Crônica Pregressa #5

Convite

Gata preta que traz boa sorte, arco-íris de chão. Eu peguei só a geladeira, a cama e o desgastado colchão. Segurei as mãos dela e me calei. Quando falo muito sempre digo pouco.

Não pretendia que as coisas fossem assim, mas é que de tanto pretender acabei perdendo o que acontecia bem diante de mim. Choveram estrelas na noite passada, você notou? Incontáveis, cadentes, repletas de pedidos, esperanças e milagres, mas igualmente incapazes diante da sombra da ideia do amor. Havia esmeraldas na escuridão, você as pegou? Soltei os fantasmas do porão. Algum deles te assustou? Tantos olhos embriagados vagaram pela madrugada buscando uma distração. Você pode dizer que achou?

Houve um boato na noite passada. Confessaram-me vários segredos, mas nenhum que me desse arrepios. A noite nublada também era enluarada e expunha tantos fatos e medos, mas só os solitários notaram os tantos espaços vazios. Onde é que você estava quando a dor se tornou tão pungente? Soprei a última luz de vela e encontrei uma bela fada endiabrada no momento em que se alimentava de uma estrela cadente. Quem é que não mente quando falta o que dizer? Quem é o que sente quando tenta não sentir o que quer esquecer?

Encontrei um velho amigo em sonhos e ele me olhou divertido e risonho. Fui feliz. Encontrei o primeiro beijo sentado em uma árvore derrubada, mas quando abri os olhos havia menos que nada. Fui feliz também. Sempre jogo apostando, exceto quando o assunto é amor. O que é que ganho ao deixar outros provarem meu sabor? Sou singular e o resto que se dane, pois estou me lavando agora. De vocês, dos sonhos, planos e das velharias. Vou dominar o idioma francês e abrir minha própria cafeteria. Batuco meu peito e pareço tão oco. Queria oferecer-lhe o Universo, mas esta noite sou tão pouco.

Sou feito da poeira mais pura. Todos os meus pensamentos belos e idiotas são feitos de matéria que perdura. Transformo-me em vidro e sou quebrado. Por que importa ser certo em um mundo que aprecia só o que se faz de errado? Estilhaço, quebro, espalho-me no chão. Quase ninguém toma cuidado e menos da metade de quem nota não evita um novo pisão. O que fazer se é tão frágil meu coração? Cuidado se resolver tentar a sorte e me remontar. Meus cacos são tão afiados que mesmo sem intenção posso machucar. Corte de gastos, orçamento, contabilidade. Falta-me a habilidade para desapegar dos sentimentos, mas construo aqui meus novos atos, sem vaidade, enfim, é o meu momento. Quando as estrelas despencaram como gotículas, os brilhos foram louvados e ninguém sentiu vontade de apagar o outro.

Gata branca de estrada, cachorro da mais bela alma, arco-íris de chão. Eu peguei só o pouco que tinha e lhe entreguei o meu coração. Não sabia como era o misterioso rosto dela, mas eram quentes suas pequenas mãos. Olhei para aquela chance de aventura morando em um ponto de interrogação. Sorri docilmente com meus olhos em chamas, mas de alguma forma ofereci também o mais confortável abrigo. Respirei fundo e perguntei a ela, para a incógnita dos dias que virão, você está disposta a partir comigo?

Refúgio

Ele se adianta e não consegue fugir.

Está
cansado
da
fuga.

Não sabe dizer quando parou de cair.

Será
mesmo
que
parou?

É que quando você passa muito tempo no chão corre o risco de se esquecer da diferença entre os patamares e os ângulos e todas essas perspectivas.

Ele
revolve
para
dentro
.

Há muito o que olhar. Às vezes sente como se a realidade alheia fosse irreal se comparada com a sua. De quando em quando, observa-se, contempla-se e se permite ficar em seu próprio quarto. O ambiente se torna o Universo e ele se torna o Deus daquele mundo tão particular.

Ele
pensa
melhor
sem camisa.

Assim tira a camiseta primeiro e a joga no chão. Colocá-la no cesto de roupas sujas é algo que pode esperar. Agora bebe água, cerveja, chá, suco e faz do ato de ingerir qualquer líquido uma distração. Distração para quê? Distração do quê?

Ele
pensa
em voz alta
Às vezes se
enraive com
quem não quer
buscar seus caminhos
Tantos preferem atalhos

Como explicar?

Ele liga o videogame e joga. Recorda-se dos primeiros anos e dos primeiros jogos e sorri. A sua infância tem um gosto doce e ele desce alegremente e sem se preocupar com a conveniência de pegar suas estradas para locais seguros. Está defronte ao Super Nintendo, ao Gameboy de tela verde, ao Playstation I. Os videogames o fazem feliz. A solidão o faz feliz. Ele olha com a atenção necessária os jogos, as pessoas e os espaços vazios. Observa a vida e a alegria. Cresce no peito do garoto uma vontade de ser maravilhoso.

O que
quer dizer com
ser maravilhoso?

Quem realmente sabe? Um dia o garoto apostará em si mesmo. Acreditará em sonhos, pessoas e amor. Acreditará nos exercícios físicos e na cafeína, nos contos, romances e rimas. Quem poderá desvendá-lo? Ninguém? Nunca? Ele escolhe suas companhias e se frustra quando sente que não pode optar pela solidão.

Às vezes
ele deseja
a solidão.

Entretanto, é consciente, pontual, exceto no que concerne a chegar nos horários marcados. Desafie-se, inverte cenas, faz o que duvidaram que tinha a capacidade de fazer.

Ficava
apavorado
em conversar
com mulheres.

Hoje é natural.

Sentia-se
muito alheio
Também bastante
feio, ainda que soubesse
que a verdadeira feiura
nunca seria estética
neste mundo vil.

Tornou-se expansivo. Mais do que antes, ele sempre anda por aí com alguns amigos e é amado. Tornou-se bonito também, ainda que não tenha se esquecido que a beleza verdadeira nunca seria a estética neste mundo vil. Revolve para dentro e deixa que os outros percebam o que ele já sabe. É bonito nos lugares que mais importam.

Ele quase
nunca dorme.

É que sua cabeça está sempre no dia seguinte e na luta. Não é fácil, mas segue firme em sua conduta e crê que pode vencer o mundo com calma e sem malandragem.

Essa
aposta
é maluca,
mas

Coragem!

Fecha os
olhos, pois
sabe que ainda
que a vida seja foda
ninguém dorme
de olhos abertos.

Anda para lá e para cá pensando em soluções que resolvam conflitos. Fracassa em aparecer com novas soluções e sufoca um grito. Não chora, não é pessoa assim tão sensível, mas reconhece que chegou a hora de dormir. Espera que pelo menos em sonhos não exista alguém franco e que não tenha a intenção de o ferir.

Boa
noite.


  • V

Interplanetário

A escada
de saída
da Terra
O cheiro
de flores
e ervas
O voo
no rabo
do cometa
A chance
de escapar
deste planeta
A magia
O caderno
No fundo
da gaveta
A lenda
dos que
morriam e
viravam estrelas
Versos extintos
Textos distintos
Prolixos e
também sucintos
Escritos apenas
pela tinta
da caneta
A música
Os animais
que cantam
O sono
tão profundo
de Deus
que não
se levanta
A miséria
A dor
O destino
de sofrimento
A matéria
A cor
O solo
O firmamento
O universo
que começa
e termina
na Lua
Os mistérios
que não
se findam
O tempo
congelou em
uma rua
Endireita o
seu porte
Olha o
que há
no futuro
Um corte
A morte
O sol
A sorte
Tudo muda
no escuro
A chuva
tão leve
A orientação
de Marte
A fuga
na neve
A consideração
O descarte
Saturno chama
Soturno menino
Ele não
deixa a
confortável cama
Continua dormindo
A Galáxia
O Vazio
O Tudo
O Nada
O quente
O frio
O início
A chegada
Vênus convoca
Uma mulher
de coragem
Ela aposta
e provoca
Sempre selvagem
Poeira estelar
Brisa pueril
Sono compartilhado
A paixão
A paciência
O amor
O certo
O errado
A ciência
O paciente
O doutor
O que
realmente é
E o
que deve
ser assim
A vida
A fé
O começo
O fim.

Neblina Espessa

Essa neblina espessa, veja, eu sinto que posso tocá-la. Ontem senti sua falta pelos quatro cantos da nova casa. Esta casa atual é muito maior do que a outra, mas às vezes sinto saudades de quem eu era. Estranho, eu sei, como quem quer forçar o inverno em plena primavera. Inadequado, eu sei também, tal qual vestir uma antiga roupa que já não cabe mais, mas a gente possui essa estranha mania de querer o que se quer, não é? E às vezes aposta muito nos outros e pouquíssimo na nossa própria fé. Roupas ultrapassadas, apertadas, antigas. Talvez seja melhor doá-las. Memórias desgastadas e coisas esquecidas, esculpidas relativamente, desejos de fantasmas que estão mortos, mas ainda sentem, o apelo desesperado para que a alma seja notada. Você consegue perceber a sutileza deste sentir? Você consegue sentir falta de quem se foi, respirar com calma, perceber que está tudo bem e sorrir?

Essa neblina espessa, eu sinto que posso tocá-la. A fumaça cansada lançou seu manto sobre a cidade e eu não vejo nada aqui desta sala.

Recordo-me das noites incomparavelmente melancólicas nas quais nunca houve outro ser humano que fosse mais triste do que eu. Recordo-me da voz de Lord Huron falando sobre fantasmas, prazos, fins e tudo aquilo que eu perdia, mas que hoje nem sei se me pertenceu.

A janela anunciava luzes e a cidade piscava convidativa. Esta noite qualquer apelo do corpo para lembrar a alma de que ela ainda está viva.

A janela de novo e minhas epifanias. Nestes vislumbres notei que a vista não era apenas feita de melancolia. Às vezes reparava em alguém que cruzava a rua durante a metade do dia. Mãe e filha de mãos dadas caminhando distraidamente até a igreja, o trabalhador em obras com a camisa suada e pensando em todas as suas despesas ou até mesmo eu de longe, distante da figura que tanto aprenderia a conhecer no futuro. Na janela de mim, observo-me passear com o cão Link pelas esquinas que serão esquecidas. Ele caga, eu recolho as fezes. O mundo seria melhor se todos nós fossem dispostos em recolher as fezes? Acumulo de revezes.

Acordo e vou até outra janela. Bom, eu confesso com uma infelicidade resignada que acordei 5h15 para esperar o nascer do sol. É o meu último dia neste prédio e ontem a noite havia decidido que não perderia essa chance. Quando temos a rara consciência do momento exato de nossas despedidas, podemos ser mais dedicados em torná-las especiais.

Os prédios não falam ou pelo menos eu nunca pude ouvi-los. Acordei cedo, mas ainda antes a neblina havia os engolido. Procurei uma caneta pela casa e não a encontrei. A angústia cresceu em meu coração subitamente. Precisava rabiscar sangue no papel. Esfreguei a ponta da caneta. Havia acabado o sangue. Usei a minha própria tinta para começar o texto até que percebi que não havia mais. Os dedos gelados agressivamente começaram a bater nos teclados e eu já não conseguia parar.

A janela continua perfeita, mas o céu se fez difícil na minha despedida. Talvez eu não mereça hoje essa melhor vista. A neblina e as nuvens esconderam completamente o céu, mas insisto nesta minha fé cega ou na pesquisa científica para acalmar meus nervos e repetir devagar em um intervalo de respiração. O sol aparece amanhã de manhã.

Sinto um calafrio que percorre toda minha pele. Sou quente e feito de emoção, batida rápida de coração e não há invernia que me gele.

Dominado pelo cansaço sinto um frio que ocupa todos os meus espaços e fecho meus olhos tendo a esperança de dormir. Abro os olhos e encaro meu erro crasso, é o dia final para a mudança, eu preciso correr e sair daqui.