Noctívago

Erguia os olhos e sustentava um olhar ora curioso, ora sedutor, dando a entender em cada um de seus gestos mínimos, nas discretas expressões faciais e corporais, que buscava algo. Eu, cada vez mais acostumado com a imponência de sua presença, percebia-o expandir, crescer até tomar conta do ambiente, mantendo, entretanto, o cuidado de não sufocar os outros. O poder que transbordava das ações dele parecia derivar do autoconhecimento. A percepção de que era capaz de ser sublime e patético o tornava leve e a leveza dele atraía uma espécie de atenção inédita. Brindávamos então com um copo de cerveja, ainda que eu detestasse cerveja àquela época, mas a promessa de lealdade entre nós, o valor e o dom de uma amizade raríssima, sempre me impelia ao álcool, pois eu sabia que o meu amigo era sempre merecedor do brinde.

Após o brinde a sua inquietação aumentava, porém era preciso conhecê-lo bem para notar sua perturbação. Os olhos escuros dele continuavam procurando algo, nunca ninguém jamais soube o quê, talvez nem ele próprio, até que se detinha e, enfim, os olhos descansavam. Na minha visão contundente de observador, reparava em como meu amigo parecia consumir as pessoas, não de um modo negativo, pelo contrário, como se ele próprio provocasse efeito adverso nos estranhos. Os outros, sem saber o que aconteceria a seguir, aceitavam o que quer que estivesse por vir.

Tudo sempre acabava igual. Nada fazia com que ele parasse de procurar, mesmo quando ele supunha ter realmente encontrado seja lá o que fosse. Era como se instintivamente procurasse alguém que pudesse alimentar seu fogo. Como observador, por vezes o achava um inútil, mas todos éramos suficientemente idiotas em nossas obstinações. Os términos eram tão parecidos que soavam quase indistinguíveis e ele, outra vez sozinho, carbonizava a si mesmo.

Conseguia o que queria, mas não era realmente o que queria. Amava o brilho, mas nunca havia encontrado uma estrela. Seus olhos perscrutavam o negrume sombrio, vasculhavam lugares improváveis, incessantes, incansáveis, insatisfeitos, quiçá inapropriadamente teimosos. Buscavam o mistério da vida, o nome do vento, a constatação da veracidade do amor.

Eu, cético, não entendia como alguém como ele poderia ser vaidoso e simples, extravagante e altruísta, expansivo, ainda que se racionalizasse de quando em quando para não assustar o mundo ou apenas para escutar os melhores silêncios dos românticos. Precisava tanto assim do Amor?

Era o que ele me dizia que procurava, mas era preciso sorte e resiliência para encontrar algo assim mais de uma vez na vida. Ele queria ser feliz, dizia-me, mas sabia que ainda teria de ser muito triste e sofrer muito até que pudesse se sentir seguro mais uma vez. Ostra feliz não faz pérola, resmungava ele citando qualquer Rubem e os dias se passavam enquanto meu bom companheiro ansiava pelas noites. A escuridão o aterrorizava e o excitava, gatuno das sombras, criatura noctívaga, filho da lua. A vida acontecia e até hoje acontece, quase todos os dias diferente para quem olha e vê os detalhes. O olhar de meu grande amigo é a única coisa eternamente igual, a única coisa que vejo e sei que buscará algo mais, algo ainda não encontrado. Será para sempre assim imutável?