Até logo!

É que é assim mesmo, senhor, como na mais simples das rimas: a gente nasce, cresce e logo a vida termina. É uma linha fina. Eu queria voltar no tempo e te pedir “me ensina”, conta bem devagar, por favor, a sua história. Deixe suas lembranças vivas através das minhas memórias e eu sei que nós ficaremos bem.

Antes de ir, volta só um instante e fica mais um pouco. Ri com sua família inteira de novo. Atrasa uns minutos para o trabalho e aproveita esse breve espaço no fim do almoço. Escuta os sons dos seus filhos, noras, genros e netos. Você percebeu faz tempo que todo esse barulho e a casa cheia significam apenas afeto. Hoje eu também sei.

Sei o que ninguém me ensinou, vô e sei que é natural ainda sentir alguns medos. Sei que os almoços nos sábados nunca mais serão os mesmos. Sem chances de erro ou segredos, hoje vejo além dos espelhos. Todos nós somos únicos, ainda que no meio de tantos. Revive o berro que me assustou quando celebrou aquele último gol do Santos.

Dói, mas é assim que a vida é desde que o Universo foi feito, desde que o planeta existe. Vou insistir e ter fé, mas por um tempo minha alegria será triste. Queria que soubesse, vô, eu luto sempre e muito por tudo o que é certo. Melhorei com o tempo e até me tornei esperto, mas o senhor foi o único que conheci na vida que mereceu um tipo distinto de adjetivo. Você é o único que contemplei de perto e pude chamar de altivo. Derramo pelas minhas palavras tudo o que há no meu coração. Você sempre será alvo do meu amor e da minha admiração.

Aceita um colo, pega toda essa dor e simplesmente esqueça. Agora me puxa para perto e acaricia minha cabeça. Sete, porque é um número auspicioso e cinco estrelas não são o suficiente. Após o Cruzeiro do Sul há mais estrelas, vá em busca de obtê-las e conheça constelações diferentes. Alastre-se, expanda, ousa continuar crescendo depois da morte, conquistando os horizontes. Se eu também tiver sorte um dia vou existir longe.

Descanse, meu velho, não precisa mais trabalhar. Você deixou um cenário positivo para que possamos continuar. Obrigado por ter repetido a lição de John Donne e ter me ensinado que “Nenhum homem é uma ilha”. Obrigado pelo aprendizado de amar e valorizar a família. Uma das grandes injustiças poéticas da vida é que a bondade e o amor que recebemos, por vezes, só podemos passar aos próximos. Não tenho como ser melhor neto agora, é tarde demais, mas buscarei ser um melhor irmão, um melhor filho, um melhor sobrinho, um melhor namorado e um melhor amigo. Como a vida é cheia de nuances, eu já posso buscar ser um excelente tio para o meu sobrinho e eventualmente, mais para frente, pretendo ser o melhor pai do mundo para os meus filhos.

Olho para trás e vejo com clareza a minha juventude, mas o tempo passa e exige que tudo mude. O que traz valor a vida é a finitude. Tudo bem, eu sei que a vida acaba e por isso só chorarei para limpar a minha alma. Se pudesse escolher, eu talvez ainda estivesse brincando com a terra nos buracos que você cavava para mim na fazenda. Eu quase me esqueci, mas há tanta gente que se lembra. Há uma distância entre o que foi e o que é, mas me fortaleço na consciência de que nada é permanente. Tudo foi bom outrora, mas rezo para que seja melhor lá na frente. A vida será muito diferente. As páginas viram e outros continuam contando uma história que parece exclusiva e individual, mas na verdade, do começo ao fim é compartilhada. Viemos e voltaremos ao nada.

Obrigado por tudo, meu avô. Obrigado por ter nos ajudado a prosperar, daqui para frente, sigo por mim e por toda essa gente, com todo o meu amor. Nas fotos, eu vou sempre viajar do futuro para o passado para te encontrar. Obrigado por tudo. Te amo para sempre e mais um dia! De sexta-feira em diante, hoje mais do que nunca no que seria o seu aniversário de 76 anos, quero que saiba que carrego comigo um orgulho imenso de ser seu neto e a certeza que essa despedida é acompanhada de uma promessa de reencontro. É um adeus, sim, mas só por enquanto. Agora você vai dançar, sambar e cantar em qualquer lugar, gastar toda sua voz com o trem das onze. Um dia a gente se encontra, mesmo que ainda esteja um pouco distante. Feliz aniversário, vô! Que você esteja bem e satisfeito onde quer que esteja!

Com amor,
seu neto Daniel.

Véspera Vespertina

Meu coração se assemelha ao motor de um veículo zero. Bate, sem oscilar, um número exato de batimentos cardíacos por minuto. Se investigasse os números só me depararia com um resultado aproximado, longe da exatidão cirúrgica. A consciência de não ter plena consciência me exulta. Os cálculos financeiros são mais certos do que os cálculos de mim. Posso, ainda que neguem, a qualquer momento fazer qualquer coisa. A imprevisibilidade ainda é, por ora, parte do meu reflexo humano. Estou confessadamente cheio de humanidades! O sangue circula em minhas veias e funciono, pelo menos na medida do possível e sei que o coração bate. As nuvens passam pelo céu azul claro e sei que um dia não haverá mais céu ou nuvens para mim. Nasci para morrer e me perco em longas e eventuais conjecturas. Os animais me encaram com seus olhos fundos e grandes, antevendo secretamente todo o mistério da existência. O amor que recebo é de outra dimensão. Neste plano ainda não aprendi a amar além do limite e talvez nunca aprenda. Minhas emoções se sobressaltam e choro sozinho no carro ao me deparar com um relâmpago numa noite silenciosa. Quase buzino em protesto contra os deuses, mas ouço apenas sons urbanos e dirijo.

Chego em casa e tiro a roupa, como quem descarta os pensamentos e faço do sofá um cabideiro ou uma arara para pendurar vestimentas. Abandono também as hipóteses levianas. Se os cachorros e gatos conhecessem os mistérios da vida jamais seriam atropelados. Se as pombas soubessem os segredos do Universo, apenas comeriam pipoca perto da entrada do Fórum de Justiça da cidade, mas elas ousam ir além e morrem, ao comerem outras coisas ou após serem também fatalmente atropeladas. Estamos aqui para alguma coisa, mas nunca saberemos a razão, afirmo. O caminho mais fácil para a tranquilização do espírito é sufocar as hipóteses complexas e resumir a vida em simplicidades. Se nasci para morrer, como vou me manter motivado para desfrutar de minha vida? Percebo os outros muito mais do que gostaria. Fito segredos degradantes que jamais serão revelados. Revela-se em mim a mania de contar, que nunca me abandonou e sorrio por me escapar a quantidade de batimentos cardíacos, ainda que não escape o impulso de um meio gesto alheio, que significou o gesto inteiro; ainda que não me seja invisível qualquer coisa que aconteça na penumbra; ainda que eu durma relativamente acordado, por conhecer o mal que sofro em meus pesadelos horripilantes. Não procuro em vida expiar as tragédias que me acontecem no cotidiano e nem busco verdades além da uma Verdade. Sou amado, entretanto, há vezes que me sinto tão sozinho que ninguém chega perto de perfurar as esferas do meu isolamento. Devo ter a paciência de me manter calmo e frio, apesar da drástica loucura climática, para não confundirem a minha raiva serena com qualquer destempero frívolo e banal. Sou furiosamente delicado, mas confundir a minha cautela com fragilidade é pisar em uma zona além da qual estipulei a minha pacificidade. Se por bem ou por mal quiseram controlar a minha reação, eu direi a todos que se fodam, que se enfileirem um nos rabos dos outros, que se lambam ou se cuspam, que me chupem, que me procurem na esquina ou que pulem de um precipício.

Tenho o cuidado extremo de permanecer sóbrio e real e leal, mesmo quando me passam rasteiras e cerro os punhos e franzo uma das sobrancelhas enquanto escuto, pois ouvir continua sendo uma arte. Tenho soluções criativas que ninguém ouve, muitas vezes nem eu mesmo. Tenho evitado iniciar confusões, mas só se recordam de como batalho furiosamente uma vez inserido nelas. Não busco conflitos, mas reajo. Que assim lembrem então do meu barulho e que minhas vontades realizadas, apenas pela razão de que desejo as realizar, não sejam confundidas com qualquer vislumbre extravagante de um instinto hedonista. Recuso o hedonismo. Não é tudo pelo prazer, mas tenho o direito de pleitear o que suponho ser prazeroso uma vez que lido com a difícil missão diária de enveredar por subidas mais íngremes. Quero mais, sonho mais, subo mais, luto mais choro mais e até grito mais. Escalo uma montanha e do outro lado da colina há um desconhecido que me diz que eu não deveria estar ali. Após tanto tempo de escalada, resolvo fazer a única coisa que é simultaneamente sensível e sensata. Mostro-lhe o dedo do meio e calmamente digo que não há montanhas, nem vidas, nem separações. Se estiver atento perceberá que até mesmo metade das vontades que você julga serem suas, foram-lhe estimuladas por pessoas alheias ou pela sua falsa argúcia em observar errado. Digo isso a ele e mostro o outro dedo do meio. Percebendo-se apequenado diante de mim, observo-o fugir, sem argumentos para minhas falas, sem astúcia para o enfrentamento. Não o xingo, pois ele tem o direito de se resguardar silenciosamente em seu remorso acovardado.

Há pessoas que odeio e serão famosas e não as odiarei menos por isso. Há pessoas que amo e serão famosas e não as amarei menos por isso. As minhas opiniões não são afetadas por impressionismos de esquina e nem a minha atenção é comprada por qualquer debilitado chamariz patético e pedante. Os que mergulham na prostituição barata em nome de obter atenção e os que bajulam e se rastejam para buscar um lugar ao sol, por terem confundido um falso ídolo qualquer com um verdadeiro Astro cósmico, não sabem nada sobre iluminação e luz. A cidade continua a ser o que sempre foi e desconfio de que eu não sou mais quem quase sempre fui. Minhas mudanças estéticas são mais notáveis que minhas oscilações morais e intelectuais. Os batimentos cardíacos, agradeço a qualquer coisa que não vejo, ainda são impossíveis de contar com precisão. Conto as mentiras, as falhas, os acertos, o salário, os amigos, os falsos amigos, os psicólogos, os psicanalistas, os médicos, os jogadores de futebol, os coqueiros do outro lado da rua, mas ainda não conto os meus próprios batimentos. A imprevisibilidade ainda não é estéril em mim, entretanto, vejo-me cercado e cada vez menos humano. Velhos restaurantes que por anos foram imponentes, repentinamente estão falidos. Como posso eu, repleto de tantas humanidades, ser infalível? Falho com e sem classe, arrependo-me de coisas que fiz e de coisas que não fiz, de murros que não dei na hora exata. Os ossos se consolidam, mas os remorsos nos perseguem e algumas vezes nos matam. O grande júbilo quando o cansaço me alcança é manter a convicção de que ainda há a morte. Que sorte, digo baixo, que sorte, confesso aos prantos, que sorte, grito aos quatro cantos. Tudo começa e acaba e vilões e heróis, santos e pecadores, criminosos, apátridas e ingênuos se igualam com o nivelar final da inevitável condição humana: todos morremos. Não há um político corrupto que escape, não há um diretor de cinema engenhoso, uma advogada, um filho, uma mãe, um filho da mãe, um filho da puta, um animal, uma planta que escape. Tudo morre e tudo em mim retorna ao seu devido lugar. Repito, cansado e combalido, o que começa precisa acabar.

Sinto uma afta abaixo da língua e a pressiono com um punhado de sal e meu dedo anelar. A dor me faz sentir vivo e os meus pensamentos cessam. Não é preciso pressa. O mundo é grande e sempre haverá alguém acordado e alguém dormindo. Os relógios ajudam no controle, mas os ponteiros são mecanizados. A consciência de não ter plena consciência me exalta e me alegra. Toda beleza que interessa é vaga e cega. Nasci para morrer e me firmo nessa constatação. Meu coração sem contagem de batimentos parece descompassado, como um motor quebrado, mas me valho de um orgulho tosco e juvenil de ser quem eu sou hoje, ainda que não tenha a certeza de quem eu vá ser amanhã. Somos ingênuos e abobalhados diante do Tempo e fazemos ou deixamos de fazer apenas nestes pequenos lapsos nos quais nos enxergamos quase como seres Reais. Sem os lapsos epifânicos, sem essa convicção superior de necessidade, nada somos e tentamos disfarçar a notável indiferença que sentimos com propósitos e sonhos e desejos. A vida cinza do escritório se colore com a paisagem que vislumbro da janela. As árvores e máquinas jazem belas no pátio dos automóveis gigantes. Em outros sistemas, será que esses ônibus contam histórias sobre os humanos que os conduzem? Haverá alguém segurando este planeta gigante na palma da mão, como eu seguro uma bola de tênis? Sorrio como reflexo, sem sentir felicidade ou tristeza. Ainda sou o mesmo de sempre, na verdade e esta cidade vai mudando mais do que eu, tanto nos recônditos de seu âmago, como no sentido estético. A alma da cidade se expande. A egrégora formada pelo acúmulo de espíritos campo-grandenses vai além de uma Campo Grande. Novos prédios surgem e eles riem dos antigos, que dizem para as casas pequenas e os comércios locais que a juventude atual está drástica e mudada. As coisas eram melhores antigamente. Até os insetos estão abandonado a cidade para tocarem banjo em uma roda no pântano. Qualquer leigo midiático abandona a literatura por qualquer outro esporte mais prazeroso e fugaz.

Falo do que sei, sabendo que sei cada vez menos. Os mais sábios morreram e os mais estúpidos também e quando chegar a minha vez, eu sei que alcançarei todos os que se foram e que hoje estão distantes de mim. Não tenho vaidades cronológicas e assim, contento-me em viver só até a velhice, realizando-me ou não, porque o homem que deseja e realiza encontra o mesmo encerramento que o que não se realiza. Pretendo beber muito café e muita cerveja, pretendo foder pelos próximos trinta anos pelo menos quatro vezes por semana, escrever muitos textos, ainda que ninguém os leia e dizer sem hesitar em um instinto educado de polidez BOM DIA, para as pessoas que eu encontrar no elevador do condomínio. Os animais podem guardar segredos existencialistas, mas eu não sou capaz de guardar nada. A ambição de existir longe me frustra constantemente. O sucesso e o fracasso são vizinhos de frente. Um dia quando eu pedir café emprestado para o vizinho ou para a vizinha, quem sabe não me descubram. Imagino-me agora coberto e rio da inutilidade pueril do senso de humor. Tudo existe, mesmo sem que eu saiba para quê e saber que todas as pessoas pensam, mais ou menos a contagem aproximada de pensamentos que eu também penso, convence-me de que há demasiados pensadores. Queria emudecer na consciência apenas por algumas horas e me encarar nu, vazio e puro. Aceito o meu corpo e até da minha assimetria sou seguro, afinal, a carcaça é nada ou no máximo significa e traduz a roupagem de minha alma. Sinto-me só. Sinto-me e só. Queria externar minhas raivas e paixões, minhas partes esdrúxulas, minhas ironias e verdades, minhas razões, meus choros, meus prazeres, queria ser encarado como um livro escrito e publicado, mesmo que repleto de rasuras. Vou ao banheiro e mijo. Tenho mijado muito por beber seis litros de água por dia e penso na utilidade da água, não para os outros, mas para a minha funcionalidade biológica. Esses tantos silêncios são o que tornam a vida possível ou o que nos disfarça o suficiente para que sejamos encarados como toleráveis? Essa quietude quando a vida pede coragem nos ensina algo sobre os outros ou sobre nós mesmos? Essa angústia disfarçada, esse senso estético exaltado e murcho, destacado constantemente como se fosse a única qualidade a se espelhar, ensina algo, afinal? O fanatismo é indiscutivelmente além da conta, tanto que já vi pessoas disfarçando seus corações, suas paixões e até suas próprias identidades, tudo para saciar uma pressão social concreta. A pressão singular que assola quando ninguém vê, guia o fanático até uma confissão secreta, calada, escondida. Quase ninguém nota, mas eu tenho observado.

Não me entrego aos idiotas e nem me verão me submeter ao vulgar escancarado ou oculto. Àqueles que pensam que podem pensar sobre como os outros agem, não são só estúpidos como completamente egoístas. A vaidade narcisa passa longe de mim, mas tampouco me impressiono com narcisos. Acostumei-me com a constante presença deles ao longo da vida. Há uma mania de convencimento frágil, falsa, de se pensar muito mais do que se é. Idolatrar-se é se entregar ao vitupério próprio, individual e inescapável. Toda obsessão é boçal, sendo a obsessão consigo a mais banal delas. Deificar a aparência é optar sacrificar tudo o que não é aparente. Destacar apenas a estética é se ajoelhar diante de uma falsa beleza e não me ajoelho para amigos e nem para inimigos. Sim, há os amigos e há os inimigos também, você subestima, mas há pessoas na cidade que riem de você, ainda que não te conheçam, que torcem contra você, ainda que nunca tenham te visto, que invejam a sua vida, é claro, sem terem a consciência de que há ônus e bônus para todos. Você que me olha e não lê minhas palavras, zomba, gargalha e ainda acha que estou louco. Tudo o que todo mundo faz ainda é muito pouco. A tragédia não é ser leigo, é ser amoroso. O inferno, como disse Sartre, são os outros.

Já não posso tolerar quem age de maneiras irresponsáveis em relação a mim e me afasto, afastando-os também, por ter aprendido que a autopreservação como instinto é, por vezes, salvadora. Se não me salvasse, quem operaria heroísmos em minha vida? Se não me defendesse, quem desferiria um tapa tentando salvar a minha honra? Se não berrasse, quem conteria meus desesperos soltos no peito? Quem para me defender, quando o mundo é covarde na defesa e prefere se valer de uma fingida destreza para evitar o conflito? Quem é que sendo esperto escolhe o lado certo, sendo que o outro lado está sozinho? Quem é que vai se esquivar e falar que não há razão após o primeiro grito? A covardia, bem como artimanhas viperinas, é manjada e não sou ingênuo para me enganar facilmente. Tenho uma estrutura estética formidável e me agrado com a forma do meu nariz e a cor dos meus olhos, embora desejasse que cumprissem a função original para qual os tenho. Se os olhos enxergassem bem e se meu nariz respirasse melhor, eu talvez me sentisse satisfeito. O senso de estética externo é marcante e por isso engana a funcionalidade de tudo o que é interno e funciona com oscilações. Enganamos os outros, mas no fim, desconfio que jamais enganamos a nós mesmos. Comportamos monstruosidades, bem como operamos milagres. A existência é repleta de dualidade e nós somos todos ambivalentes.

Choro solitário, sem derramar lágrimas e me percebo percebendo. Não consigo ser simpático. A minha ira esbarra na minha doçura e meus contrastes me definem. Se posso ser mais? Talvez. Se quero ser mais? Não sei. Se sou o mesmo desde a infância? Provavelmente sim. Ainda me vejo menino no quintal de casa, sozinho, observando os brinquedos imóveis, que logo agitariam a minha manhã com a minha imaginação. Não preciso estimular minha criatividade, tampouco minhas convicções. Nossas certezas são mais certas que as certezas dos que julgamos ignorantes ou loucos? Há genialidades vomitadas diretamente no esgoto. Esvazio-me, mas continuo cheio, sem saberes acumulados. A única certeza que se crava em meu peito, como uma estaca fincada no coração sem batimentos de um vampiro, é de que um dia irei morrer, bem como todos os que não são eternos também morrerão. Tudo se despedaça. Tudo começa e acaba. Tudo acaba e começa.

Se o mistério da Vida fosse um quebra-cabeças, eu seria apenas uma peça. Rio da rima e me volto aos números. Preciso tomar café e mijar, não necessariamente nessa ordem. Que o Rio de Janeiro tenha compaixão de mim, gargalho no escritório de casa. A ira alheia envolta em fantasias de relações íntimas nunca cumpridas me coloca um sorriso no rosto. Um se matar por um amor não correspondido e este vivo, sobrevivente, não clama por gratidão e abandona o “amigo” na primeira oportunidade. É a batalha da bajulação contra a vaidade. Suporta-se tanta a humilhação só para andar de mãos dadas. Há mãos que são cheirosas e macias, mas não valem esse preço. Sorrio outra vez de meus desassossegos. Torço para que não invadam meu espaço pessoal mais uma vez. A violência não me apraz, mas tenho me cansado de ser calmo. Quero o silêncio a qualquer custo. Não me basto e todo novo dia ainda me busco. Já é possível revolver para dentro e me encarar sem sustos?

Quero chegar em casa e encarar os profundos olhares dos bichos, que me exigirão ternura e alimentos, sem explicações sobre mistérios não misteriosos da vida. Sorrio com expectativas, mesmo sabendo que a expectativa é uma forma de ilusão condicionada propositadamente por mim. Os cálculos financeiros são mais certos do que os cálculos de mim e essa exatidão me faz rir. Posso, ainda que neguem, a qualquer momento fazer ainda qualquer coisa. A imprevisibilidade é, por ora, parte do meu reflexo de humanidade. Nesta véspera vespertina de mais um ano de vida, neste prelúdio alaranjado do meu aniversário, penso, como bilhões espalhados pelo mundo também pensam. Sonho infantil de um dia mostrar meus pensamentos e minhas iniciativas aos outros que também pensam. Sorrio outra vez, ainda que essa hipótese possa talvez nunca se concluir. O futuro é imprevisível, bem como as vontades que dançam no meu âmago. Tudo pode acontecer!

Tudo pode acontecer, mas nem tudo vai. A cada escolha que faço deixo milhões de outros destinos para trás.

O que andam dizendo

A vida é certamente incerta,
eu disse e ela sorriu,
Depois me respondeu
com uma frase esperta
e logo então sumiu

Diga-me o que prefere:
o peso ou a leveza?
Prefiro que a vida seja leve
Já você opta pela tristeza

Bem, você precisa assimilar e saber
A melancolia era minha única companhia
Quando ninguém parecia se importar
Quando ninguém tentava me entender
É preciso ser sério nas situações sérias
e no resto do tempo buscar o riso e o prazer

Devemos nos divertir nessa vida
mesmo que nada disso seja um jogo
Tenho certeza de que não há garantias
de que viveremos de novo

Se você pausar o relógio
A vida lá fora continua,
Não seja sempre tão óbvio,
Cante hoje uma canção para a lua

Piche no muro ou na rua
Aproveite os detalhes da jornada
Sacie os seus desejos, pois logo tudo passa
A gente vem, vive, cresce e depois vira fumaça

Há convicções certeiras que esquecemos de lembrar
A vida começa, mas uma hora tem que acabar

Lá fora as pessoas desinteressantes
falam a todo instante sobre nós dois
Somos constantes amantes do agora
Nada fica para depois

Outra noite dessas saímos no escuro
Para um passeio diferente
Demos de cara com uma inscrição no muro
“Quem é que pode ver para sempre?”
Apesar disso nossos juramentos eram puros

Fodemos em todos os lugares
como uma maneira de nos afirmar
Todos os cantos da cidade, até os bares
se tornavam nosso lar
E eu ouvia sua voz melódica sussurrar:
nós fomos feitos para durar
Uma sina, um destino, duas pessoas,
Um par

Você gargalhava da intensidade do meu sentimento,
mas se aquietava quando me ouvia:
A vida é apenas movimento

E você se calava
quando alguém de repente declarava
que um dia haveria uma separação
Aquele pensamento não se enquadrava
no seu coração
Para ser sincero, confesso,
No meu também não

Os cães velhacos e sujos de barro
Os carros quase atolados
Os gatos miando de fome

O barato se tornava caro
A verdade era caso raro
E minha única oração era teu nome

Chamava-a com uma certeza ancestral
Fique
Nem tudo que acaba tem final
Acredite

Rabisquei um verso num caderno
Você me chamou de brega
Para chegar ao céu passamos pelo inferno
A beleza que importa é cega

Rimos e nos embriagamos
até que de repente houve uma briga
Não estava nos nossos planos,
mas nos afastamos pela vida

Olhares matreiros e gestos displicentes
O amor abafado pelos costumes
A gente ainda é o que sente?
O que explica tanto ciúme?

Meses, revezes, conveses
O que fazemos se tornar engano
Você entre os franceses
Do outro lado do oceano

Astronauta assando um cogumelo
Vermelho se tornando amarelo
O que nos alcança no reino do sono

A complexidade de um homem singelo
A máscara que oculta o belo
A renúncia, as denúncias, o abandono

Tudo muda de repente
E às vezes se sente o efeito
Nenhum dano é permanente,
mas algo ruim perfurou o meu peito

Ficamos por um fio, mas
Berrei pela cidade
Há conserto se ainda
há vontade

Mostre sua feiura me dê um abraço
Receba minha ternura e distorça
o tempo-espaço
A vida anda muito dura
Que saudade do seu abraço

Espalharam por aí boatos
sobre coisas que não estão acontecendo
Segura minha mão e sairemos vencendo

É necessário encarar essas afrontas,
Foda-se o que todos andam dizendo
A gente ainda se reencontra,
mesmo se acabarmos nos perdendo.

Escritório.

Não me colocava a escutar os barulhos e, ainda assim, escutava-os. Como se minha percepção fosse maior do que eu a imaginasse, eu seguia fazendo com que meus dedos trabalhassem automaticamente numa tentativa vã de me fazer sentir mais vivo do que eu realmente estava. Estava? Estou mesmo? Que provas tenho de estar vivo? Nenhuma. Esfrego minhas têmporas. Às quintas-feiras, decidi, dedicarei uma parcela do meu tempo aos exercícios físicos. Acaso seja capaz, disse me encarando pelo fraco reflexo de minha silhueta na vidraça, quem sabe eu malhe ou corra todos os dias. Nunca dei muito valor aos corpos, ainda que valorizassem o meu. Tudo se perde e tento me convencer de que posso correr todos os dias, ainda que não existam tantos motivos para que isso seja feito. Endorfina, serotonina, isso tudo me parece vago e ligeiramente desnecessário. Correrei, embora a conclusão não me faça tanto sentido. Admito que cuidar do corpo me faz respirar melhor. Quando se respira bem e se está atento ao que acontece ao redor, nota-se que a vida é mais bela do que havíamos suposto anteriormente e o que é belo serve naturalmente como colírio aos olhos que precisam de lubrificação diariamente. Respirar é mais um dos atos ligeiros e naturais que fazemos sem o risco de não os fazer, entretanto, estar consciente da respiração é processar a vida e seus inúmeros ritmos com uma precisão cirúrgica rara. Entendendo que cada momento é único e jamais se repetirá, respirando devagar, observando, notamo-nos capazes de renovar a vida a todo instante. Descobre-se que até o que é inútil tem valor. É necessário aprender a identificar os espaços vazios e posteriormente os aproveitar. Criei-me e cresci com milhares de inutensílios. Amei tudo e guardei até os desamores no coração. Strange Trails.

Interlúdio em minhas conjecturas desconexas. Um homem magro caminha ao longe. Carrega um galho de árvore e me pergunto de onde é que veio o galho, embora não me perca na curiosidade de querer saber de onde veio o homem. Da janela a cena parece ser assistida por meus olhos cansados através de uma televisão sem cores, preto e branco. O dia é tão apático, amorfo, que vejo este retrato de cena como um quadro em movimento. O trabalhador magricelo arrasta o galho com displicência, como quem não arrasta nada. Inutilidades presentes nos cotidianos, nunca inúteis, o galho espesso e longo veio de algum lugar e agora seguirá para lugar nenhum. Misturo-me nos devaneios. Sou eu assim também? Vim da barriga de minha mãe, ao mundo, para o mundo e para onde voltarei quando tudo acabar se agora se torna impossível retornar ao local qual essa jornada se iniciou? Respiro a vida. Numerologia míope de mim mesmo. Os números passam voando quase junto com as letras, mas só agarro as formas alfabéticas que me aprazem. Das letras preciso e admito que sou refém. Dos números também necessito, mas cuspo no chão e orgulhoso tento me manter longe. A matemática faz sentido excessivamente e me pego consternado por me considerar humano demais para ser exato. Quiçá exista uma fórmula mágica (numérica) para o algoritmo de mim? Se descobrir esta resposta, eu valerei milhões e me venderei. Serei alvo dos desejos alheios. Vejo que me perco, mas outra vez me encontro quando os números me guiam objetivamente para minha tão subjetiva perspectiva de realidade. Os números e os escritórios são de suma importância para que eu continue meu ofício. O homem olha para o céu escuro e acinzentado. Eu acompanho o seu olhar. Ele repousa as mãos na cintura e observa. Eu observo sem as mãos na cintura. As nuvens plúmbeas parecem anunciar que, em breve, a chuva chegará, inevitável. Os buracos das ruas aos arredores se alargarão e água escorrerá pelos vidros transparentes. Prevejo carros com os pisca-alertas ligados e pneus sendo trocados. Mais água e mais confusão. Os afogamentos me apavoram. Algumas árvores talvez caiam, principalmente com a expectativa dos raios, assim, talvez amanhã o mesmo homem esteja pelo mesmo pátio e desta próxima vez arraste um galho completamente novo. O sujeito amorenado que estava vestido de azul desapareceu não sei que horas, voltou ao trabalho já que não havia mais galhos para mover, enquanto eu nem havia parado de fitar o céu. Toda aquela imensidão cinza parecia ter a força de convocar o meu vazio. Sou triste, apesar da vida boa que tenho. Sou triste, embora se estampe a felicidade em meu cenho. O vazio me faz vibrar, estremecer. Quase corro para abraçar tudo o que me arrasta para o fundo do poço. Não, hoje não, sussurrei sozinho e os números que ainda seriam conferidos concordaram pragmaticamente. Hoje serei feliz, verdadeiramente feliz, ainda se por vagos momentos for acometido pela melancolia. Especialmente nesta quinta-feira, entre carros e caminhões e ônibus e motos e números nas folhas que imprimo neste escritório, entre a tinta da caneta que grava o sinal de conferência, enfim, percebo tudo o que existe. Sorrio e sei que sou tudo. Ninguém me notou, mas eu estava em todas as partes.

Fim da pausa. Novamente não me coloquei a ouvir os ruídos sonoros e, ainda assim, eles me alcançaram. Martelos martelavam e chaves chaveavam. Tudo seguia uma espécie de fluxo. Aço, metal, ferro, chaves, martelos. A vida nunca é o que espero. Os barulhos quebravam o silêncio fúnebre daquela sala de trabalho. Penso em todos os outros escritórios e salas quais já estive e voo, antes de me centrar aqui. Percebia-me percebendo. Ao longe os mecânicos batiam em alguma coisa, sem violência, apenas com a força necessária. Estes mecânicos seguiam consertando e consertando, como quem antecipa que a vida é um eterno reparo de coisas que não estão funcionando como deveriam. Este ofício, rústico e sensível, suja aqueles homens de poeira, graxa e óleo. Ali jazem encardidos e exaustos homens que se deitam quase dentro das máquinas e se dispõe a fazer o que for preciso para que as coisas voltem a funcionar. Quando não conseguem, suados eles suspiram e se conformam. “Fiz o que pude”, imagino que assim digam, antes de seguirem para o próximo reparo. Pudera eu ter a obstinação dos mecânicos, migrando minhas vontades de uma peça para outra, descartando meus desejos libidinosos ousados, sórdidos, expansivos e patéticos, renunciando ao sonho extravagante de ser um escritor lido, bem como um escritor publicado. Se pudesse nunca ter fantasiado com o Japão ou com a Islândia, se pudesse trocar a Nova Zelândia por Nova Andradina, eu o faria sem hesitar. Deixaria o escritório ainda hoje e comeria os quilômetros da estrada na precipitada ânsia de me realizar. Tudo, porém, é tão distinto e distante que quase não me atrevo. Pisco para o passado e reparo que meus instintos infantis são os mesmos de antes. Estão fixados em minha memória e alma. Livrar-se deles é me descartar no âmago?

Os meus pelos se eriçam e a realidade me desaponta, pois sei o pouco que sei e isso não me garante coisa alguma. Sinto como se só a realização das minhas vontades fosse capaz de me libertar, ainda que todas soem complexas e que nem tudo sempre dependa de mim. Ora, se eu fosse capaz de meramente me substituir, se não sentisse nas pontas destes dedos a minha própria identidade pulsar, como qualquer Pessoa ou outro gênio que passou a vida em escritórios fechados, como qualquer Walt Whitman em suas intermináveis e belíssimas odes à Natureza, como qualquer sofredor digno que não deixou o coração apodrecer e utilizou a Dor de uma vida castigada para encontrar o caminho para a Beleza. Como Wilde se purificou ao despejar tanta amargura por cartas na prisão. Traído por seu amante, gênio, semideus, vítima de suas próprias humanidades. Somos flores que rompem o asfalto, constantemente inconstantes desfiando a probabilidade? Somos a improvável beleza genuína que ofusca a feiura do mundo? Somos o sofrimento insistente, uma vez que o inexorável destino coloca todos de joelhos? Livro de meus pudores, exceto do pudor de ser quem Sou. Pudera eu apenas desistir, suspirar e seguir para a próxima peça, mover-me para a próxima máquina, encarando a vida com a praticidade objetiva dos mecânicos. Pudera eu abrir mão de mim, não escrever nunca e apenas trabalhar, não viver e apenas sonhar, pudera eu não enrijecer de excitação quando alguém raramente me olha e me vê, quem dera eu fosse um mago de mim, conjurando-me em outros cenários mais simplórios, suficientes. Pudera eu não ser extravagante nos meus desejos mais íntimos… Entretanto, fixo-me no que me pesa e me ancora na realidade e tudo o que é grave, pesado, soa-me extremamente necessário, pois só possui valor tudo o que pesa. Coloco o mundo nas costas e tento sorrir. Alguns querem dividir o fardo comigo, mas eu me recuso. Confesso-me, vez ou outra, obtuso, ainda que eternamente imperfeito. Não consigo tudo o que quero, mas insisto em fazer as coisas do meu jeito.         

Ser demasiado coletivo mata a individualidade. Agrado tanto aos outros que por vezes sinto estar sendo uma decepção a mim. Quero alimentos para a alma, clamo e ao perceber que só posso ser quem eu sou, derramo lágrimas e sinto essa solidão inteira de mim. Lá fora o céu anuviado escurece e queria sentir através de meus joelhos a convicção da chuva, não, não a sinto e imagino se um dia serei velho o bastante para prever a chuva. Hoje nada sei de mim ou da meteorologia, não sei se choverá, ainda que o clima transmita uma agressividade palpável. Não, não sei de mim e o pouco que sei, por vezes sinto que prefiro não o saber. O demônio do fogo quer se apoderar de tudo, dominar tudo, impor-se, soberano, fazendo com que tudo seja alvo de minhas vontades. O Vide Noir quer o Nada, anseia pelo meu encontro com o limbo, o espaço sem espaço. Tudo isso me completa e não me traduz, tudo me transborda e não me define, tudo isso que nunca deixa de ser. Ainda assim a vida é dolorosa para quem encara tudo com uma profundidade ancestral e busca por significados, ora, que significados eu poderia me inventar para que inserisse um sentido nesta existência toda insana? Costumo agir com certezas, mas às vezes me duvido, afinal, que prova tenho de que estou vivo? Toda essa realidade me parece improvável e fui ficcionista desde que berrei pela primeira vez no hospital quando senti fome. Quem sabe não foi ali que comecei a inventar todo o resto? Quem sabe isso tudo não seja apenas um sonho torpe qual sonhei e que toda essa existência fútil e insignificante (no significado) se justifique por eu ter falhado em dar propósito para o todo? Sim, sou certo, mas é como disse, por vezes me duvido. Que provas tenho de estar vivo? Escapei por um detalhe de uma colisão com uma carreta na BR-163. E se morri lá e imaginei todo o resto? E se meu corpo gelado ficou na estrada enquanto o céu chovia em mim e meus amigos e parentes eram avisados? E se apenas não sobrevivi e imaginei tudo isso? Os pecados, os acertos, todas as vontades que tive e que passaram, todas as minhas sensibilidades fúteis e meus cuidados com os animais e as pessoas, que sentido se me extraio nisto tudo?

Percebo-me perceber a realidade outra vez. Estou no escritório e é quase a hora do almoço. Anseio pelo final de semana e pela caneca gelada de chopp que será acompanhada de um brinde junto com pessoas que se aprazem de me acompanhar. Sinto fome e sede. Quero o amargo do café, do chocolate ou da cerveja. Quero os diálogos ébrios, o sexo forte e um tempo absolutamente livre para que eu possa apenas me perder outra vez. Os números me fixam ao chão e vejo que o sol aparecerá na semana que vem. Pisco e me revejo em outros cenários, passados, que já não importam. Pisco e prevejo o futuro, falso vidente de mim e bocejo. Os dedos descansam e encosto eles mais vagarosamente nas teclas. Solto a caneta. Não quero marcar nada em definitivo. Não sei se fiz o bastante, mas os números do escritório traduzem a vida e sinto que sou mais que uma ideia, talvez até alguém de verdade. Suponho estar vivo, embora seja mero palpite. Respiro e o mundo inteiro desacelera. Estou calmo, mas vejo que meus dedos sempre se apressam. Essa história, real ou não, vale a pena ser contada. Realidade ou ficção, ainda sinto estar longe do final da estrada. Quero viajar e ver o mundo. Quero conhecer novas pessoas e brincar por outras realidades sonhadas por elas. Sei que sou quase feliz e talvez um dia seja completamente feliz, mesmo perseguido por um fantasma de melancolia. Sei que estou quase satisfeito, entretanto, antecipo que nunca algo será perfeito e suficiente, mas me resigno de boa vontade. Respiro novamente e relembro que cada momento é único, até os de surtos. Isso tudo jamais se repetirá e até a minha memória pode deturpar a situação fática do presente, que logo se tornará um novo passado. Respiro devagar e deixo a vida se renovar em mim. Respiro e meus olhos cintilam com toda a beleza que comporto dentro. Relembro a importância dos espaços vazios, o valor dos inutensílios, a vivacidade de tudo o que é fútil. Meus batimentos cardíacos se acalmam, pois eu respiro. Olho pela vidraça e antes de ir para casa almoçar me percebo estar sorrindo.  

Cronologias.

Num tempo em que ela era minha
E flertávamos como crianças ingênuas
Sentávamos no tronco de uma árvore
e olhávamos a lentidão das vidas pequenas
Formigas, abelhas, esforços
A importância das rotinas nos escapava
Logo menos seria a hora dela de partir
O tempo voa, meu quase amor,
Será que um dia saberemos de algo?
Minha frase antecipa cronologias
como se eu tivesse viajado ao futuro
Minha sabedoria a impressiona
Tudo bem, é assim mesmo,
Amanhã nos veremos, digo,
Ela pergunta, é certeza?
Mesmo sendo um domingo?
Afirmo, ela corre e me beija
e me entrega uma flor amarela
Digo que seria incrível se em algum
lugar do mundo existissem flores pretas nas janelas
Ela franze o cenho, mas relutante responde:
“você pode pintar essa com uma caneta”
Depois corre e se esconde
Gargalho dela e de um telefonema
Que a vida seja bela como nos cinemas
Furacões de distopias distintas
tiram os meus pés do chão
A minha alma está faminta e
ouço as batidas do meu coração
“Ictus Cordis” significa impulso apical
Este é um formidável nome afinal
Desejo agora te amar, outra me confessa,
Isso não é amor, é desespero, pressa,
Não sou eu, quase amor, o que tenho é tão pouco
Desconfio de que se perdeu no meu jeito meio louco
Estou rouco, calma, devagar, agora estou sentado na calçada
Ouço uma confissão aterrorizante sobre
um crime antigo na melancólica madrugada
Abraça-me, criança, tenha esperança,
Não imagino sua dor, mas
hoje você está longe do perigo
Nunca serei teu amor,
mas sou para sempre teu amigo
Ainda que você suma para todo o sempre,
O tempo voa, meu quase amor,
Será que um dia saberemos de algo?
Observo minha alma e depois meu espelho
gosto do que vejo quando estou pelado
Sinto que me vesti errado quase uma vida inteira
Quando me obrigavam a vestir máscaras,
eu as rasgava no meu júbilo durante as bebedeiras,
Sentimentos que transcendem o tempo
e imortalidades que agora morrem
Aproveite cada momento
Eles inevitavelmente escorrem
Olha nos meus olhos,
Esverdeia minha imaginação
e se torna agora minha personagem
Será que é mais que alucinação ou miragem?
Não, não nas cidades grandes!
Não, não nas cidades pequenas!
Não, não nos campos verdes!
Não, não enquanto os mares forem salgados!
Não, não enquanto não segurar um d20!
Não, não enquanto não houver fé nos dias seguintes,
Um, dois, dez, vinte, estou envelhecendo,
Vinte e oito, vinte e nove, os grisalhos vão aparecendo
Olha para os números mágicos e eles te olharão
Roda outra vez na violência do teu furacão
Tudo isso é o que é e você merece
Te davam por avenca, mas suas raízes esticam e crescem
Você toma conta de tudo, minha senhorita
Obrigado por tornar a vida mais bonita,
Sim, sim nas ruas ermas e nas boates lotadas,
Sim, sim nas manhãs e nas madrugadas,
Sim, ora, claro, você tem muito o que me ensinar
Sim, eu sou desajeitado, mas ainda hei de dançar
Escuta, por favor, devagar, sou puro e arisco
A minha vida é me arriscar aos riscos
Lembro de mim, quase como se não me fosse
sentado naquela velha árvore que não está mais no parque
Lembro de mim, quase como se não me fosse
inseguro, indeciso e melancólico
Tudo isso que foi e tudo isso que é
Isso tudo não passa de uma fase
Chegamos ao último destino?
Quase!
Ando nu pelo meu apartamento
Sou feliz
Outrora andava solitário
e zombava tudo o que existe
Minha satisfação chegou durante a jornada
Compreendi que a minha alegria é triste
Por vezes me levanto soturno, sorumbático
e sinto um estranho arrepio
É no meu estado mais dramático
que sinto desaparecerem os meus vazios
Logo menos será minha hora de partir
O tempo voa, meu quase amor,
Será que um dia saberemos de algo?
Como aceitar um gol do adversário que acontece
nos acréscimos em um jogo de futebol?
Como não se imaginar dançando
após se apaixonar por Sophie e Howl?
Será que um dia saberei de algo?
Olha, amor, eternidades se acabam
Portanto nunca me faça de refém
As baratas por vezes serão douradas
E há os que não querem o nosso bem
Ando pelas ruas e me encontro
Vejo a minha versão criança
abraçando minha versão adolescente
Muita calma, garotos,
Esse mundo ainda se acostuma com a gente
Não, não apenas nas cidades pequenas,
Não, não apenas nas cidades grandes,
Aprecia o peso da minha sentença
“EU VOU EXISTIR LONGE”
Declaro e tiro do meu peito toda a raiva
Os milagres desfilam por aí
recolhendo casacos para doação
Alguns se acabam e outros nos levam
para o velho furacão
Bem lá onde ficção e realidade se confundem
Bebo o café amargo
Sou livre e independente
Cresci do meu jeito, expansivo, valente
Logo menos será a minha hora de partir
Ensombro os meus amigos para que descansem
Protejo-os, como se os antecipasse
Nunca conhecemos ninguém
Abraço todos os meus eu’s antigos
Descobri para onde foram os meus anos perdidos
Sorrio, cansaço, esperando pelos números
enquanto rezo pelas letras nascerem
das pontas dos meus dedos
Sou ficcionista e minhas fantasias
são meus maiores segredos
Um dia vou revelá-los
Um dia vocês vão contemplá-los
Um dia, sim, assim será
Fecho os olhos e não flerto
Ainda assim sou uma criança ingênua  
Acreditando na beleza do mundo ao redor
Sento na calçada, não há troncos soltos,
Não há lamúrias ou corridas alegres,
Não, não há vento,
Não, não há sexo,
Não, sequer existe carinho
Estou nesta estrada sozinho
Bem como vim ao mundo,
cheio de perguntas e sem respostas,
Meu coração de vagabundo se alegra
e faço novas apostas
Encontro minhas partes feias
Encontro minhas partes belas
Sou tantos, pacífico, fera,
Grito selvagem sobre a minha coragem
Não me reconheço e gargalho
Ferro, vinho, cumprimentos, despedidas,
Há tanta coisa que sobrevoa minha cabeça
Minhas histórias mais belas não serão esquecidas,
ainda que todos me esqueçam
O tempo voa
Será que um dia saberei de algo?
É possível descobrir o nome que tinha
antes que o Universo fosse criado?
Errado, certo, apenas palavras
Aparo flechas com a minha espada
Sono, sonho, lúcido, louco, parado,
Acerto quando erro,
sou um relógio quebrado
Régio, eu tenho me esforçado
A importância das rotinas me cerca
e os anjos me apertam proferindo profecias
Você escreve qualquer merda e torce
para que sejam poesias
Olha, que a gente nunca sabe o que sabe
e vive tentando se encaixar onde não cabe
Fadados a perseguir ídolos falsos por milênios
Aqui nunca mais, vivo longe em sonhos gênios,
O sono pesa minhas pálpebras e amanhã trabalho
Perdi-me das horas,
Se eu me perder de ti, encontra-me,
por favor, não demora
Olha, olha que sobrou pouco de mim
E essa miséria é maior que o infinito
Obrigado outra vez por fazer meu mundo mais bonito
Profícuo, prolixo, sucinto, distinto,
Discreto, ereto, objetivo,
Ergo o rosto, exposto e me atingem
O sangue pinga, eu vermelho,
sem panos e nem curativos
Eu vermelho
Quase morto,
Ainda vivo
A morte chega, eu a sinto, mas não hoje
Aproxima-se com a ternura de um beijo
Desafio minha sina e renego seu desejo
Prometo que só irei após séculos
Desacelere agora, planeta Terra,
não queremos guerra, mas não acabamos
Alguns ciclos logo se encerram,
mas ainda nem nos mostramos
É estranho, real, inconstante
Sussurre suas vontades aos céus
Realize-as imediatamente
Aproveite a vida já que tudo acaba de repente
Será que um dia saberei de algo?
Deito-me perto de um lago e me percebo
Estou me transformando em um fantasma, mas
ainda vejo um cenário auspicioso surgir no horizonte
Se um dia saberei de algo? Isso já está claro:
Eu vou existir longe.

Os amanhãs existem por um motivo.

Se tudo quero e tudo posso,
como tanto tempo depois
ainda te sinto nos ossos?
Acostumei-me a ser dois
Agora sou obrigado a andar sozinho
Se virar a página é o novo caminho,
por que os meus dedos simplesmente
não me arrastam e me lançam
para o próximo capítulo?
Sinto, vez ou outra,
Qualquer lembrança turva e pouca
dos teus suaves carinhos
Estremeço por completo,
Trêmulo e discreto só me restam energias
para erguer um copo de cerveja num bar
Em minhas memórias jazem velhas fantasias
Nas madrugadas frias recordo outros dias
Onde você ainda era capaz de amar
Mel amargo azedado pelo recipiente sujo
Tua forma vale mais que o teu conteúdo
Tornei-me nada e o vazio ecoou dolorido
Em sonhos gênios me persigo sorrindo
Aquela criança
não deveria sofrer tanto
Ergue a voz e dissimula sua esperança
nas letras dos contos que canto
Cantos que cantei e devaneios que hei de devanear
Roubaria a lua apenas para te entregar
Pobre coitado, alguém sussurra
e dos cochichos tenho medo
Desajustado de vontades duras
Quem para guardar os meus segredos?
Sou patético, mas você não se esqueceu
da maneira como eu te beijo
Doce lembrança do teu corpo no meu
Amei tanto alguém que tão rápido me esqueceu
Acendia velas para queimar o seu corpo
juntamente com o meu pela madrugada
O espanto com tua beleza era sempre
inédito quando eu a via pelada
As orações de nossas peles então se tornavam
subitamente cálidas, agressivas e ousadas
Ninguém nunca antes, instantes,
todo o futuro que vivi na imaginação
Abracei qualquer coisa insignificante diante
do que restou de mim na minha solidão
Olha, eu não sei exatamente o que dizer,
mas honestamente ainda me lembro
dos caminhos para te dar prazer
Suas mãos alcançavam o meu pescoço
Tua boca provava o meu gosto
E eu te erguia nos braços
Eu, você, outras rotações,
Lembranças de antigos verões,
O nosso próprio Tempo-Espaço,
Nossas brisas todas furacões
Puxo seus cabelos e aceito o que me oferece
Às vezes nosso amor deixa marcas na pele
E tudo se sucede como se fosse a primeira vez
Estar ao seu lado era meu maior privilégio
Ainda me lembro de como me sentia rijo e régio
Estreamos uma cama alheia embalados pelo vinho
Se virar a página é o novo caminho,
por que os meus dedos simplesmente
não me arrastam para o próximo capítulo?
Caio de joelhos
em meados de fevereiros
Os miados afogados
que ouço reverberam pela eternidade
Quando tudo se acalma choro desolado
e meu grito de agonia acorda a cidade
Revolvo-me e endureço mais
Já não sei se sou capaz
de encontrar meus velhos sentidos
Eu só queria ter uma resposta
Uma velha ou nova aposta
do que aconteceu com os anos perdidos
Estremeço e a vida soa como morte,
Para onde foi minha sorte
Parece que estou sempre sendo punido
Sofro com os novos cortes
e carrego cicatrizes inéditas comigo
Será que um dia irei me encontrar
ou viverei eternamente perdido?
Se virar a página é o novo caminho,
por que os meus dedos simplesmente
não me arrastam e me lançam
para o próximo capítulo?
Um lema antigo sacode a minha alma
Respire fundo e tenha calma
Os amanhãs existem por um motivo
Sobreviva e valerá a pena ter vivido.

Um final.

Vaguei como uma sombra
pelas ruas mal iluminadas da cidade
Vesti um casaco preto para saber
ensombrar quem aparecesse
Meu tamanho até assusta,
Quem nota minha forma robusta
geralmente não se mete comigo
Há quem sabe o que busca,
Paga o preço que custa
para se ver longe do perigo
Honestamente eu não ligo
Ainda assim ando arisco
Aos pais e padres não peço bença
Descobri que só se vive pelo risco
e se omitir é apressar a sentença
Outro vulto surge do lado de lá da rua
De cá sei que não se vale de qualquer medo
Queria ser valente como essa gente
que anuncia todos os segredos
Ouço um zumbido estranho e
uma voz perdida no espaço
Minha audição me alerta
e escuto também o barulho dos passos
As luzes piscam e a noite é sem lua
Meus pelos se eriçam, porém
minhas pernas não recuam
A escuridão envolve eu e o desconhecido
A alma distorce a face numa expressão cruel e crua
O corpo se retesa quando se lembra da última mulher nua
Aproximando-se com passos firmes e cautelosos,
quase como a outra pessoa que se movimenta no breu
Todos os meus instintos selvagens e corajosos
enfraquecem diante do brilho novo que nasceu
A lâmina prateada cintila em uma dança
O amor é a morte do dever
e a faca a morte da esperança
Queria pedir para a alma obscura que me poupasse
Que me deixasse viver só mais uma semana
Devaneei como Pessoa e gritei para Wilde
TU ESTAVA ERRADO
A gente nem sempre destrói o que mais ama
Julgo ver um sorriso ou
será só a face do paraíso que me chama?
Ora, rio-me, sentindo-me louco
Tento dizer algo, mas me noto rouco
O outro é apenas um e não uma gangue
Aproxime-se agora, vil vagabundo
Prova o gosto do meu sangue
E ergue os braços, pois no jornal dirão:
aquele lá morreu lutando
E o sal dos meus olhos vai se misturar
com meus outros pingos vermelhos
O assassino provará um gole, cairá
e me verá no reflexo do espelho
Descobrirá depois o que eu já sei
Os fantasmas existem e estão por perto
Tenho certeza que não os imaginei
Estavam comigo nos mais solitários desertos
Os abutres se aproximam para se alimentarem
Venham, venham, aglomerem
Minha carne será o seu delicioso banquete
Quando não restar o que comerem,
tornar-me-ei uma estrela e ascenderei aos céus
na velocidade explosiva de um foguete
Olhem, vejam, é o menino viciado em mar,
Aquele apostador azarado que amava o jogo,
Lembra de quando ele ousou a abraçar
uma estrela cadente e protegeu um demônio do fogo?
Ora, a vida passa velozmente, lá vou eu,
cinzas, madeiras, pó e o que ficou do que ainda sentem
São essas coisas efêmeras que nos eternizam?
Corra, pegue uma caneta permanente,
crave nossa amizade em uma árvore milenar!
Avance os corredores proibidos do shopping e piche
“nós fomos feitos para durar”
Antes que tudo se acabe numa piada
Antes que a lâmina bela manche a madrugada
Quem poderia adivinhar esses tantos fins?
Olhe para frente, para trás, recorda-te agora
do primeiro alimento ardido
Fite meus olhos e me diga sem demora
qual o paradeiro de tantos anos perdidos
Que Deus tenha pena da próxima cena,
Que o Diabo não vexe meu poema
Que meu inimigo oscile e trema
enquanto eu tento sobreviver
Eu sei, Criador vil, este mundo é oscilação
Vomitei mil horas para merecer minha redenção
Olha, estúpido, obrigado por este presente,
jogaste-me neste planeta maravilhoso e decadente
Faço eu a diferença para alguém?
Mais um passo, sombras dançam no escuro
Pisco e me vejo observando a cidade esquecida
meus olhos ágeis e curiosos buscando respostas
Eu nunca sei qual é a próxima saída,
mas sigo fazendo minhas apostas
Veja, Lanterneiro, olha, rapaz,
para o jeans que veste ou para a distância, a queda
Olha como mesmo pequenas e longínquas,
são repletas de brilhos aquelas janelas
Olha bem, menino, teu sonho é o teu destino
Você tem sensibilidade e é capaz de vê-las
Aproxime-se das luzes fracas
Tente reacendê-las
Refulgir talvez seja a única missão
Ergo os braços para a última batalha
Orgulhoso do meu valente coração
Os anjos e os deuses me esqueceram aqui
O diabo e os demônios menores não vieram assistir
Sem público, um tanto melhor,
há quem viva para impressionar os outros
Meu sorriso se torna largo e agora acho
que meu algoz me toma por louco
Vivi muito e o que é real nunca parece pouco
Venha, covarde, você despertou em mim
essa vontade de brigar e morrer
Não recua, agora é tarde,
em algumas horas outro dia vai nascer
Urge em mim a vontade de vencer e
num frenesi avanço primeiro
A impulsividade é a vantagem do carneiro
Rolamos pelo chão agressivamente
Desfiro socos e vejo um de seus dentes voar
Ele me acerta e me percebo a sangrar
A ira me personifica e me vejo tomado pela adrenalina
Meu casaco preto agora deve estar vermelho
No silêncio ouço o grasnar dos corvos
O anúncio é o da minha morte?
Que fortuna, que sorte, eu até vejo a manchete
Homem é morto pouco antes das sete
Onde estavam os policiais e os transeuntes?
Onde estavam os heróis trajados?
Um homem morreu e
ninguém pareceu ter se importado
Um cristal esverdeado surge no céu e sonho
Assombro praias com dunas e areias brancas e canto
Revisito meus milagres e absurdos e me pego aos prantos
Neste desfecho me convenço de que não há santos
As luzes, o pó do universo, a areia de estrelas,
No fim de tudo este era o meu único segredo
A única magia que aprendi a conjurar
eram palavras que moravam nas pontas de meus dedos
Ora, vejam, a gente realmente nasce e morre sozinho?
Cresce, envelhece, erra e se possível acerta,
mas não enverga, ferro, não suaviza, vinho,
Não desvia os olhos, olha para a imensidão,
ousa crer nas ficções quais acredito,
Passe pelos portões em brasas,
abra suas asas e verá o mundo mais bonito
Permita-se descansar, mas nunca se esqueça
A estagnação é o fim antes do fim
Agora limpa as roupas e levante,
Expande-te para as terras distantes,
Recorda-te que eu desejava existir longe
Que toda minha prolixidade sonhava em ser sucinta
Que toda minha alma era feita de tinta
Que o Universo todo surgia da ponta da velha caneta
Que a morte é o caminho seguinte
 e que vai me achar sempre que abrir algumas gavetas
Eu vou antes, sem me esquecer, estou em tudo,
Por favor, saiba ver, não seja tão tonta
Eu falava sem parar e agora jazo mudo,
mas noutro mundo a gente se reencontra.  

Certamente diferente…

Estes são os sentimentos que transcendem o tempo, veja, outrora eu estava ali a todo o momento até que não mais precisasse de mim. Sua frivolidade me entretinha enquanto eu tentava me distrair do seu desamor, sim, eu percebia pela maneira como o clima mudava do quente para o frio quando você chegava e aquela invernia não ornava com o sol que derretia tudo, contraste, era isso o que eu sentia conforme notava a sua tentativa de me antagonizar, você precisava de um bode expiatório, um alvo, alguém que se encaixasse na mira e não repelisse a flecha, assim, sólido e são, eu fui atingido. O sangue pingou no chão e disso nunca me esqueço. Há finais que são apenas começos.

Ora, os dados rolaram e subitamente notei a reviravolta no jogo, olho devagar e reparo na sua obliquidade melancólica na virada para o ano novo. Bem, é preciso se comprometer, prometer e mudar, veja, tudo só muda se você se empenhar e felizmente, apoio-me em mim o bastante para entender que há muito o que não entendo. Fecho os olhos, respiro fundo, espero, aprendo. Por vezes ainda sou tomado por uma ira ancestral, como se o mistério secreto que me compõe urgisse por sair em meu frenesi, porém me revolto para dentro, em silêncio, contendo meu asco, exatamente como uma tartaruga e entro no meu casco, retornando até o momento em que nasci. É engraçado parar e pensar. Outrora quando vim ao mundo eu sabia apenas chorar. Que é mesmo que suponho? Será que a minha vida não passa de um sonho? Há coisas que não aceitam o abandono. Prefiro manter meus hábitos e insistir no ferro e no vinho. Há coisas que só absorvemos quando nos percebemos absolutamente sozinhos. Seus velhos fantasmas até tentaram, mas não me assustaram. Suas provocações me despertaram. Personifiquei-me no menino do coração congelado?

Acordado, enfermo, febril, lúcido, louco, qualquer coisa parecida com o que quase é, você quase me toca quando sobe a maré, chame meu nome, grita, por favor, não some e eu sorrirei, místico, fútil, ancestral, patético, preguiçoso, humano. Confundi gotas d’água com pingos de sangue enquanto me arrastava por um terreno desértico. Onde todos estavam quando não me via? Trinta e nova e meio, quarenta, dia doze, dia sete, aniversário, nove, dois, trinta, um, meu eu especial, fracasso, cansaço, noite de natal. Heróis, vândalos, quem sabe a diferença? O albatroz salvou a minha vida, partiu cedo, sua sentença. Nunca senti tanto orgulho do meu coração, saltei do trapézio, repleto de medo, sem asas e me restou confiar. Alguém precisa me segurar. Cadeira de prata, amizades ingratas, vômito, imperfeição, choro de joelhos, quebrei dois espelhos, catorze anos de azar. O tempo passou e agora é tempo de levantar, então, levanta-te rapaz, você é o que você faz, exija mais, tome da vida o que te pertence, erga a cabeça agora, sem demora, vence. Meu melhor estado é o melancólico, acólito, febril. Meu fardo é sentir um mundo que nunca me sentiu. Faço um desenho feio, grotesco e rio de uma hiena que ri de mim. Sou a mim ridículo, mas não sou pedante. Às vezes me desperdiço, entretanto, sou o mestre das inutilidades e dos instantes.

Ando, desando, avante! Boêmio, vadio, errante. Oscilo, terreno, aéreo, sereno, repleto de mistérios. Não há maneira de não me ser. Tentei de tudo e falhei. Constato, sério, que tenho uma infinidade de motivos para surtar, respiro, mentecapto, viro a chave, mudo tudo de lugar. Sinto orgulho dos meus vexames, sussurro ou calo meus atos grandes, cônscio de que somos todos do mesmo tamanho. Perco-me de mim, perco-me de tudo e na voz eloquente julgo ouvir um grito mudo, qualquer coisa que me transmita algum tipo de esperança. Deus se apresenta e diz que todos podemos luzir, exatamente como as crianças. Percebo-me sorrindo e sigo em frente. A vida parece igual, mas eu certamente estou diferente.

Eterno Contador das Horas

Eterno contador das horas
Descobri em qual Tempo te encontrar
O céu plúmbeo anuncia o que sente agora
Você apenas deseja se afastar
Até que possa se recuperar de si mesma
Quanta ingenuidade no seu afago
Cicatrizes abertas mostram o estrago
Seu corpo é um eco da destruição
Abertamente anunciam pela cidade
Fugiu na madrugada sua sanidade
O boato lhe traz humilhação
Você…
Você não superou
Encaro seu semblante, sério
Infante, reajo ao vitupério
Você não parece se importar
Os olhos marejados desfazem o mistério
Está viva e perdida em um cemitério
Vítima de um escandaloso adultério
Não sabe ainda como recomeçar
A noite quase se encerrando, sem lua,
Você se recorda enquanto olha para a rua
Tão vazia quanto a sua própria emoção
Diz que não sente nada, mas lágrimas escorrem
Denunciam sua mais secreta emoção
Você adormece, mas nem em sonho se esquece
Acorda em um sorumbático arrepio
Ajeita os cobertores e se aquece, porém,
Tudo ainda soa absurdamente frio
As pequenas conversas que lhe salvavam
subitamente emudeceram
Os carinhos que raríssimas mãos lhe destinaram
agora de ti esqueceram
Os dedos que um dia te amaram
afagam outros cabelos
Teu vexame frívolo é mais gelado que tua presença
Neste mundo onde vive para se disfarçar
Teu castigo é a solidão desta sentença
Nunca mais podendo se revelar
Estrela opaca morta pela saudade do brilho
Trem de carga, sem vagões, fora dos trilhos
Diga-me agora para onde foram os anos perdidos
Sonhe pela madrugada gélida e sem fim
Segure na borda do mundo com as unhas
e durma em paz, vaga-lume quebrado
Ergue-te, mulher arrelienta
A noite acabou
A manhã seguinte começa e termina cinzenta
para quem se perde na desmedida do amor
Sua parte obscura a torna violenta
Externa-se, enfim, toda a sua dor
Repentinamente epifania
Desmistifica-se o que não compreendia
O que machucava antes agora a incentiva
O sofrimento também é um sinal
de que ainda está viva
Então sobreviva, viva e sorria
Quem sabe quantas surpresas
há em um novo dia?

Metade do Caminho

            Se eu correr de trás para frente, será que eventualmente esbarraria na sua antiga versão na metade do caminho?

            Você era atenciosa, antes de se tornar mais atenciosa, mas parecia preocupada, sempre preocupada com alguma coisa que eu não sabia dizer. Era impossível te antever naquela época. Eu vim de outro lugar, de outro endereço, mas o céu era o mesmo e o tempo também. Percebe como precisamos dos acasos? Ainda assim é estranho saber que sequer teríamos trocado correspondências, acaso meus olhos escuros não a tivessem visto. Se um detalhe fosse diferente, você nunca teria entrado na minha vida e então quem eu seria hoje?

            É que eu costumava ser mais assim, voraz, ágil, expansivo e costumava parecer tão interessante para quem era de fora quanto me parecia desinteressante, por dentro, para mim. Os outros cultivavam um interesse sombrio em mim, uma admiração perplexa, algo sem nexo e eu inflava e crescia e tomava conta do que era meu. Por dentro eu continuava o mesmo, por vezes oco, por vezes seco e outras vezes era colorido o suficiente para tornar o mundo inteiro mais bonito, mas tudo isso era trancafiado para dentro, como se eu mesmo fosse um cofre, isolando essas particularidades, pois ninguém tinha o direito de saber sobre as coisas lindas que outrora havia guardado apenas para mim. As chaves para os meus paraísos e infernos eram minhas e por mais que me recusasse a ser outro, não permitia que os outros vissem tanto de mim. Não se confunda, eu nunca era superficial, não, eu apenas não era inteiro. Essas coisas internas, internalizadas por acaso, consolidam-se em nós, duras como o ferro, até que a gente possa mudar pelas próprias forças ou optar por não mudar. Fechamo-nos tantas vezes, pois a vida ensina que se nos abrirmos, seremos vítimas de um sofrimento terrível. Se uma porção do sofrimento que passei fosse removida de mim, eu não teria os olhos bons para coisas frágeis e quebradas, bons o bastante para reconhecer quem se parecia comigo, assim, creio que você nunca teria pisado na minha calçada e então quem eu seria hoje?

            É que antes eu andava por aí convencido de mim, berrando aos quatro cantos sobre quem eu era e tinha orgulho de ser, apesar das imperfeições, partes feias e equívocos. Deitava sozinho no quintal de casa e olhava para a lua, conjecturando em minha cabeça sobre caminhos, escolhas e sobre tudo o que ainda era desconhecido. Quantos milhares não olhavam para a mesma lua que eu? E a infância havia sido repleta de amigos, mesmo intercalada com inúmeros momentos de solidão nos quais eu observava insetos e ouvia os barulhos que o mundo fazia enquanto tentava entender o meu papel ali. Quantos milhares não procuravam os rostos de suas respectivas almas? Eu sentia como se o Universo inteiro me fosse familiar e como se eu fosse gigante e salgado, exatamente como o oceano, o que justificava o meu sal toda vez que eu chorava. A lua, imponente, por vezes se escondia demonstrando timidez ou era coberta por nuvens que passavam por ali. Não, as nuvens não sentem inveja da lua ou das estrelas, elas apenas precisam passar, como por vezes precisam chover e eu me chovia, lunático, estrelado, distante e satisfeito, refulgindo na escuridão da madrugada, imaginando que a lua, convicta de sua beleza, ria da minha mais pura admiração.

           Quantos não saíram para espiá-la nos céus e não encontraram nada? Eu me perguntava, solitário, sombrio, fechado em mim, se existia alguém capaz de mudar o meu destino. Ficava ali, triste, meu coração melancólico absorvendo as emoções do mundo todo. Se chorei nessas noites, eu peço perdão, chorava sem saber meus porquês, mas hoje vejo que antecipava toda a felicidade e a tristeza que eu ainda sentiria no futuro. Fazia perguntas para Deus, que me deixava no silêncio contemplativo de mim, eu mesmo estirado no chão como um tapete colocado para doação, sem serventia. Via-me avulso, pesado, saboreando a minha solidão e me perguntando no que eu seria bom e se as companhias futuras seriam melhores, até o momento qual a minha cachorrinha invadia a minha privacidade com muitas lambidas e eu me esquecia de ser profundo, prolixo, protelador, rindo da simplicidade maravilhosa do afeto de um animal. A vida vai estranha, mas nos focamos sempre no que aconteceu diferente do que queríamos, nas partes distintas e, esquecemo-nos de que compartilhamos terrenos comuns e de que outros, muito antes de nós, trilharam caminhos semelhantes.

            Você que me olha nos olhos, sabe me dizer se enfrentou ou evitou os perigos? Diga-me agora, milady, senhora, para onde foram todos os anos perdidos?

            É que estamos envelhecendo em uma velocidade assustadora, abrupta e o coração que acelera no peito é o mesmo daqueles tempos que antecederam o primeiro beijo na adolescência e o que é súbito ou pior, abrupto, indica que as palavras podem assustar tanto quanto as ações. E as minhas mãos suavam e não sabia sequer dizer uma palavra, até que aprendi muitas, até que erroneamente fui acusado de ter a consciência de sempre saber o que dizer e adivinhar pensamentos. A verdade é que eu nunca adivinhei nada, nem bênçãos, nem desgraças e era fechado, apenas por não saber como me abrir. Costumavam me perguntar se o gato havia comido a minha língua, até que disseram que a minha prolixidade objetiva era encantadora, ainda que no meu ponto de vista o prolixo seja incapaz de ser objetivo. As minhas mãos ainda suam, mas a minha língua-espada hoje me defende e me regozija, por todas as suas capacidades. Vê o quanto passamos para chegar até aqui? E os nossos tremores nunca pararam e nem creio que pararão, pois há aquela velha ansiedade pela vida que temos pela frente, vida de riscos e perigos, de tristezas e sorrisos, vida para viver. É que nós humanos somos uma coisa original, quase vulgar, seres repletos de instintos maus e nobres e, escondemos nossas vilezas horrendas por acharmos que o mundo nunca nos entenderia. Será que um dia alguém entenderá? Será que existe alguém que nunca se disfarçou?

            Toda vez que eu chegava em um lugar, eu sentia como se estivesse na antiga Sala Grande, um velho cômodo da casa de infância, quase absolutamente inútil até a semana passada quando diversos amigos jogaram Beerpong e me pego pensando na importância das cervejas e dos amigos e dos espaços vazios. Eu me perguntava se a sala era mesmo grande ou eu e meus irmãos éramos demasiados pequenos e se os espaços não preenchidos parecem maiores do que realmente são. Tudo me estranhava quando eu não era estranho para tudo. Eu me pegava febril, quente, refletindo, ansioso e acuado, cheio de medos. Revolvia para dentro, angustiado por não poder brilhar para o mundo. Mesmo quando o trem descarrilava, eu sorria, ainda que triste. Há nessa vida quem só ame ferrovias, você sabia? Mesmo quando tudo parecia desconexo, eu insistia. Há quem nessa vida sempre insista, você imagina? Tive excelentes ideias, mas nenhuma delas bastava. Por vezes me via igual ao menino que tinha uma estrela no lugar do coração, entretanto, meus batimentos cardíacos se aceleravam e me revelavam tão comum quanto qualquer outro. A única diferença é que eu insistia em ser quem eu era, nunca emprestando sequer um traço das personalidades alheias, assim, por vezes, de tanto ser peixe fora d’água, quase morri asfixiado longe do oceano.

            Nunca soei a mim bom o bastante, embora sempre tenha me gostado, fora da casinha ou da caixa, um esquisito, uma peça solta de um quebra-cabeças que ninguém jamais soube montar, eu mesmo o mais distante disso. E meus afagos e afetos, bem como minhas obtusidades, cresceram e mudaram de rumo até que eu abraçasse algo para a minha vida e chamasse de destino. É que a gente não pode ignorar os casacos e as baratas douradas e todo o resto que nos trouxe até aqui. Não podemos fingir que ontem, por pouco, quase não fomos nós mesmos em nada e alimentamos um monstro viciado em absorver escuridões e temores. Ontem um olhar atravessado seguido de um gesto extravagante foram capazes de nos estremecer. Dormi mal, tiritando de frio, por não sentir o seu calor. Não entendi muito do que deveria e o que entendi não era o que me parecia. Nossas embarcações estremeceram, nós oscilamos e ficamos à deriva no mar. Você sentiu também, não foi? Quando subimos de volta, estávamos em canoas separadas, barcos frágeis e, isso tudo nos leva a perguntar o que estamos perseguindo quando mergulhamos em partes rasas ou procurando defeitos com lupas. Quando dois mundos se encontram, há inevitavelmente catástrofes e eucatástrofes notáveis.

            Se acalme agora, não é sobre certo ou errado, não é sobre eu e você, temos melhorado, você percebe? E não somos mais tão teimosos, obtusos, não batemos cabeça tanto por bobeira, não estamos distribuindo socos nas pontas das facas e esperando não sangrar, como costumávamos fazer lá atrás. E o nosso carinho cresce, um pelo outro, bem como cresce o amor, aquele verdadeiro, aquele que anos antes, pensávamos que seríamos incapazes de sentir outra vez. E me esqueço do mundo no chão da sala, com o giro do ventilador, assistindo qualquer coisa quase interessante que nos distraia, mas que sirva como pretexto para que estejamos nos braços um do outro mais uma vez. Somos divertidos e chatos, sucintos e prolixos, obscenos e sagrados, simétricos na assimetria. Eu estou remando até você, você vê? Até que possamos estar novamente em um barco só.

            É estranho que a Sala Grande tenha levado quase três décadas para receber alegria e, eu mesmo, tão nostálgico e melancólico por natureza, acreditei, apesar de tantos pesares, que não merecia ser feliz. Quando me olharam como se eu não me fosse, enraiveci-me, pois, as minhas roupas só cabiam em mim, assim, chorei abertamente e em segredo, pela confusão que fizeram de mim. Nem tudo é o que parece e o que me pareceu foi assustador, bem como os outros sustos que te fiz tomar e de alguma forma, as bruxas que celebraram o dilúvio na semana anterior nos amaldiçoaram na semana seguinte e você sabe, tão bem quanto eu, que todos esses mitos e ficções são reais.

            Caímos e nos levantamos. O respeito não pode acabar, assim, tentamos de novo e de novo e outra vez, enquanto houver amor. Fomos atacados pelas bruxas, pelos fantasmas, assombrados por figuras que se pareciam conosco e não eram, porque nunca poderiam ser. Somos melhores. Somos maiores que essas lendas. Quem não aprendeu a perdoar só aprendeu coisas pequenas. Se eu correr de trás para frente, eu te encontrarei na metade do caminho? Diga que me ama, bem como eu tenho te amado, desde antes do nosso nascimento aqui neste planeta. Diga que quer permanecer mais cinco minutos ao meu lado, apenas porque a minha presença te traz segurança. Diga que vai ter paciência e que vai me ensinar todos os tipos de dança, ainda que eu não saiba dançar. Sacuda o meu corpo e me desperte para que possamos contemplar o nascimento do sol. Aconchegue-se na sala enquanto assistimos outro jogo de futebol.

            Se eu correr de trás para frente, será que o meu eu do passado se orgulharia do meu eu do presente? Perdido nas cronologias que faço em imaginação, utilizando-me de um número surreal de silogismos para sustentar minhas poucas convicções, percebo-me olhando para o lugar qual estou pela primeira vez e sorrio. A vida é bela, vale a pena e todos os percalços que nos trouxeram aqui nos fizeram quem somos. Sinto que devo ser grato por tudo, pelos erros, pelos acertos, por quem acertou e errou comigo também. Envelheço a cada dia que passa e a vida ganha cada vez mais graça enquanto você anda ao meu lado. Se isso soa tão certo, é impossível estar errado.

           Se eu correr para você hoje, antes que a noite vire dia, você me receberá com aquele seu sorriso que me traz tanta alegria?