eu faria qualquer coisa pelas pessoas que amo, qualquer coisa, sem chance de engano, ah, ninguém quer se impor, ninguém quer se arriscar, sobra para mim a missão de lutar, é estranho, quase estrangeiro e ignoram que eu não queira a luta, pois levanta-se, miserável, esperamos o máximo e tua melhor pior conduta, se só você se importa, exigiremos o que há depois da bile, queremos te matar, queremos te fazer suicidar, ah, os prêmios, os gênios, as resoluções, os amores e tudo o que se parece com isso, ah, por favor, alguém me lance um feitiço, faça com que cozinheiros e bruxas salvem o que restou da minha vida e que os trapezistas me mostrem que é preciso de risco para que se dignifique a vida, parabéns por ousar, parabéns por viver e se atrever, parabéns pelas vulgaridades, parabéns por dizer em voz alta os seus defeitos e seus fetiches e seus vômitos e biles, parabéns por varrer essas tantas imundícies, parabéns por não esconder no tapete, parabéns por não ceder por capricho ou criancices e parabéns por sobreviver e parabéns por não morrer e parabéns por se manter, parabéns por não se matar, parabéns pelos órgãos liquefeitos, parabéns por ser imperfeito, você merece uma salva de palmas pelo que existe depois da bile. Hadec adverte, esse texto foi longe demais, morde os cabos, me provoca, quer que eu durma e recupere a minha paz, sorrio com a inteligência sagrada na delicadeza dos animais, a valorização por ser diferente e a rejeição por hábitos iguais, ah, somos filhos dos hábitos, mas de vez em quando é bom enlouquecer, é preciso beber água e comer bem, porém é preciso pedir sushi, comer hambúrgueres, é preciso extravasar a vida na vida e não ter medo das consequências, ah, é preciso se arriscar pelos outros, muito ou pouco, ah, é preciso se extravasar. É preciso sacrificar nossas certezas em nome de devaneios de extrema beleza. A minha função de viver costumava ser feroz, eu sou ou era filho de qualquer aventura. Me deem um carro e uma estrada, eu vou dirigir até o infinito ou, ao menos, enquanto a gasolina dura. Me deem motivos para sorrir e preservarei a minha candura. Poucos são doces e delicados como eu sou. Poucos são atentos e cuidadosos como eu sou, mas raros são os que são quem realmente são, como eu sou. Que bobagem mais simplória. O seu relacionamento é só um lado da história e você não se importa em matar alguém, se isso resultar em sua sobrevivência. Isso que você chama de verdade é baseado em pelo menos uma centena de mentiras e tudo isso já está me irritando para além do que posso suportar. Quando digo adeus, é para nunca mais voltar. Quem é que se sabe? Quanto menor, mais fácil cabe? Acontece é que sou grande e expansivo, sou árvore que estica os braços e galhos em todas as direções e sentidos. Se continuar me regando e eu continuar me tornando mais bonito, até quando vocês poderão suportar? A cerejeira é bela, mas existem aqueles que pensam apenas em derrubar. Para saber quem realmente somos, é preciso investigar fundo, ser feliz no último lusco-fusco, viver sem desdém, não pularmos os nossos lutos. Coço os olhos durante a insônia. Ninguém quer se intrometer e vão tentar empurrar essa responsabilidade para mim. Não há alternativas? Tem que ser assim? Tem que ser assim! Para se conhecer bem, é preciso cultivar uma fé quase sobrenatural em nossas individualidades e continuar procurando quando parecer que não há mais sentido na busca. Lembra-te, tudo pende estranho e depende de uma sorte injusta. Como é cômico ver o orgulho se ajoelhar por carência. Asco, casco, terror, displicência. Até que ponto degradante você iria por alguém que não merece? O grande ponto de se rebaixar para se nivelar com alguém é a sensação internalizada de que você é tão baixo e vil quanto. Todos os que cuspiram para cima acertaram a própria testa e isso não me causou espanto. Para se conhecer bem, é preciso saber que é melhor se ajoelhar para vomitar e que depois do vômito existe a bile e depois da bile, estaremos diante daquele líquido horripilante e escuro. Se sai de dentro de nós, é porque também é parte de nós. Não há sentido em dizer a verdade e por isso todo mundo espera que a gente minta, mas sou desses poucos que sobreviveu ao golpe do Machado, “o interno não aguenta tinta”. Sigo verdadeiro a mim mesmo e canto, sinto muito por quem não sinta. É visceral o universo que há dentro de nós. Nada alheio foi comprovado como realidade e até onde eu saiba, tudo isso pode ser apenas um começo, meio e fim, sou escritor e lido bem com isso, há muito o que fazer, há muito o que viver, mas vivo o presente e controlo a ansiedade pelas próximas cenas, eu tenho aprendido muito e quem não sabe perdoar só aprendeu coisas pequenas, existir longe, conhecer-se, conhecer as cidades e o fundo dos olhos das pessoas, entregar-se, viver fora do casco, não sentir vergonha da nudez ou da face. Tudo isso que tanto me estranha um dia deixará de estranhar. Sei o que existe depois da bile e isso me faz poder sonhar. Sei que existo, embora duvide de quem é fraco o suficiente para se tolerar. Eu me amo e sem a chance do oportuno e do engano, a maioria só sabe odiar. Talvez sintam asco e raiva da minha existência completamente honesta, mas rio dos que não se conhecem, há dias que sozinho faço festas. A única ausência intolerável é a que sentimos de nós mesmos. Queria ser menos pragmático, mais prático e, ainda assim, sou capaz de me amar imensamente de uma maneira quase desproporcional. Sou feito de uma quantidade de amor que beira o surreal. As coisas frágeis que vejo refletem a coisa frágil que sou. Muito se fala da fugacidade e do que a tempestade nunca levou. Mantenho-me em pé, ereto, indiscreto, firme, mantenho-me reto, cômico, sublime e sigo na dureza áspera do ferro e na secura do vinho, eu sou o que sou e sigo o meu caminho, não, esse caminho não existia antes de dar o primeiro passo, assim, sigo avançando no invisível, mas quando olho para trás vejo uma estrada pavimentada pelas tantas coisas belas que plantei. As sementes viraram árvores e disso, confesso que me orgulhei. Amores verdadeiros são como fantasmas, poucos viram e sentiram, porém todo mundo comenta sobre histórias assombradas, eu quero não querer saber de vocês, quero abrir minhas asas e voar. Bem, eu sei muito sobre quase nada e jamais cometi um verdadeiro crime. Só sou perito em mim mesmo e alcancei o que existe depois da bile. Tudo me interessa, nada me prende, poucas coisas me apagam, menos ainda me acendem, entretanto, a chama que produzo aqueceu meio continente e a sombra dela assustou tanta gente, mas o meu vulto não passa de uma sombra na parede. Só se assusta quem é imaturo e ainda está verde. Talvez eu nunca seja o que quero ser, talvez eu nunca publique os meus livros, talvez só eu conheça Geffen e entenda a proporção de uma Geffenia, talvez tudo o que me integra seja bravura, porém até eu terei instantes de covardia, ah, problema trágico de caso concreto, os mais tortuosos são os que me exigem reto. Talvez eu nunca me cumpra, talvez eu nunca consiga, talvez os que mais merecem são os que menos terão na vida. Talvez deva me bastar com o que tenho, ainda que saiba que todo o resto está ao meu alcance. Os anos cumprem seu ofício e já não sou o mesmo de antes. E o que há antes e depois? O que acontecia no mundo em fevereiro de 1992? Choro sincero e alto, era só fome, Daniel, eu me rio, no hospital chorava como se estivesse com dor, mas era apenas fome, honra teu nome, é apenas fome, quanta fome você ainda pode sentir, os médicos trarão mais uma mamadeira, chora mais um pouco e trarão a terceira e isso resume uma enormidade de acontecimentos. A fome é a resposta e o lamento. Será que só não tenho o que mereço pela diminuição do apetite? Chore, exija, clame, insista, acredite! Depois do vômito e da bile e do líquido escuro e espesso há o vazio e depois do vazio existe apenas a fome. Exija o que é seu pela glória do seu nome. Tudo me estranha e me flagro sorrindo. Tudo é muito e é um privilégio estar vivo. Eventualmente romperei com as banalidades, até lá me fujo dormindo. Eis que vislumbro um conto, um sonho e outro dia. As coisas frágeis todas são feitas de poeira cósmica e poesia. Guarde este segredo: o medo é o único obstáculo para a alegria. Para se conhecer é preciso ir longe. Para se conhecer é preciso ir além dos outros, além de si mesmo, além dos sentimentos, além dos pensamentos, além do sono, além do abandono, além do vômito e depois da bile e, enfim, estará diante de algo verdadeiro. Para se conhecer é preciso arriscar tudo o tempo inteiro.
Intuição.
Tinha um hábito velho, mas não envelhecido, hábito pronto, feito herança que a alma traz de longe. Outro passado, outro corpo, outro rosto, ainda que de uma forma complexa, vil, irreconhecível, eu compartilhasse a mesma essência que minha versão atual. O mundo mudara e meus hábitos metódicos permaneceram. Era de sorrisos fáceis, risadas altas, mas tratos longos, demorados. Sabia ser feito de qualquer coisa antiga e às vezes tinha que tirar a poeira de mim, como um livro esquecido no meio da prateleira, páginas amarelecidas pelo desgaste das décadas.
Por que é que me sinto vencido? Para onde foram tantos anos perdidos? Quase sempre não me sentia bem, mas tinha um talento raro de ouvir e entender, de olhar e ver, de tocar e fazer com que me sentissem. Fantasma de tantos mausoléus, eu arrepiava a todos, mas me sentia frio, solitário e distante. Como explicar aos outros que os outros não bastam? Como me confessar, sem ser ingrato, mantendo o tato, que não são eles que me faltam?
Obstinadamente, eu insistia em buscar a primeira verdade do mundo. Eu queria saber qual o rosto que a minha alma tinha antes da criação do Universo ou que magia, encanto, gesto fútil e estúpido, que fez um homem triste e inútil se apaixonar pelos versos. A poesia, a prosa, as frases, todo detalhe me encantava. Aprendi por coincidência a perseguir o rabo da palavra. Como quem pega um bicho fugidio, um peixe pescado, a palavra pode se debater. Ofereça-lhe ternura e escute o que você tem a se dizer.
Olha, que não se adivinhem os fins, pois o mais importante é o que há na jornada. Se todos nascem e morrem, nossa única obrigação é tentar desfrutar da própria estrada. Tudo sucede expansivo, crescente, dominante. Tentei pendurar minhas esperanças em outras pessoas, mas a verdade é que elas sempre precisaram mais de mim do que eu delas. Desenvolvi ainda novo uma relação prodigiosa com a solidão. Aprendi a preencher os espaços com silêncio ou música, assim, acostumei-me a ouvir o coração. Quem é que sabe de nós senão nós mesmos?
A Tristeza bateu a minha porta entre 2010 e 2014. Foram quatro anos de crises de vômito, mais de vinte e cinco internações. Antevi o destino último da Terra enquanto vomitava tudo o que havia comido e depois o que nem havia comido e depois a bile e depois qualquer líquido escuro, preto, que saía de dentro de mim. Isso é o que meus órgãos fizeram para me punir por não saber lidar com a raiva?
Nunca amansei, mas aprendi. Meu pai me dizia para sorrir mais, meu avô me dizia para sorrir mais, filho, você sorria tanto e o tempo inteiro. Como diria a eles que isso foi antes de ler os gestos e os olhares? A melancolia funda que se aloja atrás dos olhos, os medos, os segredos, tudo o que infla por dentro e pesa por fora. Nunca mais sorri igual antes, pois comecei a ser uma espécie de esponja e absorvia instintivamente todas as dores. Cada recorte mínimo de tragédia era meu e eu tentava puxar para mim. Quando a minha mãe chorava e se rasgava na época da perda do amor, do conforto, da vida, eu fazia uma dança estranha em momentos específicos, estrategicamente aguardados. A dor então cedia, uma rachadura de alegria em uma montanha de traumas, entretanto, por ali entrava a luz do sol e a gargalhada soluçante de minha mãe preenchia os ambientes. Que é que me importava vomitar oito, dez ou doze horas seguidas? Eu tinha uma relação formidável com a solidão e, bem, se eu acabasse perdendo, seria uma derrota. Não quer dizer que eu não lutava, certo?
Nunca amansei, entretanto, observar cautelosamente as pessoas me fez compreender. A vaidade, a alegria, o medo, o desejo, a inveja. Tudo isso passeava estrangeiro no campo dos meus pensamentos e eu aprendia cada vez mais. Não tardei em notar que a maioria não tinha coragem. É preciso se indispor se o objetivo é a justiça. Quantas vezes não se feriram comigo e retrucaram com o silêncio? Não é nossa obrigação adivinhar o que não nos contam.
Acostumei a não se acostumarem comigo. Uns tantos amigos jovens ficaram furiosos quando eu os interpelei a respeito de adultérios. Disseram-me, ei, somos adolescentes, ei, somos novos, ei, nesta idade podemos errar. A equação perfeita dessas idiotices não incluía o quanto estes erros eram premeditados. Não incluíam também a outra parte, como se fosse obrigação de alguém suportar uma traição, apenas pela juventude. Cresci tão correto e valente que muitas vezes quiseram me prensar contra a parede, como se eu não tivesse direito de ser covarde, de falhar. Sempre fui imperfeito, entretanto, recusei a agir sem inteligência, domando o instinto tosco de animal selvagem. Talvez cada um de nós tenha esse instinto puro, essa bravura indômita, essa coisa qualquer que não se sabe o nome ou o motivo, essa razão em ser irracional. Talvez cada um de nós acumule tantas obscuridades secretas que, cedo ou tarde, elas escorrem, mágoas, raivas, sonhos, zombarias. Tudo se mistura em um caldeirão de sentimentos.
Quem é que sabe o que quer? Quem é que sabe o que é? Quem está sozinho e deseja desesperadamente alguém? Quem não consegue seguir o próprio caminho por se ver refém? Vez ou outra ainda me enxergo no passado, calado, escurecido para dentro, entretanto, desprovido de instintos amargos, nu de qualquer coisa animalesca, apenas um menino distraído e com fama de desatento, apenas por prestar atenção em coisas que ninguém dá a mínima. Que é que somos além do que sonhamos?
A solidão é cômoda demais para os solitários. Quem está sozinho por covardia ou por consequências e não por escolha, está fadado a viver para sentir o peso das ausências. Quem preenche o espaço com companhias e nunca pôde estar sozinho, cedo ou tarde vai se perder e hesitar sobre o destino e o caminho. A solidão propositada lapida, enobrece e nos prepara para dividir o espaço quando outrem entra na nossa vida.
O trabalho anda me consumindo muito tempo nas últimas semanas, eu tenho ficado bom em resolver as coisas, estou melhor, mais rápido, mas não consigo dividir meu foco e a rotina implacável me esmaga. Como se persegue o sonho quando se esquece de sonhar? Tudo entra na frente do sonho maior. Entra antes o sono, o exercício físico, as obrigações de casa, a família, os amigos, a namorada, entra na frente ir ao banheiro ou beber água, entram antes os aniversários, os adversários, as distrações. Como seguir em linha reta com tantas confusões?
Confessei ao meu psicólogo que estava farto dos outros e que estava disposto a assumir uma atitude mais rebelde. Chega de ser babá, psicólogo, cuidador, amigo, conselheiro romântico. É preciso se virar sem a minha presença. Não que eu seja um anjo mal, radical, eu só optei por mudar um pouco o que era antes.
A sensação das sensações, o todo, não apenas a sombra, a inteireza, eu preciso entender, eu preciso me entender, abra a porta, deixe-me caminhar pelas ruas geladas nesta noite úmida ou dirigir a esmo sem pensar amanhã que a gasolina está cara, por favor, ouça a minha súplica, a tua súplica, eu preciso me entender, eu preciso entender, não apenas o superficial, mas o que existe além das regras, quero vislumbrar o que há além desta obediência cega, deixa-me apreciar a inversão, deixe-me uma vez trocar o dia pela noite, quero gritar na beira do mar ou na beira do parque, quero me estrear, antes que tudo isso se acabe e correr por aí, medir os barrancos e pular os muros, como se fosse adolescente outra vez, como quem cai e se suja e ri, por não temer nada, por não querer nada, deixa-me compartilhar o segredo com uma coruja, deixa-me olhar para este segredo do portão, este detalhe, lusco-fusco da criação, empresta-me tuas lentes para que eu possa olhar diferente e mudar meu jeito de mudar o jogo, entrego-me à sensação das sensações, sou uma peça pequena no todo.
Cuidado, pois a beleza não dura para sempre. Há coisas que você só pode ter agora e outras que só pode ter mais para frente. O passado não respeita o seu espaço e está presente. Só promete tomar cuidado para não perder seus motivos para sorrir. Não temos garantias de que o arrependimento não vai nos engolir. Somos apenas humanos contraditórios, complexos e incalculavelmente delicados. Preocupamo-nos com o futuro enquanto tememos o passado.
Este hábito envelhecido, nunca esquecido, é o que me faz ter a ousadia de buscar tudo o que eu quero. Não tenho dúvidas de que mereço e com paciência eu espero. Que meus sonhos me encontrem antes do próximo inverno. Desejo ardentemente tudo o que desejava antes. Se a idade é uma ilusão, eu aproveito minhas oportunidades e instantes. Nada me remete e nada se repete. Eu sei que preciso continuar brutalmente sincero e voraz, com meus olhos buscadores e vívidos, para sobreviver. Penso sobre o tempo e tento esquecer o relógio. Se me sinto diferente por dentro, posso existir fora do óbvio? O senso comum não me interessa. Anuir por praticidade, aceitar o pragmatismo de quem já perdeu a identidade, isso tudo me estressa. Se há só a jornada, meu objetivo deveria ser eu mesmo. Será que penso tanto em mim quanto deveriam ou ainda me devo? Será que tenho vivido sob as leis dos outros e esquecido o que tanto almejo? Já quase não penso sobre vitórias e derrotas, mas intuitivamente sei.
Não sonhar é perder.
Não escrever é perder.
Não ler é perder.
Desistir
de mim é perder
E estou necessitado de uma vitória para acreditar mais uma vez.
Obrigações.
Nossas primeiras obrigações existem sempre para com nós mesmos. Sinto desde a infância uma espécie de dever em não me afastar de mim, impondo-me limites, forçando-me apenas a novas aventuras, situações específicas onde eu precise de coragem para continuar. Nunca me evadi do que eu era. Era curioso com a vida e, especialmente com o que eu pensava e sentia. Até os meus vinte anos, costumava hesitar e toda ocasião na qual eu deveria ter feito algo e não fiz, causava em mim um assombro perturbador, uma espécie de sombra de arrependimento das tantas vezes que congelei. Há quem diga que é melhor se arrepender de fazer do que de não fazer, porém vejo como deturpam também maliciosamente essa sentença para o melhor uso de suas respectivas propostas e ideais. Qualquer coisa pode ser subvertida com empenho árduo. Até a bondade inata, se alvo de críticos fervorosos, pode ser espalhada por aí como maldade pura, afinal, tudo é reversível e subjetivo na língua de quem busca incessantemente controle. Eu nunca quis controlar os outros, mas precisava sentir que controlava a minha própria vida, livre arbítrio, a capacidade de me desfrutar, crer, melhorar. Nunca mais queria me ver paralisado quando havia tantos cenários para serem vividos. Quando resolvi que seria quem havia nascido para ser, eu me coloquei em uma posição de protagonismo da minha vida e assim pude agir com mais coragem.
Nunca dei muita trela para a opinião alheia, embora tenha honestamente me preocupado sempre com a sensibilidade das pessoas. Acreditei na melhor versão delas e estive com elas em seus piores momentos. Quantos descem ao fundo do poço com você? Sim, eu estive disposto a descer por inúmeras pessoas, incontáveis vezes, mesmo quando não mereciam. Por vezes arrastei um ou outro para fora; outras vezes só dei gritos encorajadores e vi a força que surge de alguém combalido, mas não derrotado. Nunca pude abandonar ninguém, mas aprendi a deixar irem os que me abandonaram. Já tentaram me convencer de que o melhor caminho para viver bem é nunca se comprometer, nunca dar opiniões polêmicas, nunca discordar, entretanto, fui atrevido o bastante para me enfurecer diante de todas as injustiças e chacoalhar o mundo. Ninguém soube elogiar tanto as qualidades dos outros tão bem quanto eu, entretanto, do mesmo modo, não me abstive de apontar os seus erros, quando erraram, com a expectativa de que me retribuíssem a cortesia com objetividade, quando fosse a minha vez de errar. Essas demonstrações de carinho, porém, são suscetíveis ao jeito que as pessoas se autoanalisam e ao que esperam como resposta programada, assim, os elogios são sempre justos e merecidos e as críticas são sempre injustas e indevidas para quem não tem humildade ou uma boa autocrítica. Minha mania de empatia misturada com a autoestima em alta que construí ao longo dos últimos anos fizeram com que eu tivesse a percepção de que nunca me diminuiria para que os outros se sentissem maiores e isso me deu um certo grau de tranquilidade a longo prazo. Existe a realidade e existe o que interpretamos da realidade e quase sempre utilizamos da nossa inteligência fria para deturparmos o que é real, porque o que é tem muito mais peso do que o que se supõe, ainda que metade da vida ocorra dentro de nossos pensamentos mais originais e puros, sejam eles maus ou bons, infantis ou maduros, torpes, sexuais, agressivos, pacíficos ou malucos. Cabe admitir ainda que por vezes o pensamento é solto e não obedece a nada, mas é o que fazemos com o que pensamos e não o que pensamos que realmente nos define. São as atitudes e não as ideias que nos definem e o que mais tenho visto são pessoas negociando seus valores e amores, negligenciando qualquer base de princípios. Suspiro no meu alento e observo a paciência de quem exclui e sacrifica alguns para ter holofotes por um mísero tempo. A decadência dos que se acham celebridades e são esvaziados por dentro. Há seres humanos absolutamente vis, oportunistas e aproveitadores.
Desagradei um número significativo de pessoas ao identificar suas mentiras mal contadas e dizer que eu preferia que me dissessem a verdade. Feri mais gente ainda quando postei uma foto sem camisa e o meu corpo era bem cuidado. Hoje entendo que incomodo pela minha altura, pelos meus textos, pelos meus livros, pelo voleibol, pelo tanto que sou palmeirense, pelo quanto celebro a vida do meu sobrinho e dos meus pets, sobretudo, por como costumo existir em voz alta, mas o meu Eu expansivo pode ser encolhido ou reduzido por qualquer alma viva. Não sou responsável pela noção de tamanho ilógica que um indivíduo construiu, enxergando formigas e dinossauros quando só há humanos, apenas humanos. Se você está encolhido ou se sente pequeno, isso é apenas um reflexo da sua percepção própria e não posso ter responsabilidade em como você se sente abjeto e deslocado, especialmente quando nunca te diminuí. Quando você está com fome, aceita qualquer coisa para comer, pois precisa da comida para sobreviver e porque se sente sozinho, você opta por andar com qualquer pessoa que tolere a sua companhia, pois você mesmo não é capaz de se aturar. Por não se achar digno de amor, você supôs que permanecer com a única pessoa que te ofereceu companhia era a melhor opção, uma atitude louvável, quando essa decisão foi o que mais te afastou de ter a possibilidade de se conhecer. Quanta tristeza, ancião. Está oco? Você é assim tão pouco? Vejo que o medo de ser solitário era tão grande, tão aterrorizante, que você nunca se permitiria estar só por mais de um dia e seu grande medo foi que alguém pudesse te olhar de dentro para fora e te desvendar. Para ser honesto, não foi muito difícil te olhar e te ver. Caminhei ao longo da vida lado a lado com todos os amigos e conhecidos, como se fossem iguais, aceitando suas diferenças. Quem se fere pelo que vê no reflexo leiloa tudo para falsificar o nexo. A dura realidade é que a sua miséria é culpa sua. Você é o único responsável pelo que faz da sua realidade e vejo que se subestima tanto que acha que o mundo inteiro compartilha da obrigação de te subestimar. Quando alguém não te trata como um pobre coitado, como um recém-nascido, ao invés de você sentir a libertação por ser visto como um igual, você se sente injustiçado por receber tratamento diferente; quando alguém não sente compaixão de você, você sente raiva, pois na sua concepção, todas as percepções alheias deveriam convergir para uma espécie de piedade esdrúxula, pois você, mártir do mundo, representa o suprassumo do sofrimento, o ápice da dor, o Cristo encarnado. Você é tão centrado no seu vitimismo que não lhe restam energias para lutar por uma realidade melhor e você não deseja melhorar. Você espera que os outros decaiam e piorem, que se humilhem e falhem, para que sejam fracassados como você se supõe, não vencedores. Você pensa que suas vãs experiências deveriam valer aos outros mais do que o que os outros decidiram que suas experiências valem e você se subestima e se superestima, na medida que pode usufruir ou colher algo dessas oscilações entre dois extremos, em um eterno oportunismo de ocasião. Você calcula todo gesto mínimo para ser enxergado como um pobre coitado, mas não me comovo com facilidade. Eu não tenho pena de você.
Se verdades duras ditas de maneira sincera são o reflexo de um homem cruel, que assim seja, eu não me abstenho e cumpro meu papel. Honestidade está em baixa, então, que seja ríspida e rápida. Você pensa que é o único que já se sentiu pequeno, mas eu sei alguma coisa sobre se encolher, emudecer, compreendo a perda de tantas oportunidades por não saber como pisar em determinados ambientes, por ter vergonha de sorrir, por nunca olhar para cima, mas isso foi um problema só até o momento em que me fiz solução. Eu me solucionei e depois tudo se ajeitou aos poucos. Economize seu teatro, você não me convence, mas me diga, por favor, do que você é feito? Fantasmas deixam de ser fantasmas quando os encaramos. Há mistérios que se resolvem quando acendemos a luz mais fraca. Resolvi que iria crescer. Eu precisava ter uma relação melhor comigo. Eu era feliz, constantemente encontrava motivos para ser mais feliz, mas sob certos aspectos da vida, eu era covarde e essa covardia que era minha e não era culpa de mais ninguém precisava acabar. Estava farto de suportar uma existência amedrontada. Servi duas xícaras de café sem açúcar, como se estivesse me encarando, eu e eu, melancolias servidas, frustrações nunca enfrentadas e aventuras que não vivi. Eu e eu, tanto quase acumulado, tantos olhares que me congelaram, quantas medusas que inventei para que não precisasse dizer um mero oi. Estava empedernido e decidi que não poderia continuar assim. Eu me amava muito, mais do que a maioria costuma se amar, mas havia aspectos vexatórios, eu me encolhia e não queria mais me encolher, eu queria sentir orgulho de poder dizer que eu vivia plenamente a minha vida, eu queria poder dizer que venci as criaturas místicas e não petrifiquei aos olhares mais incisivos. Queria poder contar histórias de como e quando eu disse SIM, de como argumentei de maneiras criativas, de como minhas frases e meus gestos mudaram a vida de alguém. Por instinto, eu sabia que era mais e precisava fazer mais e estava fracassando. Tanto faz a percepção dos outros, mas estar consciente de um fracasso que me pertence de maneira exclusiva era motivo para me rebelar comigo, sim, a minha revolta era com a incompetência que partia de mim e não do mundo que não me abraçava em compreensão. Eu não era material para desperdiçar, valia mais do que ouro e aquelas falhas bastavam. Evoluir era uma questão imprescindível e inadiável e eu faria o que pudesse para atingir novos limites e me regozijar ao olhar para o passado, vivendo o presente plenamente, sem depositar todas as minhas esperanças em sonhos futuros. O futuro era agora e evoluir era questão de saúde.
Mera mudança não é crescimento, crescimento é síntese de mudança e continuidade e onde não há continuidade, não há crescimento. C.S. Lewis.
Mudei de uma maneira radical mais uma vez. Quando o orgulho é ferido, somos capazes de fazer coisas extraordinárias, grandes saltos que imaginamos não ter capacidade de realizar. Eu desejava uma vida espetacular, ainda que fosse uma existência simplória, uma vida exclusivamente minha, mas repleta de coisas que eu pudesse amar e guardar na memória. Amei, sem sombra de dúvidas, todas as pessoas que entraram no meu caminho, claro, umas mais, outras menos, porque amamos primeiramente por instinto. Sofri traições, mas não traí de volta, por entender que o peso da realidade um dia vai sufocar quem me machucou. Na busca pela verdade plena ou pela compreensão das percepções individuais equivocadas, eu ousei ser o mais verdadeiro que pude com quem amei e por não me encaixar nos métodos e padrões de uma realidade fabricada, eu fui afastado e punido severamente. Nunca escondi os meus sentimentos e cometi o equívoco ingênuo de ser verdadeiro. Quando senti raiva, demonstrei a minha raiva. Quando me magoaram, eu disse que estava triste. Quando me fizeram gargalhar, eu ri e lhes agradeci por fazerem parte da minha vida. Nunca uma atitude minha foi vista na penumbra e todo o mistério que infundiram nas minhas atitudes tão diretas foi criado por quem não sabe nunca ser direto para com a vida. Os desapegados que no fundo são os mais ciumentos, os liberais que alimentam as ideias mais conservadoras, toda a ironia do caos disfarçada de ordem, a realeza que satisfaz seus prazeres nas orgias mais repletas de fetiches, os que não se realizam e como vingança desejam quem que ninguém mais se cumpra também. Frustrados que acumulam inveja atrás de inveja! É claro que o sarcasmo bailou nos meus lábios e ri diante de tanta hipocrisia. Eu não era o mais nobre dos seres, mas nunca me faltou coragem para ser exatamente quem eu era. Ser quem se é, o poeta me prometeu, poderia me levar além e resolvi que ninguém poderia se interpor no meu curso, na minha maneira de avançar pela minha estrada, principalmente quem desejava me ver agonizar, especialmente de quem não sabia lidar com o meu entusiasmo ou amaldiçoava a minha alegria. Todos os erros que apontaram em mim, eles haviam feito pior. Todas as incoerências que haviam visto em mim, eram dez vezes maiores dentro deles. Todas as vilanias que lançaram ao meu corpo e alma, eles conheciam detalhes sorrateiros e sórdidos por experiência própria. Não sou o mais nobre dos seres humanos, mas isso eu sempre admiti, ainda assim, ninguém pediu minha opinião ou me deixou esclarecer qualquer engano; os outros, por outro lado, puderam e fizeram o que bem entendiam, boatos e determinados fatos usados milimetricamente na ponta da língua. Hoje desmistifico e olho detalhadamente todas as atitudes, capaz de destrinchar com maestria certos porquês. Eles nunca amaram, nunca celebraram ou receberam buquês. O texto que fiz pro meu cachorro é mais bonito do que a melhor declaração que já receberam. Fizeram o que fizeram e acharam que ainda seriam bem-vindos, mas por não dançar na loucura dissimulada, prometeram que acabariam comigo. Eu fui expulso daquele teatro de falsos enquanto o mestre titereiro controlava seus fantoches e brincava de paraíso. Ainda me lembro do asco que sentia ao ver quem tinha síndrome de realeza se deificar como uma espécie de princesa soltando largos sorrisos. Quem finge amor e dá tapinha nas costas dos inimigos? Não posso ser marionete de gente assim. Se não sirvo, não finjo, tudo bem, adeus, fim. Há coisas que acabam e melhoram a vida da gente. Como corremos mais livres quando não nos preocupamos com o veneno da serpente. Há tantas ironias concentradas que vez ou outra me flagro abafando um risinho. Quem não consegue sustentar a argola no seu-vizinho? Há tanto que você deveria olhar e você prefere se meter no meu caminho?
Aprendi sozinho depois de meia década. O prego que se destaca é o que eles mais querem martelar! E minha mãe se preocupava, os outros todos se espantavam, como é que aquele menino distraído sempre prestava atenção. Como pode ele ser tão novo e confiar o jogo no próprio coração? A vida é minha, sempre foi, sempre soube e nunca me esqueci disso. Estabeleci regras e as cumpri, não pelos outros, mas por mim. Minhas regras, não as regras deles, que se fodam, eu me cumpro, não faço para verem os ingleses. Por vezes ser objetivo e verdadeiro será interpretado como traição. Eles esperam conivência, eu sou rejeição. Em todos os lugares, sempre fui um intruso. E daí se me faltava algum parafuso? Não há mago, rei ou entidade que possa me consertar. Compreendo a realidade, sou empático, mas conheço o meu lugar. Até o cachorro mais dócil morderá se for chutado o suficiente. Quem é que opta por ser igual quando todos somos diferentes?
A ingenuidade poderia custar a minha vida e sei que aqui não se estabelecem tréguas. Comigo é sempre mais alta a medida da régua. Se eu curto um story, isso fomenta teorias, conspirações e gera alarde. Se eu digo uma frase ambígua, isso potencialmente gerará a terceira guerra, assim, confesso que estou acostumado a receber pena máxima pela “má-conduta” mínima e isso não me afeta mais como outrora me afetou. Afasto-me ou pago com amor. Já vi mais boa vontade para com adúlteros, falsos, egoístas perniciosos, abusadores e até criminosos do que pra mim que nunca fui ou fiz nada dessas coisas, mas o que alimenta o boato do bicho papão é o que dizem dele e não o que ele realmente é. A verdade é que o bicho papão é a sombra de nada que pensamos ver no meio da noite ou o edredom que solta e roça no pé. O bicho papão é uma vontade de fantasia perto da porta do quarto ou no vão da cama; na penumbra da madrugada um cabideiro pode ser confundido com uma pessoa e um espaço ocupado por um vulto de roupas quando deveria não estar ocupado nos assusta e alarma. Levantei no susto e mostrei meus punhos como armas. Tive que rir de mim ao recuperar a calma. Tudo bem, se então você andar na minha direção e o seu coração acelerar. Eu não vou te morder e muito menos te atacar, mas me deixe em paz, você entendeu que eu sei revidar. Confio na minha opinião e espero o mundo girar. Eu não sou o responsável por você ser um inseguro sempre a hesitar. Você pode continuar dançando nas suas cordas, fantoche, eu nunca vou me importar. Está feliz com as recompensas que o seu senhorio vai ofertar. Um dia quis te ver livre e hoje acho que nasceu para dançar. Quem não sabe quem é, aceita quem tenta os controlar. Imagine só o que você faria se tivesse um dia no meu corpo. Para onde se levaria se estivesse na pele de um porco?
Melhor um porco do que um fascista, do que um racista, do que um falso, do que um cínico, do que um mímico sem identidade embriagado e estilhaçado pela cidade, sem saber o seu nome, se está com fome ou a sua idade. Melhor um porco do que qualquer coisa que você demonstrou ser nos últimos anos, mas em uma coisa vocês tinham razão, eu nunca obedeceria a seus planos, afinal, sou humano e nesta terra de bonecos de panos, eu não ouso permanecer. Sou o que faço de mim e prometi que iria viver. Melhor um porco que sabe o que é do que alguém que precisa emprestar identidades para sobreviver. Melhor um porco do que quem se vende para pertencer. Melhor um porco do que quem abdica da vida com o pretexto falso de que precisa sobreviver.
Bem, sobre medidas, réguas, bonecos, titereiros e freiras sacras que ousaram se vituperar, uns sentem o orgulho reto do que são e do que podem ser; outros celebram publicamente o que no reto pode caber, é estranho, toda essa vontade de aparecer e mesmo assim, quando a poeira baixa, ninguém sabe quem é você. A realeza que ninguém vê é mais que a ralé?
Talvez eu tenha me tornado um especialista em ser bonzinho, mas não confundam a minha bondade com passividade. A abelha que espalha o mel também ferroa, então, não me encham o saco e permaneçam em suas bolhas, afinal, eu estou isolado no meu canto e não escuto mais o pranto de quem tentou me matar. Vocês que se busquem, pois eu já conheço o meu lugar. Não sou anjo e não estou sempre no céu, mas além do ferrão, carrego a capacidade de fabricar e distribuir o mel. Melífluo, prolixo, complexo, vulgar, sempre gargalhando alto. Sou tímido, mas constantemente me sobressalto. De tudo o que me falta, eu mesmo nunca vou me faltar e essa é a única ausência que realmente nos impede de viver. Se me faltassem os outros, vá, um homem se consola mais ou menos das pessoas que pode perder, mas quando me falto, Dom Casmurro, essa lacuna representa Tudo e talvez, eu sei, Tudo seja Nada para quem não sabe as mínimas diferenças do que ocorre ou deveria ocorrer ou para quem é desleal até com os próprios sentimentos, como se a mania de fingir para os outros em algum momento afetasse nossas capacidades cognitivas e essa indução lenta a um caminho de mentiras nos fizesse confundir mentiras e verdades e passássemos a mentir para nós mesmos e a acreditar piamente nessas mentiras e tudo repentinamente ficasse tão turvo ao ponto de perdermos ou não completamente o discernimento.
Somos o que somos, não só o que fazemos e diagnostico a dificuldade da maioria em entender. A parte vaidosa que nos forma, a vulgar, também é para valer. Os melhores são repletos de partes ruins e até os maiores diabos possuem qualidades positivas. A perfeição é sonho torpe, utopia. Saber ganhar é tão importante quanto saber perder. Quem se assume, em suma, vive, chora, ama, mas definitivamente avança com coragem. Quem se desafia, aproveita as experiências dentro da realidade. Quem se exige, mas sabe relaxar, sempre desfruta da viagem. Devemos levar a vida tão a sério? Bem que queria me divertir e me esquecer neste final de semana. Um gole de vinho, uma aventura, minha casa, qualquer trama. Divirto-me como se a vida pudesse acabar hoje, pois sei que eventualmente ela acaba.
Nossas primeiras obrigações são sempre para com nós mesmos. Sinto desde a infância uma espécie de dever em não me afastar de mim. Mesmo menino eu tinha razão, é preciso ser quem se é e agir com o coração, precisa ser assim.
Es muß sein.
Eu sei o que sou e conheço meus defeitos. Eu sei o que sou e me amo e me aceito. E você sabe quem é?
O que carregava comigo.
Eu não carregava comigo ilusões, apenas era, como quem se habitua a ser e permanece sendo.
Vestia a minha própria pele, não com qualquer sombra de orgulho tosco, mas como uma roupa de ficar em casa, a mais velha e confortável do armário, aquela camiseta que laceia no nosso contorno corporal.
É preciso insistir, percebe? A constância é o caminho para o aprimoramento. Se sou o que sou, não vou me abster de mim. É preciso ser.
Certamente cometi acertos e erros, como qualquer um e, não me fugi, mesmo quando senti uma vontade indecente de correr, porém, flagrei-me pensando, correr para quê, correr para onde, se pretendia existir longe?
Eu não tinha nada de artificial, até o que eu emprestava ou obtinha, era original, meus equívocos me pertenciam, bem como minhas conquistas. Imagine não ser dono nem de suas próprias derrotas? Quanto desperdício, quanta lástima. O conforto é uma miragem de quem não compreendeu que só se vive a vida pelo risco.
É provável que você exista, eu admito, mas isso não quer dizer que você viva. Preocupa-se com todos, exceto você, sendo que tudo pode se findar hoje, cada respiração pode ser a última.
Os sentimentos todos necessitam de vivência, não só a felicidade, como a tristeza, a raiva, o ciúme, o amor. Tudo importa para quem se atreve a se conhecer e é a coragem de se buscar que oferece uma chance de nos encontrarmos.
Encontrar o quê, quando e onde? Quem sabe? Eu estava em busca do rosto que eu tinha antes da criação do Universo e frequentemente me vejo calculando a vida, bem como quem calcula um verso, mas se a matemática não é bem-vinda no terreno dos versos, para que calcular, você me pergunta e sorrio largo por compreender que não compreendo o mesmo tanto que você. Saber que não se sabe tudo também é essencial.
Eu não carregava ilusões. Percebi que representamos um deus a nós mesmos e que, deificar pessoas, é falhar a vida. Tudo é absoluto e medíocre na mesma proporção. O nosso destino jaz em nossas mãos.
Sorri, percebendo-me, falho e humano, compreendendo, pelos hábitos felinos, que a vida não é em linha reta, tampouco eu sou, ainda assim, perco-me em imagens turvas e viro nas tantas curvas do amor.
Epifania.
Nunca havia me flagrado em um entendimento absoluto daquela situação, apenas não compreendia, embora por reflexo, tivesse estendido a mão para quem estava aflito. O grande problema é que a maioria das pessoas são outras pessoas, sem sonhos ou ideias próprias, sem raciocínio individual, sem qualquer estímulo que as torne singular.
Não se subestima a ira de um homem gentil, assim, conjecturar que a raiva é absolutamente maléfica pressupõe ingenuidade ou pouca experiência.
Quem perde a capacidade de se enfurecer, flagra-se ameno, indiferente e a indolência dos sentidos é o pior dos estados emocionais, o mais perigoso. Para buscarmos justiça, precisamos da sensação de indignação e se não nos indignamos, somos supérfluos, rasos e sem conteúdo. O risco inerente é o de normalizar tudo.
Eu sinto muito e sinto muito por quem magoei. Sei com quem falhei e me desculpei de maneira retilínea, objetiva, mordendo sem assoprar e aceitando as mordidas mais sangrentas. Nem todos se valem da prerrogativa de serem absolutamente honestos, pois é mais fácil negar nossos defeitos e nossas falhas do que assumir. Quanto você é capaz de assumir sobre si mesmo?
Nesta existência fantasmagórica, a maioria aprende desde cedo a se calar ou a se adaptar, para que possam se encaixar, para que possam prosseguir com ajustes desajustados, adulterações abruptas e radicais da realidade, mas o que se vive realmente quando deturpamos a realidade de forma tão escancarada?
Já que sou, o jeito é ser. Já que estou vivo, o jeito é viver. Esperar é perda de tempo para pessoas como eu. É preciso se precipitar adiante com coragem já que uma vez apenas não conta. Você já sabe que uma vez é nunca?
Ainda assim, ontem era primavera no meu coração e eu não sabia quantas invernias guardava no meu peito. Percorri meus caminhos e eles eram estreitos, mas sempre sofri e ri do meu jeito. Ao forçarmos o nosso Ser, seremos imperfeitos, entretanto, fundamental é não ignorar os próprios feitos. Quem se define se limita? Quem aposta em si mesmo, sempre acredita?
Nunca havia me flagrado em tamanha epifania. Aprendi o segredo da felicidade e o esqueci em um dia.
Confissão.
Certa feita, durante os anos dourados da juventude, meu melhor amigo, àquela época aos 16 anos, confessou-me aos soluços que tinha traído a namorada três vezes e, pediu desculpas a mim, pois havia ali entre nós uma certa cumplicidade, nós dois éramos parte da mesma coisa, semelhantes; nós dois éramos sólidos, sãos e nossos pais, cada um durante o seu respectivo casamento, haviam traído suas esposas, assim, havia uma espécie de juramento tácito de não replicar aqueles comportamentos nocivos.
Estranho que a culpa dele o fizesse pensar que me devia desculpas, não? Foi o que lhe disse em seguida e para completar disse que ele precisava contar a verdade para a namorada e que as coisas entre nós se acertariam naturalmente.
O adultério, embora não seja incomum, trouxe uma montanha de dor para a vida da minha mãe, que carregou o peso deste trauma por mais de uma década, assim, eu jurei que nunca repetiria a história dos pais que fazem sofrer as mães. A atitude isolada dos nossos pais nos uniu mais como amigos, quase como irmãos.
A imagem do amigo angustiado diante dos próprios erros era drástica, inesquecível. Ironias da vida, anos depois, este mesmo amigo veio me contar orgulhoso que havia transado com quatro mulheres lindas e quando pegou o celular para me mostrar quem eram, eu perguntei “mas você não está namorando”?
Eu o vi ali, diante de mim, mudar do estado orgulhoso para o irascível. Olhou-me como se a minha pergunta fosse uma ofensa e me odiou. Dali em diante, nunca mais fomos amigos. Separamo-nos em definitivo muito antes da separação definitiva dele e da namorada da época, que hoje está casada e feliz. O nosso último encontro completa uma década em 2025.
Ninguém é perfeito, eu também não, claro, em certo ponto disse bobagens como qualquer um, deixei algumas situações irem longe demais, como qualquer um, porém, nunca me encontrei ao ponto de ferir quem amo.
A medida da lealdade é ser leal sem medidas e, se guardo palavras, sinto que hei de morrer sufocado pelo peso de não tê-las dito. Sou tudo o que sou e sou muito, mas não me acovardo. Diante do que é injusto, ardo.
Olha, que eu era um adolescente desinteressado, longe de ser bonito, mas também, invulgar, distante da feiura grotesca do mundo, eu sempre me escolhia, mesmo que isso significasse pedir para minha primeira namoradinha esperar enquanto jogava a Guerra do Emperium com meu clã. Sempre fui líder e, a maioria amava a minha liderança, entretanto, os que não podiam lidar comigo, tramavam minha derrocada. Mesmo que me vencessem, eles nunca me venciam, eu só lidava comigo, sem egoísmo, preocupava-me com os outros, sem me preocupar ou desejar o que era dos outros. Entendi a beleza do amor sublime muito cedo e a importância da liberdade individual no desbravamento da autonomia de viver.
Não compreendo até hoje o que os anos perdidos fizeram com aquele um amigo. Como meia década o levou a sentir orgulho de seus velhos vexames? Claro, eu vivo em paz com as minhas versões passadas, perdoei-me por meus erros, mas orgulhar do que um dia fez alguém sangrar não é perigoso? Louvar os próprios defeitos ou falhas, elevando-as a um pedestal inestimável, inatingível, não atrapalha nossos processos de evoluções? É preciso questionar, raciocinar, ponderar, sim, quem nos opões, é claro, mas muitas vezes também quem nos apoia. Há raríssimas pessoas que nos olham e ainda preservam o cuidado de tentarem nos enxergar.
Depois que cresci, eu nunca me escondi debaixo da saia de qualquer pessoa e nunca usei amigos, familiares ou outras conveniências como escudo para sobrevivência. O peso de viver sob as condições que estabelecemos a nós mesmos é nos cumprirmos, por mais rigorosos que sejam os nossos parâmetros próprios. Sou um livro aberto e escancarado. Todos julgam meus defeitos e minhas falhas, entretanto, quem suspende a balança e desce a espada, quem decreta a sentença, é sempre mais incoerente que eu, sempre mais afugentado, às vezes, até hipócrita.
Olhei-os nos olhos, disse-lhes diretamente tudo, busquei através de objetividades atingir uma paz verdadeira e duradoura, uma paz que nasce da intimidade que só se alcança ao superar os obstáculos. Fingir que as adversidades não existem ou se afastar ao menor sinal de desconforto não prova superioridade, pelo contrário, existe um limite de coisas (pessoas) que você pode descartar. Os conflitos surgem para serem resolvidos. Tentar destruir os outros não vai te fazer mais satisfeito com a sua vida medíocre. Desconfio de quem ame e não seja capaz de confrontar as pessoas que ama. O nosso maior dever para com alguém que conhecemos, é lembrarmos constantemente o quanto os conhecemos.
Se estou fora de mim, espero honestamente que as pessoas que me cercam possam me trazer de volta. Se me falto, não sou, se disfarço, não sou, se finjo, não sou. Alvo de zombarias e ofensas, nunca os ataquei de volta, nunca descortinei a sujeira dos que sussurraram aos ouvidos e pediram por segredo. Eu sei o que sou e não sinto medo.
Os que um dia julgaram meus atos como traições ajustaram convenientemente a realidade. Pena. Meus embates foram minhas maiores provas de amor. Primeiro contestei com gentileza, porém rosnei e gritei diante de covardias incontáveis, defendendo a verdade. Nunca me afastaria de um amigo, não importa o quanto tivesse errado comigo ou com os outros. Pode parecer muito, mas na verdade é tão pouco. Acreditar nas pessoas sempre me manteve em perigo, mas prefiro insistir assim. Se o mal dos outros é não se conhecer, pelo menos eu tenho a mim. Nunca me deram a oportunidade do diálogo, mas estou em paz com os fatos, juntei meus cacos e segui sem tentar tirar vantagem. Para ser humilde é preciso coragem e isso eu tenho, afinal, estamos aqui de passagem. Viver é um acaso maravilhoso e vou aproveitar minha viagem.
“Se só me faltassem os outros, vá, um homem consola-se mais ou menos das pessoas que perde, mas falto eu mesmo e esta lacuna é tudo”. Diga-me mais, Dom Casmurro, desce o golpe de Machado, ignora a forma, aborda o conteúdo. Quem é que lhe diz palavras necessárias quando o mundo se faz de mudo? É o mal da década, do século, do milênio. Quem é que quer se envolver? Quem se atreve a se indispor? Manter o cuidado costumava ser a maior demonstração de amor. E agora? Encaixamo-nos conforme nos permite este mundo sério. Quando você fala, é você ou o seu ego?
O maior mistério da vida não é o mistério alheio. O maior mistério da vida é entender nossos ecos e próprios desejos. Quando falto, compenso? Se não admito que erro, quem me penso? Os outros são meros humanos e eu uma espécie de gênio? Tremenda imbecilidade se pensar superior assim, eu sou mais do mesmo, ainda que caibam todos os sonhos do mundo em mim. O maior mistério da vida é o que somos a nós próprios.
Quem conscientemente narra os desejos mais extravagantes da alma? Quem é injustiçado e tem a capacidade de manter a calma? Correr em um campo verde, disparar desenfreadamente, sorrir largo, rir alto, recolher-se para dentro do casco, de preferência sofrer com elegância, entretanto, quando os acúmulos de dor forem grandes e as covardias alheias forem aos montes, gritar, berrar, derrubar o que estiver defronte, selvagem, animalesco, voraz, puro, verdadeiro. Todos são tão perfeitos. Todos são tão prontos!
O maior mistério da vida não é o mistério alheio. Buscamos, todos os dias, entender os ecos de nós mesmos, a compreensão de nossos barulhos, quem nos enxerga cintilante quando o mundo dorme escuro, a noite que nos engole, o dia que nos devolve ou que nos vomita, por quê a grafia de regozijo me lembra regurgitar, os nossos motivos, as nossas canções, estar vivo, corações, sensações, o sol e a sombra.
O mistério maior é o que somos e o que queremos nos tornar, é existir e não invejar, olha, que nunca quis outra vida além da minha, outra namorada além da minha, outro cachorro além do meu, outro sofrimento, outra vulgaridade, outra qualidade, outra extravagância, outro corpo, outra cor dos olhos, outro sonho. Que mistério te forma?
O maior mistério da vida é o mistério do bem. Não se engane com quem passa tanto tempo conjecturando maldades. Compreender a bondade é muito mais difícil, pois, nascer na aspereza dura do asfalto e florescer, espetar uma pontada de beleza em um mundo feio, isso vale mais.
No mais, muita coisa nem passa pelo pensamento e o mistério do amor é maior que o mistério do tempo. Se um dia se souber, será mais feliz, mas também será mais triste. A compreensão nos aprofunda e nos conecta com tudo o que existe. Atreva-te a se conhecer. Ouse se amar e sê.
Ser é vencer.
Cônscio de não ser perfeito, eu venço todos os dias quando me encaro da maneira mais rigorosa. Quando me venço, sei que marco meu avanço no ritmo gradual. Crescer exige lidar com os desconfortos, é natural, mas para quem nunca ouviu um não, todo desentendimento gera uma crise fatal.
Somos vastos e podemos mudar de ideias, como folhas que despencam das árvores, marcando um rodopio bailarino no ar, entretanto, nossos princípios hão de ser como as raízes e, assim, com as bases sólidas, não sucumbiremos quando tentarem nos podar, cortar ou derrubar. Resistiremos, por compreendermos, que mais difícil do que suportar os golpes alheios, é não suportar estar em paz consigo mesmo.
Ainda me aprendo todos os dias e tenho a humildade para reconhecer que há muito o que melhorar, mas não sou refém das vidas que não vivi e das escolhas que não fiz. Aguentei as investidas covardes de quem fez de mim o que quis.
Nunca tentei e nunca vou ter controlar a vida de ninguém e sei, que isso de ser exatamente aquilo que se é, ainda vai nos levar além.
“Mera mudança não é crescimento. Crescimento é a síntese de mudança e continuidade e onde não há continuidade, não há crescimento”. C.S. Lewis.
Pare. Pare tudo e se pergunte. Você ainda está crescendo?
Estou longe do final e todo dia continuo aprendendo. Alguém percebe o quanto estou amadurecendo? O que me faz sério é isso de trazer minhas infâncias para o presente, de ancorar adolescências no meu Eu adulto.
A coisa mais complexa da existência humana, é descobrirmos o que somos e insistirmos em sermos. Ser é vencer. Crescer é vencer.
Sou e venço. Pelo menos até aqui…
Quanto vale um verso velho.
Um verso velho
pode valer mais que
uma pessoa
Os dedos enregelam
Dentro o degelo
Gasto palavras
Há os que veem o mundo
exatamente como ele é
Há os que inventam
ficções para crer
Ninguém pensa em ti,
mas a ilusão é doce
Um verso velho
vale mais que você
Pensa que te pensam
Equivoca-se
Insignificante
Há os que veem o mundo
exatamente como ele é
Há, entretanto, ficcionistas
Estes se dividem em dois
O primeiro tipo prefere fantasias
e escapam da realidade entre suspiros
O segundo se convence de ilusões
Acreditam piamente em seus delírios
Quanto se perde com revanchismos?
Um verso velho
pode valer mais que
uma pessoa
Um gato preto também
O café coado e sorvido lentamente
Pesa o mesmo que o Universo
A criança entra na casa
Os olhos ligeiros se aventuram
Pergunta por seu tio, porém
ele ainda não chegou
Te acalma, menino
Logo estarão brincando
O sorriso do garoto
Pesa o mesmo que o Universo
Um verso velho
pode valer mais que
uma pessoa
Mais que um empresário
Mais que um engenheiro
Mais que um advogado
Num verso velho
pode haver
palavras corajosas
Brasas
Lusco-fusco
Esperanças
Um verso velho
vale mais que um filme
na semana de estreia
Vale mais que o sexo
feito por questão de rotina
Num verso velho, às vezes,
espreitam-se obras-primas
O que se faz das obras irmãs,
mães ou tias?
Um verso velho possui
parentesco
com todos
os outros versos
criados
Há quem se pense realeza
ao fazer os outros de escravos
Tediosa e longa semana
A gente sempre destrói o que ama?
Escrevo novos versos
que um dia serão velhos
Quem sabe uma declaração de amor ou
Pixação rude pelas esquinas desta cidade
Envelhecer da forma certa
é ser ferro e vinho
É saber endurecer e ser
sozinho
O olhar minucioso capta e destrincha
Qualquer jovem alérgico aos versos velhos
não saberá apreciar
O interno nunca aguenta a tinta
Um verso velho pode valer
mais que o inverno e o verão
Principalmente quando cada letra
no fundo da gaveta destrincha
o coração.
Despencando.
Tinha um hábito velho, mas não envelhecido, hábito pronto, feito herança que a alma traz de longe. Outro passado, outro corpo, outro rosto, ainda que de uma forma complexa, vil, irreconhecível, eu compartilhasse a mesma essência que minha versão atual. O mundo mudara e meus hábitos metódicos permaneceram. Era de sorrisos fáceis, risadas altas, mas tratos longos, demorados. Sabia ser feito de qualquer coisa antiga e às vezes tinha que tirar a poeira de mim, como um livro esquecido no meio da prateleira, páginas amarelecidas pelo desgaste das décadas.
Por que é que me sinto vencido? Para onde foram tantos anos perdidos? Quase sempre não me sentia bem, mas tinha um talento raro de ouvir e entender, de olhar e ver, de tocar e fazer com que me sentissem. Fantasma de tantos mausoléus, eu arrepiava a todos, mas me sentia frio, solitário e distante. Como explicar aos outros que os outros não bastam? Como me confessar, sem ser ingrato, mantendo o tato, que não são eles que me faltam?
Obstinadamente, eu insistia em buscar a primeira verdade do mundo. Eu queria saber qual o rosto que a minha alma tinha antes da criação do Universo ou que magia, encanto, gesto fútil e estúpido, que fez um homem triste e inútil se apaixonar pelos versos. A poesia, a prosa, as frases, todo detalhe me encantava. Aprendi por coincidência a perseguir o rabo da palavra. Como quem pega um bicho fugidio, a palavra pode se debater. Ofereça-lhe ternura e escute o que você tem a se dizer.
Olha, que não se adivinhem os fins, pois o mais importante é o que há na jornada. Se todos nascem e morrem, nossa única obrigação é tentar desfrutar da própria estrada. Tudo sucede expansivo, crescente, dominante. Tentei pendurar minhas esperanças em outras pessoas, mas a verdade é que elas sempre precisaram mais de mim do que eu delas. Desenvolvi ainda novo uma relação prodigiosa com a solidão. Aprendi a preencher os espaços com silêncio ou música, assim, acostumei-me a ouvir o coração. Quem é que sabe de nós senão nós mesmos?
A Tristeza bateu a minha porta entre 2010 e 2014. Foram quatro anos de crises de vômito, mais de vinte e cinco internações. Antevi o destino último da Terra enquanto vomitava tudo o que havia comido e depois o que nem havia comido e depois a bile e depois qualquer líquido escuro, preto, que saía de dentro de mim. Isso é o que meus órgãos fizeram para me punir por não saber lidar com a raiva?
Nunca amansei, mas aprendi. Meu pai me dizia para sorrir mais, meu avô me dizia para sorrir mais, filho, você sorria tanto e o tempo inteiro. Como diria a eles que isso foi antes de ler os gestos e os olhares? A melancolia funda que se aloja atrás dos olhos, os medos, os segredos, tudo o que infla por dentro e pesa por fora. Nunca mais sorri igual antes, pois comecei a ser uma espécie de esponja e absorvia instintivamente todas as dores. Cada recorte mínimo de tragédia era meu e eu tentava puxar para mim. Quando a minha mãe chorava e se rasgava na época da perda do amor, do conforto, da vida, eu fazia uma dança estranha em momentos específicos, estrategicamente aguardados. A dor então cedia, uma rachadura de alegria em uma montanha de traumas, entretanto, por ali entrava a luz do sol e a gargalhada soluçante de minha mãe preenchia os ambientes. Que é que me importava vomitar oito, dez ou doze horas seguidas? Eu tinha uma relação formidável com a solidão e, bem, se eu acabasse perdendo, seria uma derrota. Não quer dizer que eu não lutava, certo?
Nunca amansei, entretanto, observar cautelosamente as pessoas me fez compreender. A vaidade, a alegria, o medo, o desejo, a inveja. Tudo isso passeava estrangeiro no campo dos meus pensamentos e eu aprendia cada vez mais. Não tardei em notar que a maioria não tinha coragem. É preciso se indispor se o objetivo é a justiça. Quantas vezes não se feriram comigo e retrucaram com o silêncio? Não é nossa obrigação adivinhar o que não nos contam.
Acostumei a não se acostumarem comigo. Uns tantos amigos jovens ficaram furiosos quando eu os interpelei a respeito de adultérios. Disseram-me, ei, somos adolescentes, ei, somos novos, ei, nesta idade podemos errar. A equação perfeita dessas idiotices não incluía o quanto estes erros eram premeditados. Não incluíam também a outra parte, como se fosse obrigação de alguém suportar uma traição, apenas pela juventude. Cresci tão correto e valente que muitas vezes quiseram me prensar contra a parede, como se eu não tivesse direito de ser covarde, de falhar. Sempre fui imperfeito, entretanto, recusei a agir sem inteligência, domando o instinto tosco de animal selvagem. Talvez cada um de nós tenha esse instinto puro, essa bravura indômita, essa coisa qualquer que não se sabe o nome ou o motivo, essa razão em ser irracional. Talvez cada um de nós acumule tantas obscuridades secretas que, cedo ou tarde, elas escorrem, mágoas, raivas, sonhos, zombarias. Tudo se mistura em um caldeirão de sentimentos.
Quem é que sabe o que quer? Quem é que sabe o que é? Quem está sozinho e deseja desesperadamente alguém? Quem não consegue seguir o próprio caminho por se ver refém? Vez ou outra ainda me enxergo no passado, calado, escurecido para dentro, entretanto, desprovido de instintos amargos, nu de qualquer coisa animalesca, apenas um menino distraído e com fama de desatento, apenas por prestar atenção em coisas que ninguém dá a mínima. Que é que somos além do que sonhamos?
A solidão é cômoda demais para os solitários. Quem está sozinho por covardia ou por consequências e não por escolha, está fadado a viver para sentir o peso das ausências. Quem preenche o espaço com companhias e nunca pôde estar sozinho, cedo ou tarde vai se perder e hesitar sobre o destino e o caminho. A solidão propositada lapida, enobrece e nos prepara para dividir o espaço quando outrem entra na nossa vida.
O trabalho anda me consumindo muito tempo nas últimas semanas, eu tenho ficado bom em resolver as coisas, estou melhor, mais rápido, mas não consigo dividir meu foco e a rotina implacável me esmaga. Como se persegue o sonho quando se esquece de sonhar? Tudo entra na frente do sonho maior. Entra antes o sono, o exercício físico, as obrigações de casa, a família, os amigos, a namorada, entra na frente ir ao banheiro ou beber água, entram antes os aniversários, os adversários, as distrações. Como seguir em linha reta com tantas confusões?
Confessei ao meu psicólogo que estava farto dos outros e que estava disposto a assumir uma atitude mais rebelde. Chega de ser babá, psicólogo, cuidador, amigo, conselheiro romântico. É preciso se virar sem a minha presença. Não que eu seja um anjo mal, radical, eu só optei por mudar um pouco o que era antes.
A sensação das sensações, o todo, não apenas a sombra, a inteireza, eu preciso entender, eu preciso me entender, abra a porta, deixe-me caminhar pelas ruas geladas nesta noite úmida ou dirigir a esmo sem pensar amanhã que a gasolina está cara, por favor, ouça a minha súplica, a tua súplica, eu preciso me entender, eu preciso entender, não apenas o superficial, mas o que existe além das regras, quero vislumbrar o que há além desta obediência cega, deixa-me apreciar a inversão, deixe-me uma vez trocar o dia pela noite, quero gritar na beira do mar ou na beira do parque, quero me estrear, antes que tudo isso se acabe e correr por aí, medir os barrancos e pular os muros, como se fosse adolescente outra vez, como quem cai e se suja e ri, por não temer nada, por não querer nada, deixa-me compartilhar o segredo com uma coruja, deixa-me olhar para este segredo do portão, este detalhe, lusco-fusco da criação, empresta-me tuas lentes para que eu possa olhar diferente e mudar meu jeito de mudar o jogo, entrego-me à sensação das sensações, sou uma peça pequena no todo.
Cuidado, pois a beleza não dura para sempre. Há coisas que você só pode ter agora e outras que só pode ter mais para frente. O passado não respeita o seu espaço e está presente. Só promete tomar cuidado para não perder seus motivos para sorrir. Não temos garantias de que o arrependimento não vai nos engolir. Somos apenas humanos contraditórios, complexos e incalculavelmente delicados. Preocupamo-nos com o futuro enquanto tememos o passado.
Este hábito envelhecido, nunca esquecido, é o que me faz ter a ousadia de buscar tudo o que eu quero. Não tenho dúvidas de que mereço e com paciência eu espero. Que meus sonhos me encontrem antes do próximo inverno.
Não sonhar é perder.
Não escrever é perder.
Não ler é perder.
Desistir
de mim
é perder
E estou necessitado de uma vitória para acreditar
mais uma vez
Todos os pesadelos, o Vide Noir, tudo recua subitamente como uma tsunami devastadora. Tenho medo de que tudo acabe em água e sal. Minhas lágrimas se misturam ao mar e ninguém me percebe. Minhas lágrimas caem junto com a chuva e ninguém nota.
Estou despencando para dentro de mim,
mas dentro de mim há tantas coisas belas
Sorrio ao viver e reviver tantas primaveras
Dentro de mim, eu vejo, posso sempre ficar bem
E sorrio, ao me lembrar, incenso fosse música
Querer ser quem se é ainda vai nos levar além
Quando todos ficarem neste lugar
Eu sei que ainda vou continuar.
A história oculta
a história oculta
alguns detalhes
foi na cidade de Tebas
que teu olhar me fez
pedra
este episódio
ocorreu há milênios
quando tu era guerreira
e eu ainda era gênio
antes de me saber
ignorante
mil anos se passaram e
crescia a fome do meu desejo
tantas vezes me reencarnaram
sempre longe dos teus beijos
pisca rápido
olha
linha
pesca rápido
isca
até que um dia
agora
morde
sê minha
sem demora
a língua revela
alguns detalhes
complexos
exploro o teu corpo
completo
jorramos em uma explosão
simultânea
somos dois, porém um
crime perfeito incomum
a perícia oculta
alguns detalhes
repugnantes
cuspe,
esperma,
suor e
sangue
ninguém sabe
o que nunca perguntou
tudo é muito, não cabe
amar demais é
desamor
quem nunca se aprendeu
na madrugada se esquece
ontem, abril, natal,
no final enlouquece
nem os pintores são
exatamente o que pintam
você conhece o golpe do Machado
o interno não aguenta tinta
segue-me com os olhos
ora para que se quebre este meu espelho
eu tenho notado
querem-me de joelhos
dei tudo o que pude,
só não pude ir além
o querer ser quem se é, Paulo,
nunca nos deixa bem
tenho mostrado meu
rosto
tenho sido o fulgor
na noite escura
entretanto,
este meu brilho eterno
não dura
apaga-se a memória,
as lembranças,
esperanças,
dançamos a última vez
antes do estrago
se aproxima e me usa
medusa
empedernido
te espero em desespero
aceso como uma chama
me oferece teu corpo
mente que me ama
a gravida oculta
alguns detalhes
iludimo-nos com o voo,
mas estamos presos à regra
até a nossa rebeldia
é frágil e quebra
seguimos fixados ao chão,
escravos patéticos do coração
eu oculto
alguns detalhes
tenho insistido em
amar um mundo
que pretende me odiar
internamente só há uma verdade
um dia vou para nunca mais voltar
uma noite dessas durmo
sem a intenção de acordar
sorrio triste e resignado
antevejo o futuro e relembro o passado
a história oculta alguns detalhes
noutra tarde infinita
se reencontrarão os nossos
olhares.