Poesia em Trânsito – Dirigi meu carro branco

Dirigi meu carro branco do modelo você sabe qual
Em um tempo você não sabe quando
Num universo nem eu sei onde 
As vias eram de mãos quádruplas, mas
os faróis amarelados de meu carro eram as únicas luzes na escuridão 
Onde estavam os motoristas e passageiros?
Onde estavam os determinados caminhoneiros?
Dirigi e escutei algumas novas e velhas músicas
Algumas você sabe quais, porém, outras nunca conheceu
Você duvida, mas eu posso ser surpreendente 
Vá se ferrar, eu penso e
concluo que o pensamento é errado
Alimento-me com amendoins torrados 
e algumas memórias que me ferem 
Não deveria ter exagerado, pois
os dois alimentos irritam a minha pele
Coço o meu cabelo e continuo 
com meus olhos vidrados na pista
Você não vem hoje, meu bem
Você me fez ontem, refém, 
Desista, pare, faça o retorno, 

Os sinais estão todos espalhados 
Um relâmpago ilumina o céu 
Eu sempre quente me mantenho morno
Choro e gargalho, pois vejo além, 
Choro de novo sem nem me entender
Transformo ouro em frases no papel
Eu disse que vejo além, notou?
Não preciso das suas migalhas de amor
Não como um dia eu precisei
As coisas mudaram, exceto o meu carro
Quem sabe em outros tempos?
Soube que eu gostei de outras duas?
Você amou um, mas e daí? 
Sou ainda o seu rapaz da rua com o nome de motel?
As secretárias dos médicos fazem caretas 
E em voz alta entoam seus revezes 
Eu me mudei de casa sete vezes 
Aprendi o sotaque dos ingleses 
Troquei de pele até que a carne antes macia
fosse então dura como uma couraça
Tudo que antes existia: fumaça
Por meados da virada do ano
Eu vou te deixar para sempre
Sou ainda o que fui um dia?
Sim, sou, sou sim, sei que sou
Em algum tempo sei lá quando
Em algum lugar sei lá onde
Até o dia em que não serei mais 
Esse dia é hoje e foi ontem
Provavelmente agora 
Certamente nunca

Percebo-me e me sinto vazio
Quantas bocas preciso beijar até que passe esse frio?
Eu me tornei quem eu não era
A invernia com maquiagem de primavera 
O pacifista intelectual que sempre pondera
Quando deveria partir para a ação
Ainda assim sou a presença que ninguém espera
Quando atiçado me transformo em fera 
Bicho solto com instinto louco de destruição
Dirigi meu carro branco do modelo você sabe qual
Pisei no acelerador e me senti ágil, mas paguei caro no pedágio para voltar
ao tempo na velocidade estável de 122km/h 
Certas lembranças eram como aquaplanagem
para os pneus do meu carro 
Outras com gosto de esperança
Faziam com que eu me atolasse
Cada vez mais fundo no barro
Metáforas desmedidas e esforços tão tortos 
São necessárias as partidas para enterrarmos os espaços mortos
Você não veio ontem, meu bem
Não vem hoje também
E eu não peguei os sinais da pista, sabe?
É a sina de quem possui bons olhos 
Perde-se a ingenuidade e a candura
Perde-se o carinho e deforma-se a figura 
Perde-se coisas que nunca imaginou apenas para
poder ganhar o que poucos poderiam ousar
Olha, quem vem chegando ao fim da esquina
É o pedaço quebrado ao peito apontado 
Denomina-se sina 
Os sinais trocam as cores
Na letargia e cegueira da vida
Você ainda não trocou seus amores 
Você personifica flores
que já estão murchas e mortas
A felicidade está distante em outros países ou
você só finca os pés no chão como se fossem raízes? 
Talvez seja a sina de quem sabe ler os sinais
Dar de ombros em um falso tanto faz 
Sinalizar que ao final é tudo sobre sina 
E que as sinas não impedem sequer um sinal 
Tampouco nos impedem das mais trágicas rimas 
A noite caiu dentro de mim e não há lua
Dirigi meu carro branco por uma estrada escura
Dirigi meu carro branco fingindo estar a sua procura
As estrelas refulgiam alegremente no céu ou 
seriam apenas postes disfarçando minha esperança?
Que se dane!
O que importa é a luminosidade 
Ao longe vejo luzes de apartamentos numa cidade
Temperança, repito, soturno 
Aos poucos perdia o meu medo da morte 
Na estrada (eu) desempenhava o meu papel 
O som do carro anunciava a minha sorte 
Dirigi meu carro branco por instantes seculares
Dirigi meu carro branco e atropelei segredos milenares
Apaguei os últimos resquícios seus em minha memória 
Eu estou tão feliz, triste e aliviado, pois
com você ao lado jamais poderia iniciar outra história 
Sou mais do que as partes que me formaram
É tempo de novos inícios já, certo?
Dirigi meu carro branco por novos caminhos 
Assumindo completamente o risco de me perder (e tudo bem)
Ainda dirigia e pelo retrovisor me vi sorrir 
Lembrei do conselho do gato de Lewis Carrol 
Para quem não sabe para onde vai
Não importa qual direção seguir 
Desde que não volte,
acrescentei baixinho 
Acelerei e cruzei a madrugada
Dirigindo o meu carro branco e sentido a alma gelada 
Divagando por inéditas e perigosas estradas 
Pela primeira vez em muito tempo
Satisfeito completamente 
Completamente sozinho.

Leve

Aparece e sorri
Sou feliz e leve, mas sou
Além do que era
Mais do que se espera
Primavera antecipada
Sorri e desaparece
Vê-me agora
E me esquece
Fui tudo
Sou nada

Nada que valha a pena
Que é que isso quer dizer?
Sorri na Vila Madalena
E também antes de nascer
E na estação da Sé
E entrando no estádio
Sorrio para quem me acena
Renovo minha fé
É um novo estágio

E devo viver
Abraço mais

Ando mais
Testo minhas pernas
Sorrio mais e cativo mais
Não há quem não se renda

Sou árvore avulsa no meio da plantação
ou tulipa perdida no centro urbano
Sou também a lágrima que
salga ainda mais o oceano
Se me perseguem, que me persigam,
Se me amam, que me amem,
Se querem me forçar o peso,
eu contra-ataco com a leveza
É fundamental, porém, valorizar a luta
A repetição reforça o poder da conduta
A grama bem cortada cheira bem
O matagal alto assusta
São a mesma coisa
Em leveza agora vejo
a beleza pura
Sem sentir medo
Ando firmemente
Torno-me insubstancial
Qualquer resto de poeira estelar
Flutuo e me refaço
Em outros tempos
e outros espaços
Sempre que parto
é para nunca voltar
Não pertenço a ninguém
Ainda assim

o mundo todo
É o meu lugar
.

Crônica Pregressa #2

Gole de amor

Há uma frequente subvalorização em estar sozinho.

Antes de tudo, deixe-me ser bem claro sobre o que eu quero dizer. Torço para que você tenha pelo menos cinco bons amigos e que estes sejam tão preocupados com você que refutem o próprio ego.  Espero que respeitem suficientemente a sua solidão para entendê-la, mas que jamais se façam de cegos. Honestamente torço para que não se esqueçam de que você também precisa de companhia. Que esses cinco possam te alcançar, ainda nos momentos em que você pareça impossivelmente distante. Que estes cinco, ao menos eles, possam definitivamente arrancar o mais difícil dos sorrisos quando o mundo se apresentar estranhamente cruel, maldoso ou inexoravelmente injusto.  

Todos os clichês também surgem de experiências e não há senão conselhos baseados nas coisas que vivemos. Há quem ache que o generalista ou o amplo é sempre absurdamente vago, mas é como se desconsiderassem a repetição das experiências. Você acredita que uma experiência perde valor por acontecer de maneira repetitiva? Acha que algo extremamente parecido invalida o que acontece depois? Toda experiência é nova. Você gasta sua inteligência na tentativa de arranjar provas e desgosta de quem é capaz de refutar essa versão de qualquer coisa representada tão inteligentemente por você. 

Veja, é preciso saber ser e estar sozinho. Ontem mesmo lá por volta das 18h15 fui dar uma volta e mais tarde peguei um cinema sozinho. Cheguei poucos minutos antes da sessão. Aguardei, vi o filme e saí. Eu estava vestindo uma bonita camiseta com uma dupla referência: O Pequeno Príncipe e o Senhor dos Anéis – Le Petit Hobbit. Sinto, porém, que dificilmente alguém me notaria. Dei de ombros como quem não liga tanto, mas ainda assim sei que preferia ser notado pela roupa. Há nisso algo de errado? Não encontrei rostos conhecidos no passeio e é bastante improvável que mesmo quem saiba meu nome pudesse entender minha camiseta. Existi ali por aproximadamente meia hora. Olhei com ternura e carinho para o mundo que acontecia. 

Andei pelo shopping sozinho. Resolvi que merecia comprar um café, um livro e um chocolate. A ordem que fiz a aquisição das coisas pouco importa, mas eu senti que me aproveitei. Olhei algumas pessoas nos olhos, contemplei a correria nos pés apressados de quem parece estar sempre atrasado e notei ainda a estranha e sem explicação calmaria que os apaixonados de mãos dadas sentem quando observam as vitrines das lojas. Há quem possa pagar pelas coisas caras e há quem sempre as vislumbrará, mas vejo que se unem silenciosamente na concordância que R$ 430,00 é muito dinheiro para uma blusa de seda com o desenho de um tigre. Bebês se divertiram e se irritaram sem qualquer motivo aparente, mas nos risos deles o universo se renovou. O que me leva a crer que eu também preciso de renovação? O que os bebês nos ensinam?

Meus sonhos são tão inflexíveis que às vezes duvido que a utilização da palavra sonho seja o termo correto qual deveria empregar. O que me faz crer que eu posso levar amor ao coração das pessoas? Que espécie de instinto absurdo me faz crer que sou capaz de tão grandioso feito se na maioria das vezes eu consigo falhar mesmo nas missões próprias e solitárias que possuo? Não sou um rio, mas rio, sinto-me mais leve e fluo. 

Quando não sonhamos, creio, alimentamo-nos de sonhos alheios para preencher a lacuna própria da existência que exige que se sonhe. Quem aceita existir sem ter para onde ir? Quem é que insiste em viver feliz em uma realidade tão pungente? Quem é que crê em um mundo no qual o Tempo parece tratar tudo como um jogo e que tudo o que te cerca está doente?

Honorável revelação do destino: o meu futuro são meus sonhos de menino. O gato disse que qualquer rumo serve para quem desconhece o caminho. Basta que continue andando e logo chega a hora da colheita. Nem tudo acaba como esperamos, mas certamente tudo se ajeita. 

Haverá um tempo em que os corações não poderão quebrar mais do que já estão quebrados. As lágrimas secarão e haverá pessoas esperando por você. Provavelmente serão poucas, mas elas estarão ali apenas por você. As tempestades vêm e vão. Você fica. Lembra da minha metáfora sobre tinta e coração? Você diz que não, mas eu sei que no fundo acredita. Os homens são tão pequenos e sabemos que haverá um tempo melhor a seguir. Quando a tempestade passa e as nuvens se vão, enfim, encontra-se uma o sol à luzir.      

Veja, eu sou um sujeito um tanto quanto criativo. Meus desejos práticos são coisas das quais eu sei que nem mesmo preciso. Mataram o amor, mas eu voltei a acreditar. Ainda que não sinta o mesmo, ele parece me cercar. Com uma espécie de preguiça ancestral que me obriga a ser hoje melhor do que ontem. O que é que sei dessa vida que nada sei? Ouro, prata e madeira significam a mesma coisa? Quais os metais mais valiosos? Quais os corações mais valorosos? Do que sou feito?      

Alguns estão desistindo. Diga para mim que você segue firme. Eu só preciso saber que você vai continuar.      

Outros de nós, pertencentes aos melhores, renderam-se antes da quinta noite de sofrimento e estão entregues ou partidos. Você é como eu. Somos diferentes. Nossos corações são feitos de material mais forte que o vidro.      

Ainda há quem fracassará e dará meia volta para causar tormenta infinita. Não os odeie. Se puder, entenda-os e seja sutil. O interno não aguenta tinta. O inverno torna a alma mais sucinta. Ninguém é tão grosseiro assim. O valor é relativo, mas pode acreditar em mim. Todos têm valor.      

Até a alma mais cansada, suplica perto do fim da estrada, por um mero gole de amor. 

Menos que antes

Menos que antes,
Muito mais que agora
Menos que mero instante
A vida crescendo lá fora
E pesa no meu peito
O que deixei por fazer
O que poderia ter dado jeito
e preferi esquecer
Menos do que o futuro
Muito mais que o presente
O jornalista busca o furo
O dentista arruma os dentes
Menos do que pude supor
Mais do que poderia doer
A imaginação me causa uma dor
que eu preferia não ter
Menos do que o merecido
Sobrepujado pelo cansaço
Fui suficientemente ferido
Confundem minha pele com aço
Até onde eu sei ainda há diferença
Todos parecem se importar com tudo,
Menos com a minha presença

Feitos para durar

Noutra noite de aventuranças
Vislumbrei
estranhas cenas
Tardios sonhos

de esperança
contidos nas

entranhas de poemas
Devaneio com um

corpo e uma valsa
Boca, toque, aproximação, pele
Sinto-me morto com uma lembrança falsa
Poucas roupas,

choque, vibração,
Estou entregue
Acordo entorpecido sem saber onde estou
Ela se aproxima e me dá um beijo de café
Esvanece o perigo diante do rosto do amor
Ela é sina e se denomina minha nova fé
Envolvo-a com meus braços e sussurro
quando envolve todo o espaço aquele perfume
Ainda que tudo soe escasso e escuro quando fracasso meus olhos encontram o lume
Na madrugada densa nos entregamos completamente
Espiados integralmente pela noite enluarada
Dada nossa sentença suspiramos lentamente
Suados e contentes não nos arrependemos de nada
A beleza hipnotizante some com o raiar do dia
Enquanto rascunho homenagens em meu caderno
Àquela que personifica o bailar e a poesia
Que se tornou o testemunho de um conto eterno
Os risos histéricos e invejosos ficam roucos
Pontualíssima sensação de que é impossível atrapalhar
Rios lodosos que afogam tantos loucos
Anunciam a conclusão: foram feitos para durar.

Despedida.

Dei azar esta manhã
Suponho que talvez a culpa seja divina
Não tenho rezado nem em silêncio
Minhas únicas orações consistem em
longas olhadelas na BR 163
Talvez os caminhoneiros precisem de Deus
Talvez o vejam nas luzes de seus companheiros
Cruzando o breu da madrugada gelada
De certa forma é triste a constatação, pois
Eles não passam de uns fodidos assim como eu
Os infames seguem em vantagem
Embora sejam patéticos na essência
São belos em suas cascas
Quem quer descobrir se ele usa máscara?
Quem quer interromper o encantador de serpentes?
Se o capuz serve e não machuca a corrente
Deixe que prevaleça o conveniente
Apenas deixe
Cada um veste as roupas que necessita
para cobrir o próprio frio
Sugiro isso, mas nem sempre pratico
Cometo mil erros, mas não cuspo pra cima
Sei não ser ridicularizado por mim
Eu já sou ridículo o bastante
Quem consegue ser ridículo menos
de duas vezes na semana?
Mas a vida é algo imprevisível
Os infames possuem mesmo a vantagem
Os falsos se sobressaem 
É assim que a maioria gosta
É assim que a banda toca
De que lado estou?
Adiantou ser “bom” durante uma vida? 
Há calmaria neste novo lugar
Há tranquilidade sem desdém
Há boas pessoas, porém,
Há outras formas de amor
Infelizmente elas não me servem
O coração é teimoso e anseia por especificidades 
Vou apunhalar os bons costumes
Provar-me do contrário
Percorrer a vida na contramão
Ser o maldito colecionador de borboletas
Repugnante destruidor de sonhos
Sim, almejo estar entre os réprobos 
Ser o maior deles
Desferir socos e pontapés em meus rivais
ainda que estejam deitados
Minto para tentar parecer cruel ou sensato
Ficcionista forçado aos fatos
Mais de vinte anos de tentativa de justiça
Sem possuir fidalguia, tento agir com nobreza
Para no fim das contas ser o alvo favorito 
A mais suculenta das presas
Arre, vocês me deprimem
Covardes estúpidos e arrelientos 
“Não serei nunca como vocês”, bradei um dia
E hoje vejo que posso cumprir a promessa
sem ser zombado
Veja bem, há potencial para que se vá longe
Você pode ser o pior de todos, se tentar
Vai tentar?
Covardes é que se escondem em pretextos
Farei ou deixarei de fazer em nome do amor
Viajarei para ver o mar ou para encontrar
certos prazeres que tenho me negado
Critica os que dançam na avenida,
mas busca sua própria maneira de gritar
Ao mundo a significativa existência
Ah, admita 
Eu fui sua escada
Use-me
Use-a
Deixe-se usar
Deixo-me usar
Deito-me
Faça-me chão
Faça-me tapete
Faça-me
Faça-o
Falo, mas não em nome do amor
O que diria em nome dele?
Não faço juras em Deus
tampouco sacrifico minha ética
Por qualquer dos amigos meus
E daí? Converso e falo, mas repito
Nunca em nome do amor
O amor fez pouco em meu nome
Encaro a vida com um persistente ardor
Enquanto o que importa some
Barulho irreconhecível e som pavoroso
Ininteligível eu escuto um recado estrondoso
Corro a mão pelos cabelos e penso
A vida, a morte, o além da vida, o além da morte,
o definível e o irreal e o além do definível e irreal
O computador, os dados, a metafísica, o imensurável
As loucuras que nos possuem e podem trazer benefícios
A aventura sonhada na grande terra do impossível
Soluço, solidão, síntese, sinestesia, sinergia, siderurgia
porque tratar o aço também é importante
Olho para a BR-163
Quanta gente passou por ela
Quanta gente morreu nela
E eu aqui a observo com a presença discreta
e a alma repleta de desejos pueris
Ah, mas já não era a hora de abandonar
todas as tolices dos tempos de moço?
Não é hora de amassar os papéis dos lindos sonhos
e se contentar com o mero esboço?
Já não quero mais os resgatar, mas sim me juntar
aos esquecidos no fundo do poço
Meu melhor estado é o febril
Sinto melhor o mundo que nunca me sentiu
Será que nunca mesmo?
Ouviram meu choro em trinta e um de março
do ano de mil novecentos e noventa e dois
Eu também estava febril
Na adolescência comprei brigas 
Salvei a vida de minha mãe
Vomitei e tremi por quatro anos
Tudo passou, mas a memória ficou
Não importa mais pelo que passamos
Será mesmo que não importa?
Toda memória é descartável?
Acredita que sonâmbulo e fora de mim
Eu li o livro três da Crônica do Matador do Rei?
Rothfuss nem havia o escrito, mas com quarenta graus
Isso nem interferiu
Beirando à insanidade
Nos limítrofes finais da realidade 
Outra vez minha alma sorriu
Assim peço para que jamais se desespere
Desconsidere minhas declarações apaixonadas
Não por serem falsas, mas sim exageradas
Tenho uma tendência ao eterno e ao drama
Rio dos falsos espertos
Metralhadores de opiniões que só atingem espectros 
A frase matreira em busca da fama
O soldado ambicioso escondido à paisana
Homens nus nos desertos
Lamentáveis suínos banhados de lama
Ah, mas são valentes
Corajosos guerreiros da virtude
Não compreendem os movimentos, mas
Intrépidos erguem os punhos para o combate
Corpos adultos com personalidades de bebês 
Bois dopados correndo para o abate
Ah, mas como enchem a boca para xingar
Mania de civilistas mimados e frescos
Fascistas, nazistas, baixistas, flautistas
Vocês todos não prestam
Comunistas, petistas, direitistas, clubistas,
OPORTUNISTAS
Tantos berros narcisistas
Vocês são mais da mesma remessa 
Pedem calma na hora decisiva
Chutam o balde com toda pressa
Querem a estrela no peito ou na testa
Odeiam as coisas como são 
Arrancam as roupas os ativistas em festas
Alegam que foi pelo bem da nação
Tentam provar seus motivos louváveis
Para prosseguir com a vituperação
Aparentam ser afáveis, porém,
Suas ideias são vendáveis
Prostitutos por atenção
Não arrumam nem a própria cama
Ainda assim passam toda a semana
Muitos tantos só com o dinheiro dos pais
Príncipes da própria trama
Tanto falam e nunca se enganam 
Prisioneiros no próprio cais
Falsos miseráveis intragáveis
Tão cheirosos em seus caros perfumes
Os caminhos são irrecuperáveis para
Quem se acostumou a comer estrume
Belos rostos se convertem em faces de escárnio
Ironizam-me no ápice do azedume
Ah, mas eles sempre sabem mais
É bom que você se acostume
Eles te deixarão para trás
Perfeitos nunca sentiram ciúmes
Professores dos conhecimentos ancestrais
Chutaram o rabo dos mestres de artes marciais
Amam seus reflexos nos vitrais
Na noite de morte, eles são todos vaga-lumes
Que direi eu que escalei o primeiro patamar
à bilhões que estão no cume?
Ah, mas não direi palavra
Gargalharei de tudo e criarei um verso
Visto uma roupa desbotada
Arremessarei longe meu único diamante
Que ninguém o encontre nas profundezas do mar, imerso
Sigo em frente, desafiante
Recuso a prescrição de calmantes
Quero entender o Universo
Vejo tudo, exceto eu mesmo
Como posso me revelar sem me envergonhar?
Pois às vezes tenho me envergonhado sim
Quem não riria se eu dissesse que tenho
todos os sonhos do mundo em mim?
Tantos outros disseram isso antes que eu
Suponho que estejamos todos pirados
Espero que me entenda, nasci em 1992
Ouviu bem? Seu grande idiota! 
Sou dos anos de devaneios sobre o amor
Sob a luz do luar, eu ri de criativas lorotas
Sigo no meu próprio nexo
Nunca digo “oi, quero sexo”
Atitudes e palavras devem 
De quando em quando
Ter algum valor
Ah, mas neste mundo vasto
Talvez um dia possam me convencer
Vocês são a felicidade em fiasco
Eu triste ao menos me basto
Tenho muito o que aprender
Sou ridículo quando falo de fantasias
Deprimente quando mostro as poesias
Sirvo bem de escudo para os covardes indecisos
Perco amigos
Sirvo bem de escudo para os que precisam de um alvo
Perco a família
Sirvo bem de escudo para todos
aqueles que se promovem em confusão
Sou alvejado por todos
os que vivem em falsos personagens
Perco o convívio com a sociedade
Sozinho quem liga para a vaidade?
Vou vagar para um mundo sem fim
Ninguém me precisa
Nem eu mesmo preciso de mim
Embora não tenha me perdido
Tenho a voz péssima, mas canto
Orgulhoso de transmitir uma mensagem
Os sapos não se importam tanto
Aproximam-se de mim pela margem 
Do rio onde faz frio
Choro sem perceber
Seco meu próprio pranto
Meus desejos minguam e voltam
Sou incapaz de ver miragens 
Trabalho para juntar dinheiro
O trabalho dignifica o homem
Disse um homem morto uma vez
Não me sinto mais digno
Almoço com os viajantes
Aposentados, famílias e solitários caminhoneiros
Uma mosca esfrega as patas de olho no que tenho no prato
A paisagem ao fundo parece um desenho
Na contemplação, eu empaco
Poderia passar algumas horas aqui
Descrevendo as cores do céu e dos caminhões
Homens e máquinas no meio do nada
De certa forma todos estamos sempre sós
Pequeninos e inúteis sóis
Na imensidão de uma infinita estrada
Exupéry viu o mundo de cima
Vinicius de Moraes viu-o por dentro
Os caminhoneiros o veem em linha reta
Assim como viu os humanos, Fernando, o Pessoa
Cogito destruir aquilo que mais amo
Como disse que Oscar Wilde que toda pessoa faz
Chego atrasado, como é de praxe
Já destruíram tudo antes de mim
Todo esse caos
Tem que ser assim
Desanimo, mas me levanto
Penso em cantar meu próprio ser
Como faz o galo perto do posto de combustível
Como fez Walt Whitman
Canto eu mesmo
Ansioso por celebrar-me
Já que sou sólido e um dia não terei mais corpo
Paro e respiro profundamente
A gente não é o que mente
A gente não é nada que não tente
A gente é mais do que o que sente?
Pelo menos alguns de nós entendem
A gente é apenas o que sente
E agora o que vai ser, Daniel?
O que resta do mundo para você?
Agora que encontrou o rabo do cometa
A inteligência e a revelação te isolarão
Por que de repente fiquei mudo?
Estarei satisfeito no estágio final do começo de tudo?
A sina da inteligência é a perturbação
Os que muito sabem perdem a capacidade
De serem realmente felizes
Ah, mas quem é louco para querer ser apenas feliz?
Querem o riso geral do público, humoristas
Eu quero a minha cerveja preta e meu cachorro, Link
Eles querem dinheiro infinito e
a posse dos objetos
Eu quero ovos mexidos e
chocolate amargo
Há um limite para o quanto
posso aguentar sem chocolate e café
Eles querem ser singulares e reconhecidos
Querem o suprassumo do prazer
Eu quero muito meu gato Hadec miando
Avisando sobre sua fome ao amanhecer
Querem tudo e com tudo não se satisfarão
Detentores do novo mundo
Reis e rainhas da ilusão
Não há um deles realmente colhudo
Para admitir que ame o circo e o pão
Heróis repletos de conteúdo
Personificados em insurreição
E que parte tenho nesta terra?
Ouço eu mesmo dizer
Nesta infinita treva em guerras
O pouco que me resta pode se perder
Ah, mas eu ainda procuro
Embora esteja à beira do colapso
Levando tiros no escuro
Completamente seguro
Meu corpo fechado é feito de aço
Só consigo me fingir surdo
No calor de um abraço
Chorei ao ouvir uma música italiana no carro
Sentindo-me não mais que uma criança
Lembrei-me de esculturas de barro
Ergui-me pela própria temperança
Minha mãe dizia “você é raro”
Prossigo minha andança
Seria bom ser hábil na dança
Valsar com um novo amor
Bem atados como um laço
Compreender meu lugar e espaço
Girar no mais perfeito compasso
Deleitar-me em teu sabor
Aproveitar-te toda e nua
Dando de ombros para a nova face do fracasso
Aceitando a expressão da alma literalmente crua
Em essência me aceito crasso
É como se ao acender um novo maço
Eu retornasse eternamente à mesma rua
É como deve ser
A morte não anuncia retornos
Espero que alguém um dia espere por mim
Espero que um dia todos os fantasmas
na costa da praia me lancem olhares calorosos
No baile animado de teus olhos mortos
Acharei tudo o que preciso
Ainda que eles sejam seres sem corpos
Eu os saudarei, pois por tanto tempo os procurei
São minha face do Paraíso
Ah, mas no fim de tudo, tudo, enfim, tudo tanto faz
Minhas memórias parecem feitas de veludo
Brilhos fracos em uma vida fugaz
Há lampejos de luz em um caminho qual costumava ser escuro, mas
Em um breve sussurro, eu juro
Não volto nunca mais
Adeus para sempre.

Rito Matinal

Rito matinal
Celebro a vida
pelo canto do pardal
Havia no outro serviço
um galo que cantava
Umas seis vezes por dia
Eu admirava sua alegria,
mas havia um que o odiava
Quem vive para cantar é
mais leve de quem canta para viver
Quem aprende a amar nunca
se esquece de como o fazer
E não destrata, pois sabe
Amor é cuidado, coisa frágil
Como ovos tão mexidos
quanto a vida vem sendo
Não tenho errado no preparo
Estou sempre crescendo
Para o que me preparo?
Os sonhos de uns morrem
Os meus continuam nascendo.

O fim dos poetas

Perdidas no vácuo precedente à existência
Flutuavam no espaço espécies estranhas de flores
Coisa alguma tinha sua respectiva aparência
Ainda surgiam discretamente as primeiras cores
Um grito de ninguém ecoou de maneira serena
Vibrou na existência inexistente o primeiro poema
Qualquer coisa como magia
Antes do primeiro dia de tudo nascia
Em 173 antes do nascimento do planeta
Houve uma explosão onde tudo foi exposto
Três mil e cem anos depois abri uma gaveta
E nela achei o meu verdadeiro rosto
Chamei-o de meu e chamei-a de alma
A última lembrança por volta de 1992
Explodi em uma fúria que nunca se acalma
Até que arrefeci e deixei a ira para depois
Ensinaram-me dentro de minha casa
Certas coisas certamente importantes
Aprendi a amar sob um confortável teto
Garoto curioso que não se contentava
Desprovido de ambições, mas sem ideias rasas
Oscilava entre seriedade e princípios infantes
Fui e sou próximo de qualquer coisa que dizem inexistente
Continuo por perto, pois sinto tudo o que me sente
Amigo do vento, das plantas e insetos
Flamejante, mas apenas brasa
Confiante, mas demasiado reto
Chama acesa que nunca se apagava
Na predominância da suavidade
Eu era puro concreto
Em 2000 e qualquer coisa fui triste
A Existência me humilhava de repente
Mantenha sua espada em riste, pois
Nenhum dano é permanente
Quando a gente é capaz e insiste
Combate tudo por um eternamente
que talvez faleça ao pôr do sol
Qual talvez se esqueça escondido no lençol
Caí e me levantei e caí de novo
De novo caí e me levantei vagaroso
Mais uma vez levantei apenas para cair
Ouvi de longe um cachorro latir
Lamentei o meu estorvo
Quase desisti de tudo por volta de 2018
Mas a vida é tão cruel quanto bela
Errei tantas vezes por ser afoito
Li meu destino ao fundo de uma tigela
De Nescau Cereal
Veja como a vidência é algo irracional
Você possui exatamente Nada
O que se perde quando está por um triz?
Não é percorrendo as mesmas estradas
que achará o caminho para ser feliz
Sincronicidade em sintonia
Não me vejo feliz, mas transbordo alegria
Às 22h22 em 29 de junho de 2019 no Brasil
Já era dia 30 lá no Japão
Tudo o que ontem a gente sentiu
Num tempo longínquo não gera a menor comoção
Tenha cuidado, mas não se afaste
Sempre que a vida gritar sobre os riscos e perigos
Às vezes é num jogo improvável que iniciaste
que fará verdadeiros e novos amigos
Alguns anos depois e ao último suspiro
O sentimento é de sorte, pois naquelas épocas
Ainda era inevitável receber o beijo da morte

A humanidade cometeria o erro
de impedi-la posteriormente
É o fim que define o rumo a se seguir
E determina a firmeza do que se sente
Em 2173 depois de Cristo o amor ainda existia
Embora tivessem sido extintos os poetas
Era um futuro onde todos de tudo sabiam
Todos os seres transformados em ascetas
Como, porém, podem não acreditar?
Eu perguntava aos homens futuristas
Se não existe vida sem o amor?
Suas faces repulsavam num esgar
Seguido por sorrisos matreiros de vigaristas
Cada um escolhe sua ilusão e sabor
Em 2425 depois de mim
Já não havia planeta Terra
A vida no planeta acabara, enfim,
Depois de resistirmos à Quarta Guerra,
Dentre os destroços e corpos queimados
Dentre pilhas de ossos e sonhos carbonizados
A personificação da mortalha e um vulto eterno de destruição
É um sonho que já vivi algum dia
Mataram os poetas, mas não a poesia
Resistiremos até a última respiração
Sobreviveremos (ainda que mortos)
Até as batidas findas do último coração…

Diz que me quer

Diz que me quer
Logo amanhã de novo
Fica comigo, mulher
Sem charme ou jogo
Aparece aqui agora
Mostra tua parte insensata
O mundo que se dane lá fora
Deixa tudo e me resgata
Leva-me e me esconde
Leva-me para longe
Leva-me embora

pela eternidade
E então me faça cruzar a ponte
Perder toda a minha sanidade
Torna-me louco por você
Que tudo seja sobre

o nosso prazer
Torna-me louco agora
Eu sei que pouco sei
Isso se distancia
de todos os sentidos
O evento desafia o nexo
Você pra mim é alegria
Talvez nem devesse ter acontecido
Como é que acabou em sexo?
E de repente ela gargalha
Eu me pego também sorrindo
A gente então se embaralha
E se pega caindo
Da cama
E a chama
Parece que vai durar
Insana
Inflama
Não posso me controlar
E a gente respira e se separa
E logo em seguida não para
Um toque
Um beijo
Qualquer coisa que a gente faz
É choque
É desejo
Com gosto de quero mais
Ela diz me domina
Some com a rima
Segue meu compasso
Sou tua sina
Divina
Preenche meus espaços
A sincronia anula
a chance de um erro crasso
Ela então me fita
verdejante
Suas poses eternizam cada
mero instante
Então se aproxima
E derrama seus olhos mágicos em mim
Abraça-me e apaga a luz
Esperta desliza outro gesto lesto
que facilmente me seduz
Até que os nossos
corpos se rendem, mas no seu abraço
sou obrigado a permanecer

Gestos cansados de quem
nunca mais quer se mexer
E outra vez a gente ri
Do que até me esqueci
No quarto até o amanhecer.