Diário de Bordo

Livro na sala
Eu no sofá
Arrumei minha mala
Não volto pra lá
Quem sabe o que sente
Leva na bagagem
O que acontece com a gente
Não é de passagem
Sorriso de comissária
Seja muito bem-vindo
A alma ordinária
clama pelo Destino
Eu e você vivos
em outra estação
Sigo pensativo
na poltrona do avião
Teu rosto
na memória
Teu gosto
velha história
Fito na janela
Luzes fortes da cidade
A vida é triste e bela
Viverei com saudades
Tudo vai como deve
Eu vou também
Ainda volto a ser leve
E sigo além
Diário de bordo
O fim é o começo
Esqueça logo de mim,
mas eu não te esqueço.

Ventania interna

Ventania interna
Como coloco para dormir
essas minhas feras?

Venta muito aqui dentro
São profusas minhas frases
O que estava ao lado foi ao centro
O que era certo virou quase

A ventania continua
Dentro e fora do meu corpo
Sou soprado pela rua
Sobrevivo meio morto

A árvore é verdejante
E eu sou todo falho
Queria ser mais constante
Quebro fácil como um galho

Neste ínterim de mau agouro
Recupero uma réstia de lucidez
Entrego todos os meus tesouros
Ainda chega minha vez

Arrastado pelo asfalto
A liberdade de uma folha
Por onde passo grito alto
Vivo fora de qualquer bolha

Ventania interna
Voltarei a dormir
no fim da primavera


A última noite

A última noite chegou e eu não te encontrei
Quando você apareceu você era menos você
A última quinzena de sofrimento não foi fácil
Suponho que tenhamos nos transformado
Ainda assim entrei em choque quando te procurei

Que fim teve a mulher que amei?
A última noite chegou e eu não te encontrei
Não havia carinho, amor ou atenção
Estava sozinho com a minha dor
Revisitando tudo o que conseguia
Espelhos, desejos, tudo custa caro,
Camas, terraços, beijos e o sexo no carro
A última noite chegou e eu não te encontrei
Ouvi sua voz falando alguma bobagem
e não admiti que você fosse ela
Não por se fazer coisa frágil
Sim por quase desistir de tudo
Independente da queda
Eu sempre te falei que há
muitas belezas neste mundo
A última noite chegou e eu não te encontrei
Pouca coisa mudou, mas eu mudei e sei
Sou o piloto que gargalha do desafio
minutos antes de chorar rios pela despedida
O segredo é não criar expectativas
A última noite chegou e eu não te encontrei
Refiz rotas mentalmente e abracei o meu sufoco
Não deixe esse tanto virar apenas um pouco
Respeite-se e erga sua voz aos que se fingem surdos
Mostre a beleza da sua forma e do seu conteúdo
Apenas viva extremamente bem
Incenso fosse música e você sabe
Querer ser quem é vai nos levar Além
A última noite chegou e eu não te encontrei
A última noite chegou e eu chorei
E escrevia enlouquecido por horas apenas
para ter a certeza de que não iria enlouquecer
Todo o resto parece me inventar
Espero que você não me deixe apodrecer
Daqui sigo agora completo e sozinho
Não é exatamente reto, mas é o meu caminho
A última noite chegou e eu não te encontrei
Espero que você possa apenas se recordar
das coisas boas que eu também me lembrei
A última noite chegou e a chuva parou,
mas o frio seguiu me congelando
Eu preciso me arriscar para sentir
que meu coração não está parando
A última noite chegou e eu não encontrei você
A última noite chegou e você não me encontrou
A última noite é qualquer coisa que antecede a manhã seguinte
Não viva por migalhas ou e nunca se faça pedinte
Divirta-se e coloque no rosto milhares de sorrisos
Temos amanhãs por alguns bons motivos.

Canto.

Canto bem alto o clamor de minhas sequelas
Exalto a Dor que me atropela

Canto bem alto o fulgor da primavera
Exalto o Amor e a vida que é bela

Canto bem alto à secura do outono
Exalto a Dor do meu abandono

Canto bem alto o sofrimento indizível
Exalto o Tempo do impossível

Canto bem alto em uma tarde de domingo
Reergo-me como um Deus esquecido

Canto, enfim, meu último momento
Que o vento me leve me transforme em esquecimento.

Gaveta

Na gaveta guardados antigos
Ao lado do teclado fones de ouvidos
O que se escuta no som do computador
É qualquer hippie hop antigo e baladas sobre amor
O quarto está gelado para espantar os insetos
Tudo parece meio inventado, ainda que seja certo
Copo de água vazio, Alberto Caeiro, Paulo Leminski,
O Daniel de sempre fitando novos abismos
Avançando com questionamentos mutáveis
Perdendo-se por lapsos de consciência e memória
Túnel atemporal e sonho lúcido durante o dia
O meu irmão gargalha da dificuldade da gaivota
que teimosa resolveu voar contra o vento
Eu acredito em todos os tipos de lorota
Até em quem quer transar depois do casamento
O microfone me lembra o Sílvio Santos
A imitação mais antiga do apresentador no motel
Numa realidade alternativa estou aos prantos
Nesta madrugada sorrio e cumpro meu papel
A tesourinha de aparar o bigode custou R$ 28,00
Os vídeos no YouTube e o sotaque de Minas Gerais
Um pôster antigo do Coringa nunca pregado
Um pernilongo maldito quer ser assassinado
Armários extremamente novos e mouse colorido
Arranjo de flores roxas feitas de plástico
Estou me sentindo patético e fantástico
Estou me sentindo poético e descartável
Jogos e apostas, vitórias e fracassos
Existo no meu próprio Tempo-Espaço
Garrafa de água azul, cadeira de praia,
Toalha verde, pendrive, relógio preto,
Durmo de luzes acesas e este é meu segredo
Na gaveta guardados antigos
Algum dia tudo ainda pode ser possível
Desapareço por agora enquanto
ainda somos bons amigos.

Caçador de estrelas

Caçador de estrelas
no céu noturno
Alvo das flechas
invisíveis nos dias
Viajante espacial
sem uma nave
Que fazes nesta
Terra distante
Onde jaz seu coração
e seu âmago?
Viajante espacial
solitário e errante
Deixa pegadas
na areia úmida
Quer um
caminho
singular,
mas os homens
já pisaram em tudo
Como então
pisar diferente?
Caçador de estrelas
no céu noturno
Apraz-se de um instinto
ancestral e colérico
Refaz-se de um esforço
imortal e homérico
Sem saber se realmente
sabe o que sabe
Viajante especial
sem esperança
Tanto procura
no Breu do mundo
A sombra da prova
da tua existência
Migalha de memória
e paciência
Pedaço de história
Estudo e ciência
Amostra do rosto
da própria alma
Procura
sem descanso
Uma fresta
de luz no vazio
Caçador de estrelas
no céu noturno
Todos se apiedam
de tudo e nunca de ti
Sozinho você avança
incapaz de sorrir
Ainda assim recupera
jardins mortos
Ainda distante desperta
antigos corpos
Olha nos olhos
de quem enxerga
Captando segredos
cósmicos e pregressos
Caçador de estrelas
no céu noturno
Coração de
demônio caído
Errante sem rumo
e sem casa
Abraço
soturno
Chuva
de meteoros
E mais
pegadas
Para onde vai?
Ninguém sabe,
mas é guiado
pelo instinto
Na rotina
derrama
prolixidade
No destino
é sucinto
Ser dói
O preço
é alto
Ele paga.

Quebra-cabeça

Comecei a brincar
com minhas tantas frases
O inverso de um verso às vezes
Revela a essência de minhas fases 

Continuei a brincar
com minhas notas trágicas
A tristeza do lado avesso
Revela uma faceta mágica

Soube que brincadeiras novas
começam na próxima quarta
Realize suas provas e
me mande uma carta

Quebra-cabeça
complicado e sem fim
Por favor não se esqueça
de não se esquecer de mim
.