Crônica Pregressa #1

Amor fantasma, futuro, passado e fim

Eu não sinto meu coração até que doa, vamos, por favor, machuque-me.     

Tarde passada, eu resolvi, enfim, que fecharia os olhos para as direções quais eles sempre estiveram abertos. Estiveram assim, inevitavelmente, por escolha minha, mas escolher não deixa de ser também um fardo. Nunca me deram o benefício da dúvida, veja, eu sou sempre julgado com uma espécie de certeza férrea e fria, capaz de assustar até mesmo demônios. Ainda que seja algo desconfortável, eu acho que agora posso compreender porque o fazem. Sempre esperam a minha convicção, ainda que, usualmente só me ofereçam a dúvida. Não me ofendo. Abraço os monstros alheios e os que moram em mim também, mas acredito que posso, mais do que antes, realmente entender a amplitude da ação das pessoas. Quando ameaçados, em regra, todos nós recuamos e somos ligeiramente ariscos. Quem suporta se sentir acuado? Eis que então a simplicidade ganha nuances de complicações e o simples ganha contornos impossíveis. Por que deixar alguém se aproximar? Quais benefícios podem advir disso? Por que é que tão fácil para uns falarem sobre coisas que não entendem? Por que é tão difícil aceitar outras coisas que, mesmo em silêncio, cansamos de compreender? Escute sua própria voz e não seja o seu próprio algoz. Siga o próprio conselho. Você já sabe o seu caminho. Proferiu as palavras sozinho diante de um espelho. 

Amor como crença em fantasmas. Raríssimos viram, mas todos falam sobre.     

Não nos ensinam, creio, sobre a maneira correta de acreditar em determinadas coisas; aquelas verdadeiramente importantes como a vida, o tempo ou o amor. É mais fácil aprender a não ter fé do que se acostumar a tê-la, percebe? Fé em qualquer coisa que seja, mas esse sentimento abstrato de determinação, de compromisso individual, que forma e solidifica o dever moral de melhorar dentro do coração. Constroem a sua personalidade de uma maneira prática, comum, e se você der sorte, ao longo da jornada poderá contar com um ou dois tapinhas encorajadores nos ombros. Dirão que suas rimas são ridículas e que é melhor que seja advogado, médico ou que trabalhe na empresa da família, pois nessa vida, aprenda logo, não se vive sem dinheiro. Concordo com essas palavras. Quem é que vive sem dinheiro? É mais fácil também, assim como sugeri acima, acreditar no dinheiro do que em Deus, mas com o passar dos meses, com o constante correr das horas, você percebe que, há coisas, ainda que sejam detalhes, que não estão ofertadas em vitrines. Como alcançar algo nada prático sem cometer uma espécie de crime? Como voltar o relógio, evitar se transformar em um opróbrio, e buscar, sem “ganhar”, a única coisa que um dia te fez sentir sublime? Ora, eu vejo que você ainda não vê. Talvez seja por dar trela à opinião de quem não se interessa ou pelo barulho alto da TV. Quando as crianças de rua perguntaram, todos os seus impulsos se calaram, pois não sabia responder. Uma simples indagação te travou. Quem diabos é que eu sou?

Sirva-se filho. Sugiro que beba uma boa taça de vinho esta noite. 

Obrigado, senhor. Tenho que me virar, eu sei. Na minha barriga e no meu âmago não carrego nem mesmo um rei. A arrogância de nada vale pra alguém como eu. Do que vale a pena discorrer? Dinheiro? Ganhe, gaste, guarde, mas seja sábio. Gaste apenas o que sabe ter, nunca mais, não seja estúpido, é idiotice viver endividado. Amizades? Tenha poucas. Inconsequentes, mas corajosos e fiéis, como sugeria o poema de Victor Hugo. Os bons amigos apertarão suas feridas e depois ajudarão a curá-las. Amor? Ah! Amor! Amor é vislumbre para a maioria. Amor é rascunho de poesia. Amor em um dicionário atualizado é conceito de velharia. Quem é que, de verdade, se preocupa com o amor? Não os ensinaram, certo? Que já nascemos incríveis? Seus pais não falaram como não existem sonhos impossíveis? Ainda é traumatizado por que quando caiu da bicicleta haviam soltado sua mão? Notou que a cicatriz no joelho foi o jeito perfeito do conselho chegar ao coração?  

Não sejas precipitado, tome cuidado, mas não se torne arredio.
Fique esperto e nesta imensidão de gelo e deserto, lembre-se:
A confiança é um prato que se come frio. 

Ditados invertidos, invertidos inventados, dias antes prometidos, por ferro e fogo feridos, eternidades fadadas a dar errado. Sinto falta de tudo o que um dia foi, mas não sinto saudade de quem fui. Tenho orgulho das mudanças e sei que hoje ninguém me possui. Seria tão ruim ter alguém para segurar a minha mão? Ah, meu amigo, chega dessa melancolia. Até quando vai se lamentar? Varra a monotonia e mude tudo de lugar. Chame as coisas pelo nome e espere que atendam seu chamado. Quem não responder, chame agora de passado. É preciso se preocupar com a saúde, a espessura do sangue e as veias do coração, mas não se esqueça de que a vida é agora e não há garantias em futuros planos. Por amor, por favor, não abandone tudo o que pode ocorrer de bom em um ano. Quem é que pode te atrapalhar a conquistar o que você sempre quis? Se pensar com cuidado, notará que seu único obstáculo, é o quanto você deseja mesmo ser feliz. Não procure respostas no que havia ontem e nem no que haverá amanhã. Faz sentido viver a vida além de hoje? Por meses que pareceram anos, eu não senti as batidas do meu próprio coração e quis culpar todo o resto, até a minha boa cidade. Quando entendi minha situação, coloquei SIM onde só havia NÃO, pois constatei que merecia a minha felicidade. 

Sinto minha vida pulsar e a vibração de tudo é tão serena.
Ainda não sei dizer qual é o meu lugar no mundo, mas
a partir de hoje assumo que sou parte de Tudo
Viver vale mesmo a pena

Não arrefeça se tirarem seu teto e sustento
Você já passou por fins de mundo piores e pôde sobreviver
Sei que vai virar o jogo no próximo movimento
O mundo acaba hoje para amanhã renascer.

Resenha Literária #1 – O Retrato de Dorian Gray

O livro O Retrato de Dorian Gray é a obra mais famosa do reconhecido poeta e escritor irlandês Oscar Wilde (1854 – 1900). Acompanha-se a história de um jovem inocente chamado Dorian Gray que têm o seu retrato pintado por um artista chamado Basílio Hallward. O pintor que havia encontrado na beleza de Gray a inspiração suprema de sua arte, encontra êxito em produzir sua obra-prima na forma de um quadro capaz de refletir toda a beleza pueril do rapaz. Contemplando-se em plenitude na obra de arte do pintor, Dorian lamenta-se sobre a inevitabilidade do tempo e sofre pela beleza que está condenado a perder com o passar dos anos e a chegada da velhice. É quando ele diz que daria tudo para que ficasse sempre jovem e o retrato envelhecesse em seu lugar.      

Nunca poderia imaginar, porém, é que seu desejo caprichoso seria atendido. Influenciado pelo sempre arguto Lorde Henry (Harry), Dorian Gray adota uma visão hedonista sobre a vida e a maneira de vivê-la. Fortemente inspirado pelas ideias de seu melhor amigo qual também enxerga como uma espécie de sábio professor (“Lorde Henry nunca erra”), Dorian dedica sua vida pela busca de novas experiências e prazeres, concluindo até que os aprendizados importantes só surgem das experiências pessoais. Quando descobre o segredo de seu retrato, o rapaz se pega em diversas contradições intelectuais e morais, mas acaba optando pela preservação de sua imagem e de sua vida.     

O Retrato de Dorian Gray aborda de forma explícita a complexidade do ser humano e, sobretudo, desenvolve-se em um paralelo de construções e desconstruções de ideias supostamente imutáveis, debatendo incessantemente temas como o amor, a vaidade, os sentimentos, o casamento, as emoções, os pecados e acima de tudo a moral. Oscar Wilde cumpre bem sua função questionadora, bagunçando o leitor do começo ao fim, imiscuindo-se intimamente no questionamento de nossos valores. Acaso soubesse que possui a juventude eterna e que todas as consequências de seus atos vis não fossem sentidas diretamente e tão somente no rosto da alma exposta por meio de um quadro inacessível ao restante do mundo, como você viveria a sua vida? 


ALERTA DE SPOILER!     

Ao final do livro, Dorian Gray se torna uma versão ainda mais arrogante e segura do que o sempre tão cheio de si Lorde Henry, mas arrepende-se de sua vida repleta de pecados e decide ser totalmente bom, completamente diferente do que costumava ser. Sempre pasmado quando se encontra com o seu retrato, cada vez mais odioso e horrendo, Dorian acredita que uma vida de boas ações possa consertar a sua alma, tornando o retrato belo outra vez como se a boa visão de sua própria imagem significasse a limpeza e redenção de sua alma. Quando tenta ser bom e averígua que o retrato está ainda pior, esfaqueia a imagem do retrato e é acometido por uma dor súbita e gritos desesperados são escutados pela região.       

Quando os criados da casa chegam para verificar o estado de saúde do patrão, encontram um velho moribundo e de aspecto terrível e temível estirado ao chão, indubitavelmente morto e o retrato de Dorian Gray novamente em toda sua beleza, juventude e perfeição.                                                        

Livro x Filme

Comumente o filme falha em alcançar a complexidade da obra escrita e não acontece de maneira diferente em O Retrato de Dorian Gray. Tendo assistido ao filme meses antes de iniciar o livro, pude perceber que as características principais da crítica literária são mantidas, mas há diferenças não tão relevantes como a aparência de Dorian até diferenças bruscas como o desfecho da trama. Tendo isso em consideração, é impossível admitir que quem assistiu o filme tenha a exata noção do poder questionador deste livro, ainda que sumariamente entenda a crítica principal.

Opinião

O Retrato de Dorian Gray não é um livro difícil de ler, mas por vezes é massante. Eu me peguei travado em algumas partes e demorei a dar continuidade (aqui admito que tenho culpa por conta da rotina, afazeres e distrações), mas é uma crítica direta à sociedade e aos comportamentos mecânicos e repetitivos das pessoas que por muitas vezes ignoram a própria vida e não a vivem. O livro é um prato cheio para quem também gosta de boas citações, destacadas na sequência algumas de minhas favoritas, creio que todas feitas pelo Lorde Henry.      

Influenciar uma pessoa é dar-lhe a nossa própria alma. O indivíduo deixa de pensar com os seus próprios pensamentos ou de arder com as suas próprias paixões. As suas virtudes não lhe são naturais. Os seus pecados, se é que existe tal coisa, são tomados de empréstimo. Torna-se o eco de uma música alheia, o ator de um papel que não foi escrito para ele. O objectivo da vida é o desenvolvimento próprio, a total percepção da própria natureza, é para isso que cada um de nós vem ao mundo. Hoje em dia as pessoas têm medo de si próprias. Esqueceram o maior de todos os deveres, o dever para consigo mesmos. É verdade que são caridosas. Alimentam os esfomeados e vestem os pobres. Mas as suas próprias almas morrem de fome e estão nuas. A coragem desapareceu da nossa raça e se calhar nunca a tivemos realmente. O temor à sociedade, que é a base da moral, e o temor a Deus, que é o segredo da religião, são as duas coisas que nos governam.

Há coisas que são preciosas por não durarem.

A única maneira de se livrar de uma tentação é ceder a ela.      

A obra mais famosa de Oscar Wilde, sem dúvidas, é conhecida e reconhecida com todos os seus méritos. Ler O Retrato de Dorian Gray é aceitar a provocação aos valores morais e aos conceitos  previamente estabelecidos, permitindo-se a uma nova reflexão sobre como viver a vida. 

Queremos pessoas prontas

Queremos pessoas prontas, eu me peguei dizendo, sozinho na cozinha de casa. A simplicidade da frase me causou espanto e notei que era como dirigir com o vidro do carro sujo por meses, até o dia em que se nota que sim, sempre existiu tempo para jogar água e limpar. Era tão fácil desde o princípio, porém, ainda assim, o vidro ficava sujo e eu corria mais riscos enquanto dirigia. Findo este paralelo metafórico entre vidros, sujeiras, pessoas, atando-me agora ao que prontamente me fez começar este texto às cinco e quarenta e cinco da manhã. Queremos pessoas prontas.

Por natureza, por essência, viciamo-nos na facilidade e criamos bloqueios para os outros, como se um muro erguido impedisse apenas o contato do outro lado. Fingimos, em regra, de maneira incompetente, que a maldade do mundo não nos fere e nem nos alcança. Tudo é tão ridículo quando você aprende, enxerga e finalmente vê. Os velhos quase sempre se recusam a se envolver com os novos, principalmente pelo medo de que toda a sua sabedoria e experiência possam sofram com o questionamento fervoroso da juventude liberal. Os jovens, vocês sabem, desconsideram o velho, pois ignoram o passado de seus avós, de seus pais, do mundo e até os próprios. É mais fácil tratá-los como coisas do que como pessoas, é mais fácil personificar a frieza do fingimento sobre coisas que aconteceram, mas é melhor fingir que não, do que sentir e encarar o endurecimento pela dor que traz a lição. Quantas mentiras foram contadas, quantas verdades escondidas, quantas vezes, apenas talvez, você poderia ter sido mais sincero e deixou outras pessoas preocupadas? Quantas vezes se entorpeceu para se sentir justiçado? Para que tantas mentiras? Porque queremos que todos nos vejam como pessoas prontas.

Temos o direito e o dever de cometer erros, eu disse e esperei pelo questionamento seco e cheio de incredulidade do meu melhor amigo, mas era óbvio que ele ainda estava dormindo. Anulamos nossos erros tentando normalizar todo tipo de situação. O bom senso alheio morreu e é mais fácil fingir que o nosso também. A maioria só luta quando a vitória é certa. Somos esses seres patéticos? O que é essa ânsia fervorosa por errar, por sair, por cair na cama de uma pessoa estranha, por se sentir bonito, por ser sentir querido? Errando das segundas aos sábados para pedir perdão aos domingos ou sequer se desculpar, pois temos o direito e o dever de cometer erros. O que é essa insuficiência de sentir que faz com que nós provoquemos nossos próprios sentidos? O que é essa carência que dita nossas vidas? Que falta de sentidos faz com que a gente passe a desejar sentir mais para que as coisas sejam sentidas como, em teoria, devessem ser sentidas? Secretamente alimento uma vontade de vingar ou ser vingado? Por favor, veja bem, olhe como são, às vezes, obscuras nossas motivações, por serem cruas e equivocadas na essência ou por serem simplesmente invisíveis aos nossos próprios olhos.

Nietzsche tombou no chão do quarto estranhamente ao lado de Maquiavel e de frente para Machado. Empurrei-os para a pilha de descartáveis, doarei, é claro que doarei, esses homens quais não posso estudar ou conhecer, Brás Cubas, porém, fica. Prontos à minha esquerda, Leminski se levanta ao lado de Murakami, Sabino e Pessoa, mas só Caio Fernando Abreu entende um pouco do meu sentimentalismo exacerbado. Tolkien, Clive Staples e King zombam de mim, mas Neil e suas coisas frágeis parecem se compadecer de minha confusão. Será que eles também queriam pessoas prontas? Olho para a nona reunião vermelha, o RG, quatro e cinquenta no preço, seis e doze na hora, tomada, fotos, quarta estação, chaveiros, piscinas, mares, Paris, lugares, barbudos, loiras da odonto, seduções fáceis, sedutor irresistível, ego, eco, extrato bancário, salário, desemprego, revezes, não quero te machucar, nem sempre é força, cabeça erguida, fone, dores, poeira, outro dia a gente tenta, flores, cão, gata, bênçãos irlandesas, cartas, amuletos que dão sorte, mas que os ingênuos não creem, pois pensam que crença é uma questão de meta. Não veem subidas, descidas e curvas, como se o mundo fosse uma linha reta. Que é que te faz ser você? O que alimenta teu desejo por pessoas prontas se ainda está assim longe do que prometeu ser?

De minha parte, eu hoje vejo que não procuro pessoas prontas, embora tenham buscado isso em mim. Daniel, você é perfeito, mas você não comprou sua casa, eu sei, eu também não comprei a minha, mas é que você parou no caminho, não, eu não paguei o meu carro, sim, você pagou o seu, mas eu não quero entrar aí, a economia vai mal, olha, eu sei o quanto pode parecer ridículo, não sabe, você é idiota, você vai me xingar, eu acho que talvez eu também tenha parado na metade do caminho, não, isso não me faz idiota, eu não quis dizer idiota no sentido de burra, apenas idiota por se permitir ser utilizada por diversos titereiros e dançar a canção do mundo pela voz de outros e pelas mãos de outros, eu ouvi e toquei e posso dizer que sua voz é bonita e suas mãos também, mas se você não acredita talvez eu possa cantar com a minha voz feia e você aprenderá então que pode compartilhar a vida com quem realmente te olha e te vê, eu sei, depois disso, confiar nos outros fica mais difícil, alguém que quer nosso bem de verdade é uma sorte profunda ou sinal da existência divina, pois o egoísmo dita o mundo e o mundo dita a vida, e esta vida, creia-me, ela passa rapidamente e meus livros chegam no próximo mês, mas não era em maio ou mês anterior, é que eu fiquei fora de mim, recuperou-se, sim, e é isso, sim, é o que é, como deve ser, um brinde ao que nunca foi, foda-se o passado, um brinde ao que será, isso é algo qual posso brindar, nossas melhores histórias são sempre as mais escrotas, não sei dizer, você é incrível, parece estranho, você está bem hoje, não sei, mas acho que sim, eu tenho ainda todos os sonhos do mundo em mim, isso é legal, cara, siga firme e sem exageros, como salada sem tempero. Está liberado ter alguns devaneios, mas olhos fixos na estrada. Quem não entende a demora exagera no acelerador e no freio, mas você não se esquece de que o importante é a chegada. Eu sei, você está com a razão, obrigado, eu que agradeço, cuidado com crises de ansiedade. O que é agora, eu não sei, ela é inteligente, eu sei, você sabe que eu sei, que bom que nós dois vemos, e entende ela sobre cores, perguntou (perguntei-me), ela é um arco-íris, xará, eu sei que ela está no caminho, pote de ouro para vocês, é o meu palpite, minha aposta, ela não é uma pessoa pronta, tudo bem, eu não sou pronto também.

E continuo, embora com menor incômodo, com a frase flutuando na minha cabeça. Queremos pessoas prontas. O meio do caminho pode ser difícil e muitas pessoas e aqui, eu honestamente digo sem medo de parecer melodramático, muitas pessoas irão te deixar. Se você é alguém de sorte contará com muitas pessoas acenando em sua despedida na entrada da caverna escura e estreita do autoconhecimento. Uma vez dentro da caverna, você aprende ou morre, mas não há vivalma que agora o socorre. Se você se entender, compreender seu papel no mundo, vai se machucar, mudar um pouco, provavelmente vai cair de joelhos e cotovelos, mas se levantará, ainda que sangrando. Eu acredito em você. Uns poucos estão aqui comigo do outro lado te esperando, quanto tempo faz, você não faz ideia, mas não importa, onde estão os outros, olha, você bem sabe e dar a notícia não é algo que me cabe, mas eu e estes podemos lhe dizer que eles tinham outros compromissos.

Queremos pessoas prontas, eu digo mais uma vez, agora puramente por reflexo, mas emendo outras frases e recito: queremos pessoas prontas quando somos arrogantes, assim, mergulhados profundamente nesse ilusório senso de superioridade, pensamo-nos melhores do que os que estão no caminho, andando muitas vezes nas proximidades, lado a lado. Ignoramos o fato de que estamos em constante evolução e nos vemos maiores, não por sermos mais vastos ou largos, mais inteligentes ou rentáveis, apenas por um vislumbre tolo de grandiosidade quando se escapa a compreensão de que a genialidade não cabe em espaços apertados e de que não existe nobreza sem humildade. Na tentativa fútil de sermos diferentes daquilo que sentimos, muitas vezes nossa pose se torna a algoz da nossa personalidade e da nossa voz. Praticamos tanto a nossa pose que ela se torna alimento para os que não encontraram sua própria voz. O currículo conta: idiomas, países, inteligência artificial robótica, politização, diplomas, marca do cigarro, valor do carro, coleção de relógios. Viciados no ópio de experiências alheias, escravizamo-nos para quem quer que nos pareça admirável ou superior desconsiderando muitas vezes nossas próprias ilusões no processo de admiração. Se tivermos sorte, enxergaremos nós mesmos de fora e correremos para dentro, como uma criança muito nova que passa horas longe da família e se pega na urgência de estar em um lugar incontestavelmente seguro. Quando voltamos a nos enxergar somos qualquer coisa, exceto nós mesmos. Os perigos da incontrastabilidade. Adorna-se o externo para que possamos brincar de sermos quem não somos. Sabemos… o interno não aguenta tinta.

Respiro profundamente e sinto uma dor no peito, dane-se, não sou cardíaco. Todo mundo diz que na família eu deveria me preocupar apenas com a memória, pois nossas cabeças não são muito boas ou talvez sejam exageradamente boas, acho que alguns são até cabeçudos. De toda forma, cabeças desgastadas em criatividade, esforços e soluções talvez requeiram melhores cuidados. A maioria é, geralmente, estúpida, assim peço sussurrando, baixinho, para que você tome suas precauções e faça se aproximar da sua vida quem realmente goste de você pelo que você é. Esqueça a ideia de manter todos. Não é possível. Andar ao lado de uma “pessoa pronta” não te faz pronto, andar com alguém que ama não te faz amar e andar com alguém que se dedica a Deus não te faz teísta.

“Mera mudança não é crescimento. Crescimento é a síntese de mudança e continuidade, e onde não há continuidade não há crescimento”. C.S. Lewis.

Bocejo e medito sobre o quanto ainda não dormi. Preciso mudar e crescer. Leio uma oração irlandesa rimada em inglês, sinto fome e bebo a quarta xícara de café, sem açúcar, claro. Passa pela minha cabeça ocupada e esquisita que talvez eu devesse ler, mas não quero e estendo o relato além do que o leitor pede. Queria que alguém me ligasse e oferecesse carona para uma cafeteria, bem agora, às 8h04. Os olhos se fecham, inclusive o esquerdo e o inchaço diminuiu. A fome faz doer o estômago. A vermelhidão nas escleróticas é mau sinal. Devo dormir, não consigo, tento, falho de novo, mas decido sair do computador. Talvez eu nunca mesmo seja uma pessoa pronta, mas tenho aprendido tudo sobre eu mesmo, bons livros e amor. Em todos os momentos possíveis, cônscio, eu sei e sorrio, pois minha alma não se esconde. Um dia essas pessoas prontas vão acenar para mim.

Bem de longe.

Descuidado

Ando por aí, admito, descuidado demais. Outrora fui tão ferido que o medo do perigo não pude deixar para trás. E me consideram leigo, mas o que trago, eu juro, é invariavelmente trazido como qualquer coisa que se traz. E tudo passou. Os mestres linguistas me odeiam, mas não calham de me deixar em paz. Para trás nada vejo. Para frente ninguém mais traz nada, mas param para me olhar. Eu viro e levanto o dedo, ouso e digo sem medo: Você poderia apenas continuar?

Olha, eu não tenho conseguido manter meu interesse em nada. Sou honesto, mas você quer repelir minha honestidade com argumentos. Cada um com a sua verdade, não é? Seus caprichos são como o sopro do vento. Ainda que eu desse ouvidos, diga-me, o que pode querer tanto de mim? Desça sua tão potente verdade em cima de mim. Que se vá ou que fique. Honestamente eu tenho dado de ombros e tanto faz. Sempre escuto com muita atenção. Ainda que ninguém note meus poços de escuridão. A vida é o que a gente faz.

E lá vou eu outra vez. Vejo-me fora de mim, veja, lá vou eu. Eu ou ele? Se eu estou fora não posso ao mesmo tempo ser dois. Que é que há? Ela perguntou se eu realmente sabia algo sobre o que eu sei. Gargalhei e não pude evitar minha crise de riso. Veja a prepotência que carrega por aí todo filho de Narciso.

E lá vou eu outra vez. Nos meus bolsos sempre carrego um dado de vinte faces, uma pedra do meu signo e uma chave que nunca abriu uma porta. O dado decide sobre coisas importantes. A pedra me ajuda a ter um pouco de sorte. E na grandiloquência dos meus devaneios supus que a chave um dia possa abrir a porta para o amor. Por ora ela segue inútil, mas quem sou eu para reclamar de inutilidades? Não raramente sou tonto.

Há um paradoxo na busca pelas coisas que queremos. Atingi-las significa a obtenção do resultado final e com a recompensa a nossa luta deixa de ser assim tão significativa. Se você obtém o que quer possuir, o que é que pode querer a seguir? Se você mata os motivos pelos quais vive, pelo que viverá depois?

O sentido não pode se perder do sentir. O sentir pode se perder do sentido. Na busca de uma extravagância, ignoramos nossos próprios discursos na busca de viver a vida. Só a experiência nos permeia com o que não sabemos de fato?

E se você silenciar por muito tempo alguns pensarão que podem falar por você. Sobre você. E contarão suas próprias verdades ainda que eivadas em vícios tão esdrúxulos ou mentiras tão descaradamente falsas quais possam se valer. Eu erro ou acerto, mas não me omito. Isso não me faz melhor ou pior e a razão de me narrar não faz sentido.

Mudo meus caminhos. Toda velha estrada é inútil. Decorei os caminhos como havia decorado os telefones na época em que ainda se telefonava. Agora todos refutam ligações com o pretexto da conveniência de que nunca se sabe o que dizer ou o que conversar, mas é uma bobagem sem tamanho. Sempre sentiremo-nos assim tão estranhos?

Estradas velhas não levam a novos caminhos. Virei na esquina contrária, pisei de propósito na poça d’água, ignorei a chuva e entrei no meu carro. Passei por túneis que se pareciam com cavernas. Descobri-me meio louco, continuei mais um pouco e gritei até ficar rouco. Gargalhei mais do que qualquer outra coisa.

Ando por aí descuidado, admito, em todos os aspectos imagináveis. Não há quem me cuide, exceto eu mesmo. Nada me ilude quando percorro meus caminhos. Há tanta coisa que perdi, mas ainda que não me cuidem, alguns me acompanham. É bom ouvir sons de novos passos. Juntos, ainda que em pedaços. É tão bom não estar sozinho.

Onze e qualquer coisa da terça-feira. É hora de pensar nas obrigações de amanhã. É preciso encarar o trabalho que é trabalho aos olhos de todos e o trabalho que apenas eu considero trabalho. É como deve ser. Este texto leva de nada a lugar nenhum. Sentir-se vazio é algo comum. Não me permitirei, porém, que essa seja a temática dos meus dias. Preparo-me para dormir, escovo os dentes. Amanhã é dia de ser feliz.