Escritório.

Não me colocava a escutar os barulhos e, ainda assim, escutava-os. Como se minha percepção fosse maior do que eu a imaginasse, eu seguia fazendo com que meus dedos trabalhassem automaticamente numa tentativa vã de me fazer sentir mais vivo do que eu realmente estava. Estava? Estou mesmo? Que provas tenho de estar vivo? Nenhuma. Esfrego minhas têmporas. Às quintas-feiras, decidi, dedicarei uma parcela do meu tempo aos exercícios físicos. Acaso seja capaz, disse me encarando pelo fraco reflexo de minha silhueta na vidraça, quem sabe eu malhe ou corra todos os dias. Nunca dei muito valor aos corpos, ainda que valorizassem o meu. Tudo se perde e tento me convencer de que posso correr todos os dias, ainda que não existam tantos motivos para que isso seja feito. Endorfina, serotonina, isso tudo me parece vago e ligeiramente desnecessário. Correrei, embora a conclusão não me faça tanto sentido. Admito que cuidar do corpo me faz respirar melhor. Quando se respira bem e se está atento ao que acontece ao redor, nota-se que a vida é mais bela do que havíamos suposto anteriormente e o que é belo serve naturalmente como colírio aos olhos que precisam de lubrificação diariamente. Respirar é mais um dos atos ligeiros e naturais que fazemos sem o risco de não os fazer, entretanto, estar consciente da respiração é processar a vida e seus inúmeros ritmos com uma precisão cirúrgica rara. Entendendo que cada momento é único e jamais se repetirá, respirando devagar, observando, notamo-nos capazes de renovar a vida a todo instante. Descobre-se que até o que é inútil tem valor. É necessário aprender a identificar os espaços vazios e posteriormente os aproveitar. Criei-me e cresci com milhares de inutensílios. Amei tudo e guardei até os desamores no coração. Strange Trails.

Interlúdio em minhas conjecturas desconexas. Um homem magro caminha ao longe. Carrega um galho de árvore e me pergunto de onde é que veio o galho, embora não me perca na curiosidade de querer saber de onde veio o homem. Da janela a cena parece ser assistida por meus olhos cansados através de uma televisão sem cores, preto e branco. O dia é tão apático, amorfo, que vejo este retrato de cena como um quadro em movimento. O trabalhador magricelo arrasta o galho com displicência, como quem não arrasta nada. Inutilidades presentes nos cotidianos, nunca inúteis, o galho espesso e longo veio de algum lugar e agora seguirá para lugar nenhum. Misturo-me nos devaneios. Sou eu assim também? Vim da barriga de minha mãe, ao mundo, para o mundo e para onde voltarei quando tudo acabar se agora se torna impossível retornar ao local qual essa jornada se iniciou? Respiro a vida. Numerologia míope de mim mesmo. Os números passam voando quase junto com as letras, mas só agarro as formas alfabéticas que me aprazem. Das letras preciso e admito que sou refém. Dos números também necessito, mas cuspo no chão e orgulhoso tento me manter longe. A matemática faz sentido excessivamente e me pego consternado por me considerar humano demais para ser exato. Quiçá exista uma fórmula mágica (numérica) para o algoritmo de mim? Se descobrir esta resposta, eu valerei milhões e me venderei. Serei alvo dos desejos alheios. Vejo que me perco, mas outra vez me encontro quando os números me guiam objetivamente para minha tão subjetiva perspectiva de realidade. Os números e os escritórios são de suma importância para que eu continue meu ofício. O homem olha para o céu escuro e acinzentado. Eu acompanho o seu olhar. Ele repousa as mãos na cintura e observa. Eu observo sem as mãos na cintura. As nuvens plúmbeas parecem anunciar que, em breve, a chuva chegará, inevitável. Os buracos das ruas aos arredores se alargarão e água escorrerá pelos vidros transparentes. Prevejo carros com os pisca-alertas ligados e pneus sendo trocados. Mais água e mais confusão. Os afogamentos me apavoram. Algumas árvores talvez caiam, principalmente com a expectativa dos raios, assim, talvez amanhã o mesmo homem esteja pelo mesmo pátio e desta próxima vez arraste um galho completamente novo. O sujeito amorenado que estava vestido de azul desapareceu não sei que horas, voltou ao trabalho já que não havia mais galhos para mover, enquanto eu nem havia parado de fitar o céu. Toda aquela imensidão cinza parecia ter a força de convocar o meu vazio. Sou triste, apesar da vida boa que tenho. Sou triste, embora se estampe a felicidade em meu cenho. O vazio me faz vibrar, estremecer. Quase corro para abraçar tudo o que me arrasta para o fundo do poço. Não, hoje não, sussurrei sozinho e os números que ainda seriam conferidos concordaram pragmaticamente. Hoje serei feliz, verdadeiramente feliz, ainda se por vagos momentos for acometido pela melancolia. Especialmente nesta quinta-feira, entre carros e caminhões e ônibus e motos e números nas folhas que imprimo neste escritório, entre a tinta da caneta que grava o sinal de conferência, enfim, percebo tudo o que existe. Sorrio e sei que sou tudo. Ninguém me notou, mas eu estava em todas as partes.

Fim da pausa. Novamente não me coloquei a ouvir os ruídos sonoros e, ainda assim, eles me alcançaram. Martelos martelavam e chaves chaveavam. Tudo seguia uma espécie de fluxo. Aço, metal, ferro, chaves, martelos. A vida nunca é o que espero. Os barulhos quebravam o silêncio fúnebre daquela sala de trabalho. Penso em todos os outros escritórios e salas quais já estive e voo, antes de me centrar aqui. Percebia-me percebendo. Ao longe os mecânicos batiam em alguma coisa, sem violência, apenas com a força necessária. Estes mecânicos seguiam consertando e consertando, como quem antecipa que a vida é um eterno reparo de coisas que não estão funcionando como deveriam. Este ofício, rústico e sensível, suja aqueles homens de poeira, graxa e óleo. Ali jazem encardidos e exaustos homens que se deitam quase dentro das máquinas e se dispõe a fazer o que for preciso para que as coisas voltem a funcionar. Quando não conseguem, suados eles suspiram e se conformam. “Fiz o que pude”, imagino que assim digam, antes de seguirem para o próximo reparo. Pudera eu ter a obstinação dos mecânicos, migrando minhas vontades de uma peça para outra, descartando meus desejos libidinosos ousados, sórdidos, expansivos e patéticos, renunciando ao sonho extravagante de ser um escritor lido, bem como um escritor publicado. Se pudesse nunca ter fantasiado com o Japão ou com a Islândia, se pudesse trocar a Nova Zelândia por Nova Andradina, eu o faria sem hesitar. Deixaria o escritório ainda hoje e comeria os quilômetros da estrada na precipitada ânsia de me realizar. Tudo, porém, é tão distinto e distante que quase não me atrevo. Pisco para o passado e reparo que meus instintos infantis são os mesmos de antes. Estão fixados em minha memória e alma. Livrar-se deles é me descartar no âmago?

Os meus pelos se eriçam e a realidade me desaponta, pois sei o pouco que sei e isso não me garante coisa alguma. Sinto como se só a realização das minhas vontades fosse capaz de me libertar, ainda que todas soem complexas e que nem tudo sempre dependa de mim. Ora, se eu fosse capaz de meramente me substituir, se não sentisse nas pontas destes dedos a minha própria identidade pulsar, como qualquer Pessoa ou outro gênio que passou a vida em escritórios fechados, como qualquer Walt Whitman em suas intermináveis e belíssimas odes à Natureza, como qualquer sofredor digno que não deixou o coração apodrecer e utilizou a Dor de uma vida castigada para encontrar o caminho para a Beleza. Como Wilde se purificou ao despejar tanta amargura por cartas na prisão. Traído por seu amante, gênio, semideus, vítima de suas próprias humanidades. Somos flores que rompem o asfalto, constantemente inconstantes desfiando a probabilidade? Somos a improvável beleza genuína que ofusca a feiura do mundo? Somos o sofrimento insistente, uma vez que o inexorável destino coloca todos de joelhos? Livro de meus pudores, exceto do pudor de ser quem Sou. Pudera eu apenas desistir, suspirar e seguir para a próxima peça, mover-me para a próxima máquina, encarando a vida com a praticidade objetiva dos mecânicos. Pudera eu abrir mão de mim, não escrever nunca e apenas trabalhar, não viver e apenas sonhar, pudera eu não enrijecer de excitação quando alguém raramente me olha e me vê, quem dera eu fosse um mago de mim, conjurando-me em outros cenários mais simplórios, suficientes. Pudera eu não ser extravagante nos meus desejos mais íntimos… Entretanto, fixo-me no que me pesa e me ancora na realidade e tudo o que é grave, pesado, soa-me extremamente necessário, pois só possui valor tudo o que pesa. Coloco o mundo nas costas e tento sorrir. Alguns querem dividir o fardo comigo, mas eu me recuso. Confesso-me, vez ou outra, obtuso, ainda que eternamente imperfeito. Não consigo tudo o que quero, mas insisto em fazer as coisas do meu jeito.         

Ser demasiado coletivo mata a individualidade. Agrado tanto aos outros que por vezes sinto estar sendo uma decepção a mim. Quero alimentos para a alma, clamo e ao perceber que só posso ser quem eu sou, derramo lágrimas e sinto essa solidão inteira de mim. Lá fora o céu anuviado escurece e queria sentir através de meus joelhos a convicção da chuva, não, não a sinto e imagino se um dia serei velho o bastante para prever a chuva. Hoje nada sei de mim ou da meteorologia, não sei se choverá, ainda que o clima transmita uma agressividade palpável. Não, não sei de mim e o pouco que sei, por vezes sinto que prefiro não o saber. O demônio do fogo quer se apoderar de tudo, dominar tudo, impor-se, soberano, fazendo com que tudo seja alvo de minhas vontades. O Vide Noir quer o Nada, anseia pelo meu encontro com o limbo, o espaço sem espaço. Tudo isso me completa e não me traduz, tudo me transborda e não me define, tudo isso que nunca deixa de ser. Ainda assim a vida é dolorosa para quem encara tudo com uma profundidade ancestral e busca por significados, ora, que significados eu poderia me inventar para que inserisse um sentido nesta existência toda insana? Costumo agir com certezas, mas às vezes me duvido, afinal, que prova tenho de que estou vivo? Toda essa realidade me parece improvável e fui ficcionista desde que berrei pela primeira vez no hospital quando senti fome. Quem sabe não foi ali que comecei a inventar todo o resto? Quem sabe isso tudo não seja apenas um sonho torpe qual sonhei e que toda essa existência fútil e insignificante (no significado) se justifique por eu ter falhado em dar propósito para o todo? Sim, sou certo, mas é como disse, por vezes me duvido. Que provas tenho de estar vivo? Escapei por um detalhe de uma colisão com uma carreta na BR-163. E se morri lá e imaginei todo o resto? E se meu corpo gelado ficou na estrada enquanto o céu chovia em mim e meus amigos e parentes eram avisados? E se apenas não sobrevivi e imaginei tudo isso? Os pecados, os acertos, todas as vontades que tive e que passaram, todas as minhas sensibilidades fúteis e meus cuidados com os animais e as pessoas, que sentido se me extraio nisto tudo?

Percebo-me perceber a realidade outra vez. Estou no escritório e é quase a hora do almoço. Anseio pelo final de semana e pela caneca gelada de chopp que será acompanhada de um brinde junto com pessoas que se aprazem de me acompanhar. Sinto fome e sede. Quero o amargo do café, do chocolate ou da cerveja. Quero os diálogos ébrios, o sexo forte e um tempo absolutamente livre para que eu possa apenas me perder outra vez. Os números me fixam ao chão e vejo que o sol aparecerá na semana que vem. Pisco e me revejo em outros cenários, passados, que já não importam. Pisco e prevejo o futuro, falso vidente de mim e bocejo. Os dedos descansam e encosto eles mais vagarosamente nas teclas. Solto a caneta. Não quero marcar nada em definitivo. Não sei se fiz o bastante, mas os números do escritório traduzem a vida e sinto que sou mais que uma ideia, talvez até alguém de verdade. Suponho estar vivo, embora seja mero palpite. Respiro e o mundo inteiro desacelera. Estou calmo, mas vejo que meus dedos sempre se apressam. Essa história, real ou não, vale a pena ser contada. Realidade ou ficção, ainda sinto estar longe do final da estrada. Quero viajar e ver o mundo. Quero conhecer novas pessoas e brincar por outras realidades sonhadas por elas. Sei que sou quase feliz e talvez um dia seja completamente feliz, mesmo perseguido por um fantasma de melancolia. Sei que estou quase satisfeito, entretanto, antecipo que nunca algo será perfeito e suficiente, mas me resigno de boa vontade. Respiro novamente e relembro que cada momento é único, até os de surtos. Isso tudo jamais se repetirá e até a minha memória pode deturpar a situação fática do presente, que logo se tornará um novo passado. Respiro devagar e deixo a vida se renovar em mim. Respiro e meus olhos cintilam com toda a beleza que comporto dentro. Relembro a importância dos espaços vazios, o valor dos inutensílios, a vivacidade de tudo o que é fútil. Meus batimentos cardíacos se acalmam, pois eu respiro. Olho pela vidraça e antes de ir para casa almoçar me percebo estar sorrindo.  

Publicado por

drpoesia

Escritor de hábitos relativamente saudáveis que gosta de escrever crônicas, poemas, contos e principalmente romances de ficção fantástica. Três livros prontos, porém, ainda sem publicação física. Trimestralmente faço o registro dos meus novos textos no Escritório dos Direitos Autorais. Tenho 27 anos de idade e sou formado em Direito. Creio no amor, embora o sinta meio ingrato neste ano. Só posso ser quem eu sou e é assim que vou continuar. Confio no mestre Leminski. "Isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além". Se você continuou até aqui espero que conheça meu blog aqui na WordPress e que possa dar uma visitadinha nas minhas páginas de poesias no Instagram e no Facebook! Obrigado! Volte sempre!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s