Descupinização

A descupinização é fundamental, pois milhares de casas já desmoronaram tendo como únicos culpados os malditos cupins. E os linguistas, preocupados com os cupins, logo trataram de inventar uma palavra que nunca poderia sonhar em ser bela na estética, apenas para evidenciar pela feiura a inevitável vilania dos isópteros. Não se atente ao detalhe errado. Aqui tenho a tendência de perseguir os cupins e sobre os sonhos das palavras discorrerei em outra oportunidade. O que explicaria o ódio dos linguistas aos cupins? Experiências e traumas pessoais? O que traduziria a relação entre gente e cupim? São apenas insetos, eu lhes diria, entretanto, há uma crença popular e verdadeira de que devemos conter o número dos cupins e devo admitir a realidade desta assertiva, mesmo que o povo se apraza costumeiramente de comprar uma fantasia bem induzida. Acredito que exista um medo secreto compartilhado pela humanidade de ser subjugada pelos cupins ou pelas baratas ou pelos ratos, roedores estes que certamente são mais inteligentes que quaisquer insetos. As formigas que também estão espalhadas pelo globo terrestre e que não são íntimas ao frio, são fortes candidatas, mesmo com suas formas minúsculas, a nos destronarem, assim, a humanidade promove o extermínio de tudo o que pode e não é raro descobrirmos que promovemos a extinção de novos seres.

Imagino como seria a mim, subjugador dos animais e dos insetos, se uma criatura gigante surgisse e me obrigasse a viver de outra maneira. Devaneio sobre o que eu faria se um gigante me erguesse na palma de suas mãozorras e me dissesse, “filho, terei de te matar, mas é para o seu próprio bem, lembra de quando exterminou o cupim por causa que ele comia as madeiras da casa, bom, eu sei que sim e você, Daniel, está comendo as partes boas deste mundo inteiro, você e os seus colegas humanos fazem muito barulho, fazem sexo de qualquer jeito, queimam coisas demasiadas, acumulam lixo e certamente existem em uma quantidade excessiva, assim, te matarei pelo amor e pelo respeito que sinto à sua espécie, como um gesto supremo e superior que resume toda a nobreza de meu coração valoroso”. Sem alternativas, eu teria que concordar, sem mais argúcia argumentativa na fala, sem sequer uma tentativa desesperada de sobrevivência, veja, os cupins nunca suplicaram diante da descupinização e eu nunca vi uma barata que dissesse “poupe minha vida”, elas, dignas, apesar do esgoto distante e sujo de onde surgiram, possuem um brio invejável e não suplicam, mesmo quando são alvos das chacotas felinas. Não hesitam e nem clamam por misericórdia, nem mesmo quando desmembradas pelos gatos.

Dos humanos que se enraivecem diante dos cupins, destacam-se os arquitetos, que não podem aceitar que outros também projetem edificações belas e os engenheiros, que creem que seus capacetes são coroas, invejam a instintividade dos cupins, sem ter a menor consciência sobre eles, indagando-se se eles fazem contas e se utilizam fórmulas matemáticas para erguerem suas estruturas ou não. Para nós tudo é disponível e talvez este seja o segredo desmistificado por trás de desvalorizarmos tanto a tudo. O louva-deus morre depois que copula e por isso ele também louva o sexo, praticando-o com a certeza da não repetição, entregando-se ao orgasmo e à morte simultaneamente. Quem fode convicto da morte só pode foder bem. Pressão? Claro que não. Se a morte é a última consequência, o sexo que antecede a morte é apenas uma despedida e quisera eu saber quando vou morrer para nunca fazer sexo de qualquer jeito.

O que pretendo com este relato não é convencer a humanidade de suas incomodas manias segregadoras ou coibir os atos hostis que nós e os nossos colegas mais ou menos humanos praticam. Ouça e escute o que falo ou apenas leia, para que entenda o que eu digo, sem inventar falso sentido nas minhas ações. A única intenção que tenho aqui é que você anote o telefone do homem da descupinização, pois é preciso exterminar os cupins a qualquer custo. Se porventura se configurar a necessidade, se a ameaça for urgente, chame imediatamente o responsável pela desratização e se as baratas fofoqueiras lhe encheram a paciência, adote um gato ou ligue para o desbaratador ou um dedetizador de primeira. O desempregado é, sobretudo, um desocupado e se cada alma se dedicasse ao lixo reciclável ou ao extermínio dos cupins, quiçá encontraríamos pessoas melhores, munidas de um sentimento puro e tolo de orgulho e talvez nem houvesse desemprego e cupins no mundo.

Suspiro e penso na descupinização, enquanto rezo para que não existam tantos desumanizadores (exterminadores de humanos) no futuro e que não me cacem pelas ruas por individualmente ser responsável por uma existência coletiva excessiva. Os agrimensores, os testadores de motéis, os limpadores dos lutadores de sumô, os que possuem profissões raras ou feias, incutidas sutilmente por uma deformidade perniciosa promovida pelos linguistas através das palavras que definem essas descrições e explicações, esses de profissões estranhas também importam, mas quanto mais o dia avança, o sol cai e o mundo gira. O sol some aqui e aparece do outro lado do planeta. Todos começam a entrar em um estado de sonolência e eu me percebo lúcido. Sinto uma tendência a culpar os cupins pelas minhas mazelas, reparo que até os nomes deles compartilham as letras da culpa, malditos cupins culpados, cupins cultos e invertebrados, estúpidos e culpados, cupins miseráveis por todas as minhas falhas. Respiro e sinto uma paz serena adentrar subitamente o meu coração.

A prova de que Deus existe é a DESCUPINIZAÇÃO.

Publicado por

drpoesia

Escritor de hábitos relativamente saudáveis que gosta de escrever crônicas, poemas, contos e principalmente romances de ficção fantástica. Três livros prontos, porém, ainda sem publicação física. Trimestralmente faço o registro dos meus novos textos no Escritório dos Direitos Autorais. Tenho 27 anos de idade e sou formado em Direito. Creio no amor, embora o sinta meio ingrato neste ano. Só posso ser quem eu sou e é assim que vou continuar. Confio no mestre Leminski. "Isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além". Se você continuou até aqui espero que conheça meu blog aqui na WordPress e que possa dar uma visitadinha nas minhas páginas de poesias no Instagram e no Facebook! Obrigado! Volte sempre!

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