Leve

Aparece e sorri
Sou feliz e leve, mas sou
Além do que era
Mais do que se espera
Primavera antecipada
Sorri e desaparece
Vê-me agora
E me esquece
Fui tudo
Sou nada

Nada que valha a pena
Que é que isso quer dizer?
Sorri na Vila Madalena
E também antes de nascer
E na estação da Sé
E entrando no estádio
Sorrio para quem me acena
Renovo minha fé
É um novo estágio

E devo viver
Abraço mais

Ando mais
Testo minhas pernas
Sorrio mais e cativo mais
Não há quem não se renda

Sou árvore avulsa no meio da plantação
ou tulipa perdida no centro urbano
Sou também a lágrima que
salga ainda mais o oceano
Se me perseguem, que me persigam,
Se me amam, que me amem,
Se querem me forçar o peso,
eu contra-ataco com a leveza
É fundamental, porém, valorizar a luta
A repetição reforça o poder da conduta
A grama bem cortada cheira bem
O matagal alto assusta
São a mesma coisa
Em leveza agora vejo
a beleza pura
Sem sentir medo
Ando firmemente
Torno-me insubstancial
Qualquer resto de poeira estelar
Flutuo e me refaço
Em outros tempos
e outros espaços
Sempre que parto
é para nunca voltar
Não pertenço a ninguém
Ainda assim

o mundo todo
É o meu lugar
.

Menos que antes

Menos que antes,
Muito mais que agora
Menos que mero instante
A vida crescendo lá fora
E pesa no meu peito
O que deixei por fazer
O que poderia ter dado jeito
e preferi esquecer
Menos do que o futuro
Muito mais que o presente
O jornalista busca o furo
O dentista arruma os dentes
Menos do que pude supor
Mais do que poderia doer
A imaginação me causa uma dor
que eu preferia não ter
Menos do que o merecido
Sobrepujado pelo cansaço
Fui suficientemente ferido
Confundem minha pele com aço
Até onde eu sei ainda há diferença
Todos parecem se importar com tudo,
Menos com a minha presença

Amálgama

Essa mistura
de tudo e
mais um pouco
É a única cura para
o meu jeito louco
Guerreiro ferido e cansado
que sempre se opunha
Casca de machucado
arrancada na unha
Tudo o que nos forma
Virará um dia
Acessório que
nos adorna
Detalhe que
nos faz poesia
E essa estranha
Amálgama
me faz ficar bem
Arranha
minha alma e
me faz ir
Além.

Crônica Pregressa #1

Amor fantasma, futuro, passado e fim

Eu não sinto meu coração até que doa, vamos, por favor, machuque-me.     

Tarde passada, eu resolvi, enfim, que fecharia os olhos para as direções quais eles sempre estiveram abertos. Estiveram assim, inevitavelmente, por escolha minha, mas escolher não deixa de ser também um fardo. Nunca me deram o benefício da dúvida, veja, eu sou sempre julgado com uma espécie de certeza férrea e fria, capaz de assustar até mesmo demônios. Ainda que seja algo desconfortável, eu acho que agora posso compreender porque o fazem. Sempre esperam a minha convicção, ainda que, usualmente só me ofereçam a dúvida. Não me ofendo. Abraço os monstros alheios e os que moram em mim também, mas acredito que posso, mais do que antes, realmente entender a amplitude da ação das pessoas. Quando ameaçados, em regra, todos nós recuamos e somos ligeiramente ariscos. Quem suporta se sentir acuado? Eis que então a simplicidade ganha nuances de complicações e o simples ganha contornos impossíveis. Por que deixar alguém se aproximar? Quais benefícios podem advir disso? Por que é que tão fácil para uns falarem sobre coisas que não entendem? Por que é tão difícil aceitar outras coisas que, mesmo em silêncio, cansamos de compreender? Escute sua própria voz e não seja o seu próprio algoz. Siga o próprio conselho. Você já sabe o seu caminho. Proferiu as palavras sozinho diante de um espelho. 

Amor como crença em fantasmas. Raríssimos viram, mas todos falam sobre.     

Não nos ensinam, creio, sobre a maneira correta de acreditar em determinadas coisas; aquelas verdadeiramente importantes como a vida, o tempo ou o amor. É mais fácil aprender a não ter fé do que se acostumar a tê-la, percebe? Fé em qualquer coisa que seja, mas esse sentimento abstrato de determinação, de compromisso individual, que forma e solidifica o dever moral de melhorar dentro do coração. Constroem a sua personalidade de uma maneira prática, comum, e se você der sorte, ao longo da jornada poderá contar com um ou dois tapinhas encorajadores nos ombros. Dirão que suas rimas são ridículas e que é melhor que seja advogado, médico ou que trabalhe na empresa da família, pois nessa vida, aprenda logo, não se vive sem dinheiro. Concordo com essas palavras. Quem é que vive sem dinheiro? É mais fácil também, assim como sugeri acima, acreditar no dinheiro do que em Deus, mas com o passar dos meses, com o constante correr das horas, você percebe que, há coisas, ainda que sejam detalhes, que não estão ofertadas em vitrines. Como alcançar algo nada prático sem cometer uma espécie de crime? Como voltar o relógio, evitar se transformar em um opróbrio, e buscar, sem “ganhar”, a única coisa que um dia te fez sentir sublime? Ora, eu vejo que você ainda não vê. Talvez seja por dar trela à opinião de quem não se interessa ou pelo barulho alto da TV. Quando as crianças de rua perguntaram, todos os seus impulsos se calaram, pois não sabia responder. Uma simples indagação te travou. Quem diabos é que eu sou?

Sirva-se filho. Sugiro que beba uma boa taça de vinho esta noite. 

Obrigado, senhor. Tenho que me virar, eu sei. Na minha barriga e no meu âmago não carrego nem mesmo um rei. A arrogância de nada vale pra alguém como eu. Do que vale a pena discorrer? Dinheiro? Ganhe, gaste, guarde, mas seja sábio. Gaste apenas o que sabe ter, nunca mais, não seja estúpido, é idiotice viver endividado. Amizades? Tenha poucas. Inconsequentes, mas corajosos e fiéis, como sugeria o poema de Victor Hugo. Os bons amigos apertarão suas feridas e depois ajudarão a curá-las. Amor? Ah! Amor! Amor é vislumbre para a maioria. Amor é rascunho de poesia. Amor em um dicionário atualizado é conceito de velharia. Quem é que, de verdade, se preocupa com o amor? Não os ensinaram, certo? Que já nascemos incríveis? Seus pais não falaram como não existem sonhos impossíveis? Ainda é traumatizado por que quando caiu da bicicleta haviam soltado sua mão? Notou que a cicatriz no joelho foi o jeito perfeito do conselho chegar ao coração?  

Não sejas precipitado, tome cuidado, mas não se torne arredio.
Fique esperto e nesta imensidão de gelo e deserto, lembre-se:
A confiança é um prato que se come frio. 

Ditados invertidos, invertidos inventados, dias antes prometidos, por ferro e fogo feridos, eternidades fadadas a dar errado. Sinto falta de tudo o que um dia foi, mas não sinto saudade de quem fui. Tenho orgulho das mudanças e sei que hoje ninguém me possui. Seria tão ruim ter alguém para segurar a minha mão? Ah, meu amigo, chega dessa melancolia. Até quando vai se lamentar? Varra a monotonia e mude tudo de lugar. Chame as coisas pelo nome e espere que atendam seu chamado. Quem não responder, chame agora de passado. É preciso se preocupar com a saúde, a espessura do sangue e as veias do coração, mas não se esqueça de que a vida é agora e não há garantias em futuros planos. Por amor, por favor, não abandone tudo o que pode ocorrer de bom em um ano. Quem é que pode te atrapalhar a conquistar o que você sempre quis? Se pensar com cuidado, notará que seu único obstáculo, é o quanto você deseja mesmo ser feliz. Não procure respostas no que havia ontem e nem no que haverá amanhã. Faz sentido viver a vida além de hoje? Por meses que pareceram anos, eu não senti as batidas do meu próprio coração e quis culpar todo o resto, até a minha boa cidade. Quando entendi minha situação, coloquei SIM onde só havia NÃO, pois constatei que merecia a minha felicidade. 

Sinto minha vida pulsar e a vibração de tudo é tão serena.
Ainda não sei dizer qual é o meu lugar no mundo, mas
a partir de hoje assumo que sou parte de Tudo
Viver vale mesmo a pena

Não arrefeça se tirarem seu teto e sustento
Você já passou por fins de mundo piores e pôde sobreviver
Sei que vai virar o jogo no próximo movimento
O mundo acaba hoje para amanhã renascer.