Até logo!

É que é assim mesmo, senhor, como na mais simples das rimas: a gente nasce, cresce e logo a vida termina. É uma linha fina. Eu queria voltar no tempo e te pedir “me ensina”, conta bem devagar, por favor, a sua história. Deixe suas lembranças vivas através das minhas memórias e eu sei que nós ficaremos bem.

Antes de ir, volta só um instante e fica mais um pouco. Ri com sua família inteira de novo. Atrasa uns minutos para o trabalho e aproveita esse breve espaço no fim do almoço. Escuta os sons dos seus filhos, noras, genros e netos. Você percebeu faz tempo que todo esse barulho e a casa cheia significam apenas afeto. Hoje eu também sei.

Sei o que ninguém me ensinou, vô e sei que é natural ainda sentir alguns medos. Sei que os almoços nos sábados nunca mais serão os mesmos. Sem chances de erro ou segredos, hoje vejo além dos espelhos. Todos nós somos únicos, ainda que no meio de tantos. Revive o berro que me assustou quando celebrou aquele último gol do Santos.

Dói, mas é assim que a vida é desde que o Universo foi feito, desde que o planeta existe. Vou insistir e ter fé, mas por um tempo minha alegria será triste. Queria que soubesse, vô, eu luto sempre e muito por tudo o que é certo. Melhorei com o tempo e até me tornei esperto, mas o senhor foi o único que conheci na vida que mereceu um tipo distinto de adjetivo. Você é o único que contemplei de perto e pude chamar de altivo. Derramo pelas minhas palavras tudo o que há no meu coração. Você sempre será alvo do meu amor e da minha admiração.

Aceita um colo, pega toda essa dor e simplesmente esqueça. Agora me puxa para perto e acaricia minha cabeça. Sete, porque é um número auspicioso e cinco estrelas não são o suficiente. Após o Cruzeiro do Sul há mais estrelas, vá em busca de obtê-las e conheça constelações diferentes. Alastre-se, expanda, ousa continuar crescendo depois da morte, conquistando os horizontes. Se eu também tiver sorte um dia vou existir longe.

Descanse, meu velho, não precisa mais trabalhar. Você deixou um cenário positivo para que possamos continuar. Obrigado por ter repetido a lição de John Donne e ter me ensinado que “Nenhum homem é uma ilha”. Obrigado pelo aprendizado de amar e valorizar a família. Uma das grandes injustiças poéticas da vida é que a bondade e o amor que recebemos, por vezes, só podemos passar aos próximos. Não tenho como ser melhor neto agora, é tarde demais, mas buscarei ser um melhor irmão, um melhor filho, um melhor sobrinho, um melhor namorado e um melhor amigo. Como a vida é cheia de nuances, eu já posso buscar ser um excelente tio para o meu sobrinho e eventualmente, mais para frente, pretendo ser o melhor pai do mundo para os meus filhos.

Olho para trás e vejo com clareza a minha juventude, mas o tempo passa e exige que tudo mude. O que traz valor a vida é a finitude. Tudo bem, eu sei que a vida acaba e por isso só chorarei para limpar a minha alma. Se pudesse escolher, eu talvez ainda estivesse brincando com a terra nos buracos que você cavava para mim na fazenda. Eu quase me esqueci, mas há tanta gente que se lembra. Há uma distância entre o que foi e o que é, mas me fortaleço na consciência de que nada é permanente. Tudo foi bom outrora, mas rezo para que seja melhor lá na frente. A vida será muito diferente. As páginas viram e outros continuam contando uma história que parece exclusiva e individual, mas na verdade, do começo ao fim é compartilhada. Viemos e voltaremos ao nada.

Obrigado por tudo, meu avô. Obrigado por ter nos ajudado a prosperar, daqui para frente, sigo por mim e por toda essa gente, com todo o meu amor. Nas fotos, eu vou sempre viajar do futuro para o passado para te encontrar. Obrigado por tudo. Te amo para sempre e mais um dia! De sexta-feira em diante, hoje mais do que nunca no que seria o seu aniversário de 76 anos, quero que saiba que carrego comigo um orgulho imenso de ser seu neto e a certeza que essa despedida é acompanhada de uma promessa de reencontro. É um adeus, sim, mas só por enquanto. Agora você vai dançar, sambar e cantar em qualquer lugar, gastar toda sua voz com o trem das onze. Um dia a gente se encontra, mesmo que ainda esteja um pouco distante. Feliz aniversário, vô! Que você esteja bem e satisfeito onde quer que esteja!

Com amor,
seu neto Daniel.

Publicado por

drpoesia

Escritor de hábitos relativamente saudáveis que gosta de escrever crônicas, poemas, contos e principalmente romances de ficção fantástica. Três livros prontos, porém, ainda sem publicação física. Trimestralmente faço o registro dos meus novos textos no Escritório dos Direitos Autorais. Tenho 27 anos de idade e sou formado em Direito. Creio no amor, embora o sinta meio ingrato neste ano. Só posso ser quem eu sou e é assim que vou continuar. Confio no mestre Leminski. "Isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além". Se você continuou até aqui espero que conheça meu blog aqui na WordPress e que possa dar uma visitadinha nas minhas páginas de poesias no Instagram e no Facebook! Obrigado! Volte sempre!

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