Razão da escrita.

Escrevo, pois preciso sobreviver e não há alternativas.

A frase soa pretensiosa, entretanto, é verdadeira. Estranhos são os caminhos que levam ao crescimento, tudo isso que me guia até o que chamo de autopercepção. Perceber a si mesmo, porém, não basta. Estar cônscio e ignorar a realidade me faz flertar com o vexame. Existo como uma espécie de ponto de exclamação. Nunca me oferecem o benefício da dúvida. Há sempre sentenças entusiasmadas, sejam elas decretos alegres ou fúnebres. Que faço eu de mim se não sei o que os outros o fazem?

Não, essa não é a maneira correta de se pensar. Os que já desistiram revolverão para dentro e dirão qualquer coisa como “não é bem assim”. Claro, é raro, nunca é o que parece, tampouco o que é, afinal, em regra, não é bem assim. As novas pessoas ditam as novas regras e esperam que eu me acostume ao incômodo odor do estrume. Em seguida me fitam desconfiadas, franzem o cenho e me julgam com uma opinião pulverizadora. Inexisto ou estou morto após o extermínio da originalidade? Antecipo a realidade, absorvendo-a, digerindo-a, não sem sentir uma extrema náusea, uma aguda vontade de vomitar. As opiniões que interessam são flechas no vazio, afinal, ninguém se dispõe a ler sobre quem não tem voz, mas se o palco é conquistado através do texto, como devo me tornar uma estrela literária sem a oportunidade de ser lido? Escrevo para sobreviver e saciar meu alívio, mesmo que não faça sentido. Continuarei escrevendo, eu sei, mas por que palpita em mim a urgência da publicação? O que explica essa vontade de escancarar ao mundo meu frágil coração? Quero transcrever a realidade pungente e linda em um livro de ficção. Ouso nesta confissão sugerir que, se por minhas entrelinhas derramasse meus segredos amalgamados, não haveria sequer uma pessoa que os percebesse. A necessidade de ser o centro das atenções diminui diretamente a capacidade de ser atento. Cobriu-se de glitter, gritou suas mil qualidades e naquele desfile infinito de vaidades, eu observava a tudo, triste e lento. Casa de palha e porquinho despreparado. Vê que a maturidade se perdeu no primeiro sopro do vento?

Olha, se pela minha língua vejo a sinceridade bloqueada, não pela presunção do que é falso em mim e sim pela surdez forçada, resigno-me ao silêncio. Sei, por outras cronologias quais habitei que há silêncios que envenenam, entretanto, há honestidades que quando diante da vaidade suprema se esfacelem e se perdem. Não sou hostil com os outros, até que passem muito do ponto. Condenam a minha agressividade, mas só reajo quando me fazem de tonto. Afaste-se no ápice da minha lamúria. Ao ser provocado, posso mostrar a minha fúria. Zombaram de mim e esperavam um silêncio vazio. Respeite o temor do sábio e tenha cuidado com a ira de um homem gentil. Tenho o hábito chato e insistente de duvidar de mim. Quem está sempre certo de si e de tudo o que faz perdeu o senso de direção e qualquer réstia de humildade. A grande problemática em não ser humilde é começar a olhar para o espelho e se enxergar maior do que realmente é. Além disso, não obstante, a cautela nunca deixa de ser necessária no caminho do progresso. Essa simbologia narcisista de se apaixonar pelo espelho é o reflexo do regresso. Acalmo minhas expectativas, afinal, ainda sou ingênuo para o mundo. Sofro, choro, acerto e erro, mas sou presente e me desculpo.

A expansão do conhecimento, a absorção da vida social, olhar com o desejo de realmente ver, isso tudo traduz em mim uma segurança que, vez ou outra, rejeitei. Se o tempo é um conceito relativo ou inventado, há obrigação real em me aprimorar? Essa preguiça dos grandes pensadores que se infundem nos conhecimentos dos coachs, os tantos técnicos de pessoas, isso tudo me representa exatamente em que sentido? Nenhum, eu sei, mas por mais que sejam vãs minhas palavras, escorro por entre elas. Escritores escrevem e é tudo o que sei. Esse hiato ingrato quer me provar coisas que eu já aprendi. Aconselho-me por graça e por nostalgia. Sei o que fui, quem sou e quem quero ser um dia. Olha, que nem todas as minhas poesias são excelentes, entretanto, sou poético diante da vida. Confesso que nunca me esqueço da sombra da morte e não vivo por acúmulos. Tudo se perde e não tenho porque enfiar novos papéis na gaveta. Perco-me neste ensaio de mim mesmo e respiro fundo para recobrar o ar enquanto olho para o teto. Problema pessoal do caso concreto. Ia dizendo algo como “saber ter sido só no passado não significa saber ser só no presente”. Avançamos em certas áreas, regredimos em outras. Nada é permanente. Se a única certeza é a morte, como há quem ouse cuspir na vida? O que farei com a sorte se toda história é esquecida?

Não, eu sei, não é o que diriam os historiadores. Talvez Henry, talvez Nelson, talvez outros, talvez esses todos narrem a distopia inserida no meio dessa realidade, sim, talvez falem sobre dissonância cognitiva como meio de explicar a ruptura coletiva em prol de um governo prejudicial às pessoas. Como surgem pessoas viciadas em violência? Deificamos nossos representantes, somos súditos, sem regência. Que fará a história com os nossos ossos? Que será do que nunca foi dito? Quiçá alguns historiadores carreguem a literatura também, ainda que tudo se perca nos interlúdios da gigantesca história. Algum dia, algum lugar, alguma memória. Que contaremos aos próximos humanos se perdermos aqui? Até admito perder, mas mais adiante. Você caiu, é natural, não faz mal, mas levante! Estou divagando e noto os meus pensamentos flutuando e partindo. Frases, letras, poemas, até mesmo novelas, tudo isso me sobrevoa como uma nuvem dentro do meu escritório. Que tipo de histórias minhas contarão ao velório? Que tipo de narrativas cantarão no meu velório? Onde é que estão os meus tantos amigos? Abandonaram-me com tanto oportunismo? Estranho como os valores podem mudar radicalmente. Um dia Cristo, um dia Dorian, outro dia um réprobo deprimente. É inútil se render aos heroísmos, entretanto, ainda acredito nos heróis. Congelei no passado aquele ato que salvou a minha vida, pois o que ocorre hoje é triste e dói. Presente maldito e um homem que choraminga da própria vida após amaldiçoar o amor. Ergue-te logo, filho, você não é o primeiro a sentir essa dor. Essa sua ferida não se cura com excesso de atenção. Disfarçar o machucado aos olhos não é o mesmo que disfarçar ao coração.

Graças ao comprometimento assíduo que tenho com as letras e às artes, no geral, tenho me tornado consciente do meu crescimento vagaroso e gradual. Sim, ainda que eu cresça devagar, estou firme e sólido, ganhando tamanho e espessura, como uma árvore antiga. Crescimentos súbitos não são realmente crescimentos, se neles não se identifica continuidade. Penso-me e entristeço. Se sou contínuo e constante com o caráter, com os amigos, com o amor, com a vida, flagro-me inconstante com a escrita. O que me torna tão apaziguado e estático? Preciso continuar e revelar o que sei e o que não sei. Reconheço que o que não sei ocupa um espaço muito maior e mesmo quando minha alma abarcar os conhecimentos deste Universo, ainda não será o bastante. Um dia traduzirei o canto dos pássaros, a docilidade no olhar de um cão ou os murmúrios da floresta? Um dia serei capaz de estabelecer uma conexão por identificação com milhares de pessoas? Meu sonho alcançará o horizonte? Nasci pequeno e quero existir longe. Aprenderei os segredos indizíveis? Difícil, impreciso, improvável, entretanto, instiga-me o tanto de vida que há na Vida, os livros, a realidade, bem como a ficção. Tenho esse comprometimento assíduo com tudo o que importa. É fácil responsabilizar a vida pelas derrotas, pelos afastamentos, pelas escolhas, quando somos nós que dia após dia determinamos o curso do futuro, ainda assim, essa mania de comprometimento seja relativamente nova. Distraído preencho o papel com a tinta ou brinco com as palavras. Quem não ousa se buscar pode não se perder, mas também não irá se encontrar.

Interlúdio para respiração. O que justifica a escrita senão a própria escrita? Desde que, encontrei-me na denominação de escritor, eu escrevo. Que tipo de escritor não produz textos? Que tipo de alma se sacia? Que tipo de homem não se guia pelo que urge no espírito? Faça de uma vez e não espere. Controlo meu fogo com medo de queimar o mundo, entretanto, meus dedos flamejantes batem no teclado com força. Escrevo e ponto. Quem é que precisa de mais motivos? Tudo é incerto, mas sigo, meio por me importar demais, meio por um instinto selvagem e tosco. Se pelo decorrer da vida domei minhas selvagerias, como explicar que nos textos sou livro e indomável? Bicho dócil, ignóbil, manso, até se fazer irrefreável.

Escrevo e continuo a escrever. Escrevo para desvendar a mim e ao mundo, pois os dedos são mais honestos que a mente e, assim, posso me revelar sem ser teatral ou acrobático. Os dedos nunca sussurram e, bem, esta grande responsabilidade de me expressar no idioma original da alma, essa complexa disposição em falar sobre inúmeras cronologias, isso de tentar através da humanidade ser mais humano e cativar humanos, por meio do afago ou da provocação, isso me significa tudo. Intercalo entre gênio e estúpido. Nasci para amar e escrever, ainda que eu viva a sofrer. A minha gata Nami me observa pela janela, concentrada em algum detalhe que só a percepção felina pode vislumbrar. Há dias que queria ser como os gatos, pulando alto e encontrando um lugar formidável para descansar. Há dias que me perco do sentido e não há Pessoa ou Shakespeare que me sacudam o suficiente para retornar e retomar à realidade. Perco e admito minhas derrotas, nunca faço barulho para interromper o sono alheio, sou fácil ao diálogo com quem não tenta me manipular e entrego meu coração. Sinto um orgulho profundo de mim, mas ainda me sinto envergonhado pelas tantas vezes que errei no caminho. Estou me tornando um homem formidável, mas jamais teria ido tão longe sozinho.

Aviso último, sem tormento, lamento ou alarde: o que há de se perder não tem onde guarde. Anoto a última frase no papel sem sombra de ironias vivas. Escrevo para sobreviver, pois não há alternativas.

Publicidade

Publicado por

drpoesia

Escritor de hábitos relativamente saudáveis que gosta de escrever crônicas, poemas, contos e principalmente romances de ficção fantástica. Três livros prontos, porém, ainda sem publicação física. Trimestralmente faço o registro dos meus novos textos no Escritório dos Direitos Autorais. Tenho 27 anos de idade e sou formado em Direito. Creio no amor, embora o sinta meio ingrato neste ano. Só posso ser quem eu sou e é assim que vou continuar. Confio no mestre Leminski. "Isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além". Se você continuou até aqui espero que conheça meu blog aqui na WordPress e que possa dar uma visitadinha nas minhas páginas de poesias no Instagram e no Facebook! Obrigado! Volte sempre!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s