Descuidado

Ando por aí, admito, descuidado demais. Outrora fui tão ferido que o medo do perigo não pude deixar para trás. E me consideram leigo, mas o que trago, eu juro, é invariavelmente trazido como qualquer coisa que se traz. E tudo passou. Os mestres linguistas me odeiam, mas não calham de me deixar em paz. Para trás nada vejo. Para frente ninguém mais traz nada, mas param para me olhar. Eu viro e levanto o dedo, ouso e digo sem medo: Você poderia apenas continuar?

Olha, eu não tenho conseguido manter meu interesse em nada. Sou honesto, mas você quer repelir minha honestidade com argumentos. Cada um com a sua verdade, não é? Seus caprichos são como o sopro do vento. Ainda que eu desse ouvidos, diga-me, o que pode querer tanto de mim? Desça sua tão potente verdade em cima de mim. Que se vá ou que fique. Honestamente eu tenho dado de ombros e tanto faz. Sempre escuto com muita atenção. Ainda que ninguém note meus poços de escuridão. A vida é o que a gente faz.

E lá vou eu outra vez. Vejo-me fora de mim, veja, lá vou eu. Eu ou ele? Se eu estou fora não posso ao mesmo tempo ser dois. Que é que há? Ela perguntou se eu realmente sabia algo sobre o que eu sei. Gargalhei e não pude evitar minha crise de riso. Veja a prepotência que carrega por aí todo filho de Narciso.

E lá vou eu outra vez. Nos meus bolsos sempre carrego um dado de vinte faces, uma pedra do meu signo e uma chave que nunca abriu uma porta. O dado decide sobre coisas importantes. A pedra me ajuda a ter um pouco de sorte. E na grandiloquência dos meus devaneios supus que a chave um dia possa abrir a porta para o amor. Por ora ela segue inútil, mas quem sou eu para reclamar de inutilidades? Não raramente sou tonto.

Há um paradoxo na busca pelas coisas que queremos. Atingi-las significa a obtenção do resultado final e com a recompensa a nossa luta deixa de ser assim tão significativa. Se você obtém o que quer possuir, o que é que pode querer a seguir? Se você mata os motivos pelos quais vive, pelo que viverá depois?

O sentido não pode se perder do sentir. O sentir pode se perder do sentido. Na busca de uma extravagância, ignoramos nossos próprios discursos na busca de viver a vida. Só a experiência nos permeia com o que não sabemos de fato?

E se você silenciar por muito tempo alguns pensarão que podem falar por você. Sobre você. E contarão suas próprias verdades ainda que eivadas em vícios tão esdrúxulos ou mentiras tão descaradamente falsas quais possam se valer. Eu erro ou acerto, mas não me omito. Isso não me faz melhor ou pior e a razão de me narrar não faz sentido.

Mudo meus caminhos. Toda velha estrada é inútil. Decorei os caminhos como havia decorado os telefones na época em que ainda se telefonava. Agora todos refutam ligações com o pretexto da conveniência de que nunca se sabe o que dizer ou o que conversar, mas é uma bobagem sem tamanho. Sempre sentiremo-nos assim tão estranhos?

Estradas velhas não levam a novos caminhos. Virei na esquina contrária, pisei de propósito na poça d’água, ignorei a chuva e entrei no meu carro. Passei por túneis que se pareciam com cavernas. Descobri-me meio louco, continuei mais um pouco e gritei até ficar rouco. Gargalhei mais do que qualquer outra coisa.

Ando por aí descuidado, admito, em todos os aspectos imagináveis. Não há quem me cuide, exceto eu mesmo. Nada me ilude quando percorro meus caminhos. Há tanta coisa que perdi, mas ainda que não me cuidem, alguns me acompanham. É bom ouvir sons de novos passos. Juntos, ainda que em pedaços. É tão bom não estar sozinho.

Onze e qualquer coisa da terça-feira. É hora de pensar nas obrigações de amanhã. É preciso encarar o trabalho que é trabalho aos olhos de todos e o trabalho que apenas eu considero trabalho. É como deve ser. Este texto leva de nada a lugar nenhum. Sentir-se vazio é algo comum. Não me permitirei, porém, que essa seja a temática dos meus dias. Preparo-me para dormir, escovo os dentes. Amanhã é dia de ser feliz.

Tomates

Vou ao mercado. Desço pelo elevador e entro no carro sem ligar a música. Sincronizar o bluetooth não é tão complicado como eu imaginava, aprendi dias antes, mas não me sinto paciente. Opto pelo silêncio e prossigo no meu caminho. Os campo-grandenses comem as faixas de sinalização como se estivessem com fome. Não é novidade, porém, impressionam-me os erros tão básicos em tamanha quantidade. Estaciono, tranco o carro e entro no mercado. 

A primeira coisa que faço é óbvia. Consulto minha lista de compras: tomate (3), cebola (3), maçã (2), ovos, suco (2), iogurte (5), pizza de frigideira (5), pão integral (1), leite. Decido que vou tentar fazer isso velozmente. Pego uma cesta para segurar minhas compras nas mãos, pois admito que pegar um carrinho seria exagero. Inicio minhas compras pelos tomates e o primeiro que pego parece zombar de mim.

Que é que tenho para ser efetivamente zombado por um tomate? Escondo o tomate zombeteiro ao fundo e seleciono outro. O segundo tomate é incomumente vermelho escuro e isso me irrita. O terceiro é extravagantemente verde e isso não é certo. O quarto possui tantos machucados e cortes que parece ser um tomate que sofreu ao longo da vida. Como é a vida de um tomate sofredor? Respiro fundo e olho bem para cada tomate. Eles não me olham de volta. Escolho três que não me parecem tão ruins assim e sigo. 

Pego três cebolas boas, duas maçãs adequadas e com facilidade acho o pão integral da única marca que gosto, mas o fim do mundo se anuncia junto com a traição do mercado. Os sucos não estão nas prateleiras de sempre, pergunto sobre o paradeiro das pizzas e sou informado de que elas estão esgotadas. O único iogurte que achei está vencido e me enraiveço com o preço do leite. Impaciente e quase sem escolhas, eu opto por levar duas cervejas, única promoção disponível, mas o que me tira do sério é que resolveram mexer até no mercado. A mania idiota de mudar tudo de lugar!

Uma criança me encara enquanto pago. Loiro, magro e provavelmente com uns nove ou dez anos de idade. Ele me olha fixamente e eu faço um sinal positivo para ele. Como quem antecipa meu dia de estresse, ele pega repentinamente o saco de tomates do carrinho de sua mãe e me mostra. Rose, a atendente, observei bem no crachá, estende o meu troco enquanto eu abafo a vontade de rir. O loirinho corre de volta para os corredores do mercado. O que anuvia minha mente repentinamente desaparece. 

– Boa noite, senhor. – Fala a mulher com uma voz agradável e simultaneamente mecânica. 
– Boa noite, Rose. Tenha um ótimo resto de semana. – O rosto de Rose se ilumina e ela fica feliz com quem pôde notá-la. O menino salvou a minha noite e me protegeu dos tomates; eu fiz o meu dever e fui educado como se deve, mas como sei que raramente são. 

Pego minhas compras, volto para o meu carro e sigo para a minha casa. Não quero passar perto de tomates hoje. Penso em prometer que não vou me estressar mais durante a semana, direciono meus pensamentos para o café da manhã de amanhã e sou tomado por uma súbita decepção. Esqueci os ovos. 

O que não se espera

O que não se espera é sempre excitante. A promessa do que está para chegar nos deixa ébrios, mesmo antes da bebida. E bebemos, é claro, quem deixaria de beber em uma noite tão quente? Quem deixaria de beber em uma noite tão bonita? Quem deixaria de sorrir com uma companhia tão bendita?

Nem tudo o que falo é bem dito. Às vezes gaguejo num constrangimento bonito. Torço, porém, para que nossas atitudes benditas sejam também. Que mal faz em beber um pouco além? E a curiosidade que há é porque há de haver. A gente se conta e se desvenda um pouco demais, um pouco ou muito além do que é preciso. E a preciosidade que há em conseguir fazer brotar num rosto novo um largo sorriso mexe por dentro. Dois estranhos se estranhando e descobrindo a inédita felicidade que se compartilha em momentos bons. Silêncio. Barulho. Sua voz. A minha voz. O reconhecimento é tácito. É como se algumas pessoas soubessem pegar atalhos.

Escolhe aí o que você quer beber.
– Por mim tanto faz.
– Por mim também.
– Essa não te dá dor de cabeça?
– Eu nem sei.
– Tanto faz?
– Tanto faz.

E aí a gente se perde e quer forçar o esquecimento. Um clima pinta, a gente se finta, antes de voltar a se fitar. Suas palavras derramam tinta, mas não é você que pinta? E o clima amistoso muda e tudo parece ligeiramente fora de lugar. Eu mais dentro de olhos grandes provocativos, os olhos também em mim. Que é que há?

Não era a última?
– A próxima vai ser.

E a gente sabe que poderia continuar até amanhecer, mas não vamos. Hoje ninguém sai embriagado. Então recuo depois de ter avançado. Na verdade é quase como perder o tempo certo de furar o sinal durante as madrugadas. Arrependo-me, mas menos do que eu gosto de admitir. Ainda assim sei que não posso e nem vou me repetir. Este é o dilema que se apresenta e urge em mim um desejo de consumir. Refreio-me. Os limites, repito em voz alta, existem sempre.

O que não se espera é que tantas vontades surjam tão de repente.

Sumiço

Desde que decidi sobre o que evitava decidir, certas coisas mudaram de aspecto. Acontece que decidir é necessário, mesmo quando a gente se cansa, mesmo quando a gente ainda quer saber. Todo mundo decide e em dado momento você vai perceber que não há exceções. O não decidir de quem se diz indeciso move o mundo na estagnação da mesma forma que o move na decisão. Nada permanece parado.

O que calha mencionar, aqui me repito e não peço perdão, pois me cerco pelas coisas que olho nos caminhos quais percorro, é que, sem dúvidas, a vida pode se tornar mais leve quando nossas decisões são mais pesadas. Ou simplesmente mais definitivas. Quanto mais você se demonstra firme, a dureza das suas decisões ajuda diretamente a formar a solidez do seu caráter. Você sabe que a irrelevância não combina com seus tons. É preciso se entender no comando da própria vida.

Olha, não posso ser exatamente como querem que eu seja. Se outro dia não pude aceitar este fato, se outrora isso pesara como o pior dos fardos, enfim, admito que posso viver em paz com o que escolhi. Liberdade e libertação. Não golpeei primeiro. O ato mais pérfido não foi meu, mas me vi avulso e na tristeza do lusco-fusco, notei-me capaz de tudo. Posso reagir. Posso agir. Tenho a capacidade até de ser um sujeito vil. No mergulho profundo nas experiências consigo sentir o mundo que nunca me sentiu.

Tudo isto já em pauta, reforço-me em convicções minhas. Tão verdadeiras ou falsas são elas como quaisquer outras convicções poderiam ser. Sou jovem, mas honestamente me sinto velho diante das situações. Às vezes me falta o ar e me pego a lembrar de situações. Esqueço-as e me lembro de mim. As coisas acontecem e deve ser assim.

A segunda-feira chega. Todos parecem tão cansados. Os meus olhos doem, o sono se perde e acordo bem cedo. Não preciso sair de casa. Respiro fundo e deixo-me estar por um instante prolongado. Percebo a beleza do universo quando a manhã se empoleira em meus ombros. Ou teria sido eu que me empoleirei na Vida?

Os pássaros cantam baixo. As máquinas das obras produzem barulhos mais altos. Lá vão os operários ao trabalho. Lá vão eles construir todas as coisas que se constroem. Já notou que toda criação é barulhenta? Assim como toda decisão que é suficientemente importante para fazer permanecer ou fazer desvincular. O silêncio diz muito. O barulho também.

Ouço ao longe alguém chorar. Chore, eu digo para quem quer que seja, chore, pois até no choro existe beleza. Há quem perca a capacidade de notar suas tão claras qualidades. Há quem te force a escuridão quando você se torna a personificação da claridade. Decida-se. Afaste-se.

Amanhã é tarde demais. A gente espera, tenta e insiste. Trezentos e sessenta, crônica, poema, outra cena de música triste. Às vezes há muita coragem quando a gente então desiste. A decisão foi tomada em silêncio, surpreendendo-me com a ausência de alarde. Era tão discreta que nem soava como uma decisão minha, mas me decidi.

Eu avisei que minha última aparição seria naquela tarde. Quem sabe não me tornarei uma memória que machuca e arde. Como diria Caio Fernando Abreu, nada em mim foi covarde. Talvez nos seus melhores sonhos, eu seja o fantasma que um dia você foi. Um espectro que assusta e aterroriza, que da dor se regozija, sombra esquecida de um esquecido amor.

Você pergunta quando e onde, como se brincássemos de esconde-esconde, como se tudo não passasse de um jogo bobo para você. Você decidiu e eu também. Nunca mais vou aparecer.