Sozinho no Bar

Não soube o que fazer quando fiquei sozinho na mesa daquele bar. Eu sabia, claro que eu sabia, em alguns instantes meus amigos reapareceriam e encerrariam minha solidão, entretanto, reconheci-me em maus lençóis quando tentei narrar meu desespero. Os meus motivos? Ora, percebe-me pálido diante deste discurso? Há certas coisas que não se explicam e o meu desespero me furtou a voz e a vez. Quando os costumes antigos dão lugar aos novos ou ainda pior, quando não há novos costumes e tudo o que chega é inédito, muito se agita por dentro com a liberdade de tudo o que é imprevisível e vem de fora. Não faço sentido então? Eu estava convicto de que meus amigos voltariam, mas quando um minuto soa como uma hora e o coração se acelera, peguei-me apertando meus dedos e querendo apressar a vida que nunca se apressa.

O que me levava aos picos de ansiedade sendo que todos, sem exceção, sabiam o quanto eu aprendi a ser calmo? Essas inconstâncias, instabilidades, todas essas letras e palavras que soam como impossíveis, inviáveis, bom, eu vejo que elas me ajudaram a ter clareza de que há apenas um acúmulo de dramas em nossas vidas e essas nossas tragédias, veja, sempre tão particulares, agulham nossa pele o tempo todo.

Os amigos ainda não voltaram, o garçom pergunta se aceito mais um chopp e sinalizo que sim com a cabeça. Essas novas rotinas ainda me surpreendem e abaixo a minha máscara cuidadosamente para dar uma golada revigorante. Esse primeiro gole parece o primeiro ou o último gole de toda a minha vida e renovo a respiração no alívio que se sucede. É a solidão que me faz ficar tão tenso?

Não. Ainda me lembro com clareza da solidão. Vinte, trinta ou cinquenta dias sem ver um rosto qual desejava mesmo ver, bom, eu ainda me lembro. Recordo-me de como as representações estéticas tão comuns repentinamente se esvaíram e os símbolos trazidos pelas imagens passaram a existir como fantasmas dos próprios símbolos, sem imagens. A distância do amor, a distância da amizade, tudo isso dói, assim, convencia-me de que tinha que seguir em frente, mesmo ferido.

Lembro-me de que a presença do silêncio era tão aterrorizante, que eu sentia, mesmo sem estar enlouquecendo, que eu podia tocá-lo. A chuva era mais molhada, os trovões eram urros raivosos e cada tempestade soava como o fim do mundo. Eu dirigia na chuva ou tomava a chuva na própria pele e sentia cada gota me flechando, uma a uma. Essas resoluções úmidas são estranhas, veja, é que a gente envelhece todo dia, claro e, embora por dentro não se sinta, quem está de fora sempre repara. O que os anos fizeram com a gente?

Nada. Os anos, na verdade, nunca fazem nada com a gente e a percepção do que fazemos com os anos é muitas vezes sombria. Ainda assim, vale a pena, certo? Escrever e tentar, continuar escrevendo, carregando no peito puerilidades incontáveis e a esperança quase desesperançada de que algumas coisas valem a pena e de que escrever sobre o amor pode mudar o mundo.

Rio de minhas ideias, pois a experiência transforma muitas vezes a esperança em bom humor. Ainda assim, rindo da própria piada que faço de mim, secretamente creio nela. Os amigos agora retornam e estão sorridentes e parecem cheios de novidades para contar. Este meu pequeno devaneio tive quando fiquei de escanteio, procurando a solução para o mistério da vida na mesa de um bar.

Publicado por

drpoesia

Escritor de hábitos relativamente saudáveis que gosta de escrever crônicas, poemas, contos e principalmente romances de ficção fantástica. Três livros prontos, porém, ainda sem publicação física. Trimestralmente faço o registro dos meus novos textos no Escritório dos Direitos Autorais. Tenho 27 anos de idade e sou formado em Direito. Creio no amor, embora o sinta meio ingrato neste ano. Só posso ser quem eu sou e é assim que vou continuar. Confio no mestre Leminski. "Isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além". Se você continuou até aqui espero que conheça meu blog aqui na WordPress e que possa dar uma visitadinha nas minhas páginas de poesias no Instagram e no Facebook! Obrigado! Volte sempre!

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