O que não se espera

O que não se espera é sempre excitante. A promessa do que está para chegar nos deixa ébrios, mesmo antes da bebida. E bebemos, é claro, quem deixaria de beber em uma noite tão quente? Quem deixaria de beber em uma noite tão bonita? Quem deixaria de sorrir com uma companhia tão bendita?

Nem tudo o que falo é bem dito. Às vezes gaguejo num constrangimento bonito. Torço, porém, para que nossas atitudes benditas sejam também. Que mal faz em beber um pouco além? E a curiosidade que há é porque há de haver. A gente se conta e se desvenda um pouco demais, um pouco ou muito além do que é preciso. E a preciosidade que há em conseguir fazer brotar num rosto novo um largo sorriso mexe por dentro. Dois estranhos se estranhando e descobrindo a inédita felicidade que se compartilha em momentos bons. Silêncio. Barulho. Sua voz. A minha voz. O reconhecimento é tácito. É como se algumas pessoas soubessem pegar atalhos.

Escolhe aí o que você quer beber.
– Por mim tanto faz.
– Por mim também.
– Essa não te dá dor de cabeça?
– Eu nem sei.
– Tanto faz?
– Tanto faz.

E aí a gente se perde e quer forçar o esquecimento. Um clima pinta, a gente se finta, antes de voltar a se fitar. Suas palavras derramam tinta, mas não é você que pinta? E o clima amistoso muda e tudo parece ligeiramente fora de lugar. Eu mais dentro de olhos grandes provocativos, os olhos também em mim. Que é que há?

Não era a última?
– A próxima vai ser.

E a gente sabe que poderia continuar até amanhecer, mas não vamos. Hoje ninguém sai embriagado. Então recuo depois de ter avançado. Na verdade é quase como perder o tempo certo de furar o sinal durante as madrugadas. Arrependo-me, mas menos do que eu gosto de admitir. Ainda assim sei que não posso e nem vou me repetir. Este é o dilema que se apresenta e urge em mim um desejo de consumir. Refreio-me. Os limites, repito em voz alta, existem sempre.

O que não se espera é que tantas vontades surjam tão de repente.

Sumiço

Desde que decidi sobre o que evitava decidir, certas coisas mudaram de aspecto. Acontece que decidir é necessário, mesmo quando a gente se cansa, mesmo quando a gente ainda quer saber. Todo mundo decide e em dado momento você vai perceber que não há exceções. O não decidir de quem se diz indeciso move o mundo na estagnação da mesma forma que o move na decisão. Nada permanece parado.

O que calha mencionar, aqui me repito e não peço perdão, pois me cerco pelas coisas que olho nos caminhos quais percorro, é que, sem dúvidas, a vida pode se tornar mais leve quando nossas decisões são mais pesadas. Ou simplesmente mais definitivas. Quanto mais você se demonstra firme, a dureza das suas decisões ajuda diretamente a formar a solidez do seu caráter. Você sabe que a irrelevância não combina com seus tons. É preciso se entender no comando da própria vida.

Olha, não posso ser exatamente como querem que eu seja. Se outro dia não pude aceitar este fato, se outrora isso pesara como o pior dos fardos, enfim, admito que posso viver em paz com o que escolhi. Liberdade e libertação. Não golpeei primeiro. O ato mais pérfido não foi meu, mas me vi avulso e na tristeza do lusco-fusco, notei-me capaz de tudo. Posso reagir. Posso agir. Tenho a capacidade até de ser um sujeito vil. No mergulho profundo nas experiências consigo sentir o mundo que nunca me sentiu.

Tudo isto já em pauta, reforço-me em convicções minhas. Tão verdadeiras ou falsas são elas como quaisquer outras convicções poderiam ser. Sou jovem, mas honestamente me sinto velho diante das situações. Às vezes me falta o ar e me pego a lembrar de situações. Esqueço-as e me lembro de mim. As coisas acontecem e deve ser assim.

A segunda-feira chega. Todos parecem tão cansados. Os meus olhos doem, o sono se perde e acordo bem cedo. Não preciso sair de casa. Respiro fundo e deixo-me estar por um instante prolongado. Percebo a beleza do universo quando a manhã se empoleira em meus ombros. Ou teria sido eu que me empoleirei na Vida?

Os pássaros cantam baixo. As máquinas das obras produzem barulhos mais altos. Lá vão os operários ao trabalho. Lá vão eles construir todas as coisas que se constroem. Já notou que toda criação é barulhenta? Assim como toda decisão que é suficientemente importante para fazer permanecer ou fazer desvincular. O silêncio diz muito. O barulho também.

Ouço ao longe alguém chorar. Chore, eu digo para quem quer que seja, chore, pois até no choro existe beleza. Há quem perca a capacidade de notar suas tão claras qualidades. Há quem te force a escuridão quando você se torna a personificação da claridade. Decida-se. Afaste-se.

Amanhã é tarde demais. A gente espera, tenta e insiste. Trezentos e sessenta, crônica, poema, outra cena de música triste. Às vezes há muita coragem quando a gente então desiste. A decisão foi tomada em silêncio, surpreendendo-me com a ausência de alarde. Era tão discreta que nem soava como uma decisão minha, mas me decidi.

Eu avisei que minha última aparição seria naquela tarde. Quem sabe não me tornarei uma memória que machuca e arde. Como diria Caio Fernando Abreu, nada em mim foi covarde. Talvez nos seus melhores sonhos, eu seja o fantasma que um dia você foi. Um espectro que assusta e aterroriza, que da dor se regozija, sombra esquecida de um esquecido amor.

Você pergunta quando e onde, como se brincássemos de esconde-esconde, como se tudo não passasse de um jogo bobo para você. Você decidiu e eu também. Nunca mais vou aparecer.