Qualquer dia desses.

Qualquer dia desses, eu parto e não volto. Quem sabe, antes de ir, eu avise minha mãe do meu paradeiro, apenas para que ela se tranquilize. Não há mãe que mereça perder o sono pelas aventuras de um filho, entretanto, todas as mães do mundo entram na estatística da insônia e se tornam vítimas da indústria farmacêutica.

Todos falam o tempo inteiro e, exigem-me coisas, atitudes, posicionamentos e eu, tão feito de pausas quanto de silêncios, enervo-me perante ao esdrúxulo espetáculo da dramatização do tédio alheio. Por ter pacificado a minha relação com o nada, por ter me tornado um mestre dos espaços vazios, não tumultuo meu próprio silêncio com barulho. A minha mente, que costumava ser uma tela constantemente colorida, hoje em dia surge, vez ou outra, como uma tela em branco. Aprecio o interlúdio e respiro.

Todos falam tanto e raramente escutam o mínimo. Eu já nem lembro quais foram minhas últimas demandas atendidas. Quantos pedidos meus foram colocados na fila de espera? A realidade é que muito se exige e pouco se entrega.

Estou exausto de fazer solicitações e concessões. Esqueceram o meu aniversário e como tudo sucede ao contrário, eu fui alvejado de reclamações. Ainda eu, vítima da vituperação alheia, recebo a recomendação de ficar calado. Insisto tanto em ser leve que todos supõem que eu não sei “pegar pesado”. Afaste-se, acaso pretenda me ferir, deixe-me, se quer provar o sabor do meu sangue. Use a prerrogativa da honestidade direta e indiscreta, mas não me ataque com oportunismos que visam minha derrota e vexame.

Se odeia alguém, não seja simpático. Se possui algo contra, seja enfático. Se são bons os seus motivos, aplique-os e seja prático. Essa praticidade que tanto me exigem, ninguém nunca me deu.

Até quando eu deveria pedir licença por existir? Até quando será que me vão me exigir retratações frágeis seguidas por deificações de falsos ídolos? Eles não são o planeta inteiro. Eles são a única coisa que você possui. Estou farto dessa arrogância constante, destes sorrisos plásticos, dessa constante atuação. Vá ou não vá. Estreite ou rompa o laço. Faça ou não faça, mas se porventura alimentar o rancor, recuse beijos e abraços.

Se me exigem tanto, comecem por vocês mesmos. Quero ser apenas unidade, eu sou apenas um. Quantas vezes terei que repetir para que me ouçam? Não escravizo ninguém segundo minhas vontades e estou cansado de viver pelos outros. Todo o muito que entrego, em réplica, sempre soa pouco. O que ofereço nunca é o bastante? Saiba que é tudo o que tinha neste instante.

Sina desesperadora de existir é ter que liderar. Todo mundo quer que eu os faça sorrir, mas ocultamente se aprazem de me ver falhar. Não sou eu também humano, feito de falhas, derrotas e medos? Se estou no meu tempo, por que alguém sempre diz que cheguei tarde ou cedo? Aceitem a minha ausência de pontualidade. Eu falto em muitas coisas, porém, eu sobro também. Sou um especialista em ser quem sou e essa teimosia de amor ainda vai me levar além.

Só por hoje imploro para que cesse esse drama, oro, mesmo sem crer, para que me sobre um vislumbre de felicidade, um pedaço onírico de sonho para sonhar, uma realidade que me seja menos pungente, uma ou outra pessoa que me escute e que tente, realmente tente me entender…

Estou preso a não sei o quê, mas qualquer dia desses me solto. Se eu me cansar de vocês, eu parto e nunca mais volto. Se isso acontecer, neste ínterim final, lembrem-se, enfim, que eu era humano. Acostumados a heroísmos e obrigações que não deveriam me pertencer, recordem-se de que eu era apenas mais uma gota neste imenso oceano.

Cuidado com o que constroem em suas cabeças vãs. Se vocês desconhecem até os seus parceiros, que é que vocês sabem dos outros? Essa mentalidade de clã transborda uma hostilidade lúcida somente aos loucos. Preciso sobreviver, ainda que não saiba mais os meus motivos. Preciso permanecer… é a única chance de encontrar os tantos sonhos e anos perdidos.

Estou me desapegando para não me apagar. Estou me acendendo para que possa continuar. Estou sendo, cada vez mais, eu mesmo.

Como todos me exigem e nada me entregam, eu aprendi que as verdadeiras ânsias da alma são individualistas e cegas. Este altruísmo de boteco não vai me levar a nenhum lugar. Se essa é a minha maior verdade, por que não consigo mudar?

Desligue suas obsessões. Desapegue-se das suas expectativas. Vocês todos acham muitas coisas e eu…

Eu sou apenas o que sou, longe dos achismos e opiniões. Repleto de puerilidade, eu me habituei a ser franco e não fazer comparações. Eu sou apenas o que sou e firo por ser, coisa que é realmente rara. Às vezes me constranjo, mas estampo minhas verdades na cara. Se a mim permaneço um mistério, insondável, profundo, complexo, como vocês ousam tentar me antever? A única realidade lógica é que vou cair e perder.

Esqueçam o que supuseram de mim. Nunca mais me idealizem. Vocês todos acham muitas coisas e eu sou diferente. Vocês todos acham muita coisas e eu apenas…

Sou.

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drpoesia

Escritor de hábitos relativamente saudáveis que gosta de escrever crônicas, poemas, contos e principalmente romances de ficção fantástica. Três livros prontos, porém, ainda sem publicação física. Trimestralmente faço o registro dos meus novos textos no Escritório dos Direitos Autorais. Tenho 27 anos de idade e sou formado em Direito. Creio no amor, embora o sinta meio ingrato neste ano. Só posso ser quem eu sou e é assim que vou continuar. Confio no mestre Leminski. "Isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além". Se você continuou até aqui espero que conheça meu blog aqui na WordPress e que possa dar uma visitadinha nas minhas páginas de poesias no Instagram e no Facebook! Obrigado! Volte sempre!

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