Leve

Aparece e sorri
Sou feliz e leve, mas sou
Além do que era
Mais do que se espera
Primavera antecipada
Sorri e desaparece
Vê-me agora
E me esquece
Fui tudo
Sou nada

Nada que valha a pena
Que é que isso quer dizer?
Sorri na Vila Madalena
E também antes de nascer
E na estação da Sé
E entrando no estádio
Sorrio para quem me acena
Renovo minha fé
É um novo estágio

E devo viver
Abraço mais

Ando mais
Testo minhas pernas
Sorrio mais e cativo mais
Não há quem não se renda

Sou árvore avulsa no meio da plantação
ou tulipa perdida no centro urbano
Sou também a lágrima que
salga ainda mais o oceano
Se me perseguem, que me persigam,
Se me amam, que me amem,
Se querem me forçar o peso,
eu contra-ataco com a leveza
É fundamental, porém, valorizar a luta
A repetição reforça o poder da conduta
A grama bem cortada cheira bem
O matagal alto assusta
São a mesma coisa
Em leveza agora vejo
a beleza pura
Sem sentir medo
Ando firmemente
Torno-me insubstancial
Qualquer resto de poeira estelar
Flutuo e me refaço
Em outros tempos
e outros espaços
Sempre que parto
é para nunca voltar
Não pertenço a ninguém
Ainda assim

o mundo todo
É o meu lugar
.

Duas línguas – Two tongues

Essa história
starts a long time ago
When a boy wrote about
Deschartes, Pessoa e Edgar Allan Poe
Ele dizia que viveria do ofício
Living his life in the flow
Untill he broken in pieces
Chance perdida na cara do gol
Disse que pararia com os testes
But he already went away
A boy shouldn’t run so fast
Ele sabia e eu também sei
Uma das línguas dele sabe o que quer
The other one says that is too soon
He keeps himself aware
E se embebeda de rum
Uma das línguas não desiste
The other one accepts the end
He says he’ll insist
Pois não pode viver sem
A vida pode ser tão triste
Poor miserable man.

Lembrança

Texto de 06/10/2019.

     No lugar qual os esquecidos dormem, eu sou lembrado.      

     A vida é simples, mas a gente complica. A gente não combina nada e tanto se explica. Um dia o amor morre e ninguém o acode e a procissão é bem organizada no dia do enterro. O amor sempre acaba, mas sempre por conta dos nossos próprios erros?

     Outro amor surge e fica enorme, mas as palavras representam um peso para o qual você não está preparado. Talvez ninguém esteja, pois ninguém diz. A frase não dita não é o suficiente para te tornar infeliz. E o que é que é? Esse amor é diferente, você sabe. Te encara de frente, sabe ser e você sente e pensa alto. “Eu só espero que não dê errado”. Ainda assim ele é tão oculto que ninguém sabe o que guarda o que não é dito. Há quem diga que todo o dano, porém, é bendito. Perdemos, enfim? Quantas derrotas já fazem parte de mim? Entre um ou outro gole de cerveja, a gente evita conversas importantes. Um dia essa falta de tato e destreza compromete a promessa do que haveria adiante. 

     E aí de repente a gente se decepciona com o que nem chegou a conhecer. A gente se esconde, some e sufoca as palavras que sentimos tanta vontade de dizer. E nada mais faz sentido. Nem quero você perto como amigo. O domingo sempre companheiro do peito, soa como violão desafinado, som imperfeito, segunda-feira, desgraça incomum. Como pode algo tão comum que havia perdido o sentido se recuperar assim? Como posso sentir esse amontoado de coisas tão de repente, tão dentro de mim? As cordas arrebentadas podem realmente serem substituídas com facilidade? Ainda restou algo que desfaça o mistério e apresente possibilidades?

     Isolei-me, pois andei por aí mal. Tudo em mim era uma espécie de personificação do Nada. Caminhei por aí na vaga companhia de fantasmas. Errei ruas quais tanto estava acostumado. Às vezes eu sentia que poderia entendê-los, mas eles eram sempre tão silenciosos. Eu sabia que era impossível entretê-los, diferentes dos tão costumeiramente vaidosos. Respirei fundo. Tédio. Cansaço. Passado. Futuro. Não fui capaz de mudar ontem, mas de hoje não passa, eu juro. 

     Não espero que ninguém entenda meus períodos de isolamento, mas espero que respeitem. Sou como uma daquelas placas “Cuidado! Estamos em reforma”. O que vale aí é o texto que escrevi tão rápido e essas coisas que precisava tirar de dentro de mim. Uma amálgama de algo que vai crescendo e morre ou fica ali vegetando como se pudesse a qualquer momento renascer e se expandir e me dominar e se tornar maior do que eu. Não deixarei tantas ervas daninhas no meu corpo. Ainda que alguns dias eu me sinta… morto.

     A metáfora da árvore cabe. Ninguém sabe o que faz. Os olhos são traiçoeiros com o que enxergam. Os ouvidos anseiam por escutar uma nova tragédia. Árvores? Era sobre metáforas que eu estava falando. Sim, é exatamente o caso. É como uma árvore que cresce exageradamente e os galhos se esticam de uma maneira que se entrelaçam com os postes dos fios de eletricidade e todo mundo se entristece com o dia em que a árvore vai ser cortada, mas bom, a vizinhança fica mais segura e a iluminação noturna também melhora e todo mundo assente que era necessário. É preciso ver o lado bom das coisas…

     Minhas pálpebras pesam e minhas olheiras doem. Acho que uma veia do meu olho direito estourou e não posso evitar. Sinto um cansaço de fim de mundo, uma eterna preguiça de ser ou de sentir tudo. Não sou mais quem um dia fui e essa consciência míngua o meu sorriso. A minha imagem é um retrato vil qual não ouso olhar. Tenho procurado o rosto da minha alma, mas tenho medo de nunca o encontrar. Alguém sabe quem eu sou? Eco distante, memória constante, amor. Ela disse que nada poderia ser mudado e como eu poderia discordar? A gente se fala depois ou não se fala. Hoje é tarde? É tarde. Melhor deixar pra lá. 

     A manhã anoiteceu, a tarde se ofuscou e a noite pesa com uma espécie de instinto violento e velado. No lugar qual todos os esquecidos dormem, eu ainda sou carinhosamente lembrado.

Despedida.

Dei azar esta manhã
Suponho que talvez a culpa seja divina
Não tenho rezado nem em silêncio
Minhas únicas orações consistem em
longas olhadelas na BR 163
Talvez os caminhoneiros precisem de Deus
Talvez o vejam nas luzes de seus companheiros
Cruzando o breu da madrugada gelada
De certa forma é triste a constatação, pois
Eles não passam de uns fodidos assim como eu
Os infames seguem em vantagem
Embora sejam patéticos na essência
São belos em suas cascas
Quem quer descobrir se ele usa máscara?
Quem quer interromper o encantador de serpentes?
Se o capuz serve e não machuca a corrente
Deixe que prevaleça o conveniente
Apenas deixe
Cada um veste as roupas que necessita
para cobrir o próprio frio
Sugiro isso, mas nem sempre pratico
Cometo mil erros, mas não cuspo pra cima
Sei não ser ridicularizado por mim
Eu já sou ridículo o bastante
Quem consegue ser ridículo menos
de duas vezes na semana?
Mas a vida é algo imprevisível
Os infames possuem mesmo a vantagem
Os falsos se sobressaem 
É assim que a maioria gosta
É assim que a banda toca
De que lado estou?
Adiantou ser “bom” durante uma vida? 
Há calmaria neste novo lugar
Há tranquilidade sem desdém
Há boas pessoas, porém,
Há outras formas de amor
Infelizmente elas não me servem
O coração é teimoso e anseia por especificidades 
Vou apunhalar os bons costumes
Provar-me do contrário
Percorrer a vida na contramão
Ser o maldito colecionador de borboletas
Repugnante destruidor de sonhos
Sim, almejo estar entre os réprobos 
Ser o maior deles
Desferir socos e pontapés em meus rivais
ainda que estejam deitados
Minto para tentar parecer cruel ou sensato
Ficcionista forçado aos fatos
Mais de vinte anos de tentativa de justiça
Sem possuir fidalguia, tento agir com nobreza
Para no fim das contas ser o alvo favorito 
A mais suculenta das presas
Arre, vocês me deprimem
Covardes estúpidos e arrelientos 
“Não serei nunca como vocês”, bradei um dia
E hoje vejo que posso cumprir a promessa
sem ser zombado
Veja bem, há potencial para que se vá longe
Você pode ser o pior de todos, se tentar
Vai tentar?
Covardes é que se escondem em pretextos
Farei ou deixarei de fazer em nome do amor
Viajarei para ver o mar ou para encontrar
certos prazeres que tenho me negado
Critica os que dançam na avenida,
mas busca sua própria maneira de gritar
Ao mundo a significativa existência
Ah, admita 
Eu fui sua escada
Use-me
Use-a
Deixe-se usar
Deixo-me usar
Deito-me
Faça-me chão
Faça-me tapete
Faça-me
Faça-o
Falo, mas não em nome do amor
O que diria em nome dele?
Não faço juras em Deus
tampouco sacrifico minha ética
Por qualquer dos amigos meus
E daí? Converso e falo, mas repito
Nunca em nome do amor
O amor fez pouco em meu nome
Encaro a vida com um persistente ardor
Enquanto o que importa some
Barulho irreconhecível e som pavoroso
Ininteligível eu escuto um recado estrondoso
Corro a mão pelos cabelos e penso
A vida, a morte, o além da vida, o além da morte,
o definível e o irreal e o além do definível e irreal
O computador, os dados, a metafísica, o imensurável
As loucuras que nos possuem e podem trazer benefícios
A aventura sonhada na grande terra do impossível
Soluço, solidão, síntese, sinestesia, sinergia, siderurgia
porque tratar o aço também é importante
Olho para a BR-163
Quanta gente passou por ela
Quanta gente morreu nela
E eu aqui a observo com a presença discreta
e a alma repleta de desejos pueris
Ah, mas já não era a hora de abandonar
todas as tolices dos tempos de moço?
Não é hora de amassar os papéis dos lindos sonhos
e se contentar com o mero esboço?
Já não quero mais os resgatar, mas sim me juntar
aos esquecidos no fundo do poço
Meu melhor estado é o febril
Sinto melhor o mundo que nunca me sentiu
Será que nunca mesmo?
Ouviram meu choro em trinta e um de março
do ano de mil novecentos e noventa e dois
Eu também estava febril
Na adolescência comprei brigas 
Salvei a vida de minha mãe
Vomitei e tremi por quatro anos
Tudo passou, mas a memória ficou
Não importa mais pelo que passamos
Será mesmo que não importa?
Toda memória é descartável?
Acredita que sonâmbulo e fora de mim
Eu li o livro três da Crônica do Matador do Rei?
Rothfuss nem havia o escrito, mas com quarenta graus
Isso nem interferiu
Beirando à insanidade
Nos limítrofes finais da realidade 
Outra vez minha alma sorriu
Assim peço para que jamais se desespere
Desconsidere minhas declarações apaixonadas
Não por serem falsas, mas sim exageradas
Tenho uma tendência ao eterno e ao drama
Rio dos falsos espertos
Metralhadores de opiniões que só atingem espectros 
A frase matreira em busca da fama
O soldado ambicioso escondido à paisana
Homens nus nos desertos
Lamentáveis suínos banhados de lama
Ah, mas são valentes
Corajosos guerreiros da virtude
Não compreendem os movimentos, mas
Intrépidos erguem os punhos para o combate
Corpos adultos com personalidades de bebês 
Bois dopados correndo para o abate
Ah, mas como enchem a boca para xingar
Mania de civilistas mimados e frescos
Fascistas, nazistas, baixistas, flautistas
Vocês todos não prestam
Comunistas, petistas, direitistas, clubistas,
OPORTUNISTAS
Tantos berros narcisistas
Vocês são mais da mesma remessa 
Pedem calma na hora decisiva
Chutam o balde com toda pressa
Querem a estrela no peito ou na testa
Odeiam as coisas como são 
Arrancam as roupas os ativistas em festas
Alegam que foi pelo bem da nação
Tentam provar seus motivos louváveis
Para prosseguir com a vituperação
Aparentam ser afáveis, porém,
Suas ideias são vendáveis
Prostitutos por atenção
Não arrumam nem a própria cama
Ainda assim passam toda a semana
Muitos tantos só com o dinheiro dos pais
Príncipes da própria trama
Tanto falam e nunca se enganam 
Prisioneiros no próprio cais
Falsos miseráveis intragáveis
Tão cheirosos em seus caros perfumes
Os caminhos são irrecuperáveis para
Quem se acostumou a comer estrume
Belos rostos se convertem em faces de escárnio
Ironizam-me no ápice do azedume
Ah, mas eles sempre sabem mais
É bom que você se acostume
Eles te deixarão para trás
Perfeitos nunca sentiram ciúmes
Professores dos conhecimentos ancestrais
Chutaram o rabo dos mestres de artes marciais
Amam seus reflexos nos vitrais
Na noite de morte, eles são todos vaga-lumes
Que direi eu que escalei o primeiro patamar
à bilhões que estão no cume?
Ah, mas não direi palavra
Gargalharei de tudo e criarei um verso
Visto uma roupa desbotada
Arremessarei longe meu único diamante
Que ninguém o encontre nas profundezas do mar, imerso
Sigo em frente, desafiante
Recuso a prescrição de calmantes
Quero entender o Universo
Vejo tudo, exceto eu mesmo
Como posso me revelar sem me envergonhar?
Pois às vezes tenho me envergonhado sim
Quem não riria se eu dissesse que tenho
todos os sonhos do mundo em mim?
Tantos outros disseram isso antes que eu
Suponho que estejamos todos pirados
Espero que me entenda, nasci em 1992
Ouviu bem? Seu grande idiota! 
Sou dos anos de devaneios sobre o amor
Sob a luz do luar, eu ri de criativas lorotas
Sigo no meu próprio nexo
Nunca digo “oi, quero sexo”
Atitudes e palavras devem 
De quando em quando
Ter algum valor
Ah, mas neste mundo vasto
Talvez um dia possam me convencer
Vocês são a felicidade em fiasco
Eu triste ao menos me basto
Tenho muito o que aprender
Sou ridículo quando falo de fantasias
Deprimente quando mostro as poesias
Sirvo bem de escudo para os covardes indecisos
Perco amigos
Sirvo bem de escudo para os que precisam de um alvo
Perco a família
Sirvo bem de escudo para todos
aqueles que se promovem em confusão
Sou alvejado por todos
os que vivem em falsos personagens
Perco o convívio com a sociedade
Sozinho quem liga para a vaidade?
Vou vagar para um mundo sem fim
Ninguém me precisa
Nem eu mesmo preciso de mim
Embora não tenha me perdido
Tenho a voz péssima, mas canto
Orgulhoso de transmitir uma mensagem
Os sapos não se importam tanto
Aproximam-se de mim pela margem 
Do rio onde faz frio
Choro sem perceber
Seco meu próprio pranto
Meus desejos minguam e voltam
Sou incapaz de ver miragens 
Trabalho para juntar dinheiro
O trabalho dignifica o homem
Disse um homem morto uma vez
Não me sinto mais digno
Almoço com os viajantes
Aposentados, famílias e solitários caminhoneiros
Uma mosca esfrega as patas de olho no que tenho no prato
A paisagem ao fundo parece um desenho
Na contemplação, eu empaco
Poderia passar algumas horas aqui
Descrevendo as cores do céu e dos caminhões
Homens e máquinas no meio do nada
De certa forma todos estamos sempre sós
Pequeninos e inúteis sóis
Na imensidão de uma infinita estrada
Exupéry viu o mundo de cima
Vinicius de Moraes viu-o por dentro
Os caminhoneiros o veem em linha reta
Assim como viu os humanos, Fernando, o Pessoa
Cogito destruir aquilo que mais amo
Como disse que Oscar Wilde que toda pessoa faz
Chego atrasado, como é de praxe
Já destruíram tudo antes de mim
Todo esse caos
Tem que ser assim
Desanimo, mas me levanto
Penso em cantar meu próprio ser
Como faz o galo perto do posto de combustível
Como fez Walt Whitman
Canto eu mesmo
Ansioso por celebrar-me
Já que sou sólido e um dia não terei mais corpo
Paro e respiro profundamente
A gente não é o que mente
A gente não é nada que não tente
A gente é mais do que o que sente?
Pelo menos alguns de nós entendem
A gente é apenas o que sente
E agora o que vai ser, Daniel?
O que resta do mundo para você?
Agora que encontrou o rabo do cometa
A inteligência e a revelação te isolarão
Por que de repente fiquei mudo?
Estarei satisfeito no estágio final do começo de tudo?
A sina da inteligência é a perturbação
Os que muito sabem perdem a capacidade
De serem realmente felizes
Ah, mas quem é louco para querer ser apenas feliz?
Querem o riso geral do público, humoristas
Eu quero a minha cerveja preta e meu cachorro, Link
Eles querem dinheiro infinito e
a posse dos objetos
Eu quero ovos mexidos e
chocolate amargo
Há um limite para o quanto
posso aguentar sem chocolate e café
Eles querem ser singulares e reconhecidos
Querem o suprassumo do prazer
Eu quero muito meu gato Hadec miando
Avisando sobre sua fome ao amanhecer
Querem tudo e com tudo não se satisfarão
Detentores do novo mundo
Reis e rainhas da ilusão
Não há um deles realmente colhudo
Para admitir que ame o circo e o pão
Heróis repletos de conteúdo
Personificados em insurreição
E que parte tenho nesta terra?
Ouço eu mesmo dizer
Nesta infinita treva em guerras
O pouco que me resta pode se perder
Ah, mas eu ainda procuro
Embora esteja à beira do colapso
Levando tiros no escuro
Completamente seguro
Meu corpo fechado é feito de aço
Só consigo me fingir surdo
No calor de um abraço
Chorei ao ouvir uma música italiana no carro
Sentindo-me não mais que uma criança
Lembrei-me de esculturas de barro
Ergui-me pela própria temperança
Minha mãe dizia “você é raro”
Prossigo minha andança
Seria bom ser hábil na dança
Valsar com um novo amor
Bem atados como um laço
Compreender meu lugar e espaço
Girar no mais perfeito compasso
Deleitar-me em teu sabor
Aproveitar-te toda e nua
Dando de ombros para a nova face do fracasso
Aceitando a expressão da alma literalmente crua
Em essência me aceito crasso
É como se ao acender um novo maço
Eu retornasse eternamente à mesma rua
É como deve ser
A morte não anuncia retornos
Espero que alguém um dia espere por mim
Espero que um dia todos os fantasmas
na costa da praia me lancem olhares calorosos
No baile animado de teus olhos mortos
Acharei tudo o que preciso
Ainda que eles sejam seres sem corpos
Eu os saudarei, pois por tanto tempo os procurei
São minha face do Paraíso
Ah, mas no fim de tudo, tudo, enfim, tudo tanto faz
Minhas memórias parecem feitas de veludo
Brilhos fracos em uma vida fugaz
Há lampejos de luz em um caminho qual costumava ser escuro, mas
Em um breve sussurro, eu juro
Não volto nunca mais
Adeus para sempre.

Rito Matinal

Rito matinal
Celebro a vida
pelo canto do pardal
Havia no outro serviço
um galo que cantava
Umas seis vezes por dia
Eu admirava sua alegria,
mas havia um que o odiava
Quem vive para cantar é
mais leve de quem canta para viver
Quem aprende a amar nunca
se esquece de como o fazer
E não destrata, pois sabe
Amor é cuidado, coisa frágil
Como ovos tão mexidos
quanto a vida vem sendo
Não tenho errado no preparo
Estou sempre crescendo
Para o que me preparo?
Os sonhos de uns morrem
Os meus continuam nascendo.

Amálgama

Essa mistura
de tudo e
mais um pouco
É a única cura para
o meu jeito louco
Guerreiro ferido e cansado
que sempre se opunha
Casca de machucado
arrancada na unha
Tudo o que nos forma
Virará um dia
Acessório que
nos adorna
Detalhe que
nos faz poesia
E essa estranha
Amálgama
me faz ficar bem
Arranha
minha alma e
me faz ir
Além.

Quase o que você é

Você é como a onda do mar
Vem e me abala com força
Para depois se afastar
Você é como um vendaval no verão
Estraçalha, bagunça, quebra,
Desordena o coração
Você é como a chuva gelada
Despertando a alma dormente
Às vezes suave evapora na pele da gente
Você é como o rigoroso inverno
Suas atitudes não fazem sentido
Emudeço e me consterno
Não sei o que acontece comigo
Você é como um lendário dragão
Vista uma vez não pode ser esquecida
Mas ninguém te segura nas mãos
Sacode o corpo e acena antes da despedida
Você é muito singular
Para ser descrita com perfeição
Espero que apareça para jantar
Preparei uma refeição
Você é como nada que já se viu
Sou tolo de tentar explicar
Seu toque me dá arrepios
Não consigo me cansar
Você é tudo o que não se pode prever
Desculpe se estou um pouco suado
Também se tenho gaguejado
Obrigado por aparecer
Das coisas incríveis que nunca pude imaginar
Você transformou em realidade minha imaginação
Finalmente entendi o significado de amar
E minha vida nunca mais foi em vão.