O que acontece a seguir

     Quero um gole de álcool, por favor, digo, tentando manter a dignidade no tom de voz. A mentira ganha vida com o copo cheio de cerveja e nem tenho tempo para confessar que só desejava mesmo uma xícara de café. Sou um bom mentiroso, embora tenha o péssimo hábito de dizer a verdade. Qualquer um verdadeiro o bastante percebe a vulnerabilidade que se coloca por ser sincero. Agora você me desagrada e é o bastante. Este é o ponto de não retorno, , eu digo, se deseja tanto assim ir. Não é preciso sentir asco da humanidade e nem pena dos que sofrem. É o balanço natural. Aos tristes, paciência, pois a felicidade ainda rondará teus dias. Aos felizes, percepção. A felicidade é fugaz, pois é justamente por isso que se faz mister aproveitá-la. Ser feliz desconhecendo a noção da própria alegria fará com que procure o que já está vivendo. Faço parte dos descuidados lúgubres neste instante. Vejo placas sinalizando para que eu tenha cuidado. Ignoro-as. Sei que vou me ferir. Ignoro-me. Abro minimamente o que minha mente eloquente esteve revirando sem qualquer cuidado.      

      É irônico o quanto se desconhece o conhecido. Memoriza-se todas as falhas e manias; risos e costumes; a aversão por poesia e até os ritos de ciúme. Chega-se então, veja bem, em um ponto estranho e sólido. Naturalmente, você remói uma frase: “eu sei o que acontece a seguir”. Era divertido fazer adivinhas sobre relacionamentos fugazes ou motivações, quando não era o seu próprio em questão. Por brincar tanto, você realmente pressupõe que sabe o que acontece agora. Em regra, aceita a consequência do fato, ainda que este seja desagradável e degradante. Permanece, pois diz a si mesmo que é a última vez, mas seu corpo estremece e você toma nota da repulsa. A mentira ingênua não pode ser aceita, por tal qual é expulsa. No fundo você sabe muito bem que nada vai mudar. Mas você é cabeça dura e insiste em insistir. Vai até além do seu limite, mas qual a razão? Ego? Amor? Medo? Você segue pela voz que fala enquanto você cala seus mais obscuros segredos?    

Um dia, não diferente de qualquer outro, durante a primavera ou mesmo no verão, você saberá o que acontece em seguida. É uma manhã nublada e fria após uma noite de chuva violenta. Eis que uma gelidez inesperada te ataca e te acomete. Penetra-lhe os ossos e faz morada, como se fosse parte do seu sangue. Você não se esquece. Trouxeram-lhe um roteiro novo e previram suas possíveis reações, pois também te conhecem. O jogo não é jogado exclusivamente por você. Eles sabiam o que aconteceria a seguir. Supuseram que a minha resposta seria “Implore meu amor, pois então fique, por favor”, mas é um lamento tardio após uma agressão direta. O costumeiro já está distante e nem somos capazes de nos ofender de forma reta, como fazíamos antes. Não agirei como um pedante, prometo, nem por um instante. Isso está em minhas novas metas.     

      Eis que me descubro noutra manhã de outubro. Os meses silenciaram vozes quais eram tão agradáveis. Os ventos afastaram preguiçosos sorrisos afáveis. Vejo-me e internamente noto que a minha algidez compete com o Alasca. Aguento tinta, digo. Aguento tinta, resmungo. Aguento tinta, desafio. Aguento tinta, seu filho da puta, desabafo. Estou mais maduro, mas às vezes me faço surdo às centenas de intrometidos que querem opinar, pois refuto suas opiniões. Amanhã ainda não sei, mas me basto hoje. Não quero ser sensato, pois tenho sido assim a minha vida inteira, vê? Então se recolha com teus míseros fatos. Tua reclamação cabe numa algibeira. As nuvens mudaram de lugar. Também as manias, os hábitos, exceto teu jeito de se fazer fortaleza. Há agora um desejo constante de atingir o cume, mesmo ao longe vejo sua inenarrável beleza, mas há ausência do seu característico lume. Está vestida toda em resquícios de tristeza. O que se pode fazer?

      A culpa foi toda minha. Não. A culpa foi toda sua. Toda. Outra mentira. Talvez a culpa tenha sido toda nossa. Eu faria os cafés pelas manhãs, mas e daí? Não há príncipes heróis e nem princesas heroínas. Somos todos força fraca? Eu fiz os cafés, mas isso não me exime. Isso não me exalta. De quem é a culpa, afinal? É possível identificar o transgressor? Quem poderia dizer quem fez o disparo que matou o amor? Eu não sou capaz de dar nome ao vilão. Nunca fui bom em elegê-los, ainda que meus punhos se ergam até hoje para enfrentá-los. O que é que se conclui nessa história? Nada. Há tanta gente que está com o futuro no passado. Isso é mais melancólico do que deprimente. Rio com gosto diante do que meus pensamentos encerram. A vida é em frente. Tomado pelo sono, enfim, vejo. É tão óbvio tudo o que não vem a seguir. Sorrio. Quase não acontece, mas eu adoro errar minhas previsões.

Meio, começo ou fim

Que se resuma o ano em resumos inúteis de que nada valem aos outros! É tempo de falar sozinho, sim, ainda que digam que não há benefícios nos monólogos, eu sei que dirão isso e sei ainda que eles estão errados.

Inúmeras vezes fui acometido por uma espécie de tristeza deforme, maliciosa, que se aproximava de um jeito suspeito, espreitando o meu espírito. Nunca soube dizer de onde vinha meu reflexo melancólico, mas talvez fosse o costume errado de se acostumar com menos do que a gente merece por pensar também que merece pouco. Quem é cônscio do próprio valor e lúcido sobre a própria vida nota com clareza que é preciso se afastar de algumas pessoas e que talvez novidades sejam a necessidade urgente do coração.

Essa tristeza tão idealizada chegava a ser fática. Eu a pintava em um quadro enorme qual chamava de Motivos. Eu amplificava meus contratempos, transformava vislumbres de dores em fantasmas realmente assustadores, até o dia que cansei de inventar mais medos e decidi ter coragem para enfrentar o desconhecido. Os amigos mais próximos deste ano não sabem o quanto foi difícil antes deles, mas eu cresci muito.

Perdido de tudo o que era Vida e despropositado de toda razão que tracei para a minha própria consciência, eu resolvi que seria completamente eu. Sem atuações ou personagens, sem medo das faltas e dos excessos, sem a preocupação de ser bem visto ou quisto por quem quer que me cercasse. Era a hora, enfim, de ser por mim.

O processo não foi fácil. Em todos os novos começos eu sofri. Parece exagero, mas é assim que eu me sentia. Alguns notavam a dor que me tornava charmoso, excessivamente denso para o ambiente. A maioria me deixava para lá, mas uma ou outra pessoa se demorava em mim, como quem quer saber o que faz um homem ser assim tão soturno. Eu nunca falhava em ser educado, mas definitivamente faltava leveza. Assim, nos começos dos começos eu sempre me embriagava. Tocavam o meu braço e o meu embaraço era perceptível. Calava pelo medo de dizer o indizível. Respirava a vida entre intervalos, sentindo o meu cansaço, eu demorei a entender que todo mundo é potencialmente incrível.

Errei por aí. Não havia motivos para ser tão racional ou apegado, mas eu continuava sendo. Li tantos livros e pessoas que conheci um jeito de aprendê-las. Eu sempre tive real interesse no que me diziam, pois quem é que fala sem desejar ser escutado? Eu, ainda que fosse em cada situação pura essência, falhava em ser compreendido. Não me alcançavam no meu raro sono e nem me paravam antes que eu já estivesse em outro ponto. Quis, vez ou outra, que os pontos fossem finais e eu pudesse me fazer pausas para descansos, mas ninguém sabia como me ler. A minha prolixidade de ser e de sentir só pedia um pouco de calmaria, mas o meu desespero era uma composição que ninguém sabia. Andarilho vagando pelas ruas sem esperança, eu percebia que não havia quem me alcançasse. Sussurrava para que me segurassem firme, pois eu começaria a correr. Não corria para deixar algo para trás, mas desejava arduamente que alguém pudesse sincronizar com o meu ritmo.

A canção era estranha demais. Minhas certezas anteontem eram tão fictícias quanto meus romances escritos. A música do meu coração, o diário bem relatado dos meus dias, o ímpeto escuro que me faz querer adormecer em pleno dia, tudo isso agora é ineficaz comigo. Levantei-me luz solar, abrilhantando o que havia ao redor e por automatismo outros brilharam ao me perceber. Eu não era metade de mim quando encontrei os meus novos amigos. Havia sozinho colado meus pedaços e me encontrado com o meu Eu verdadeiro. Qual é a diferença?

A cronologia do relato pouco importa, mas a tônica da vida que tanto corria era que eu não abria ou fechava portas. Até que fechei. Encerrei o poder que outras pessoas tinham sobre mim, pois notei que merecia me merecer melhor do que aceitava me ver. A vida é curta, relógios nunca param e a gente deve de aprender a viver. Não é preciso ser matemático para saber que o tempo é curto. A vida é curta, relógios nunca param e precisamos viver, crescer e escolher.

Demasiadamente humano para ser exato. Pontualmente exato para ser humano. O que fazia que eu tivesse vontade de ser quem eu sou? Aceitei tudo o que havia acontecido na minha vida. Perdoei quase tudo, menos a covardia propositada e direcionada. Chega o tempo em que a injustiça perde a relevância. Se me perdoaram pelos meus erros, eu não sei, mas fiz o melhor que pude me desculpando com sinceridade. É impossível ser grande sem humildade e qualquer um que faça confusão é realmente estúpido.

Quando o sol da minha pessoa anuncia o lusco-fusco, a promessa da escuridão que chega com a noite afugenta todos. Não há mais ninguém na multidão. Queria chamá-los de covardes, mas não sinto que é certo. Viver é uma jornada solitária no deserto?

Deixei minha ausência crescer quando algumas distâncias facultativas se tornaram obrigatórias. Pessoas são substituídas de vez em quando e o pretexto é o velho mecanismo da inevitabilidade das ações. Contradições são vistas e sentidas. Até onde você é fiel ao que acredita? Você finge que vive o que sente ou realmente se dedica?

Nas vésperas da conclusão do ano, eu me sinto velho com o quanto vivi e aprendi. Dorian Gray e Lorde Henry estavam errados, pois há outras maneiras de aprender que não a experiência, embora a experiência seja indubitavelmente o melhor dos caminhos. Aprendi principalmente sobre pessoas e sobre o que elas podem fazer. Não deixei que a amargura alheia me tirasse a doçura. Não deixei que a crueldade me fizesse mau. Ainda assim, eu endureci. Quando me vi cercado e tomado por incertezas, não sabia se meu corpo aguentaria as pancadas seguintes, mas me prostrei como o líder da minha vida e a linha de frente no campo de batalha. Aguardei pela derrota.

A surpresa, porém, é que sem armaduras eu era realmente mais leve. Pude lutar minhas lutas, mas pude fazer incontáveis outras coisas. Sorri mais. Por onde quer que eu fosse, eu tinha a liberdade nos meus movimentos. Conheci pelo menos quinze pessoas que quero que permaneçam por perto. Fiz pelo menos cinco excelentes amigos e em três deles confio minha vida.

Quando perdi o sentido em sentir, eu me vi melhor. Corri por aí, gritei, beijei, abracei, chorei e me vi livre de todo perigo. Quem estava por perto sempre queria andar comigo. Que maravilha é compartilhar a estrada com gente que gosta de você. Eu me perdi no começo, encontrei-me no meio, e o fim é histórias para décadas futuras, mas tudo bem se eu me perder. Nunca estabeleci nas metas da minha vida o sonho de ter tantas pessoas com as quais pudesse contar e aqui estão elas. Se eu soubesse o quanto minha vida melhoraria, eu talvez pudesse ter sonhado isso pra mim.

Instinto crepuscular que me domina e cresce. Um dia a gente recebe o que merece? Se a vida é pra valer, por que a gente se porta como se fosse um teste?

Não há complementos ou cerejas do bolo, mas há quem saiba viver bem. Quando se sobe a escada para lugares novos pela primeira vez, você nunca sabe o que vai achar, mas ainda que imagine a obviedade que está por surgir, é certo de que também falhará no perfeccionismo da descrição da coisa real. O que acontece é sempre mais significativo. Qual é o tamanho do medo que você sente de deixar novidades nascerem?

Perto do fim do que nunca vai terminar, eu me perco entre meios e inícios. Vejo pouco do que não importa e me sinto preparado para escrever novas histórias. Atenho-me aos fatos. Sigo no meu bloqueio criativo, mas por este ano sou absurdamente grato.

Exatas

Porque você sempre pensava que sabia o que eu pensava, mas não é como se algum dia tivesse passado perto.

Eu, por outro lado, acreditava também que entendia como você se sentia, bom, pelo menos enquanto ainda sentia, até que deixou de sentir.

Olha, você enumerou os tantos problemas e os transformou em matemática simples, mas cruzou os braços quando me disse, não, eu não entendo a matemática e não sei fazer contas.

Quem discute com a racionalidade? Agi como um idiota, pois tentei te ensinar equações quando você não queria se debruçar em soluções lógicas e dizia, não, não adianta, eu já disse que não sei fazer contas. Não tenho respostas.

Quando minha ausência cresceu, ora, por necessidade de crescer quando a distância passou a ser obrigatória e não eventual, você me substituiu.

Antes pensava que ser trocado assim era o mais triste dos fardos, porém, hoje vejo que você nem sabe o que usa para colar o buraco que deixei. Não, não me perdi, mas confesso, usei muitas coisas e certamente não me orgulho da maioria delas.

Ainda assim a dor que realmente doeu foi a de ver seus braços não cruzados. Você, sempre tão péssima em matemática, enfim, raciocinou de maneira absolutamente lógica no pretexto para matar sua carência e solidão.

Pendurou-se em algo ou na ideia de algo, para que não fosse obrigada a crescer de uma vez só. Fez o que disse que não faria, mas e daí? Funcionou. Os fins justificam os meios.

Não, não foi isso que eu fiz, sim, eu estava carente, não, não foi por carência, sim, é, não, é que talvez você não entenda, cada um de um jeito, eu sei. Você sempre enrola, não, eu não queria que você fosse tão enrolado, sim, quis dizer não, mas nem tanto, eu não queria mudar o seu jeito.

Sinto que envelheci, mas, sim, por aqui continuo bem. Não admito mais, não, você sempre me preteriu. Meus animais não são da sua conta e nem a minha família. Você pode deixar o fingimento para depois, sim, exatamente como fazia comigo.

Esqueceu que sou melhor para identificar mentiras do que para contá-las? Assim, admito, você me tirou do sério duas vezes com relatos falsos. Na primeira chorei. Na segunda gargalhei.

As discussões com os amigos continuam, não, nem todas vão terminar bem. Os problemas no trabalho se multiplicam, mas você é forte e os resolve, ainda que canse. Tudo pesa. A loucura nunca acaba, mas você já sabia. Você inventou uma fuga.

O que supus leve de repente pesou uma tonelada. É melhor soltar nossas amarras e flutuar por aí ou abraçar as responsabilidades do mundo e nunca sair do chão?

Ontem eu quis te mandar uma mensagem. Hoje foi sua vez. Bloqueei seu número, você sabe bem que mereceu. Falou sobre futuro como se ficcionista fosse, e, bem sabemos, eu sou o homem das fantasias por aqui.

Não, desta vez não dá para ser diferente, não, não vou desbloquear, não, não vamos conversar, sim, deve ser drama, não, não seremos amigos. Você não entende sobre amizades. Chega de ilusões baratas.

Lá vou eu ao banco. A fila está enorme. Você trabalha e se mantém fiel ao que chama de compromissos. Todos eles. Absolutamente racional até na irracionalidade. Infantil e boba, irreconhecivelmente exata.

Lá vai você continuar crescendo do seu jeito e vou me orgulhar em breve pelos seus avanços, mas não vou me permitir acompanhá-los.

O mundo vai mudando conforme a gente muda. Tá olhando tudo?

A minha cegueira da vista cresce. Os meus ímpetos são ainda mais honestos. A parte minha que tanto foi sua, assim, de repente, não é mais. Liberdade.

Condenarão minha prolixidade sentimental, eu sei, vejo e noto, assim como condenam minha prolixidade textual. Para que me estender?Bem, eu não sei, mas é que precisa ser do meu jeito e ninguém pode opinar. Perdi umas tantas coisas, mas sou mais meu. Conheço e entendo o meu lugar. Ao que ficou para trás digo adeus.

A morte das hipóteses

Recentemente fiquei preocupado. Primeiramente eu havia desistido de responder quaisquer que fossem as notificações no meu celular. Eu era um terreno logo após a chegada do meteoro. O meu rosto aviltava a destruição que eu sentia em minhas entranhas. Meus gestos mais simplistas eram, de um jeito ou de outro, dotados de extravagância. Personifiquei a catástrofe de viver. Colidi com o iceberg da minha vida. As pessoas no Titanic só notaram a colisão quando era tarde para evitá-la. Eu tracei a minha rota até a tragédia que se anunciava. Queria ver se meu corpo aguentava o impacto. Propositadamente fui de encontro ao que sabia ter força para me derrubar. Às vezes me surpreendo com a minha tolice. 

A vida é um caminhão em alta velocidade e você é um animal desavisado tentando atravessar a estrada em uma noite de chuva. Há coisas que talvez você possa fazer para não ser atropelado? Há como ser menos cego na perseguição dos objetivos? Há jeitos de viver sua vida de outro jeito? Há maneiras de fazer isso e ainda se sentir vivo? Provavelmente sim, mas você não quer fazer diferente. Não pode evitar o que nunca se mente e nem o pavor de não conseguir sentir o que não se sente. Será que vai mesmo se esquivar do instinto em buscar o outro lado? Será que vai tentar ainda que seja tão arriscado? Será que algum dia acha a felicidade por onde havia sequer imaginado? Só sei que evitei responder quem quer que fosse por quase uma semana. Escolhi a solidão. Meu pai reclamou comigo e achou até que eu estivesse bravo porque ele desmarcou o nosso almoço no sábado. Eu não estava bravo, mas ele achou que eu tivesse meus motivos. Ele tinha razão. 

Ausentei-me pelo prolongamento de uma ansiedade inédita que insistia em permanecer em mim. Não tenho o hábito de punir outros pelas minhas instabilidades. O que eu havia feito pra me sentir assim? Martelei esses pensamentos primeiro por dias, depois por semanas. Era eu o vilão principal em minha própria trama? Eu, ocaso impossível que ocorre na noite mais densa? Eu tão leve, mas de medidas tão intensas? Tão certo de que segui um caminho retilíneo, será que me perdi em vestígios deixados por outros? Será que meus esforços são magnificentes ou ainda são poucos? A hesitação me tira a energia. Como posso aguentar até o final do dia?

Queria ter feito Jornalismo. À época passei com uma das melhores notas para o curso na universidade federal aqui da cidade, mas optar pelo Direito era optar por meu primeiro emprego de verdade, por me manter perto de muitas pessoas quais eu não queria me afastar. E no mais… Jornalismo não dá dinheiro, todos diziam. Não pensava de maneira mecânica, mas quem é que não quer ter dinheiro? À época também eu não era assim tão lúcido e cônscio da minha própria pessoa e isso me fez pensar por muito tempo sobre como as coisas teriam sido diferentes. Eu provavelmente escreveria melhor desde antes, mas será que teria tido a epifania que me fez querer ser escritor? Será que meu sonho de profissão hoje seria ainda o meu amor? 

Uma vez não conta. Uma vez é nunca. Os erros que erramos são realmente erros? Se na vida não há ensaios, por que é que me olha de soslaio como se eu precisasse ter medo?

As hipóteses abandonadas se acumulam em centenas. As que deixamos para trás, porém, nunca valem a pena. É preciso crescer e se tornar mais maduro. Na insistência em imaginar que a vida que deixei para trás seria melhor que essa, eu quase me perdi definitivamente. A vida é como é e a gente não pode ter pressa. Lembranças que foram fundamentais hoje são indiferentes. Certamente foi significativo e agora não é mais. A vida muda e sou grato ao que ficou para trás. Não sei o que vai ser amanhã, entretanto, o que importa é que o amanhã exista. A repetição dos dias não têm vencido meu tédio, mas sigo querendo acreditar. Amanhã é só mais um dia, mas eu ainda encontrarei o meu lugar. As hipóteses antigas morrerão e cabe a você enterrá-las ou cremá-las. Se achar prudente jogue os restos ao mar, mas com ou sem ritual, assegure-se de que elas não te incomodarão mais. 

E assim, mesmo que distante, talvez quem sabe exista uma pessoa que ainda vá entender. Esse meu tão estranho jeito de amar. Essa impossível maneira de ser. 

Oscilação

Se eu contasse, veja, sobre tudo o que palpita no fundo do meu peito, creio, embora não sem cogitar a possibilidade de errar em mim, que acertasse diretamente você. O pensamento que exprimo quando não sei, o tanto que calo quando me noto cônscio de algo e prefiro não correr o risco de imiscuir, o que calo sabendo que é melhor evitar falar, pois a hora da palavra nunca é nossa e sim de quem está ou não bem disposto em ouvir ou ler. Assim, note-se, mantenho distância, ainda que a aproximação seja feita de um jeito ou de outro para quem quer um pouquinho da minha atenção. Deito-me, mas nunca durmo. Antes o futuro compunha a canção da minha preocupação, agora, deita-se em mim a leveza das coisas que amo e flutuam naturalmente. Os milagres fazem parte da Vida.

Oscilo em giros rápidos. Ajo como um semideus e em seguida me encolho como um menino. Não me permito acovardar, mas sofro em enfrentar o temperamento viperino. Sou gigantesco. Sou minúsculo. Sou incrível, apenas para ser patético no momento seguinte. Falam de flores, eu os escuto. Eles creem que o espinho vulgariza a beleza. Não entendem que se entregar e correr o risco de ser ferido é algo livre da vileza. E a vilania é, veja, essa mesma que desfila pelo mundo e assusta quem fecha os olhos para evitar ver o que não quer ver, impulso natural, porém, tolo, de quem diz que quer se conhecer e se torna especialista em fugir. Há sensatez na pressa?

Oscilo de novo e me pegam em um dia ruim. Carbonizei tudo antes de sair de casa, e trouxe no dia errado visitas para meu trono de brasas. Oscilação. Sou absurdamente brega e bom. Minhas intenções cegas me fazem não querer sair do edredom. Ergo-me, pois é assim que deve ser. Oscilo, mas não me omito. Ouço que falam de amores como se estivessem de luto. Ainda assim, luto pelo dia que não seja mais assim. Falta a conclusão do sonho, convivo com o que imponho, assim, não me permito estar longe de mim. Entendo essas tantas voltas como se fingisse saber o que faço. Sei de mim e sigo apesar do cansaço. A pele se tornou qualquer armadura tão dura quanto o aço.

Giro rápido por volta deste ano. Tudo mudou tanto e eu já não reclamo. O ciclo da lagarta se cumpriu. Houve quem não mudasse, mas estive por perto de gente que evoluiu. Cumpri meu papel também. Quero-me ver mais alto nos céus para realizar meus objetivos profissionais. Quero uma mudança sentida, completa, inequívoca, drástica. Não pretendo abandonar minha essência, mas é preciso mais esforço. Quero ser a camisa que entorta o varal, selvageria eloquente no vendaval, dragão repousando no quintal. Quero que todos também se amem. Quero, talvez seja egoísta dizer, que todo o resto se dane. O que antes era conclusão ilógica sobre os silogismos que fazia dentro de mim, agora é constatação de oposição óbvia, como quem admite outras possibilidades. Os motivos se misturam e esfumaçam. A felicidade vira tristeza, a melancolia vira alegria e tudo se perde numa noite em que o vidro do carro embaça. E você sente que quer existir ali, sem se mexer, ainda que fosse bom ter uma companhia ao lado no banco do carro.

O dia escure, a tarde esvanece, a noite se abre, mas você não sente mais aquele medo. A gente nunca se esquece do que profundamente adormece do lado de dentro como um segredo. E de repente se personifica em alegria, hostilidade ou lume. É surpreendente como há quem memorize o som da nossa voz e o cheiro do nosso perfume. A sensibilidade alheia, porém, é estúpida. Nossos olhos sempre estão nos nossos próprios interesses, mas é preciso forçar a roda da vida ao contrário. O lucro do patrão é importante, mas nunca mais do que o suor do operário. Instinto crepuscular que me domina e cresce. Um dia a gente recebe o que merece?

Preocupei-me, confesso, mais tolo do que gosto de me admitir, prostrado mais vezes de joelho do que gosto de reconhecer, controlando o meu tempo e o meu espaço para evitar qualquer erro fatal ou crasso. Compreendi um pouco dos outros também. Não é todo mundo que busca a felicidade e essa descoberta me causou ligeiro espanto. Quem é que se contenta em ser tão pouco quando pode ser tanto? Um tanto a mais, tanto faz, gole de cerveja, três xícaras de café. Sinais, iguais, ligeireza, fé. Falhas, barulho, silêncio, altissonância. Em batalhas vasculho o que é que me faz tentar aumentar a distância. Ainda assim, a quilometragem que eu cubro para me afastar, andando até cansar até o fim do mundo, é diminuída por quem me cerca em questão de segundos. Estive me arrastando por muito tempo, mas agora não posso mais evitar. Sou do alto e apenas o céu é o meu lugar. O relato dos meus dias, meu dever cumprido, eventualmente se cumprirá se eu for apenas livre, ainda que falhe no resto. Há esperança para quem só opina de longe, ignora a vida e quer sempre estar certo? Oscilo, mas sou minha melhor versão quando não há ninguém por perto.

Coisas Frágeis

Andei em linha reta. Passo. Outro passo. O segredo é continuar caminhando, disseram. Eu ri, mas não desafiei a superstição. Passo. Outro passo. Não passo. Estagno. Recordações de tempos de amor invadem minha memória e eu transbordo. Soo como um louco, mas sou louco? Meu sorriso é largo e minhas lágrimas são como torrentes. Sou feliz e triste. A casa era tão cheia, havia tanto riso fácil e quase incessante. O cachorro pegava o brinquedo e trazia, eu ainda me lembro. Por algum tempo havia até alguém para me chamar de amor. Tudo estava no lugar, ainda que os lugares pudessem eventualmente mudar. Todos os nomes eram pronunciados corretamente, a vida numa espécie de amálgama do idealismo. Era possível captar o vislumbre de tudo e a verdade. A coragem não é para todos, sabem? É na realidade para os covardes como eu. Os que se enchem de paixão e fúria, mas se calam por entender o valor do que a maioria consente em ser ínfimo. Nada é ínfimo. A qualidade não está no peso ou no tamanho. Só se vê bem com os olhos vendados. Somos capazes de destruir tudo o que amamos.

Quando notei, eu estava parado em frente a um lugar antigo. Sou um colecionador de momentos, apanhador de memórias. Quando quero, nada me foge. Observo e vejo o que poucos veem. É que ninguém desacelera na loucura de um mundo apressado. Previ as datas que sofreria. Acertei. Soube dos meses, das horas e até dos minutos. Soube que seria até enquanto eu trabalhava. Soube quem e soube quando, só não sabia por quanto. Nada como a beleza e a tragédia de se conhecer. Busquei com todo o meu coração evitar que os outros sofressem, não jurei por Deus, mas tanto quanto pude, eu cumpri minha parte. Lembrei de frases sussurradas e de objetos de vidro. Coisas que caem uma vez e não se consertam. Meu coração é feito de material mais resistente que o vidro. Fui desafiado a dizer a verdade e olhei nos olhos temeroso, mas sem hesitação. Soube que iria perdê-lo, mas não evitei o que sabia ser evitável. Há tanta confusão. Chamam de amigo os que te apunhalam. Ferem os que são amigos, quando ninguém mais pôde ser. O que pode ser feito? Se é tão barato contar uma mentirinha em um mundo maluco e fugaz, por que me sinto impelido a ser sincero? Por que é que tudo dói mais conforme cresço? Por que é lento o processo de ter o que mereço? Por que quando tudo se faz vento, sou eu o ferro?

      Recusei intimidade com outras pessoas. É fato que tive poucas chances de fazer novos amigos, mas não deixei que ousassem a me chamar por nomes mais profundos. Dispensei a conexão, principalmente a romântica. Sei que o tipo de intimidade que precisava encontrar era comigo, novos motivos para ser feliz ou a felicidade de outro jeito. Até matei o meu charme, mais do que o faço normalmente. Meus olhos revolveram para dentro. Dormia acordado. Sonhava em mim. Distinguia com facilidade o que era e não era. Ainda assim paguei caro por uma ilusão que chamei de real. Até os mais doces sonhos acabam eventualmente. Hoje tenho o que gastar, mas notei que o dinheiro é só um papel mais bonito.  Não que eu não soubesse. O diamante não difere tanto assim do granito. Acordo e olho para os lados completamente assustado, mas embora minhas próximas ações sejam mecânicas, eu suspiro. Sinto um alívio profundo em saber que ainda há tempo, embora não saiba para o que. Queria que minha mãe tivesse preparado o café, mas moro sozinho, pago minhas contas. Tenho um novo ritual. Como um pedaço do meu chocolate amargo antes do café da manhã. Se você já fez isso poderá dizer como a experiência é diferente. Ao mesmo tempo ele é mais chocolate e mais amargo. A vida se renova com o começo do dia.

      Enfim, eu tomei uma decisão. Confesso que sou como um hobbit. Gosto de ler livros, confortável em minha poltrona, mas amo aventuras. É hora de viver a minha. Se todos eram capazes de ser tão mais felizes sem que eu estivesse por perto, por que eu não poderia ser mais feliz sem todos eles? Neste instante derradeiro, eu me convenci. Tenho bons olhos. Decoro as sardas de um rosto como se fossem constelações. Memorizo nomes, pois possuem força e poder. É tão precioso se lembrar da maneira certa de chamar alguém como acariciar do jeito correto os cabelos da mulher que se ama. Admiro os trejeitos na fala de cada indivíduo. As risadas são todas diferentes. Algum dia o dialeto secreto qual não se usa é lido prontamente por alguém. Uma mensagem mais direta ao coração. Sei sobre coisa ou outra, mas a sabedoria só é firme quando simples. Quem nunca foi humilde desconhece mais do que pensa. Sei que até o que se parece possui sempre uma diferença.

      Quase nunca mais gaguejei. Fui muito rápido ontem. Fui muito lento antes de ontem. A vida pede ritmos e tenho oferecido impressões erradas quais não posso consertar. Volto os olhos para meu cerne. Ainda procuro o rosto que minha alma tinha antes da criação do Universo, mas é uma busca vagarosa. Quem me olha, raramente me vê, pois é preciso olhar certo para captar além de mero vislumbre. Cuido bem dos detalhes. Sei amar as coisas da maneira correta e ainda me lembro de amar o que a maioria esquece e também o que escolhem deixar para trás. Não prefiro o gato ou o cachorro. Amo igualmente os dois. Não falho em preparar meus cafés pelas manhãs. A vida é simultaneamente rápida e sutil. Tudo se despedaça rapidamente, até mesmo algumas coisas das quais cuidamos com carinho, mas é assim que deve ser. Cada um tem a oportunidade de viver e se valorizar no próprio brilho que a faz singular, porém, ainda que exista escolha, quase todos escolhem ser mais dos mesmos. É comum que guardem ouro e lixo na mesma repartição e se esqueçam da diferença. É comum que sejam todos iguais. Eu? Não posso ser assim. Acho que sou como Neil. Acho que também prefiro me lembrar de uma vida desperdiçada com coisas frágeis do que uma vida gasta evitando a dívida moral. Agradeço ao mundo por ainda estar aqui. Tenho motivos para agradecer. Ao final do dia, eu ainda sei quem sou. Contradigo-me quando necessário e busco a felicidade. A minha vastidão me faz transbordar e sinto que em breve serei feliz. Nunca mesmo piso em coisas frágeis. E você?

Batidas na porta

O amor bate na porta, porém, desta vez ele é um visitante grosseiro. Você esperava batidas suaves, mas ele insistiu e insistiu e insistiu. Queria abrir a porta, mas você estava magoada e carregava consigo toda chateação que se cabe dentro do peito. Talvez até transbordasse em arrependimentos, isso, é claro, se você de fato se arrependesse. Charlie Brown, porém, não estava errado. É melhor amar e ter perdido do que nunca ter amado.

Conhecer o amor muda o dinamismo das nossas ações em relação aos objetivos de vida. Ele chega em um dia quente de verão ou durante uma chuva de inverno. Você sabe como o amor faz a própria estação e brinca com a fugacidade da vida na dança de algo que se pressupõe eterno. E que negrite-se a eternidade, pois os nossos dias passam e nossas horas contam e nossos corpos envelhecem. Nossas mentes se acostumam tanto a olhar para trás que a visão turva se torna o tipo certo de visão. Gostamos de suster os nossos olhos apenas naquilo que escolhemos ver.

É nessa hora que vacilamos, pois somos compostos por intervalos entre uma oscilação e outra. “Nós aceitamos o amor que achamos que merecemos” é uma das frases que mais vejo refletidas nas pessoas. Às vezes a gente escolhe abraçar um tanto de coisas ruins, mas em nome de coisa nenhuma. Às vezes a gente se prolonga no sofrimento porque acha que merece sofrer. Merece mesmo? E aí a vida empurra novas oportunidades, mas a gente só quer o que a gente quer e pronto. O amor ou a ideia única desse amor é a morte de qualquer outra hipótese e quem não imagina um cenário diferente, no fundo, opta por não fazer diferente. Uma realidade diferente daquela qual nos acostumamos é uma aposta grosseira e soa como um erro.

Matamos a oportunidade de estar ao lado de quem quer estar do nosso lado, pois os traumas pesam e os fantasmas assustam. Fraquejamos nas nossas próprias inseguranças, tapeamos nossos instintos mais certeiros. A omissão cala o que pulsa verdadeiro. Você sabe que é qualquer tipo raro de flor, até por constatar que mesmo na simplicidade que às vezes a equipara ao que você mesma dita por comum, cada um segue sendo indivíduo. Não há ninguém igual no mundo. Todos vão. Ninguém volta. Você empurra forte, mas alguém segura a porta. Você faz um escândalo e mostra o pior tipo de vileza, porém, o novo ri e te enxerga além; contempla a sua beleza. E talvez seus olhos brilhem ou talvez não, mas eventualmente chega a luz para quem vive na escuridão.

Despedaçada está sua alma e você admite que não se sente confortável defronte a alguém que vive com coragem. Você se protege e alerta: mesmo um pedacinho de vidro corta. Não te esqueça de que os espinhos furam. E um sorriso se abre como o sol em um dia nublado. “Sangue é apenas sangue. Quem quer se aproximar de algo tão belo deve correr o risco de se machucar e não faria tão mal cicatrizar minha pele com uma marca da tua”. Você foi acostumada com coisas ruins, assim, naturalmente o afeto pode ser algo desconfortável. Você chamou outra coisa de amor, desconsiderando que amor é saúde e descanso na loucura. Agora há pretextos suficientemente convincentes para você outra vez promover a sua autossabotagem. Pare imediatamente. Não se força o amor e tampouco se reconhece com dificuldade quando ele surge, mas a confusão que fazemos ainda é absurdamente sólida. Agora os dias passam e você sempre escuta os mesmos tipo de batidas na sua porta. Será que ainda vai abrir para descobrir quem está do outro lado?

Quando briguei com Deus

Certa feita briguei com Deus. Creio que todo o meu embasamento para a argumentação que se sucedeu tenha sido repleto de falhas. Eu que costumava ser tão pontual hoje perdi a capacidade de acompanhar o tiquetaquear do relógio. Eu que nunca fui imprevisível e domei sempre minhas partes pesadas, nem sempre consigo voltar ao tranquilo, pacífico e óbvio. Não me compreendendo, eu pedi para que Deus me esclarecesse sobre os meus caminhos e responsabilidades. Implorei para que, ainda que tivesse que partir sozinho, que não me poupasse, preenchesse-me da verdade mais dolorida. Antes que o tempo passasse, as flores murchassem, o mundo mudasse. Antes que toda a afeição fosse esquecida. Gritei, mas meus berros só me deixaram rouco. Sussurrei, porém, a única réplica foi um silêncio de deixar louco. Sem saber o que fazer, eu tentei qualquer coisa para que possuísse apenas um minuto a mais. De tanto se vai até tão pouco e o afago de repente se desfaz. Agora arco com as consequências de todos os impulsos meus, mas quando tudo vinha desmoronando, quando a inveja alheia foi se espalhando, onde é que estava Deus?

     Estremeci diante da minha incapacidade de tornar outra vez tudo certo. Até que sou muito estúpido para alguém considerado esperto. Li livros jamais escritos, vivi histórias ainda nem inventadas. Desapareci no campo da realidade e renasci ficção. Esbravejei contra esse Deus, assumindo que perdi a razão, mas por que justo agora teria de me tornar vilão? Quis jogar fora todos os meus detalhes que me tornam singular, mas os segurei firme. Talvez o Deus sumido soubesse narrar a minha história de um jeito sublime. Ainda assim fui acertado por meu próprio golpe. Não tentei bater, mas o meu movimento ricocheteou e eu acabei caído. Se eu ainda não tivesse deixado ninguém ferido, mas as coisas são como são, embora não saiba se exatamente como deveriam ser. A minha insistente solidão afasta de mim meu melhor tipo de prazer. Gostaria de tomar água e fazer exercícios. Gostaria que alguém calmamente entendesse meus suplícios. Gostaria de poder estragar a janta por ter errado no sal. Gostaria que a nossa salvação fosse suco de uva e pão integral. Adoro também as rotinas compartilhadas. Amo rir nas noites quase infindas com minhas novas e ancestrais amizades, porém, noutra noite de lua linda quis te mostrar o meu local secreto na cidade. Falhei em tudo. Estremeci diante da injustiça que me impuseram, mas cônscio de mim, admiti que fui ainda mais injusto. Onde estava o divino quando o ódio era destilado? Como me proteger de um comportamento viperino se só posteriormente me percebi atacado? Não sou assim tão pequeno. Poderia, mas não vou mostrar de onde veio o veneno.

Renovo-me em mim e assumo a culpa de tudo, mas onde estava Deus para me proteger de mim quando tentei e não devia? Onde estava Deus para me proteger de mim quando machuquei a quem não merecia? Criei furacões em sopros, príncipe das tempestades. Desmedi a minha própria medida quando me fugiu do controle a realidade. Sinto-me doente. O suor escorre, a temperatura sobe, mas tudo bem. Meu melhor estado é o febril. Sei que assim sinto melhor o mundo que nunca me sentiu. Uma mulher aparece de madrugada e estou pronto para amá-la. Foi invenção da minha cabeça, eu sei, mas isso nem interferiu. Beirando à insanidade, nos limítrofes finais da realidade, outra vez a minha alma sorriu. Pois assim desconsidere minhas declarações apaixonadas, não por serem falsas, mas sim exageradas. Tornei-me especialista em amor fantasma. Tenho uma tendência ao eterno e ao drama. Rio dos falsos espertos, metralhadoras de opiniões que só atingem espectros, a frase matreira em busca da fama. Continuar em frente é sempre pungente e a vida frequentemente dura me deu outra surra. Às vezes dramatizo quando me falta a compreensão. Por que diabos a vida é assim? Onde estava Deus quando precisei que ele me salvasse de mim?

     Arrumo-me com pressa, na minha maior rapidez e desta vez estou apenas meia hora atrasado. Dominado pela minha própria lucidez, vejo-me no primeiro espelho ao que percebo que me vesti errado. Estou do avesso, mas não faz mal. A roupa hoje é um detalhe frugal. Saio pelas ruas andando com a lista do mercado na mão. Esqueço a urgência. Posso almoçar mais tarde. Se eu fosse pelo caminho mais rápido, eu teria voltado para casa em dez minutos. Como alonguei o que poderia ser breve, hábito do prolixo, voltei quase uma hora depois, mas não estive estendendo o que não deveria. Parei para ver o mundo e li em cada canto de tudo uma nova poesia. Contemplei as flores selvagens amarelas, vermelhas e lilases. Ao longe vi uma igreja cheia e ouvi o canto de tantas moças e rapazes. Levei os pimentões mais feios, pois eram os únicos que haviam no mercado. Esqueci-me das batatas. Cumprimentei os pássaros que cantavam nos fios de eletricidade, sentei-me na beirada da calçada e apenas observei. Inverti as perspectivas. Agora eu era alguém da igreja observando o rapaz de comportamento inabitual do lado de fora. Era o pássaro olhando para o humano desconfiado que para na rua e ali se demora. Era a flor consciente da própria beleza e do próprio perigo, apavorada com a possibilidade de ser brutalmente arrancada e em seguida esquecida. Era o pimentão olhando o humano e pensando se a alma dele também não estava apodrecida. Acima das nuvens passa um avião e logo, vejo-o, depois, sou a máquina pesada e voadora observando o mundo de cima. Eu ri, pois exatamente assim gostava de ver o mundo Exupéry. Depois, centro-me no cerne das coisas e observo rapidamente o mundo por dentro, ao estilo de Vinicius de Moraes. Como veem o mundo os  demais? De todos não sei, mas convivi e sei como enxergam os caminhoneiros. Para eles é como uma estrada em linha reta, assim como viu em linha reta os humanos, Fernando, o Pessoa. Cogito em seguida destruir aquilo que mais amo, como disse Oscar Wilde que toda pessoa faz. Este mestre deve ter cometido um engano, pois só agora vejo do quanto sou capaz. Posso ser o mar em tormenta, mas também manso como a garoa. Respiro a vida que há em mim. Ouço meus batimentos como se eles valessem a pena e me lembro da última pessoa que ousou escutá-los. Sorrio tranquilo. Esse Deus nunca me mostra as coisas como quero. Suponho que seja minha responsabilidade prestar atenção no que vem vindo. Dias atrás eu estava brigando com Deus, pois tudo o que existe e o que há além disso estava ruindo. Feliz, enfim, chego em casa e conto para o meu cão que estive me divertindo. Ele abana o rabo sorrindo. Para quem possui um bom par de olhos, sabe a maneira correta de observar, de cada dia se extrai um aspecto lindo.

     A briga às vezes chega quando a gente precisa. Faz bem se colocar em outra perspectiva. “Todo mundo oscila” vi a frase escrita em diversos cartazes. Foi ruim brigar com Deus, mas já fizemos as pazes.

Manhãdrugada

     Não dormi e assim senti como se tivesse acordado cedo. Estranhamente não me senti pesado e nem minimamente cansado. Os picos de energia são malucos. Noite passada fiquei gastando palavras e tentando produzir um texto que eu julgasse razoável, mas falhei. Bati no teclado de maneira insistente, mas sem raiva, embora a cada minuto minha mente se frustrasse com a minha incapacidade. Já faz algum tempo que tenho me sentido assim, compreende? Finja que sim para possamos continuar. Os vizinhos que dormiram tarde muito provavelmente continuam dormindo, mas pelas quatro e tantas vi um homem em um apartamento e uma mulher em outro, apenas de relance, concentrados em não desperdiçar o tempo. Iam para lá e para cá, arrumando-se, mas desordenando a casa. Eles precisam estar prontos. A casa pode esperar. Olha, peço, enxergue-os e pela sensibilidade tente senti-los. Eu me acelerei por dentro e o sono que havia se dissipou. Mesmo às quatro e tantas aqueles dois já tinham um lugar para ir. Vê a beleza de não dormir, mesmo com a necessidade? Você pega um pouco mais da poesia que reside sutilmente apenas na alma da cidade. Acha que estou louco, não é? É óbvio que a alma da cidade é uma soma das almas de cada pessoa que nela vivem, assim, forma-se uma espécie de amálgama não humana feita por humanos, uma centelha do Universo bem presente no nosso cotidiano, uma união invisível das principais partes que transbordam aquilo de que somos formados. Todos personificados em uma unidade qual não se nota. Egrégora. 

     A cidade é perigosa, eles dizem, mas visto meu casaco e saio para dar uma volta. O horário não é favorável, mas com minhas mãos livres posso me sentir um pouco mais seguro, assim, agradeço por não ser fumante, embora me pareça improvável que o perigo queira tirar o cigarro das mãos de um cidadão. Penso nos fumantes, mas não fumo. Os grandes escritores eram confortáveis com a fumaça, eu, entretanto, não ligo. Mesmo na fumaça que não há, vejo-me ir para um lugar distante. Transporto-me para um passado de dias e estou no Mirante 9 de julho. Gosto do lugar e gosto das pessoas estranhas que ali me cercam. Seus sotaques paulistanos enchem meus ouvidos e eu pareço habituar-me mais rapidamente do que me pensei capaz. Não sinto vontade de conversar, mas talvez eu me derramasse se simplesmente me perguntassem. A paisagem urbana acelera meu coração. Sou eu o carro em alta velocidade e o piloto enfurecido simultaneamente. Sinto-me feliz o suficiente para continuar acelerando, ainda que temeroso pela colisão. Nos picos de adrenalina desconsideramos as consequências para o dia seguinte. Volto à realidade com a aproximação de um pedinte. Quer um dinheiro qualquer para comprar coisas que se compram, mas não posso dar cobertores, pois não se cobrem e trocam por coisas que se vendem. Dou R$ 1,75, como não vou ajudar este que me pede se ajudei até o Wesley com R$ 1,25 para a cachaça? Pergunto para o velho como ele se chama, ele me olha por poucos segundos, inquieta-se e sai sem me responder. Sinto cheiro de fumaça, mas meus ouvidos escutam apenas pneus de carros e buzinas. Ainda existe audição em São Paulo?

     Olho apartamentos para alugar e penso que realmente devo morar aqui. Todo mundo nessa cidade parece ser mais duro e maduro e não sou piada por ser escritor ou poeta, pelo contrário. Eu juro que até param para me ler ou olham nos meus olhos, ainda que talvez eu olhe ainda mais dentro dos olhos deles. Meu objetivo de vida é mais importante que meu trabalho de hoje. “Seu olhar é muito fixo em mim e eu fico com vergonha“, ouvi alguém dizer, mas mergulho na profusão de um mar profundamente verde ou castanho, esquecendo-me do que pretendia dizer. Bem, é preciso que vocês saibam, eu sou um mergulhador nato. Geralmente compreendo a natureza selvagem das coisas, quando essas coisas, perceba, lentamente se derramam em mim. Alguns estranhos por aí dizem que sou inspirador. Seco a umidade que há nos dias, ecos longos de poesias, sombra inconfundível de Amor. O amor que tanto duvidei nos últimos meses e transparecia na minha face cansada por meio de tantos reveses, que subia por um fracasso latente que não se mede. Isso tudo aí e eu ainda inspirando. Você vê como a vida pode ser louca. Você vê como a gente realmente nunca sabe a dimensão do nosso alcance. Os mortos me inspiram com grandes textos. Talvez alguns vivos se inspirem com algo que eu fiz. Ser cônscio e capaz disso é o que sempre quis.

     Daí vou como posso. Lá de longe alguém me vê partindo, descendo, chorando, subindo, sorrindo. Daí continuo como posso, inconsequente, responsável, prudente, afável, sempre num esforço contínuo que pesa meus ossos. O que não queremos admitir ou apenas o que não gostamos de admitir, é que às vezes escolhemos, entenda, permitimos o que fazem conosco. Não são os outros, mas sim nós mesmos. É fácil ser refém de um sentimento e depois dizer que não teve saída, ainda que estejamos no absoluto controle de nossas vidas. Às vezes pego uma pedra do chão e levo para casa só para sentir que não sou obrigado a fazer tudo sempre igual. Às vezes passo um dia inteiro sem dormir só para me sentir um pouquinho mais especial. Trabalho e sigo firme. Escrevo e sigo acreditando. Passou-se a noite, a manhã, a tarde, outra noite, adentrei a madrugada e é quase manhã de novo. Estou aqui pensando em fritar um ovo, pois agora senti fome. O chocolate amargo não pode mais me alimentar e nem a água mata minha sede. Que é que um dia finda a solidão que me arremete? Gargalho alto com uma piada antiga. Permito-me sonhar. Insisto em realizar. É um tempo estranho no céu de São Paulo. O limite entre a madrugada e manhã. Quantos conhecem essas manhãdrugadas? São perfeitas para o meu coração.

Vultos

      A mulher no corredor foi apenas a segunda mulher que amei. Às vezes os insanos me pedem para explicar. Bobagem! Como se cheiros, sensações e impressões coubessem em resumos. Não cabem. Quiçá descrições funcionarão? Não também. Defini-la ou definir-me no meu estado de torpor é apenas um jeito inédito de perder tempo, mas se o tempo também é meu, desperdiço-o como quiser. Se acaso sugerir que as estrelas falam, você acreditaria em mim? Há quem diga que estourar plástico bolha é relaxante, mas você seria capaz de convencer alguém disso? Explicado este fato, apresento aqui, na medida do possível, todas as verdades quais pude absorver em um momento de epifania. Contarei de como ela foi capaz de me fazer suprir a ausência que sinto de mim mesmo. Minha própria maneira de estourar bolhas, improviso. Falar sobre a segunda mulher que amei seria impossível até mesmo para Tom Cruise, mas amá-la, por outro lado, é uma missão acessível até mesmo para Robinson Crusoé. Ressalto, porém, antes do inevitável sobressalto: não me pergunte quem ela é.     

      Você vai pensar que eu enlouqueci, eu sei, mas confesso que, na verdade, foi pelo vulto dela que me apaixonei. Cada dia seu andar tinha uma postura diferente e eu? Abarcava tudo o que podia enquanto me enchia por meros lampejos de felicidade adolescente. Não, os vultos nunca mentem e minha animosidade jamais arrefecia quando se deparava com eles. Respirava fundo, acelerava meus passos, ansioso para tornar a imaginação em figura. Quando o rosto finalmente era revelado, aquela velha sensação se quebrava e me dominava a amargura. Um conselho fossilizado ressoa na consciência: nem mesmo a ilusão perdura. Retiro meu chapéu invisível e faço uma mesura. A mulher passa e no corredor do hotel a luz fraca revela sua pálida brancura. Deve ter pensado que eu estava embriagado. Sorrio e insinuo minhas desculpas. “Eu te confundi ainda agora com alguém. Perdão, senhorita. Boa janta e fique bem. Não sou quem você procura”. Esta era simpática e recompôs a postura. Estava de calça de couro, mas imitou uma antiga dama. A delicadeza dos movimentos numa pintura. Toda mulher sabe como tratar quem do jeito certo a ama. Compreendem melhor que os homens que nem tudo que é belo dura.

      A rotina de uma semana gira em loop em minha cabeça. Vou narrar um pouco desta aventura, antes que eu me esqueça. Os dias parecem iguais, mas são sutilmente diferentes. O segredo para se adaptar é acreditar que nada é permanente – nem mesmo o que se passa no coração inocente. Descia mais cedo que todos – todos os dias. Gosto da minha particularidade nos cafés da manhã, mesmo entre os desconhecidos novos colegas. Todo mundo merece ser aplaudido de pé ao menos uma vez na vida? Auggie tem razão, mas tenho minha própria opinião e vou dizê-la. Pois bem, acredito que todos mereçam uma semana de café da manhã reforçado em uma boa rede de hotelaria. Cheguei junto dos velhos enrugados e narigudos; mal vejo a hora de ser um deles. No metodismo nos equiparamos: minhas refeições são sempre iguais: café, ovos, linguiça, bolo de laranja, bolo formigueiro e um croissant. É preciso homenagear os franceses de quando em quando. Os velhos parecem retratos nas paredes, incorrigivelmente repetitivos em suas posturas curvadas e tortas, mas uma criança chuta a porta de uma reluzente Mercedes e aparentemente ninguém se importa. O garoto desafia a observação dos poetas: a constatação é que todo pequeno nasce asceta. Ignoro o menino, mas não recuso o aprendizado. Só pais de comportamento viperino criam um garoto tão mimado.     

      Subo para o meu quarto. Pego uma maçã para comer mais tarde. Percorro o corredor enquanto finjo que sou um arremessador, mas subitamente paro. Uma mulher vem andando distraidamente. Conheço-a pelo faro. É mais sonhadora que eu… Seu vulto parece com a alma do universo. Quando seu rosto se revela, ela me lança uma estranha olhadela e pergunta do que eu preciso. A pergunta vaga me faz viajar, mas observo atento que ela não tem a magia que procuro no olhar. Deixo escapar um largo sorriso. “Obrigado, mas você não é quem estou a procurar”. Afinal, eu havia enxergado errado. O universo não estava ali. No dia seguinte o vulto da mulher se aproximou com pressa. O jeito de andar exalta que ela é alguém que só baixa os olhos para o que a interessa. Os passos barulhentos do salto alto pisam em qualquer encanto ou feitiço ancestral. De que adianta procurar em um robô, qualquer resquício da inocente vestal? Eu teria interesse nesse tipo de mulher, afinal? Seria mais fácil se eu estivesse procurando alguém de verdade.     

      Tudo isso aconteceu em apenas uma semana. Eu me encantei com os diferentes formatos de imaginação reproduzidos no corredor. Juro que falo a verdade, embora não necessite do consentimento de vocês. O pragmatismo estava me matando e a sensação crescente de tumulto me fazia sentir vontade de sair correndo até me cansar. Consolei-me ao ler diários de homens e mulheres jamais compreendidos. Seria bom ter alguém para abraçar hoje ou apenas alguém para me ouvir falar debilmente sobre meus livros favoritos, mas tudo bem. Seria bom planejar o roteiro da viagem ao Japão, mas tudo bem. Seria bom sonhar que meus livros podem mudar o mundo e encontrar convicção em um olhar gentil e astuto. Eu diria Geffenia e você iria entender. Há sorrisos tão preciosos que, ainda que os veja uma vez a cada dois anos, enchem-me o coração de recordações luminosas. Conforto-me com as lembranças de uma felicidade pueril que talvez eu jamais possa recuperar. Faço perguntas e não confiro as respostas. Quero que digam, mas nem sempre quero saber. Transtorno pessoal, normal, quem liga para o que vai acontecer?     

      Talvez eu tenha apelidado uma Gabriela de Ana, uma Isabela de Júlia e uma Beatriz de Michele, mas unicamente pelo pretexto de que não sabia seus nomes e honestamente nem queria saber. Desculpe se pensei nestes nomes de maneira errônea. Não esquecer é uma regra do meu coração. Quando digo os nomes em sussurros secretos, sinto-me um andarilho discreto, hábil em disfarçar minha solidão. Seria incrível não estar sozinho esta noite, mas tudo que eu possuo são espaços calculados para abrigar minha tristeza. Contemplativo, percorro minha vida desde o momento em que minhas memórias são exatas e precisas. Basta de imaginação. Preciso arrumar o rumo de minha vida, reflito quando me surpreendo com o tardar da hora. Entro em luto após mais uma despedida. Quem eu fui um dia está morto agora.   

      Terei de fazer um breve resumo sobre as últimas situações, pois não sou suficientemente hábil ou talentoso para prender pessoas livres aqui por um período longo. A sombra da quarta mulher me deslumbrou; a da quinta me ofendeu; a da sexta me paralisou e a com a da sétima, eu chorei. Todas as mulheres possuíam diferentes aparências e essências, mas seus vultos eram quase idênticos. Deslumbrantes e capazes de tudo. Não me assustavam, mas me deixavam extasiado. Não havia façanhas impossíveis para elas. Enfim, agora chegava o momento de me despedir daqueles corredores escuros quais diversos vultos me desafiavam ao amor. Orgulhoso, aceitei o desafio, ainda que incerto sobre meus atos. Amei tantas sombras desconhecidas, ainda que ninguém tenha visto de fato. Às vezes é uma maldição ser alguém com pouco tato. Ainda que a alma seja nobre, eles te insultarão por ser miseravelmente pobre… Vil sonhador barato.

      Despedi-me do hotel e com a partida me despi de uma semana de solidão. No aeroporto carreguei o segredo da vida. Todos que entravam em contato comigo, presenteavam-me com diversos sorrisos e secretas orações. Suponho que por algumas horas, eu mesmo tivesse olhos mágicos. No Mc, uma mulher de verdade, muito mais que um vulto, tirou os sapatos para apoiar os pés no sofá. Cem mil vezes mais que uma sombra. A sua atitude demonstrava personalidade. Na pressa de retornar à minha cidade e no desespero de amar alguém que fosse mais que um mero vulto, eu me contentei em admirá-la discretamente. As mulheres já sofrem o bastante para terem de lidar com os curiosos e intrometidos. Ela estava relaxada e eu não queria estragar isso. Além do mais, eu ansiava mesmo em retornar à minha cidade. Decidi seguir o meu percurso. A vida se acelera e os minutos passam mais rápido. Logo será o dia das bruxas, o dia dos mortos e o dia do natal. Logo quem nasceu em 1989 terá 30 anos e os de 1992 pensarão que são velhos arrelientos. Logo tudo vai mudar e todos os momentos bons de agora vão se perder em um buraco negro. Terá de reaprender a ser feliz com uma vida completamente nova, que hoje o enche de medo. Sento-me vagarosamente no assento 17D. Sinto um estremecimento acompanhado pela pesada vibração do avião. Este pássaro de metal corta o vento enquanto devaneio sobre novos roteiros de ficção. Amanhã é sábado e depois é domingo e depois outubro. A vida passa e não encontro um sentido para tudo o que eu faço. Isso me relaxa… Às vezes é melhor não ser tão cheio de si. Observo pela janela as luzes das cidades durante o caminho. Penso nas pessoas que amo e nos desconhecidos que quero amar. É a sina de quem é assim tão sozinho…     

      Dou nome a todas as coisas, exceto à segunda mulher que amei. Não sei dizer se foi engano, mas o amor não segue qualquer plano. Digo com segurança que ainda prefiro amar, ainda que o objeto de tanto amor seja uma ilusão. Não há vergonha em não ser completamente são. Quem sabe um dia, eu possa ser sólido e capaz de voar; ao mesmo tempo conseguir aguentar; raramente oscilar… Como faz todo e qualquer avião. Ah, mas é incrível o que se observa quando sobrevoa uma estrada qual costumava percorrer andando ou dirigindo. Sob novas perspectivas você conclui que o mundo é lindo. Quando menos se espera a gente se pega sonhando e sorrindo. Pensando em todos os amigos e amores ou em como nossas vidas são fugazes; em refeições maravilhosas ou bebidas quentes compartilhadas com amigos em bares; em dragões, furacões, verões e também nos antigos lares; na solidão necessária para o crescimento ou na provocação fundamental para o enfrentamento. Por fim, penso naquela que um dia foi a mulher da minha vida; aquela que amei mais do que a mim mesmo. Em seguida, eu penso em centenas de vultos que me bagunçam e me fazem querer vagar a esmo. Continuo sendo decente e ridículo. Nunca fui suficientemente bom para qualquer outro, exceto eu mesmo. Tento revelar a face de cada vulto, mas cada vulto se revela em seu próprio tempo. Queria poder amar todas essas sombras agora, mas suponho que deva esperar pelo devido momento. Sigo fazendo o que posso e se não for o bastante hoje, amanhã novamente eu tento.