O Lanterneiro

Sucede que o rapaz tinha cidade de origem e tinha enorme orgulho dela, porém, a emoção transbordava de seus olhos negros como a noite. Sua pele era amorenada e seus cabelos compridos. Na cabeça um boné velho que outrora deveria ter sido laranja, mas agora parecia bege, o acessório marcado pelo desgaste do uso assim como a insistência do sol marca a pele. O rapaz, como você pode imaginar, também tinha nome, mas gostava mesmo é de ser conhecido pelo ofício! Sou lanterneiro, dizia ele, de onde venho sou o melhor no que faço. Como tu chama o lanterneiro pros teus lados? Bate-chapa? Funileiro? Lanterninha? Consertador? Conserteiro? Faz tudo? Bicador?

Ligeiramente sem graça, o sujeito de camiseta preta pediu para que o adolescente com trejeitos de homem feito explicasse sobre a sua função e se calou sobre o ofício do lanterninha. Não queria confundir o jovem falando sobre cinemas. O lanterneiro inflou de orgulho antes de contar. Fabrico lanternas, meu senhor, e lá dizem que sou o rei das lanternas. Também conserto e troco os faróis dos carros. É o que faço pra viver. O patrão diz que tenho sorte de trabalhar com ele, eu também acho, que nem todo mundo paga R$ 600,00 prum menino, mas que ele que é bom e reconhece meu trabalho, paga o que eu valho. Costumo de ficar de 7 até 13 horas por dia lá na empresa do patrão, mas não têm problema. O patrão é quase um pai pra eu. O pai, por outro lado, sumiu no mundo quando eu era criança e a mãe não parece que gosta muito de mim. Diz que desde que eu nasci ela ficou feia. Será que a gente pode ter culpa na feiura do outro, meu senhor? Falo da feiura que mora pra dentro e da feiura que a gente acaba de notar no espelho quando têm uma pereba na cara ou o cabelo não fica do jeito que a gente gosta. O lanterneiro respirou e pareceu suavemente distante, a tristeza marcando suas olheiras arroxeadas, a reflexão tão profunda aparentemente não compatível com um rapaz tão novo e tão simples. Pago a conta da casa e trabalho. Fiz escolinha até os catorze anos e é por isso que sou um tanto esperto. Dá pra ver que eu era o melhor da turma? Sei somar e diminuir. Sei até multiplicar o básico. Pareço esperto, meu senhor?

Então, lanterneiro, eu pude mesmo notar que você é um rapaz esperto, mas isso não explica você ao meu lado aqui neste avião. O moço sorriu e foi tomado por um certo constrangimento. O homem com roupas simples tinha o cuidado de desviar os olhos do garoto lanterneiro, que às vezes parecia revolver para dentro, como quem respirava em si para se permitir continuar. Nessa vida a gente num quer saber só de ser o melhor em lanternagem, não é, meu senhor? Visivelmente embaraçado pelo pronome de tratamento, o ouvinte finalmente interferiu. O meu nome é Roberto, meu caro lanterneiro. Ainda que eu possa continuar te chamando como preferires, eu insisto que me diga o seu nome. O lanterneiro pareceu alegre e surpreso, um sorriso jovial e amarelado brotou repentinamente, mas logo se recompôs em sua postura resguardada e tímida. O sorriso morreu, mas a lucidez do rapaz era digna de espanto. Pois eu sou Amaro José Gonçalves Rosa, sen… É. Seu Roberto. O lanterneiro estava encabulado, ainda assim, ofereceu a mão para um cumprimento e Roberto a apertou com energia. Agora continue sua história, rapaz.

É que até o mais simples dos homens sonha com uma moça pra se ajuntar, né? Ninguém quer ser sozinho e qualquer bobão sabe que a solidão dói. É aí que mora o meu coração, Seu Roberto. Eu conheci minha namorada faz quatro anos, mas nunca vi ela de perto. Roberto pareceu visivelmente incomodado e já pensou nas inúmeras hipóteses de golpe que o pobre lanterneiro poderia ter caído, mas o jovem riu com tanto gosto que ele relaxou. Fica calmo, senhor Roberto. Roberto. A gente já se viu por câmera, entende? Essas coisas da internet. A gente se conheceu no Face e fala sempre. Já fiz aquelas chamadas de vídeo com a mãe dela também. A gente até jogava um joguinho junto. Ela é de verdade, afirmou como quem já estava acostumado a explicar a situação constrangedora. Então você está indo se encontrar com sua namorada? O rapaz sorriu largamente. Sim, eu até tô atrasado, mas dessa vez vai dar certo. O pai dela tá precisando de um lanterneiro. Ela diz que não aguenta mais de saudade e que precisa de mim e que quer se ajuntar logo. Eu também quero ela sabe. Ela é diferente, sabe, muita gente não sabe, eu mesmo não sei se sei, mas ela me acalma. Às vezes a vida é corrida por demais e é bom ligar a câmera e ver ela. Até posso ficar de vergonha quando encontrar com ela porque sou inexperiente na vida, mas quero ver ela, senhor. Quero dar um abraço apertado nela e um beijo, disse e corou como se a revelação do beijo fosse incriminadora.

Roberto decidiu que era melhor não perguntar sobre como ele havia conhecido sua paixão, mas não pôde segurar sua curiosidade. Já deu errado antes? O lanterneiro sentiu a alegria minguar, porém, não pareceu abalado. Era extremamente esperançoso, apesar do nervosismo, no que o futuro lhe reservava após o voo. Primeira vez que eu comprei passagem, eu comprei errado. O homem do cyber falou que eu comprei num site falso. Gastei todas minhas economias, R$ 1.500,00, mas era um site falso. Aí tive que juntar o dinheiro de novo. Levou meses. Aí não fui apressado duas vezes e tô aqui. Roberto sorriu e tocou no ombro do rapaz. Aqui está você. Cruzando o país por amor. O sorriso singelo do lanterneiro fez Roberto continuar. Vai dar tudo certo, rapaz. Você decerto desconfia que por aí vão te chamar de louco, mas eu admiro sua coragem. O lanterneiro, apesar de esperto, não pareceu entender o comentário. Como assim? Roberto explicou: acho que isso que você está fazendo é muito bonito. Realmente bonito. E quem revolveu para dentro pensando na própria vida foi o doutor Roberto.

Se o que faço é bonito, não sei mesmo, seu Roberto, mas é que a gente se apetece de fazer o que gosta e precisa de fazer, né? E bonita mesmo é ela, seu Roberto. Minhas mãos tão suando, ocê tá vendo, mas é tudo junto. Sair de Sergipe e ir pra cidade grande, voar de avião, medo de não chegar lá. Roberto suspirou e se viu novamente na necessidade de encorajar o rapaz. Havia algo no lanterneiro que o fazia lembrar dele mesmo, exceto pelo fato de que nunca havia sido tão corajoso assim. Roberto se lembrou dos tempos em que tinha fobia em falar com outras pessoas, mas um amigo seu sempre lhe dizia: tudo o que conscientemente negar aos outros, é punição ou bênção para você mesmo. Quando alguém entra em um avião, cheio de medo, preocupado com a vida ou com a morte e precisa apenas ouvir a voz de um desconhecido para ficar bem, não é dever moral do ouvinte ser também falante? Vou chegar em Guarulhos junto com você, senhor José, o lanterneiro. Eu preciso correr para o avião que me leva até minha cidade, mas posso te guiar até o caminho. Você vai chegar no seu destino. Vai encontrar sua namorada. Vai poder ser lanterneiro outra vez.

O lanterneiro sempre falava sem pensar, mas desta vez guardou o pensamento. Sabia que era lanterneiro mesmo sem a lanternagem, como o jardineiro é jardineiro mesmo sem o jardim. Ele vai continuar olhando para as flores e plantas, vai continuar pensando em cuidar, continuar tendo o cuidado necessário para o que precisa de cuidado. Sentia-se bobo, mas pensava em consertar coisas antes de dormir. O restante do voo foi curto e José reconheceu a sorte de ter Roberto sentado ao lado. O homem o ouviu durante todo o percurso e ainda o encorajou. Era tão bom ver alguém diferente dele próprio e das pessoas de sua terra que ele se sentia aliviado. Ninguém sabia como seria a seguir, pois nem Deus e nem o Diabo ensinavam sobre como tudo é diferente quando a gente sai de perto de algo que é tão confortável. Cá que mereço uma vida melhor pra mim, seu Roberto. É por isso que saí de lá.

José se despediu de Roberto com outro aperto de mão. Este voltaria a pensar no lanterneiro inúmeras vezes, mas o primeiro só se lembraria da fala tranquila do homem no avião, esquecendo-se pouco depois de seu nome. O lanterneiro desceu do avião e foi guiado por uma atendente da companhia aérea até o próximo avião. Ainda tinha que pegar um trem e depois um ônibus na rodoviária, mas estava cada vez mais encorajado. Sentia como se a felicidade fosse a única consequência de tamanho risco. Meu povo não se esconde e nem eu. E é que eu amo ela e o jeito toda que ela é comigo. Se deixei minha terra é pra ser feliz. Se lá na minha cidade fosse feliz acho que não existia motivo pra sair, né, disse em uma conversa com ele mesmo. O antigo patrão dizia que falar sozinho fazia bem para a mente e o lanterneiro confiava completamente no patrão. O homem fazia tão bem pra ele, um mero menino trabalhador, que deu uma barra de chocolate grande e um abraço rápido antes do lanterneiro se despedir. Vai ser difícil achar alguém tão competente e com o custo benefício tão bom quanto o seu, meu guri. Boa sorte. Se tudo der errado lá pra sua nova vida, eu te recontrato por metade do salário. José acreditou que era muita bondade do patrão e agradeceu, totalmente enrubescido.

Sucede que o rapaz chegou até a cidade que queria e encontrou a namorada que nunca havia namorado até então. Cortou o cabelo e trocou o boné bege por um chapéu de caubói. O rapaz ainda chamava José, que nessa vida ninguém muda de verdade o nome que recebe, mas não havia Diabo ou Deus que o persuadia do contrário: ainda preferia ser conhecido como um lanterneiro ou até como O Lanterneiro.

Sobre o futuro e o destino dele, não é incumbência do narrador revelar, assim, suponho que cada leitor conclua o que bem entender sobre a pureza e a ingenuidade do rapaz. Certamente há quem creia que o lanterneiro José se deu mal na vida, entretanto, outros vão escolher acreditar que ele foi o lanterneiro mais famoso da nova cidade e viveu uma vida boa e simples até seus últimos dias. Quem saberá dizer se ele teve filhos? Quem algum dia saberá se viveu feliz ou triste? Só uma coisa era certa sobre aquele adolescente que se formava cada vez mais homem e que um dia virou homem tão seguro de si que ninguém sequer imaginava que um dia ele havia sido adolescente. Ele nunca se arrependia e sempre tinha a coragem de seguir os desejos do seu coração. Resolvi que era necessário relatar resumidamente a história de um rapaz que entendia tudo sobre luz e que jamais teve medo da escuridão.