Você me envelheceu

        Certa feita cheguei em casa completamente exausto. Cumprimentei o meu cão com todo o entusiasmo que ainda me restava. Confesso que, na verdade, quase não restava nada meu em mim. Eu havia deixado que a sonolência se apoderasse de meu corpo. Preocupei-me com meus lapsos de memória, mas sabia que era uma das consequências. Representava apenas uma das portas que cruzei. Prendi a respiração por tanto tempo que me esqueci de como respirar. Arfei longamente e me senti de volta em mim. É difícil, não? Quando as coisas doem dentro e não há ninguém por perto e morre ignorada sua comoção. É difícil. Você sofre e as pessoas com as quais conta estão realmente distantes. Hoje não lhe serve toda a sua inteligência, sua capacidade, sua formação. A infeliz verdade é que o seu alcance não alcança. Não há mãos para segurar e você treme por horas antes de conseguir cochilar. O que será que faz o seu amor? Se você pegar o carro em um acesso súbito de loucura romântica e dirigir até o seu destino, diga-me, como é que sua pessoa te receberia? Talvez um olhar insinuante que acusa o seu lunatismo. Talvez uma face horrenda de esgar interpretada por pura questão de oportunismo. A gente sempre enxerga o que vê? 

       Saí daquela casa como outras tantas vezes. Era quase tão minha quanto àquela em que morei. Achei que sempre ia voltar. Inocência… as crianças viram jovens, os jovens viram adultos e os adultos se tornam velhos. Cedo ou tarde é preciso aprender e, goste ou não, você aprende. Aprende a lutar contra as injustiças ou a permiti-las ou a participar delas. Aprende a erguer os punhos ou a desviar os olhos. Você se esforça, mas também descobre que nem sempre isso adianta. O que é que funciona de maneira real e objetiva? Você tenta disfarçar suas ambições de maneira furtiva, mas nem sabe o motivo de escondê-las. Acha que é um equívoco crasso sonhar em ter um lugar ao lado das estrelas? Cesso o devaneio para que volte a me concentrar aqui. Meu instinto protetivo nunca arrefeceu, mas uma conversa específica me envelheceu. Ainda que tenha sido durante um sonho, eu me espantei com o seu jeito peculiar de pescar em mim o que melhor havia aqui dentro e eu ainda nem fazia ideia. Disse-me com uma confiança revestida de qualquer coisa bonita, na verdade, coisas realmente interessantes e lindas. Abordou o meu modo de pensar e me fez ver que havia outra maneira de ver. Revi todas as minhas hipóteses com outras perspectivas. 

       Bom, você me envelheceu. Esse conhecimento não é absolutamente necessário, mas faz bem. É o tipo de coisa que cresce sem medida e sem precisar de qualquer tipo insistente de impulsão. As minhas intenções são bem esclarecidas quanto aos assuntos do coração. Não me permito ser mais inocente, pois me recuso a repetir erros. Não posso me tornar a versão oposta das coisas quais acredito. É o dano que sofri que me reforça (e reforma), portanto, o sofrimento foi bendito. Digo e repito que, o abandono de coisas quais julgamos fundamentais é inevitável, pois é a maneira de nos transportamos sempre para a nossa própria essência. Há coisas, porém, que relutam e não aceitam o abandono. Felizmente não sou como essas coisas. Fecho os olhos e recebo o beijo do sono. É doce e me sinto aquecido e seguro enquanto durmo. Abro os olhos para notar que estou em uma terra metafórica e repleta de revelações que não encerram nada. Vejo a engrenagem que faz o mundo girar e choro por pensar que um dia acreditei que tudo estivesse ao alcance de minhas mãos. Presunção. Alguns mistérios nunca terão solução. Pássaros embranquecidos batem suas asas pelo negrume cósmico da galáxia, mas não consigo compreender. Você apareceu e me explicou sobre empregos novos, coisas novas, cores novas e animais. Confessou que era uma raposa original, da cor certa, mas não entendi suas palavras. A vidente disse para eu tomar cuidado com raposas e aqui estou, enterrando o meu instinto arisco para me arriscar ao risco. Estou envelhecendo.  

        É você que vai me humilhar diante do povo? É aqui que tudo acaba para começar de novo? Recuperei a expectativa da vida na possibilidade de te encontrar. Ninguém entre nós. Sorri de como você parecia meiga, quase engolida por seu próprio cachecol. Pequenas coisas nunca se apequenam. Grandes coisas nem sempre murcham. Ninguém entende, mas você é capaz de vencer. Resplandece em nossos olhos o brilho de quem compartilha um tipo secreto de prazer.

        De repente você me surpreende, age fora do hábito, quando brada sobre o quanto você mesma estava bonita. Indaga ligeiramente em um sobressalto: Você me seguiria pela eternidade em uma noite infinita? Sorrio e balanço a cabeça assentindo, pois sinto o momento exato em que se preenche aquele meu estranho vazio. O âmago desconfiado me recorda que a confiança é um prato que se come frio… 

        Ainda assim é necessário correr riscos. Valorizar a individualidade é fundamental para que saibamos educar os outros a nos tratarem como nós merecemos. Entendo agora as lições que ela me ensinou. De todo jeito ensinamento e aprendizado são formas de amor.

        Você realmente me envelheceu… 

Uma noite boa

Já estava quase dormindo quando ela disse, ei, eu achei aqui na internet, achou o que, perguntei, essas coisas bobas, ela disse e de olhos fechados vi o sorriso, que coisas bobas, posso falar mesmo, ela perguntou, eu disse sim, claro, fale sobre essas coisas bobas. Ok, se você pudesse levar alguém para jantar quem seria, vivo ou morto, indaguei, acho melhor levar alguém vivo, é, os mortos não sentem fome, eu concordo, quem levaria, Hayao Miyazaki, japonês, ela pergunta, sim, é japonês e você, não sou japonesa, bem humorada é, sou, quem levaria, pergunto, Will Smith, ela responde. Penso em chocá-la com meu brilhantismo de conhecimentos diversificados. Sabia que a filha dele chama Willa e o filho Jade porque ele é Jada e a esposa Will, não, ele Will e a esposa Jada e aí usaram os próprios nomes para nomear os filhos. Ela ri, ri bastante e o mundo se torna mais leve. Suspiro sentindo algo parecido com a última felicidade palpável. É, talvez seja felicidade, penso. Sabia ou não sabia, eu digo, do que você está falando, pergunta ela enquanto ainda gargalha, eu não sei direito, respondo, peço perdão então, perdoado, próxima pergunta, o que é um dia perfeito pra você, um que chova e esteja frio e eu possa beber bastante café com intervalos para cochilar com a pessoa que eu gosto, nós somos parecidos, ela diz, você e eu, sim, viu, vi, mas eu sou mais alto, sim, viu, vi. Veja a previsão do tempo, mas vou ter que fechar a página das perguntas, deixa pra depois, a previsão ou as perguntas, a previsão e o dia perfeito, próxima pergunta agora, manda, quando foi a última vez que você cantou para alguém? Eu cantei Frejat bêbado uma vez para a outra, faz tempo, ela pergunta com curiosidade sem parecer incomodada, faz muito tempo, respondo, ela me observa, eu sei mesmo ainda de olhos fechados, mas e você, eu cantei uma romântica do Cazuza para o outro e até gravaram um vídeo meu, jura, juro, um dia me mostra, eu não canto bem, não ligo, tudo bem, eu mostro. Agora algo pelo qual se sente grato, liberdade e você, independência. Mudaria algo na maneira como foi criado? Pediria para que meus pais me incentivassem ao hábito de ler livros. Aprendi depois de bem velho e você, pergunto, eu não mudaria, ela diz e emenda, ei, você dormiu, ela me pergunta e se aproxima para me dar um beijo na boca, ei, ela diz de novo e se debruça em mim sem roupas. Você está acordado, decreta, não tenho certeza, mas acho que sim, ela ri, seu idiota, aguenta firme, ainda faltam muitas perguntas, pergunte, que horas são, isso está no teste, não, confere no celular, duas e quarenta e sete, que horas você precisa acordar mesmo, seis e meia, posso parar, ela diz, eu sei que não pode, ela ri, eu também. Como você se sente sobre o relacionamento com sua mãe, eu primeiro, ela se antecipa, tivemos nossas brigas, não é fácil, mas hoje nos entendemos e você? Não conheci sua mãe ainda, você é um idiota, eu sou, responda, eu me sinto feliz e orgulhoso, somos bons amigos, afinal. Algo que você gosta em mim, eu gosto do som da sua risada, do jeito que você mergulha em mim quando me olha e de como você é irrefreável e pergunta inoportunamente, idiota, diz ela rindo, abraça-me e parece desistir do questionário, mas não sei. Meus olhos pesados cedem ao sono, durmo, sem sonhos, sem nem desconfiar do que é que ela gosta em mim.

Metáfora

     Muito bem, vou começar. Não, na verdade, nada bem aqui. Nada bem comigo. Como eu poderia falar dela e me sentir bem? Parece piada que eu tenha dito algo assim, mas vou tentar organizar as ideias na minha cabeça antes que elas pareçam mais ridículas do que em qualquer outra cabeça ou lugar. Esqueça isso também. É preciso me expor completamente e ser ridículo é só uma condição básica para o que acontecer a seguir se tornar crível, portanto, para que minhas palavras tenham a mínima credibilidade, eu vou dizê-las em voz alta diante do espelho. Prometi a metáfora, muito bem, mas não é como se eu fosse capaz de metaforizar alguém como ela. Alguém que sabe sorrir com os olhos e abrilhantar uma noite escura com apenas um vislumbre. Nela há promessas de coisas que o mundo nunca viu. Sei, sei bem o quanto isso é brega, mas o que perco que já não perdi antes? Embaralho-me em mim. Juro que meus próprios pensamentos voam em círculos contrários e se chocam e se misturam e se confundem… Eu não sei o que acontece depois. Eu sei que algumas mulheres já roubaram a minha voz quando pretendi dizer algo agradável ou suficientemente inteligente. Meus pensamentos, de repente, eram mais vagos do que uma folha de papel inteiramente em branco. O que ocorre, porém, é que com ela, as palavras nunca me fugiram. Elas bailavam na minha frente como se eu estivesse dentro de um mundo perfeito. Entende? É claro que não. Como alguém entenderia?

      Vou supor que ela nunca leia este rascunho e me certificar, ao menos, mentalmente, que ela nunca escute isso quando eu falar. Engraçado que eu a vi apenas uma vez e foi quase uma década antes, mas não era como se eu me lembrasse. Será que foi desatenção minha ou será que a vi somente em sonhos e inventei tudo isso? Quando criança vivia absorto em mim, preocupado apenas com minhas fantasias. O tempo passou, mas eu não passei. Quando mulheres assim, olhavam-me, bem, eu corava e desviava os olhos. O irônico é que me tornei hoje alguém capaz de suster o olhar de volta e coincidentemente nos reconhecemos tantos anos depois.

      Naquele dia eu já havia concluído que ela era absolutamente incrível e sua presença era calorosa e expansiva, ao que, qualquer pessoa gelada, seja por analogia ou por nascença, pode presumir e antecipar o degelo das próprias emoções. Sei que neste instante soo absolutamente imbecil, mas é impossível fazer isso e transmitir a mensagem sendo racional. Eu nunca perdi meus pensamentos na presença dela e meu coração, por incrível que pareça, torna-se cada vez mais e mais feliz conforme nos encontramos. É como se a cada novo encontro, eu pudesse captar um novo detalhe. Guardo esse romantismo infantil para os tempos em que se fizer necessário em minha velhice senil, mas, por favor, digo a mim, nunca se esqueça de nunca dizer isso a ela. Você sabe que ela merece ouvir algo que nunca disseram, mas seria como tentar acariciar um gato de rua. Os felinos são, por natureza, fugidios e ariscos. É preciso saber como manter alguém como ela por perto. Eu que sou bastante tolo e inadequado nas minhas adequações, eu me aproximo dela só quando minha mente termina de formular complexas equações. Como não afastá-la? Ainda assim não há matemática que baste, mas isso deveria me impedir de tentar? As estrelas são, por natureza, inalcançáveis, mas será que ela vai rir se eu disser que a gente precisa lutar pelo que sente? Seria vexatório tentar derrubar uma estrela com uma pedra apenas para torná-la cadente?

Desta forma garantiria meu pedido. Onde é que eu estava com a cabeça quando confessei que você era como uma metáfora aos meus sentidos?

      O carnaval te vestiu bem. Não. Você vestiu bem o carnaval. Dentre todas aquelas pessoas, você parecia ser a única especial. Certamente brilhava de um jeito diferente. Cintilava de um jeito que fazia com que meus olhos não conseguissem permanecer completamente abertos. Você era o carnaval e o carnaval só era o que era por sua causa. Isso. Isso se aproxima um pouco do que eu gostaria de falar. Você realmente estava no carnaval naquela noite de lua? Talvez eu tenha apenas imaginado, mas me recordo do que preciso. Apoteose solar no tempo-espaço do seu sorriso. Eu me senti afundar em um oceano que sequer existia. Quais mistérios será que residem em seus beijos? Quais são as chances de que sumam de mim, sem que eu os mate, esses tantos desejos? E se eu te dissesse que diante da sua presença à época, ninguém se importaria com a fuga de Helena para Troia? E se eu dissesse que heróis e vilões não notaram a mais brilhante das joias? E se eu dissesse que o mestre Oscar Wilde se engana? E se eu dissesse que ele errou quando disse que a gente sempre destrói o que mais ama? E se eu forçasse o inglês nas minhas palavras e nós brincássemos de seek and hide? E se still in english fôssemos news Bonnie & Clyde? Tudo bem, não vou exagerar, não vou falar sobre Romeu ou Julieta, mas presumo que toda lagarta que a veja voar, em seguida, deseja logo se tornar uma incrível borboleta. Seria bom poder te acompanhar no seu mundo, voar junto, ainda que só de vez em quando. Duvido que… Não sei ainda se me faço entendido. Você entenderia se eu dissesse novamente que você é como o sol? Entenderia se dissesse que você seria minha Sophie se eu fosse o mago Howl? Vou tentar, enfim, pela última vez. Eis a situação… Você percorreu atalhos até o meu coração. Sempre que eu a vejo, indago se sou eu o meu próprio algoz. Poeta que perde a rima pelo desejo; homem falante que perde a voz. Noutra noite de carnaval me cedeu brilho, pois o sol não se preocupa em se dividir. Como um trem desgovernado descarrilho toda vez que a observo sorrir. Você é mais vasta que a imensidão do céu azul. Dona de si sempre se basta: it’s all about you. Perdi a metáfora e a fala… Perdi meu rumo e tudo o que almejo. Quando a loucura sobe, a boca cala. Lamento que nunca com o gosto do seu beijo. Sei que novamente esmurro pontas de facas, mas o que posso fazer? É melhor ser ridículo e falar do que dormir sem ter dito o que pensei em dizer. L’amour est un chien du diable, mais c’est mieux être mordu! Acho que concordo com o trecho acima referido. O amor é um cão dos diabos, mas eu prefiro ser mordido. 

      Essa foi a loucura mais brega que eu já disse na minha vida.
Você me pediu a sua metáfora. Espero que não esteja arrependida.

      Novamente surto. Sussurro que amo vultos, embora saiba que são apenas sombras pálidas de coisas inexistentes. Amo, na verdade, a palidez da alma de quem não tenta ser mais do que sente. Amo ainda que meu amor seja criação de minha própria mente. É duro vagar solitário em mundo que se faz quase sempre indiferente. 

Café e chuva na Paris do meu coração

Anteontem choveu longamente na cidade qual moro. O resultado foi catastrófico. Tudo o que se vislumbrava, principalmente das ruas próximas ao extenso córrego, estava alagado. A água pode ser cruel, ainda que seja invariavelmente mais suave que o fogo. Os noticiários da televisão anunciavam prejuízos severos para a prefeitura municipal. Um homem exageradamente gordo, repleto de dobras e dono de um bigode espesso e grisalho, comunicou que o prefeito havia tomado medidas com caráter de urgência, pois sabia a necessidade de agir com rapidez. Observei o desenrolar da grande confusão e não pude deixar de rir, pois o funcionário do prefeito, instruído, simplesmente era proibido de atuar de outro jeito. Suas palavras haviam sido cuidadosamente escolhidas por terceiros. O fato era que todos estavam deixando a água rolar, o que suponho que não seja muito recomendável nos casos de enchentes. Por que deixar a água rolar quando ainda há maneiras de agir? Por que assistir estático quando pode fazer a diferença e interferir? A chuva continua hoje, mas os amantes das tempestades logo se decepcionarão. Eles ainda não sabem que no dia seguinte o sol enxotará as nuvens e brilhará esplêndido como no ápice do verão. O céu parece zangado e carregado, mas eu me tranco no porão. Não vai chover, exceto nas cidades repletas de excentricidades tão ricamente adornadas em meu coração.

Acordei em minha cama no começo da tarde de ontem. Tive dois sonhos sexuais e suponho que tenha os sonhado por não ter feito sexo recentemente. O primeiro sexo soou adequado e o segundo foi excelente, mas as companheiras agora esquecidas, eram, de alguma forma indizível, apenas estranhas que não deveriam estar onde estavam. Ainda assim gostaria de lembrar dos rostos assim como jurei me recordar de seus gostos, antes que o paladar se perdesse no mundo de fora. Sonhos lúcidos de melhores horas!

Levantei-me e tentei adivinhar o dia sem sair da escuridão. Claridade exagerada, pensei. O sol ardia forte fora da casa, mas ainda chovia dentro de mim. Olhe… Veja, eu jurava que tinha fechado todas as janelas, mas a sala está molhada. Eu tive a impressão errada de que ontem era um daqueles dias quais suamos ainda que estejamos parados. Será que a confusão se deu por ter me afogado? Agradeci quando o vento gelado invadiu a casa, mas resmunguei em desconforto por pisar com os pés quentes no chão frio. O choque é o que nos desperta e mantém alerta. Sigo a vida com boas e novas lembranças, mas é estranho me lembrar de tudo o que houve. Há arrependimentos, porém, eu sinto realmente tudo o que fiz. Estremeço. Será que imaginei aquelas ruas antigas? Será que aquelas paisagens espetaculares foram inventadas ou jazem esquecidas? Será que modelo a minha raiva, meu desespero, meu medo e saboto o meu jeito de ser feliz? Será que há alguém verdadeiramente lúcido que saiba o que diz? A luz solar esquenta tudo lá fora. Desafio-a sendo a invernia. Abro os olhos e observo o giro de alguns discos de vinis. Ainda estou escorado em um balcão aguardando o meu macchiato depois de ter tomado dois cafés italianos em uma tarde chuvosa em Paris. Neva lá fora e a neve é mais real do que o passado, o presente e o futuro. Apostarão sobre a minha permanência mesmo com a minha humilhação.

Enfim, o novo dia, tão inevitável quanto singular. O frio retornou. É melhor aproveitá-lo. Tudo se parece e nada se repete. É melhor aproveitá-lo. Vi em uma rua aqui perto de casa mendigos embriagados lutando pela guarda de um cachorro, mas não estou falando sobre batalhas em tribunais. Eles gritavam furiosamente. Dedos em riste, testas enrugadas, cuspideiras embutidas nas falas. Saio de perto, mas não sem antes sentir pena do cachorro. É melhor sentir algo.

Faz um frio do caralho, mas eles não se importam. O clima é apenas uma minúscula rusga no meio de um mundo impreciso de detalhes sórdidos. Desço a escadaria após ter visitado a basílica de Sacré Coeur. Os vendedores idiotas chegam empurrando chaveiros e pedindo dez euros, mas empurro suas mãos com a mesma agressividade com que eles me empurram quinquilharias. Fitam-me com raiva e me xingam em francês. Eu bem que gostaria de saber como xingá-los em francês, mas só teço elogios em meu próprio idioma sobre as mães deles. Caminho sem parar e passeio pela Champs-Élysées, mas como estou ali sem estar ali, ela não me parece muito diferente da rua dos ricos que visitei em São Paulo. O desinteresse me choca. A minha sonolência em mim me assusta. As mulheres da cidade das luzes são bonitas, mas nesta visita não captam minha atenção. Volto para o hostel diretamente para o meu quarto. Agora novamente estou fora dos lugares que me trazem incômodo. Ausento-me e volto em um ou dez anos. Vou ao nordeste do Brasil, antes de seguir para os Estados Unidos. De lá sigo (de volta) para a Europa e não consigo pegar um avião para o Japão.

Sinto uma raiva crescente no meu peito. Está ainda longe de mim este país que eu tanto aproveitaria. Lembro-me de que meu pai prometeu as passagens da lua de mel para o Japão, mas não há companheira e pela primeira vez não me deixo levar pelo desespero. Tudo bem, eu não tenho mais medo. Dane-se a lua e o mel. A minha prolongada ausência seguiu e não houve quem me procurasse. Puerilmente achei que estampariam meu rosto no jornal, mas o mundo seguiu exatamente igual. Neste momento tive a minha epifania e finalmente entendi. Eu quero mais é que os oportunistas e pessimistas e intrometidos se fodam. Sigam suas vidas. Como ainda é gratuito, por favor, não encham o meu saco. Peço ainda para que não tentem me alcançar, pois saí para jantar. Finalizo minha refeição sozinho e saio a esmo na cidade das luzes. Nas ruas certas sempre há iluminação. Ouço as batidas do meu coração. Ninguém nota este homem. Ninguém nota a camiseta com a grande ilustração de um demônio de fogo chamdo Cálcifer. Acreditam que a minha tatuagem solar é um símbolo maia da fertilidade. Não sei o que faço comigo, mas queria sacudi-los (às vezes). A conclusão é que a liberdade não traz necessariamente a felicidade, ainda que me permita fazer o que sempre quis. Fechei meu guarda-chuva e adentrei outra cafeteria numa noite nublada em Paris. Sentei-me solitário e esperei a minha bebida quente. Um gole de café é o que preciso para seguir em frente. Esqueci-me de como me apaixonar, mas fito a elegante porta de madeira com a ansiedade de um menino. Quem sabe aqui ou num bar lotado, na (no) Paraíba ou em Volgogrado, no trânsito fodido ou num flerte mal flertado, entre, enfim, alguém que mude o meu destino?

O problema é que a maioria sabe o que procura. Sou vasto, mas não tenho tantas posses. Confesso hoje não segurar muito em minhas mãos. Se você quiser correr o risco e entrar, prometo que a única coisa que não vai faltar são as xícaras de cafés quentes nos dias de chuva, sejam eles de riso ou de tensão. Talvez você escolha ficar, pois é confortável este lar qual chamei de Paris do meu coração. As noites são excessivamente longas. Os sonhos são desnecessariamente interrompidos quando o corpo termina de descansar. É difícil, mas é assim que as coisas são. Até que mude as gotas d’água e a cafeína são minhas únicas companheiras neste antro de solidão.

Do meu jeito

Porque você sempre pensava que sabia o que eu pensava, mas não é como se algum dia tivesse passado perto.

Eu, por outro lado, acreditava também que entendia como você se sentia, bom, pelo menos enquanto ainda sentia, até que deixou de sentir.

Olha, você enumerou os tantos problemas e os transformou em matemática simples, mas cruzou os braços quando me disse com aspereza, não, eu não entendo a matemática e não sei fazer contas.

Quem discute com a racionalidade? Agi como um idiota, pois tentei te ensinar equações quando você não queria se debruçar em soluções lógicas e dizia, não, não adianta, eu já disse que não sei fazer contas. Não tenho respostas.

Quando minha ausência cresceu, ora, por necessidade de crescer, quando a distância passou a ser obrigatória e não eventual, você me substituiu. Sua humanidade repentinamente dormiu no mecanismo da inevitabilidade das ações. Contradições.

Antes pensava que ser trocado assim era o mais triste dos fardos, porém, hoje vejo que você nem sabe o que usa para colar o buraco que deixei. Não, não me perdi, mas confesso, usei muitas coisas e certamente não devo me orgulhar da maioria delas. Tomei o extremo cuidado de ser cuidadoso.

Ainda assim a dor que realmente doeu foi a de ver seus braços não cruzados. Você, sempre tão péssima em matemática, enfim, raciocinou de maneira absolutamente lógica no pretexto para matar sua carência e solidão. Debruçou-se em cima de teoremas, contas fez em centenas, tudo para que fechasse a equação. E de repente amor, não é?

Você nem sabe, mas isso não a impediu. Pendurou-se em algo ou na ideia de algo, para que não fosse obrigada a crescer de uma vez só. Fez o que disse que não faria, mas e daí? Funcionou. Os fins justificam os meios.

Não, não foi isso que eu fiz, sim, eu estava carente, não, não foi por carência, sim, é, não, é que talvez você não entenda, cada um de um jeito, eu sei. Você sempre enrola, não, eu não queria que você fosse tão enrolado, sim, quis dizer não, mas nem tanto, eu não queria mudar o seu jeito. Queria apenas que você sumisse.

Sinto que envelheci, mas, sim, por aqui continuo bem. Não admito mais, juro que não. Você sempre me preteriu. Meus animais não são da sua conta e nem a minha família. Você pode deixar o fingimento para depois, sim, exatamente como fazia comigo.

Esqueceu que sou melhor para identificar mentiras do que para contá-las? Assim, admito, você me tirou do sério duas vezes com relatos falsos. Na primeira chorei. Na segunda gargalhei.

As discussões com os amigos continuam, não, nem todas vão terminar bem. Os problemas no trabalho se multiplicam, mas você é forte e os resolve, ainda que canse. Tudo pesa. A loucura nunca acaba, mas você já sabia. Você inventou uma fuga.

O que supus leve de repente pesou uma tonelada. É melhor soltar nossas amarras e flutuar por aí ou abraçar as responsabilidades do mundo e nunca sair do chão?

Ontem eu quis te mandar uma mensagem. Hoje foi sua vez. Bloqueei seu número, você sabe bem que mereceu. Falou sobre futuro como se ficcionista fosse, e, bem sabemos, eu sou o homem das fantasias por aqui.

Não, desta vez não dá para ser diferente, não, não vou desbloquear, não, não vamos conversar, sim, deve ser drama, não, não seremos amigos. Você não entende sobre amizades. Chega de ilusões baratas.

Lá vou eu ao banco. A fila está enorme. Você trabalha e se mantém fiel ao que chama de compromissos. Todos eles. Absolutamente racional até na irracionalidade. Infantil e boba, irreconhecivelmente exata.

Lá vai você continuar crescendo do seu jeito e vou me orgulhar em breve pelos seus avanços, mas não vou me permitir acompanhá-los. Meus olhos estarão descansando em outros países.

O mundo vai mudando conforme a gente muda. Tá olhando tudo?

Não, é óbvio que não me esqueci das coisas boas, embora uma tonelada de coisas ruins tenham sido forçadas em cima do que restava de agradável. Que absurdo é querer falar em amizade. Não basta de hipocrisia? Chorei abraçando uma figura pequenina e preta. Recebi o amor que restava de quem amor ainda tinha. O que ainda havia para quebrar, enfim, quebrou.

A minha cegueira da vista cresce. Os meus ímpetos são ainda mais honestos. A parte minha que tanto foi sua, assim, de repente, não é mais. Liberdade.

Condenarão minha prolixidade sentimental, eu sei, vejo e noto, assim como condenam minha prolixidade textual. Para que me estender?

Bem, eu não sei, mas é que precisa ser do meu jeito e ninguém pode opinar. Perdi umas tantas coisas, mas sou mais meu. Conheço e entendo o meu lugar. Ao que ficou para trás digo adeus.

Os pais não nascem velhos

Os pais não nascem velhos, eu pensei qualquer dia desses, após ouvir os relatos nostálgicos de minha mãe. Contemplava um pãozinho de batata e me disse que, à sua época, a minha avó lhe dizia para comprar o pão lá no Bulicho. Na nossa cidade hoje Bulicho é o nome de uma conveniência com todos os aspectos de um boteco, mas os cidadãos que lá frequentam não me agradam. Talvez seja pelo fato de que aqui na cidade Euclides da Cunha represente uma rua nobre. Viver é adaptar-se, disse ele uma vez e sorrio com essa recordação desconexa. Vívida esta memória do boteco Bulicho, qual por meus motivos desgosto, sejam eles banais ou não, reflito sobre o tanto que conheço sobre a vida de meus pais.

Contei para a mãe, dia desses, que em janeiro viajaria para a praia com os amigos. Ela franziu o cenho e me respondeu: isso é bom de se pesquisar antes. Eu e seu pai nos metemos em uma fria uma vez. Na época eu estava grávida de você, seis meses já e dormi sentada enquanto os homens todos dormiram no chão. Meus olhos brilharam com o interesse genuíno em uma história em que eu conhecia de tanto desconhecer. E como foi isso, mãe? Ela então me contou que alugaram um lugar que já estava alugado e por duas noites ela dormiu em lugares nada confortáveis. Azar maior foi o dos homens que tiveram que se espremer dentro do carro. E onde foi isso, mãe? Ela pensou rapidamente e respondeu Matinhos, sabe? Lá no Paraná. Bons tempos.

Achei divertido. Antes de nossos pais serem velhos, eles eram adultos e antes ainda jovens que viajavam com os próprios amigos para praias. Não havia GPS, mas havia boa vontade e entusiasmo. Contei mais sobre a minha expectativa de viajar e ela sugeriu alternativas, ainda que soubesse que eu não iria ouvi-las: Guarujá, Bertioga, Riviera são três praias boas no litoral de São Paulo. Fomos para Itapema algumas vezes, você se lembra? Era bem gostoso também. Bombinhas na minha época era uma praia tranquila, boa para banho. Santos, não! As praias de Santos não são boas.

Rememorei com certo saudosismo minhas idas para Santa Catarina com a família. Não me lembro de muita coisa, mas além de ser filho do César e da Etti, eu sempre fui desses filhos do mar. Acaso permitissem e eu passaria o dia todo na areia ou no mar. Construía meus castelos de areia e lutava com lendárias criaturas marinhas. Havia um restaurante no qual eu amava ir e foi lá que desde pequeno iniciei minha mania de provar os pratos exóticos. Não devia ter nem dez anos quando comi lula pela primeira vez. Só o meu pai me acompanhava nessas aventuras.

Voltando um pouco, meus pais existiam antes de eu existir, se é que por aí eu não existia de alguma outra forma ou jeito. Minha mãe contou que o conheceu em uma reunião do grupo da igreja que decidia coisas sobre essa excursão para Santos. E foi em Santos, vejam bem, que meus pais se apaixonaram e ficaram juntos. Duas de minhas tias, irmãs de meu pai, ficaram extremamente emburradas durante o passeio.

Meus pais casaram e primeiro veio o Caio. Depois muitas outras coisas viriam a acontecer, eu uma das mais importantes, é claro, mas quantas histórias e universos couberam neste caminho? Quanto se prende no filtro singular da memória? Quanto segue existindo num mundo particular? Futuramente eles se divorciariam, mas o que me pergunto é sobre quantas histórias não sabemos das pessoas que achamos que conhecemos sempre tão bem? O mundo é tão apertado para nos recusarmos a ouvir a história de mais alguém?

Hoje vivo minhas histórias. Sou composto por uma soma grande de fracassos e alguns momentos de pura glória. Oscilo entre dois pontos. Entre eles crio poemas, histórias e contos. Abraço estranhos com a intimidade que não se força, mas se derrama. Abandonei e fui abandonado. Um dia serei eu a narrar coisas aos meus filhos? Por aí sou quem posso ser. A maioria se apraz em me conhecer.

A grandeza suprema da vida talvez seja a de conhecer e viver os meus próprios dilemas. Minhas atitudes nunca são pequenas. Às vezes me arrependo. Outras vezes não. Meus amigos e minha família carrego sempre comigo daquele jeitinho que se diz: no coração. Que coisas prometem a praia no verão? A primeira vez eu somente com meus amigos. Espero que viva tudo o que possa ser vivido.

Os velhos todos, os pais, os avós ou nossas próprias versões futuras, sabem que por fora vamos envelhecendo dia após dia, olham-nos de perto, mas distantes com notável nostalgia. Os ciclos da vida mudam. Os pais não nascem velhos. Ninguém nasce velho. Os sortudos podem envelhecer. Os mais azarados morrem cedo.

A vida passa rapidamente. Você também sente quem te ama ou só ama o que sente? Deixo reflexões filosóficas de lado. Ninguém pode realmente filosofar em um texto feito em dez minutos. Olho pela janela e o dia é cinza. Sorrio. Quero comer pipoca, mas decido fazer o café primeiro. A cafeína é essencial e o resto não tanto. As palavras sempre me aliviam. Quem um dia me lerá nas entrelinhas? Há algo importante que certamente me esqueci de dizer, mas minhas ideias se transformam em fumaça. Aproveite tudo o que acontece, pois a vida passa.

“Só quero na minha vida gente que transpire adrenalina de alguma forma”. Gabriel García Márquez.

Descuidado

Ando por aí, admito, descuidado demais. Outrora fui tão ferido que o medo do perigo não pude deixar para trás. E me consideram leigo, mas o que trago, eu juro, é invariavelmente trazido como qualquer coisa que se traz. E tudo passou. Os mestres linguistas me odeiam, mas não calham de me deixar em paz. Para trás nada vejo. Para frente ninguém mais traz nada, mas param para me olhar. Eu viro e levanto o dedo, ouso e digo sem medo: Você poderia apenas continuar?

Olha, eu não tenho conseguido manter meu interesse em nada. Sou honesto, mas você quer repelir minha honestidade com argumentos. Cada um com a sua verdade, não é? Seus caprichos são como o sopro do vento. Ainda que eu desse ouvidos, diga-me, o que pode querer tanto de mim? Desça sua tão potente verdade em cima de mim. Que se vá ou que fique. Honestamente eu tenho dado de ombros e tanto faz. Sempre escuto com muita atenção. Ainda que ninguém note meus poços de escuridão. A vida é o que a gente faz.

E lá vou eu outra vez. Vejo-me fora de mim, veja, lá vou eu. Eu ou ele? Se eu estou fora não posso ao mesmo tempo ser dois. Que é que há? Ela perguntou se eu realmente sabia algo sobre o que eu sei. Gargalhei e não pude evitar minha crise de riso. Veja a prepotência que carrega por aí todo filho de Narciso.

E lá vou eu outra vez. Nos meus bolsos sempre carrego um dado de vinte faces, uma pedra do meu signo e uma chave que nunca abriu uma porta. O dado decide sobre coisas importantes. A pedra me ajuda a ter um pouco de sorte. E na grandiloquência dos meus devaneios supus que a chave um dia possa abrir a porta para o amor. Por ora ela segue inútil, mas quem sou eu para reclamar de inutilidades? Não raramente sou tonto.

Há um paradoxo na busca pelas coisas que queremos. Atingi-las significa a obtenção do resultado final e com a recompensa a nossa luta deixa de ser assim tão significativa. Se você obtém o que quer possuir, o que é que pode querer a seguir? Se você mata os motivos pelos quais vive, pelo que viverá depois?

O sentido não pode se perder do sentir. O sentir pode se perder do sentido. Na busca de uma extravagância, ignoramos nossos próprios discursos na busca de viver a vida. Só a experiência nos permeia com o que não sabemos de fato?

E se você silenciar por muito tempo alguns pensarão que podem falar por você. Sobre você. E contarão suas próprias verdades ainda que eivadas em vícios tão esdrúxulos ou mentiras tão descaradamente falsas quais possam se valer. Eu erro ou acerto, mas não me omito. Isso não me faz melhor ou pior e a razão de me narrar não faz sentido.

Mudo meus caminhos. Toda velha estrada é inútil. Decorei os caminhos como havia decorado os telefones na época em que ainda se telefonava. Agora todos refutam ligações com o pretexto da conveniência de que nunca se sabe o que dizer ou o que conversar, mas é uma bobagem sem tamanho. Sempre sentiremo-nos assim tão estranhos?

Estradas velhas não levam a novos caminhos. Virei na esquina contrária, pisei de propósito na poça d’água, ignorei a chuva e entrei no meu carro. Passei por túneis que se pareciam com cavernas. Descobri-me meio louco, continuei mais um pouco e gritei até ficar rouco. Gargalhei mais do que qualquer outra coisa.

Ando por aí descuidado, admito, em todos os aspectos imagináveis. Não há quem me cuide, exceto eu mesmo. Nada me ilude quando percorro meus caminhos. Há tanta coisa que perdi, mas ainda que não me cuidem, alguns me acompanham. É bom ouvir sons de novos passos. Juntos, ainda que em pedaços. É tão bom não estar sozinho.

Onze e qualquer coisa da terça-feira. É hora de pensar nas obrigações de amanhã. É preciso encarar o trabalho que é trabalho aos olhos de todos e o trabalho que apenas eu considero trabalho. É como deve ser. Este texto leva de nada a lugar nenhum. Sentir-se vazio é algo comum. Não me permitirei, porém, que essa seja a temática dos meus dias. Preparo-me para dormir, escovo os dentes. Amanhã é dia de ser feliz.

Tomates

Vou ao mercado. Desço pelo elevador e entro no carro sem ligar a música. Sincronizar o bluetooth não é tão complicado como eu imaginava, aprendi dias antes, mas não me sinto paciente. Opto pelo silêncio e prossigo no meu caminho. Os campo-grandenses comem as faixas de sinalização como se estivessem com fome. Não é novidade, porém, impressionam-me os erros tão básicos em tamanha quantidade. Estaciono, tranco o carro e entro no mercado. 

A primeira coisa que faço é óbvia. Consulto minha lista de compras: tomate (3), cebola (3), maçã (2), ovos, suco (2), iogurte (5), pizza de frigideira (5), pão integral (1), leite. Decido que vou tentar fazer isso velozmente. Pego uma cesta para segurar minhas compras nas mãos, pois admito que pegar um carrinho seria exagero. Inicio minhas compras pelos tomates e o primeiro que pego parece zombar de mim.

Que é que tenho para ser efetivamente zombado por um tomate? Escondo o tomate zombeteiro ao fundo e seleciono outro. O segundo tomate é incomumente vermelho escuro e isso me irrita. O terceiro é extravagantemente verde e isso não é certo. O quarto possui tantos machucados e cortes que parece ser um tomate que sofreu ao longo da vida. Como é a vida de um tomate sofredor? Respiro fundo e olho bem para cada tomate. Eles não me olham de volta. Escolho três que não me parecem tão ruins assim e sigo. 

Pego três cebolas boas, duas maçãs adequadas e com facilidade acho o pão integral da única marca que gosto, mas o fim do mundo se anuncia junto com a traição do mercado. Os sucos não estão nas prateleiras de sempre, pergunto sobre o paradeiro das pizzas e sou informado de que elas estão esgotadas. O único iogurte que achei está vencido e me enraiveço com o preço do leite. Impaciente e quase sem escolhas, eu opto por levar duas cervejas, única promoção disponível, mas o que me tira do sério é que resolveram mexer até no mercado. A mania idiota de mudar tudo de lugar!

Uma criança me encara enquanto pago. Loiro, magro e provavelmente com uns nove ou dez anos de idade. Ele me olha fixamente e eu faço um sinal positivo para ele. Como quem antecipa meu dia de estresse, ele pega repentinamente o saco de tomates do carrinho de sua mãe e me mostra. Rose, a atendente, observei bem no crachá, estende o meu troco enquanto eu abafo a vontade de rir. O loirinho corre de volta para os corredores do mercado. O que anuvia minha mente repentinamente desaparece. 

– Boa noite, senhor. – Fala a mulher com uma voz agradável e simultaneamente mecânica. 
– Boa noite, Rose. Tenha um ótimo resto de semana. – O rosto de Rose se ilumina e ela fica feliz com quem pôde notá-la. O menino salvou a minha noite e me protegeu dos tomates; eu fiz o meu dever e fui educado como se deve, mas como sei que raramente são. 

Pego minhas compras, volto para o meu carro e sigo para a minha casa. Não quero passar perto de tomates hoje. Penso em prometer que não vou me estressar mais durante a semana, direciono meus pensamentos para o café da manhã de amanhã e sou tomado por uma súbita decepção. Esqueci os ovos. 

O que não se espera

O que não se espera é sempre excitante. A promessa do que está para chegar nos deixa ébrios, mesmo antes da bebida. E bebemos, é claro, quem deixaria de beber em uma noite tão quente? Quem deixaria de beber em uma noite tão bonita? Quem deixaria de sorrir com uma companhia tão bendita?

Nem tudo o que falo é bem dito. Às vezes gaguejo num constrangimento bonito. Torço, porém, para que nossas atitudes benditas sejam também. Que mal faz em beber um pouco além? E a curiosidade que há é porque há de haver. A gente se conta e se desvenda um pouco demais, um pouco ou muito além do que é preciso. E a preciosidade que há em conseguir fazer brotar num rosto novo um largo sorriso mexe por dentro. Dois estranhos se estranhando e descobrindo a inédita felicidade que se compartilha em momentos bons. Silêncio. Barulho. Sua voz. A minha voz. O reconhecimento é tácito. É como se algumas pessoas soubessem pegar atalhos.

Escolhe aí o que você quer beber.
– Por mim tanto faz.
– Por mim também.
– Essa não te dá dor de cabeça?
– Eu nem sei.
– Tanto faz?
– Tanto faz.

E aí a gente se perde e quer forçar o esquecimento. Um clima pinta, a gente se finta, antes de voltar a se fitar. Suas palavras derramam tinta, mas não é você que pinta? E o clima amistoso muda e tudo parece ligeiramente fora de lugar. Eu mais dentro de olhos grandes provocativos, os olhos também em mim. Que é que há?

Não era a última?
– A próxima vai ser.

E a gente sabe que poderia continuar até amanhecer, mas não vamos. Hoje ninguém sai embriagado. Então recuo depois de ter avançado. Na verdade é quase como perder o tempo certo de furar o sinal durante as madrugadas. Arrependo-me, mas menos do que eu gosto de admitir. Ainda assim sei que não posso e nem vou me repetir. Este é o dilema que se apresenta e urge em mim um desejo de consumir. Refreio-me. Os limites, repito em voz alta, existem sempre.

O que não se espera é que tantas vontades surjam tão de repente.

Sumiço

Desde que decidi sobre o que evitava decidir, certas coisas mudaram de aspecto. Acontece que decidir é necessário, mesmo quando a gente se cansa, mesmo quando a gente ainda quer saber. Todo mundo decide e em dado momento você vai perceber que não há exceções. O não decidir de quem se diz indeciso move o mundo na estagnação da mesma forma que o move na decisão. Nada permanece parado.

O que calha mencionar, aqui me repito e não peço perdão, pois me cerco pelas coisas que olho nos caminhos quais percorro, é que, sem dúvidas, a vida pode se tornar mais leve quando nossas decisões são mais pesadas. Ou simplesmente mais definitivas. Quanto mais você se demonstra firme, a dureza das suas decisões ajuda diretamente a formar a solidez do seu caráter. Você sabe que a irrelevância não combina com seus tons. É preciso se entender no comando da própria vida.

Olha, não posso ser exatamente como querem que eu seja. Se outro dia não pude aceitar este fato, se outrora isso pesara como o pior dos fardos, enfim, admito que posso viver em paz com o que escolhi. Liberdade e libertação. Não golpeei primeiro. O ato mais pérfido não foi meu, mas me vi avulso e na tristeza do lusco-fusco, notei-me capaz de tudo. Posso reagir. Posso agir. Tenho a capacidade até de ser um sujeito vil. No mergulho profundo nas experiências consigo sentir o mundo que nunca me sentiu.

Tudo isto já em pauta, reforço-me em convicções minhas. Tão verdadeiras ou falsas são elas como quaisquer outras convicções poderiam ser. Sou jovem, mas honestamente me sinto velho diante das situações. Às vezes me falta o ar e me pego a lembrar de situações. Esqueço-as e me lembro de mim. As coisas acontecem e deve ser assim.

A segunda-feira chega. Todos parecem tão cansados. Os meus olhos doem, o sono se perde e acordo bem cedo. Não preciso sair de casa. Respiro fundo e deixo-me estar por um instante prolongado. Percebo a beleza do universo quando a manhã se empoleira em meus ombros. Ou teria sido eu que me empoleirei na Vida?

Os pássaros cantam baixo. As máquinas das obras produzem barulhos mais altos. Lá vão os operários ao trabalho. Lá vão eles construir todas as coisas que se constroem. Já notou que toda criação é barulhenta? Assim como toda decisão que é suficientemente importante para fazer permanecer ou fazer desvincular. O silêncio diz muito. O barulho também.

Ouço ao longe alguém chorar. Chore, eu digo para quem quer que seja, chore, pois até no choro existe beleza. Há quem perca a capacidade de notar suas tão claras qualidades. Há quem te force a escuridão quando você se torna a personificação da claridade. Decida-se. Afaste-se.

Amanhã é tarde demais. A gente espera, tenta e insiste. Trezentos e sessenta, crônica, poema, outra cena de música triste. Às vezes há muita coragem quando a gente então desiste. A decisão foi tomada em silêncio, surpreendendo-me com a ausência de alarde. Era tão discreta que nem soava como uma decisão minha, mas me decidi.

Eu avisei que minha última aparição seria naquela tarde. Quem sabe não me tornarei uma memória que machuca e arde. Como diria Caio Fernando Abreu, nada em mim foi covarde. Talvez nos seus melhores sonhos, eu seja o fantasma que um dia você foi. Um espectro que assusta e aterroriza, que da dor se regozija, sombra esquecida de um esquecido amor.

Você pergunta quando e onde, como se brincássemos de esconde-esconde, como se tudo não passasse de um jogo bobo para você. Você decidiu e eu também. Nunca mais vou aparecer.