Metade do Caminho

            Se eu correr de trás para frente, será que eventualmente esbarraria na sua antiga versão na metade do caminho?

            Você era atenciosa, antes de se tornar mais atenciosa, mas parecia preocupada, sempre preocupada com alguma coisa que eu não sabia dizer. Era impossível te antever naquela época. Eu vim de outro lugar, de outro endereço, mas o céu era o mesmo e o tempo também. Percebe como precisamos dos acasos? Ainda assim é estranho saber que sequer teríamos trocado correspondências, acaso meus olhos escuros não a tivessem visto. Se um detalhe fosse diferente, você nunca teria entrado na minha vida e então quem eu seria hoje?

            É que eu costumava ser mais assim, voraz, ágil, expansivo e costumava parecer tão interessante para quem era de fora quanto me parecia desinteressante, por dentro, para mim. Os outros cultivavam um interesse sombrio em mim, uma admiração perplexa, algo sem nexo e eu inflava e crescia e tomava conta do que era meu. Por dentro eu continuava o mesmo, por vezes oco, por vezes seco e outras vezes era colorido o suficiente para tornar o mundo inteiro mais bonito, mas tudo isso era trancafiado para dentro, como se eu mesmo fosse um cofre, isolando essas particularidades, pois ninguém tinha o direito de saber sobre as coisas lindas que outrora havia guardado apenas para mim. As chaves para os meus paraísos e infernos eram minhas e por mais que me recusasse a ser outro, não permitia que os outros vissem tanto de mim. Não se confunda, eu nunca era superficial, não, eu apenas não era inteiro. Essas coisas internas, internalizadas por acaso, consolidam-se em nós, duras como o ferro, até que a gente possa mudar pelas próprias forças ou optar por não mudar. Fechamo-nos tantas vezes, pois a vida ensina que se nos abrirmos, seremos vítimas de um sofrimento terrível. Se uma porção do sofrimento que passei fosse removida de mim, eu não teria os olhos bons para coisas frágeis e quebradas, bons o bastante para reconhecer quem se parecia comigo, assim, creio que você nunca teria pisado na minha calçada e então quem eu seria hoje?

            É que antes eu andava por aí convencido de mim, berrando aos quatro cantos sobre quem eu era e tinha orgulho de ser, apesar das imperfeições, partes feias e equívocos. Deitava sozinho no quintal de casa e olhava para a lua, conjecturando em minha cabeça sobre caminhos, escolhas e sobre tudo o que ainda era desconhecido. Quantos milhares não olhavam para a mesma lua que eu? E a infância havia sido repleta de amigos, mesmo intercalada com inúmeros momentos de solidão nos quais eu observava insetos e ouvia os barulhos que o mundo fazia enquanto tentava entender o meu papel ali. Quantos milhares não procuravam os rostos de suas respectivas almas? Eu sentia como se o Universo inteiro me fosse familiar e como se eu fosse gigante e salgado, exatamente como o oceano, o que justificava o meu sal toda vez que eu chorava. A lua, imponente, por vezes se escondia demonstrando timidez ou era coberta por nuvens que passavam por ali. Não, as nuvens não sentem inveja da lua ou das estrelas, elas apenas precisam passar, como por vezes precisam chover e eu me chovia, lunático, estrelado, distante e satisfeito, refulgindo na escuridão da madrugada, imaginando que a lua, convicta de sua beleza, ria da minha mais pura admiração.

           Quantos não saíram para espiá-la nos céus e não encontraram nada? Eu me perguntava, solitário, sombrio, fechado em mim, se existia alguém capaz de mudar o meu destino. Ficava ali, triste, meu coração melancólico absorvendo as emoções do mundo todo. Se chorei nessas noites, eu peço perdão, chorava sem saber meus porquês, mas hoje vejo que antecipava toda a felicidade e a tristeza que eu ainda sentiria no futuro. Fazia perguntas para Deus, que me deixava no silêncio contemplativo de mim, eu mesmo estirado no chão como um tapete colocado para doação, sem serventia. Via-me avulso, pesado, saboreando a minha solidão e me perguntando no que eu seria bom e se as companhias futuras seriam melhores, até o momento qual a minha cachorrinha invadia a minha privacidade com muitas lambidas e eu me esquecia de ser profundo, prolixo, protelador, rindo da simplicidade maravilhosa do afeto de um animal. A vida vai estranha, mas nos focamos sempre no que aconteceu diferente do que queríamos, nas partes distintas e, esquecemo-nos de que compartilhamos terrenos comuns e de que outros, muito antes de nós, trilharam caminhos semelhantes.

            Você que me olha nos olhos, sabe me dizer se enfrentou ou evitou os perigos? Diga-me agora, milady, senhora, para onde foram todos os anos perdidos?

            É que estamos envelhecendo em uma velocidade assustadora, abrupta e o coração que acelera no peito é o mesmo daqueles tempos que antecederam o primeiro beijo na adolescência e o que é súbito ou pior, abrupto, indica que as palavras podem assustar tanto quanto as ações. E as minhas mãos suavam e não sabia sequer dizer uma palavra, até que aprendi muitas, até que erroneamente fui acusado de ter a consciência de sempre saber o que dizer e adivinhar pensamentos. A verdade é que eu nunca adivinhei nada, nem bênçãos, nem desgraças e era fechado, apenas por não saber como me abrir. Costumavam me perguntar se o gato havia comido a minha língua, até que disseram que a minha prolixidade objetiva era encantadora, ainda que no meu ponto de vista o prolixo seja incapaz de ser objetivo. As minhas mãos ainda suam, mas a minha língua-espada hoje me defende e me regozija, por todas as suas capacidades. Vê o quanto passamos para chegar até aqui? E os nossos tremores nunca pararam e nem creio que pararão, pois há aquela velha ansiedade pela vida que temos pela frente, vida de riscos e perigos, de tristezas e sorrisos, vida para viver. É que nós humanos somos uma coisa original, quase vulgar, seres repletos de instintos maus e nobres e, escondemos nossas vilezas horrendas por acharmos que o mundo nunca nos entenderia. Será que um dia alguém entenderá? Será que existe alguém que nunca se disfarçou?

            Toda vez que eu chegava em um lugar, eu sentia como se estivesse na antiga Sala Grande, um velho cômodo da casa de infância, quase absolutamente inútil até a semana passada quando diversos amigos jogaram Beerpong e me pego pensando na importância das cervejas e dos amigos e dos espaços vazios. Eu me perguntava se a sala era mesmo grande ou eu e meus irmãos éramos demasiados pequenos e se os espaços não preenchidos parecem maiores do que realmente são. Tudo me estranhava quando eu não era estranho para tudo. Eu me pegava febril, quente, refletindo, ansioso e acuado, cheio de medos. Revolvia para dentro, angustiado por não poder brilhar para o mundo. Mesmo quando o trem descarrilava, eu sorria, ainda que triste. Há nessa vida quem só ame ferrovias, você sabia? Mesmo quando tudo parecia desconexo, eu insistia. Há quem nessa vida sempre insista, você imagina? Tive excelentes ideias, mas nenhuma delas bastava. Por vezes me via igual ao menino que tinha uma estrela no lugar do coração, entretanto, meus batimentos cardíacos se aceleravam e me revelavam tão comum quanto qualquer outro. A única diferença é que eu insistia em ser quem eu era, nunca emprestando sequer um traço das personalidades alheias, assim, por vezes, de tanto ser peixe fora d’água, quase morri asfixiado longe do oceano.

            Nunca soei a mim bom o bastante, embora sempre tenha me gostado, fora da casinha ou da caixa, um esquisito, uma peça solta de um quebra-cabeças que ninguém jamais soube montar, eu mesmo o mais distante disso. E meus afagos e afetos, bem como minhas obtusidades, cresceram e mudaram de rumo até que eu abraçasse algo para a minha vida e chamasse de destino. É que a gente não pode ignorar os casacos e as baratas douradas e todo o resto que nos trouxe até aqui. Não podemos fingir que ontem, por pouco, quase não fomos nós mesmos em nada e alimentamos um monstro viciado em absorver escuridões e temores. Ontem um olhar atravessado seguido de um gesto extravagante foram capazes de nos estremecer. Dormi mal, tiritando de frio, por não sentir o seu calor. Não entendi muito do que deveria e o que entendi não era o que me parecia. Nossas embarcações estremeceram, nós oscilamos e ficamos à deriva no mar. Você sentiu também, não foi? Quando subimos de volta, estávamos em canoas separadas, barcos frágeis e, isso tudo nos leva a perguntar o que estamos perseguindo quando mergulhamos em partes rasas ou procurando defeitos com lupas. Quando dois mundos se encontram, há inevitavelmente catástrofes e eucatástrofes notáveis.

            Se acalme agora, não é sobre certo ou errado, não é sobre eu e você, temos melhorado, você percebe? E não somos mais tão teimosos, obtusos, não batemos cabeça tanto por bobeira, não estamos distribuindo socos nas pontas das facas e esperando não sangrar, como costumávamos fazer lá atrás. E o nosso carinho cresce, um pelo outro, bem como cresce o amor, aquele verdadeiro, aquele que anos antes, pensávamos que seríamos incapazes de sentir outra vez. E me esqueço do mundo no chão da sala, com o giro do ventilador, assistindo qualquer coisa quase interessante que nos distraia, mas que sirva como pretexto para que estejamos nos braços um do outro mais uma vez. Somos divertidos e chatos, sucintos e prolixos, obscenos e sagrados, simétricos na assimetria. Eu estou remando até você, você vê? Até que possamos estar novamente em um barco só.

            É estranho que a Sala Grande tenha levado quase três décadas para receber alegria e, eu mesmo, tão nostálgico e melancólico por natureza, acreditei, apesar de tantos pesares, que não merecia ser feliz. Quando me olharam como se eu não me fosse, enraiveci-me, pois, as minhas roupas só cabiam em mim, assim, chorei abertamente e em segredo, pela confusão que fizeram de mim. Nem tudo é o que parece e o que me pareceu foi assustador, bem como os outros sustos que te fiz tomar e de alguma forma, as bruxas que celebraram o dilúvio na semana anterior nos amaldiçoaram na semana seguinte e você sabe, tão bem quanto eu, que todos esses mitos e ficções são reais.

            Caímos e nos levantamos. O respeito não pode acabar, assim, tentamos de novo e de novo e outra vez, enquanto houver amor. Fomos atacados pelas bruxas, pelos fantasmas, assombrados por figuras que se pareciam conosco e não eram, porque nunca poderiam ser. Somos melhores. Somos maiores que essas lendas. Quem não aprendeu a perdoar só aprendeu coisas pequenas. Se eu correr de trás para frente, eu te encontrarei na metade do caminho? Diga que me ama, bem como eu tenho te amado, desde antes do nosso nascimento aqui neste planeta. Diga que quer permanecer mais cinco minutos ao meu lado, apenas porque a minha presença te traz segurança. Diga que vai ter paciência e que vai me ensinar todos os tipos de dança, ainda que eu não saiba dançar. Sacuda o meu corpo e me desperte para que possamos contemplar o nascimento do sol. Aconchegue-se na sala enquanto assistimos outro jogo de futebol.

            Se eu correr de trás para frente, será que o meu eu do passado se orgulharia do meu eu do presente? Perdido nas cronologias que faço em imaginação, utilizando-me de um número surreal de silogismos para sustentar minhas poucas convicções, percebo-me olhando para o lugar qual estou pela primeira vez e sorrio. A vida é bela, vale a pena e todos os percalços que nos trouxeram aqui nos fizeram quem somos. Sinto que devo ser grato por tudo, pelos erros, pelos acertos, por quem acertou e errou comigo também. Envelheço a cada dia que passa e a vida ganha cada vez mais graça enquanto você anda ao meu lado. Se isso soa tão certo, é impossível estar errado.

           Se eu correr para você hoje, antes que a noite vire dia, você me receberá com aquele seu sorriso que me traz tanta alegria?

Publicado por

drpoesia

Escritor de hábitos relativamente saudáveis que gosta de escrever crônicas, poemas, contos e principalmente romances de ficção fantástica. Três livros prontos, porém, ainda sem publicação física. Trimestralmente faço o registro dos meus novos textos no Escritório dos Direitos Autorais. Tenho 27 anos de idade e sou formado em Direito. Creio no amor, embora o sinta meio ingrato neste ano. Só posso ser quem eu sou e é assim que vou continuar. Confio no mestre Leminski. "Isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além". Se você continuou até aqui espero que conheça meu blog aqui na WordPress e que possa dar uma visitadinha nas minhas páginas de poesias no Instagram e no Facebook! Obrigado! Volte sempre!

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