Os pais não nascem velhos

Os pais não nascem velhos, eu pensei qualquer dia desses, após ouvir os relatos nostálgicos de minha mãe. Contemplava um pãozinho de batata e me disse que, à sua época, a minha avó lhe dizia para comprar o pão lá no Bulicho. Na nossa cidade hoje Bulicho é o nome de uma conveniência com todos os aspectos de um boteco, mas os cidadãos que lá frequentam não me agradam. Talvez seja pelo fato de que aqui na cidade Euclides da Cunha represente uma rua nobre. Viver é adaptar-se, disse ele uma vez e sorrio com essa recordação desconexa. Vívida esta memória do boteco Bulicho, qual por meus motivos desgosto, sejam eles banais ou não, reflito sobre o tanto que conheço sobre a vida de meus pais.

Contei para a mãe, dia desses, que em janeiro viajaria para a praia com os amigos. Ela franziu o cenho e me respondeu: isso é bom de se pesquisar antes. Eu e seu pai nos metemos em uma fria uma vez. Na época eu estava grávida de você, seis meses já e dormi sentada enquanto os homens todos dormiram no chão. Meus olhos brilharam com o interesse genuíno em uma história em que eu conhecia de tanto desconhecer. E como foi isso, mãe? Ela então me contou que alugaram um lugar que já estava alugado e por duas noites ela dormiu em lugares nada confortáveis. Azar maior foi o dos homens que tiveram que se espremer dentro do carro. E onde foi isso, mãe? Ela pensou rapidamente e respondeu Matinhos, sabe? Lá no Paraná. Bons tempos.

Achei divertido. Antes de nossos pais serem velhos, eles eram adultos e antes ainda jovens que viajavam com os próprios amigos para praias. Não havia GPS, mas havia boa vontade e entusiasmo. Contei mais sobre a minha expectativa de viajar e ela sugeriu alternativas, ainda que soubesse que eu não iria ouvi-las: Guarujá, Bertioga, Riviera são três praias boas no litoral de São Paulo. Fomos para Itapema algumas vezes, você se lembra? Era bem gostoso também. Bombinhas na minha época era uma praia tranquila, boa para banho. Santos, não! As praias de Santos não são boas.

Rememorei com certo saudosismo minhas idas para Santa Catarina com a família. Não me lembro de muita coisa, mas além de ser filho do César e da Etti, eu sempre fui desses filhos do mar. Acaso permitissem e eu passaria o dia todo na areia ou no mar. Construía meus castelos de areia e lutava com lendárias criaturas marinhas. Havia um restaurante no qual eu amava ir e foi lá que desde pequeno iniciei minha mania de provar os pratos exóticos. Não devia ter nem dez anos quando comi lula pela primeira vez. Só o meu pai me acompanhava nessas aventuras.

Voltando um pouco, meus pais existiam antes de eu existir, se é que por aí eu não existia de alguma outra forma ou jeito. Minha mãe contou que o conheceu em uma reunião do grupo da igreja que decidia coisas sobre essa excursão para Santos. E foi em Santos, vejam bem, que meus pais se apaixonaram e ficaram juntos. Duas de minhas tias, irmãs de meu pai, ficaram extremamente emburradas durante o passeio.

Meus pais casaram e primeiro veio o Caio. Depois muitas outras coisas viriam a acontecer, eu uma das mais importantes, é claro, mas quantas histórias e universos couberam neste caminho? Quanto se prende no filtro singular da memória? Quanto segue existindo num mundo particular? Futuramente eles se divorciariam, mas o que me pergunto é sobre quantas histórias não sabemos das pessoas que achamos que conhecemos sempre tão bem? O mundo é tão apertado para nos recusarmos a ouvir a história de mais alguém?

Hoje vivo minhas histórias. Sou composto por uma soma grande de fracassos e alguns momentos de pura glória. Oscilo entre dois pontos. Entre eles crio poemas, histórias e contos. Abraço estranhos com a intimidade que não se força, mas se derrama. Abandonei e fui abandonado. Um dia serei eu a narrar coisas aos meus filhos? Por aí sou quem posso ser. A maioria se apraz em me conhecer.

A grandeza suprema da vida talvez seja a de conhecer e viver os meus próprios dilemas. Minhas atitudes nunca são pequenas. Às vezes me arrependo. Outras vezes não. Meus amigos e minha família carrego sempre comigo daquele jeitinho que se diz: no coração. Que coisas prometem a praia no verão? A primeira vez eu somente com meus amigos. Espero que viva tudo o que possa ser vivido.

Os velhos todos, os pais, os avós ou nossas próprias versões futuras, sabem que por fora vamos envelhecendo dia após dia, olham-nos de perto, mas distantes com notável nostalgia. Os ciclos da vida mudam. Os pais não nascem velhos. Ninguém nasce velho. Os sortudos podem envelhecer. Os mais azarados morrem cedo.

A vida passa rapidamente. Você também sente quem te ama ou só ama o que sente? Deixo reflexões filosóficas de lado. Ninguém pode realmente filosofar em um texto feito em dez minutos. Olho pela janela e o dia é cinza. Sorrio. Quero comer pipoca, mas decido fazer o café primeiro. A cafeína é essencial e o resto não tanto. As palavras sempre me aliviam. Quem um dia me lerá nas entrelinhas? Há algo importante que certamente me esqueci de dizer, mas minhas ideias se transformam em fumaça. Aproveite tudo o que acontece, pois a vida passa.

“Só quero na minha vida gente que transpire adrenalina de alguma forma”. Gabriel García Márquez.

O demônio do fogo

Há um demônio do fogo 
dentro do meu ser
Desobediente
Incontrolável 
Alimentando-se de tudo o que se move  
Apenas para sobreviver
Há um demônio do fogo
queimando o meu coração 
Cada vez mais expansivo 
Ele urge para sair 
Cada vez mais invasivo 
Ele não quer mais dormir
Cada vez ele mais eu 
E eu mais ele
E ele ainda mais eu
do que eu ele

Mas nada
tão separado

nem possessivo
que possa chamá-lo meu

Nós aqui divididos 
Até o dia em que seremos uma única coisa 
Não hoje, mas talvez em breve
O resto do mundo nunca interfere na nossa relação
Tudo o que me toca e fere
Vira carvão Até minha própria pele
às vezes parece vulcão
Sou um eco solto de
Destruição
Nunca sozinho
Duplamente
em ebulição
Evite-se a
Erupção
Quebramos todas nossas leis 

Assim que fazemos
Só importa o que sei
Ainda estou aprendendo
Quem recua mata
a vontade que está nascendo

Há este demônio do fogo 
Convive comigo nas noites e nos dias
Às vezes me fustiga e outras vezes acaricia
Ele é tão capaz quanto eu
Guardião estranho e improvável 
Protege-me com suas chamas
Ainda que apareça até quando não é chamado
Este demônio é atrevido 
Extremamente ousado 
Inconsequente
Presunçoso
Por vezes perigoso
Infante
Arrogante
Distante
De quando em quando
eu e ele nos desentendemos 
Eu busco agir racionalmente 
Ele quer queimar o mundo
Trinca os dentes num esgar horrendo
Mostra sua agressividade
Ninguém ousa um passo a mais

Queimamos juntos o que cruza o nosso estreito caminho 
Ele me observa sorrindo 
completamente zombeteiro 
Sabe que eu aguento o que poucos aguentam
Diz baixinho “até quando”?
Mando ele calar a boca
Aqui sou eu que mando”
Ainda assim ele gargalha, pois 
todos fracassam nessa batalha
Contra os males do mundo
Sussurra nos meus ouvidos 
“Um dia você vai incinerar tudo com a minha ajuda
Cedo ou tarde a crueldade do mundo te muda” 
Ele às vezes soa tão tolo
Nunca sabe o que fala
Era melhor ter
abraçado o silêncio
Era melhor ter engolido
o sol no lusco-fusco
Tudo o que não tenho
Ainda busco

Ganância
Garra
Algo parece vago
Inquieto, ele me cutuca
como se apagasse um cigarro em mim
Não pôde fazer o que deveria
Diz que não coleta mais
Tudo o que recolhe
em seguida descarta
“Nada nas mãos nunca
É disso que somos feitos”

A última coisa que ele
segurou foi o brilho da lua
Ainda assim um instinto
estranhamente pacífico
Fez com que o demônio a soltasse
Talvez alguns mereçam
morrer de frio pelas traições
Na Islândia, Rússia ou no Canadá
Alguém como eu poderia
derreter o continente por lá

Contradições como espadas
Do nada ao tudo e do tudo ao nada
Tento ser empático, mas estático,
reconheço-me fático
Está além da compreensão
Como além se somos quase
a mesma coisa?

Cada vez ele mais eu 
E eu mais ele
E ele ainda mais eu
do que eu ele

Não o entendo, mas o sinto
Inequivocamente triste
Ele não me entende também, porém,
solidarizamo-nos na

ausência de palavras
que engloba a vida

inteira que existe
O demônio é forte
Bem desconfiado
observo a minha sorte
Mal entendendo
Devaneio minha morte
Meu demônio a desafia
Como se fosse mais poderoso
que o próprio Deus
É bom tê-lo por perto?
Um demônio mau
pode ter utilidade?
Há um demônio do fogo
dividindo a morada do espírito

Ele já não me dá mais arrepios
Em certo momento nos
perdemos um do outro

Ele se parece comigo
E eu me pareço com ele
A alma eloquente se agita
no corpo que emudece agora
Regente perdido inconsequente
Consome com as chamas
Acelera o correr das horas

Mais inflamável do que
qualquer coisa que viu

Instável aguardando
uma faísca no pavio

O demônio se lança em mim
Cada vez ele mais eu
E eu mais ele
E ele ainda mais meu
Eu respiro fundo
para tentar não me perder
Ele gargalha sonoramente, 
mas sinto o que ele sente
Queima com uma raiva
arroxeada e profunda
Instinto de ira indomável
Admite que todo fogo se apaga
Quem não sabe entender a mínima fagulha
não pode tocar quem é pura lava
Suspiro-me ou é ele que suspira
Há este demônio aqui e já não sei
quem é que controla a respiração
Para os outros não há comoção
Somos nós dois uma estação
Como o inverno ou como aquela que
leva embora para sempre um trem

Revestido de fogo nos fortalecemos
Quem é que pode me impedir?
Quem é que pode nos impedir?
Quem é que pode o impedir?
As lágrimas que escorreriam
evaporaram antes de tocar a pele
Não há nada em mim que gele
Sofro hoje como um mestre
O tédio me frustra
Vou queimá-lo

Faço o que quero e 
ninguém me impede
O tal demônio por vezes 

me personifica 
Por vezes agimos juntos 
Só em mim ele acredita
Ainda assim ele só
quer saber de queimar
Lançar labaredas dançantes 
para consumir tudo 
Incêndio incontrolável
Inefável
Intragável
Detestável
O demônio é sincero
Eu também
Odiamos mentiras
O demônio é direto
Eu prolixo
Ainda que às vezes eu seja direto
e ele enrolado também 
Há um demônio comigo
Ele me afasta e
me protege do perigo
Ele diz que é letal, mas
que é meu leal amigo
Como posso não confiar
em alguém tão próximo?
Não tenho escolha ou
Escolhi que fosse assim
Tudo de repente explodiu
Claridade no céu que

nunca mais se viu
De repente o meu fogo
e o do demônio

Espalham por
toda a cidade

E um sussurro quase mudo
nos revela desnudos
Há partes nossas por 
todas as casas
E há em corações alheios 
nossas brasas
E há o que eu nem imaginava
que poderia de haver
E há cinzas nossas que guardaram
E eu nunca iria saber
E a raiva cega minha 
que nunca pune
Transforma-se 
então em lume
Eu e o demônio 
não somos cruéis
Ainda que pudéssemos ser
Ainda que devêssemos ser
Só o demônio sabe o quanto
o sofrimento me arrasta na dor
E o que foi me enche de espanto
Ele tenta queimar tudo, mas não
nunca viu nada que tenha resistido
Recorda-me da frase que tanto gosto
“Seu coração é feito de coisa mais forte que vidro”

Num universo de tanta crueldade
Abraço o demônio antes de dormir
Eu me sinto tão lúgubre, mas volto a sorrir
Seguro a onda, aguento a barra, ajudo
Ninguém me nota na parte mais profunda 

Observo o mundo com sutileza
Vejo em cada cantinho
um pouquinho mais de beleza
Sou sozinho, mas me sinto fortaleza
Quem derruba estes portões?
Também ninguém sabe a senha

E lá vou eu sendo ele
Ele sendo eu
Absorvendo lindos olhos verdes
que queimarão em nós
Coloridos
Conquistar é
algo divertido

Queimamos como
fogo de fogueira
Numa diversidade de cores
No chão somos céu de estrelas
Mestres em tudo, exceto nos amores

Ouço ele acalmar a respiração
Acalmo a minha também

Eu mais ele
Ele mais eu

Algo sempre acontece quando
não estamos vendo

Continuo mudando e crescendo
Estou cada vez mais velho
O demônio faz aniversário
Nós comemoramos
Celebramos um com o outro

Já nem me lembro dos tempos
em que o demônio não estava por aqui
Ele parece vil, mas me ajuda a seguir
Fecho os olhos e aguardo
Os milagres acontecem
quando a percepção encontra o sono

Os grandes eventos sempre lembram
Épocas distantes e abandono
Dou de ombros e sigo em frente
Eu mais chama quente
O demônio mais tranquilo
Eu mais ele e ele mais eu
Um dia encontro
um pedaço de saúde
Abraço o meu
descanso na loucura
Repouso vulnerável
Jazo sem armadura
Até o dia fatídico
vou como posso

Faço o que posso
E também o que devo
O demônio matou o medo
Ele mora comigo de aluguel
Eu cada dia mais ele
Ele cada dia mais eu
Eu ainda mais ele
Ele ainda mais eu
Eu mais ele
Ele mais eu
Eu ele
Ele eu
Eu
Acho que, enfim,

Localizo-me aqui
Nos entendemos ou
eu mesmo me entendi

Nossa parte boa domina,
mas deve ser mantido este segredo
Que por aí digam que nossa sina
Não é espalhar amor e sim o medo

Que me chamem de demônio
Que tentem apagar nossas chamas
Continuaremos, entretanto,
por aqueles que nos amam
Esquento outra vez

de tanta felicidade
Talvez ainda queime esta cidade
Sou completo e me reconheço
Celebro a minha liberdade.

Descuidado

Ando por aí, admito, descuidado demais. Outrora fui tão ferido que o medo do perigo não pude deixar para trás. E me consideram leigo, mas o que trago, eu juro, é invariavelmente trazido como qualquer coisa que se traz. E tudo passou. Os mestres linguistas me odeiam, mas não calham de me deixar em paz. Para trás nada vejo. Para frente ninguém mais traz nada, mas param para me olhar. Eu viro e levanto o dedo, ouso e digo sem medo: Você poderia apenas continuar?

Olha, eu não tenho conseguido manter meu interesse em nada. Sou honesto, mas você quer repelir minha honestidade com argumentos. Cada um com a sua verdade, não é? Seus caprichos são como o sopro do vento. Ainda que eu desse ouvidos, diga-me, o que pode querer tanto de mim? Desça sua tão potente verdade em cima de mim. Que se vá ou que fique. Honestamente eu tenho dado de ombros e tanto faz. Sempre escuto com muita atenção. Ainda que ninguém note meus poços de escuridão. A vida é o que a gente faz.

E lá vou eu outra vez. Vejo-me fora de mim, veja, lá vou eu. Eu ou ele? Se eu estou fora não posso ao mesmo tempo ser dois. Que é que há? Ela perguntou se eu realmente sabia algo sobre o que eu sei. Gargalhei e não pude evitar minha crise de riso. Veja a prepotência que carrega por aí todo filho de Narciso.

E lá vou eu outra vez. Nos meus bolsos sempre carrego um dado de vinte faces, uma pedra do meu signo e uma chave que nunca abriu uma porta. O dado decide sobre coisas importantes. A pedra me ajuda a ter um pouco de sorte. E na grandiloquência dos meus devaneios supus que a chave um dia possa abrir a porta para o amor. Por ora ela segue inútil, mas quem sou eu para reclamar de inutilidades? Não raramente sou tonto.

Há um paradoxo na busca pelas coisas que queremos. Atingi-las significa a obtenção do resultado final e com a recompensa a nossa luta deixa de ser assim tão significativa. Se você obtém o que quer possuir, o que é que pode querer a seguir? Se você mata os motivos pelos quais vive, pelo que viverá depois?

O sentido não pode se perder do sentir. O sentir pode se perder do sentido. Na busca de uma extravagância, ignoramos nossos próprios discursos na busca de viver a vida. Só a experiência nos permeia com o que não sabemos de fato?

E se você silenciar por muito tempo alguns pensarão que podem falar por você. Sobre você. E contarão suas próprias verdades ainda que eivadas em vícios tão esdrúxulos ou mentiras tão descaradamente falsas quais possam se valer. Eu erro ou acerto, mas não me omito. Isso não me faz melhor ou pior e a razão de me narrar não faz sentido.

Mudo meus caminhos. Toda velha estrada é inútil. Decorei os caminhos como havia decorado os telefones na época em que ainda se telefonava. Agora todos refutam ligações com o pretexto da conveniência de que nunca se sabe o que dizer ou o que conversar, mas é uma bobagem sem tamanho. Sempre sentiremo-nos assim tão estranhos?

Estradas velhas não levam a novos caminhos. Virei na esquina contrária, pisei de propósito na poça d’água, ignorei a chuva e entrei no meu carro. Passei por túneis que se pareciam com cavernas. Descobri-me meio louco, continuei mais um pouco e gritei até ficar rouco. Gargalhei mais do que qualquer outra coisa.

Ando por aí descuidado, admito, em todos os aspectos imagináveis. Não há quem me cuide, exceto eu mesmo. Nada me ilude quando percorro meus caminhos. Há tanta coisa que perdi, mas ainda que não me cuidem, alguns me acompanham. É bom ouvir sons de novos passos. Juntos, ainda que em pedaços. É tão bom não estar sozinho.

Onze e qualquer coisa da terça-feira. É hora de pensar nas obrigações de amanhã. É preciso encarar o trabalho que é trabalho aos olhos de todos e o trabalho que apenas eu considero trabalho. É como deve ser. Este texto leva de nada a lugar nenhum. Sentir-se vazio é algo comum. Não me permitirei, porém, que essa seja a temática dos meus dias. Preparo-me para dormir, escovo os dentes. Amanhã é dia de ser feliz.

Tomates

Vou ao mercado. Desço pelo elevador e entro no carro sem ligar a música. Sincronizar o bluetooth não é tão complicado como eu imaginava, aprendi dias antes, mas não me sinto paciente. Opto pelo silêncio e prossigo no meu caminho. Os campo-grandenses comem as faixas de sinalização como se estivessem com fome. Não é novidade, porém, impressionam-me os erros tão básicos em tamanha quantidade. Estaciono, tranco o carro e entro no mercado. 

A primeira coisa que faço é óbvia. Consulto minha lista de compras: tomate (3), cebola (3), maçã (2), ovos, suco (2), iogurte (5), pizza de frigideira (5), pão integral (1), leite. Decido que vou tentar fazer isso velozmente. Pego uma cesta para segurar minhas compras nas mãos, pois admito que pegar um carrinho seria exagero. Inicio minhas compras pelos tomates e o primeiro que pego parece zombar de mim.

Que é que tenho para ser efetivamente zombado por um tomate? Escondo o tomate zombeteiro ao fundo e seleciono outro. O segundo tomate é incomumente vermelho escuro e isso me irrita. O terceiro é extravagantemente verde e isso não é certo. O quarto possui tantos machucados e cortes que parece ser um tomate que sofreu ao longo da vida. Como é a vida de um tomate sofredor? Respiro fundo e olho bem para cada tomate. Eles não me olham de volta. Escolho três que não me parecem tão ruins assim e sigo. 

Pego três cebolas boas, duas maçãs adequadas e com facilidade acho o pão integral da única marca que gosto, mas o fim do mundo se anuncia junto com a traição do mercado. Os sucos não estão nas prateleiras de sempre, pergunto sobre o paradeiro das pizzas e sou informado de que elas estão esgotadas. O único iogurte que achei está vencido e me enraiveço com o preço do leite. Impaciente e quase sem escolhas, eu opto por levar duas cervejas, única promoção disponível, mas o que me tira do sério é que resolveram mexer até no mercado. A mania idiota de mudar tudo de lugar!

Uma criança me encara enquanto pago. Loiro, magro e provavelmente com uns nove ou dez anos de idade. Ele me olha fixamente e eu faço um sinal positivo para ele. Como quem antecipa meu dia de estresse, ele pega repentinamente o saco de tomates do carrinho de sua mãe e me mostra. Rose, a atendente, observei bem no crachá, estende o meu troco enquanto eu abafo a vontade de rir. O loirinho corre de volta para os corredores do mercado. O que anuvia minha mente repentinamente desaparece. 

– Boa noite, senhor. – Fala a mulher com uma voz agradável e simultaneamente mecânica. 
– Boa noite, Rose. Tenha um ótimo resto de semana. – O rosto de Rose se ilumina e ela fica feliz com quem pôde notá-la. O menino salvou a minha noite e me protegeu dos tomates; eu fiz o meu dever e fui educado como se deve, mas como sei que raramente são. 

Pego minhas compras, volto para o meu carro e sigo para a minha casa. Não quero passar perto de tomates hoje. Penso em prometer que não vou me estressar mais durante a semana, direciono meus pensamentos para o café da manhã de amanhã e sou tomado por uma súbita decepção. Esqueci os ovos. 

O que não se espera

O que não se espera é sempre excitante. A promessa do que está para chegar nos deixa ébrios, mesmo antes da bebida. E bebemos, é claro, quem deixaria de beber em uma noite tão quente? Quem deixaria de beber em uma noite tão bonita? Quem deixaria de sorrir com uma companhia tão bendita?

Nem tudo o que falo é bem dito. Às vezes gaguejo num constrangimento bonito. Torço, porém, para que nossas atitudes benditas sejam também. Que mal faz em beber um pouco além? E a curiosidade que há é porque há de haver. A gente se conta e se desvenda um pouco demais, um pouco ou muito além do que é preciso. E a preciosidade que há em conseguir fazer brotar num rosto novo um largo sorriso mexe por dentro. Dois estranhos se estranhando e descobrindo a inédita felicidade que se compartilha em momentos bons. Silêncio. Barulho. Sua voz. A minha voz. O reconhecimento é tácito. É como se algumas pessoas soubessem pegar atalhos.

Escolhe aí o que você quer beber.
– Por mim tanto faz.
– Por mim também.
– Essa não te dá dor de cabeça?
– Eu nem sei.
– Tanto faz?
– Tanto faz.

E aí a gente se perde e quer forçar o esquecimento. Um clima pinta, a gente se finta, antes de voltar a se fitar. Suas palavras derramam tinta, mas não é você que pinta? E o clima amistoso muda e tudo parece ligeiramente fora de lugar. Eu mais dentro de olhos grandes provocativos, os olhos também em mim. Que é que há?

Não era a última?
– A próxima vai ser.

E a gente sabe que poderia continuar até amanhecer, mas não vamos. Hoje ninguém sai embriagado. Então recuo depois de ter avançado. Na verdade é quase como perder o tempo certo de furar o sinal durante as madrugadas. Arrependo-me, mas menos do que eu gosto de admitir. Ainda assim sei que não posso e nem vou me repetir. Este é o dilema que se apresenta e urge em mim um desejo de consumir. Refreio-me. Os limites, repito em voz alta, existem sempre.

O que não se espera é que tantas vontades surjam tão de repente.

Sumiço

Desde que decidi sobre o que evitava decidir, certas coisas mudaram de aspecto. Acontece que decidir é necessário, mesmo quando a gente se cansa, mesmo quando a gente ainda quer saber. Todo mundo decide e em dado momento você vai perceber que não há exceções. O não decidir de quem se diz indeciso move o mundo na estagnação da mesma forma que o move na decisão. Nada permanece parado.

O que calha mencionar, aqui me repito e não peço perdão, pois me cerco pelas coisas que olho nos caminhos quais percorro, é que, sem dúvidas, a vida pode se tornar mais leve quando nossas decisões são mais pesadas. Ou simplesmente mais definitivas. Quanto mais você se demonstra firme, a dureza das suas decisões ajuda diretamente a formar a solidez do seu caráter. Você sabe que a irrelevância não combina com seus tons. É preciso se entender no comando da própria vida.

Olha, não posso ser exatamente como querem que eu seja. Se outro dia não pude aceitar este fato, se outrora isso pesara como o pior dos fardos, enfim, admito que posso viver em paz com o que escolhi. Liberdade e libertação. Não golpeei primeiro. O ato mais pérfido não foi meu, mas me vi avulso e na tristeza do lusco-fusco, notei-me capaz de tudo. Posso reagir. Posso agir. Tenho a capacidade até de ser um sujeito vil. No mergulho profundo nas experiências consigo sentir o mundo que nunca me sentiu.

Tudo isto já em pauta, reforço-me em convicções minhas. Tão verdadeiras ou falsas são elas como quaisquer outras convicções poderiam ser. Sou jovem, mas honestamente me sinto velho diante das situações. Às vezes me falta o ar e me pego a lembrar de situações. Esqueço-as e me lembro de mim. As coisas acontecem e deve ser assim.

A segunda-feira chega. Todos parecem tão cansados. Os meus olhos doem, o sono se perde e acordo bem cedo. Não preciso sair de casa. Respiro fundo e deixo-me estar por um instante prolongado. Percebo a beleza do universo quando a manhã se empoleira em meus ombros. Ou teria sido eu que me empoleirei na Vida?

Os pássaros cantam baixo. As máquinas das obras produzem barulhos mais altos. Lá vão os operários ao trabalho. Lá vão eles construir todas as coisas que se constroem. Já notou que toda criação é barulhenta? Assim como toda decisão que é suficientemente importante para fazer permanecer ou fazer desvincular. O silêncio diz muito. O barulho também.

Ouço ao longe alguém chorar. Chore, eu digo para quem quer que seja, chore, pois até no choro existe beleza. Há quem perca a capacidade de notar suas tão claras qualidades. Há quem te force a escuridão quando você se torna a personificação da claridade. Decida-se. Afaste-se.

Amanhã é tarde demais. A gente espera, tenta e insiste. Trezentos e sessenta, crônica, poema, outra cena de música triste. Às vezes há muita coragem quando a gente então desiste. A decisão foi tomada em silêncio, surpreendendo-me com a ausência de alarde. Era tão discreta que nem soava como uma decisão minha, mas me decidi.

Eu avisei que minha última aparição seria naquela tarde. Quem sabe não me tornarei uma memória que machuca e arde. Como diria Caio Fernando Abreu, nada em mim foi covarde. Talvez nos seus melhores sonhos, eu seja o fantasma que um dia você foi. Um espectro que assusta e aterroriza, que da dor se regozija, sombra esquecida de um esquecido amor.

Você pergunta quando e onde, como se brincássemos de esconde-esconde, como se tudo não passasse de um jogo bobo para você. Você decidiu e eu também. Nunca mais vou aparecer.

Quase o que você é

Você é como a onda do mar
Vem e me abala com força
Para depois se afastar
Você é como um vendaval no verão
Estraçalha, bagunça, quebra,
Desordena o coração
Você é como a chuva gelada
Despertando a alma dormente
Às vezes suave evapora na pele da gente
Você é como o rigoroso inverno
Suas atitudes não fazem sentido
Emudeço e me consterno
Não sei o que acontece comigo
Você é como um lendário dragão
Vista uma vez não pode ser esquecida
Mas ninguém te segura nas mãos
Sacode o corpo e acena antes da despedida
Você é muito singular
Para ser descrita com perfeição
Espero que apareça para jantar
Preparei uma refeição
Você é como nada que já se viu
Sou tolo de tentar explicar
Seu toque me dá arrepios
Não consigo me cansar
Você é tudo o que não se pode prever
Desculpe se estou um pouco suado
Também se tenho gaguejado
Obrigado por aparecer
Das coisas incríveis que nunca pude imaginar
Você transformou em realidade minha imaginação
Finalmente entendi o significado de amar
E minha vida nunca mais foi em vão.