A Casa da Rua Sem Saída.

É uma situação de perspectivas, vocês vejam, vocês que me importam, como nós podemos notar, o copo está meio cheio ou meio vazio, assim, escolho acreditar que há o suficiente para não ficar com sede. Bem, ainda tenho água para beber e é o que importa, certo?

Leiam com paciência, não deixem que minhas palavras escapem e signifiquem menos ou mais do que pretendi que elas significassem. Se eventualmente se perderem no que intenciono traduzir, recomecem, por favor e procurem nas menores coisas os maiores resultados. Engatinhem, se porventura, se esqueceram de como andar e segurem a minha mão, como eu costumava fazer, quase sempre que era dominado pelo meu feroz medo da escuridão e atravessava o corredor pequeno madrugada adentro, orando para não ser engolido por qualquer monstro.

Quero deixar claro que as palavras a seguir são destinadas a quem sabe tanto quanto eu que saber o que se sabe não garante absolutamente nada. Eu sei, por exemplo, que nasci junto com a Casa da Rua Sem Saída. Os nossos acabamentos foram quase simultâneos e, antes de completar um ano de idade, eu chegava no colo da minha mãe a um lugar onde eu seria absolutamente feliz. Na verdade, eu seria absolutamente tudo e simultaneamente seria nada, completamente vulnerável, eufórico, despreparado para a complexidade bela e devastadora de uma vida que bagunça a nós todos. Isso tudo ocorreu quando o meu coração ainda era pequenininho e não abarcava mundos, quando eu ainda cabia no colo de minha mãe, quando ela melodiosamente cantava uma música da qual também me lembro na voz de minha avó falecida.

“Mãezinha do céu, eu não sei rezar, eu só sei dizer, quero te amar, azul é o teu manto, branco é o teu véu, mãezinha, eu quero te ver lá no céu”.

Sorrio triste ou choro com uma felicidade que não me cabe e que não se explica. Tenho, vez ou outra, a impressão de que nasci invertido. A casa ainda é bela, repleta de carga do que um dia foi e de esperanças pelo que um dia ainda será. Na piscininha onde costumávamos travar infindáveis batalhas com os primos ou amigos, uma tragédia recente estilhaçou o meu coração e já não posso me lembrar da alegria sem me inundar pela culpa. As tragédias, sejam grandes ou pequenas, sejam detentoras de tomates ou de miados estridentes e famintos, ocupam um espaço indefinido no peito. Gostaria de poder ser um pouco mais, mas quando me perguntam um pouco mais o que, admito que não sei o que dizer. O que eu queria era ir um pouco além, existir longe e encarar os recomeços como um renascimento, assim, talvez eu fosse capaz de enfiar o dedo mais fundo nessas feridas ainda abertas, mas para ser sincero ainda não consigo. A Casa, minha testemunha, sabe como ninguém o que passei naquela noite e como conheci uma face nova do desespero.

Talvez tudo isso seja tão marcante apenas por ser real, mas lá atrás, antes dos grandes acertos e erros, quando o que importava era diferente e nós éramos diferentes, eu penso que talvez já houvesse o suficiente de nós em nós para nos guiarmos por um caminho bom, decente e quiçá a bondade seja o suficiente na maioria das vezes e na maioria dos caminhos. Lá no passado, antes de nós sermos quem nos tornamos, fomos outras pessoas, outras coisas com as mesmas almas, com rostos parecidos, imberbes, sem as marcas inexoráveis da passagem do tempo. A casa, imponente e bela, eu, recém-nascido e chorão. Nós, novos no mundo, mais novos ainda para o mundo, exatamente antes de absorvermos tudo o que absorvemos. Se porventura resolvermos sopesar os danos da vida com as bênçãos, nós provavelmente nos encontraremos em uma situação de desvantagem, pois um amigo meu está certo em dizer que uma tristeza se equipara a três alegrias. É mais fácil cair do que levantar, entretanto, há que se ter essa complicada fibra moral e acreditar nas improbabilidades. Penso eu, às vezes, que devo isso aos meus pais, veja, eles me permitiram criar formigas, sentir amor pelas aranhas e assistir os animes desde os meus sete anos de idade. A minha imaginação crescia sem fronteiras e o meu coração se embelezava com toda a sutileza extravagante dos clichês de coragem.

Há instantes que duram eternidades e estou convencido de que vivi dezenas de eternidades na Casa da Rua Sem Saída. As tantas memórias com os meus pais, com os amigos, com a casa, que ainda hoje parece me abraçar, como se a minha família me abraçasse simultaneamente. Só a casa é capaz de fazer quatro soarem como cinco. Só a casa é capaz de estender a quantidade exata de abraços calorosos em mim. O colo de mãe, que nem sempre está disponível e o afago do pai, quase sempre mais distante. Na casa, porém, há ainda o melhor de nós em nós, quando não éramos provavelmente tão bons ou vividos assim. Sinto como se me soltasse em um colchão confortável e estivesse prestes a adormecer em segurança. Enternecido pela energia que a Egrégora me transmite, sinto como se eu fosse sublime e tudo subitamente parece encaixado e correto, mesmo as partes curvilíneas, mesmo quando a vida entortou.

Bom, vocês sabem, desde pequeno eu era esquisito e funcionava de dentro para fora. Não era lá muito comunicativo e até os onze anos de idade ficava enrubescido e tinha vontade de sair correndo toda vez que uma menina falava comigo. Toda vez que um menino me pressionava, eu tinha vontade de chorar, não sabia nada sobre ferocidade ou valentia, sobre medo, sobre luzes e sombras. Ainda assim, é esquisito, mas eu juro que é verdade, eu sabia que jamais perderia o meu tempo tentando ser alguém que eu não era. Lá pelos quinze, eu me lembro de ter deitado no quintal e sofrido pelo que eu achava ser amor, quando a puerilidade ainda fazia de mim o homem mais ingênuo que havia na cidade.

Engatinhei por aqueles degraus, subi e desci, aprendi coisas que jamais imaginei que pudesse aprender. Convivi de perto com situações insanas e vi pessoas que admirei assumindo temporariamente horrendas faces de monstros. Os danos provocados danificaram a casa, bem como me danificaram, mas nossas estruturas sólidas e firmes permitiram que nós pudéssemos continuar, apesar das rachaduras. Eventualmente essas cicatrizes na pele, essas marcas na Casa, não seriam mais do que memórias, não seriam menos do que fragmentos de uma totalidade inabalável. O conhecimento nos molda, as experiências nos fazem oscilar e pisei na areia movediça da vida para me sentir afundar vagarosamente enquanto pensava se algum dia seria alguém.

Bem, vocês vejam, vocês que me importam, como todos nós crescemos. Ainda em um passado qual eu não me preocupava com o futuro, eu me recordo do meu pai me colocando diante do espelho. “Filho, nunca se envergonhe de quem você é. Eu tenho orgulho de você e sei que você pode alcançar os sonhos que você quiser. Sonhe, filho e se esforce para alcançar o que pretende alcançar e se possível, filho, não repita os meus erros. Torne-se alguém melhor do que o seu pai”. Eu tenho tentado, pai, você vê? Vivemos as alegrias advindas dos sucessos financeiros, as dores de uma conturbada falência e os tumultos que nos fizeram sobreviver nesse piso escorregadio e gelado que ficou sob nossos pés por um tempo que parecia sem fim. Nós contemplamos juntos e de muito perto o Amor maior, bem como a Dor. Tudo muda, sim, era uma realidade qual eu me acostumava vagarosamente, mais ou menos na medida em que eu não cabia mais na cadeirinha de madeira que meu avô havia construído para mim e para os meus irmãos. Agora jogávamos videogames sentados no chão, na cama ou em outras cadeiras. Absorver a concepção da mutabilidade das coisas era uma tarefa complicada para uma criança. Por que não se pode apenas ser feliz para sempre? Ainda assim, eu envelhecia e sei que vocês também. Quando agora me perguntava novamente se seria alguém, eu me pegava sorrindo, pois havia sempre sido um sujeito singular, repleto de manias e maneirismos, de introspecção e extroversão, de alegrias e tristezas. Ainda que nem sempre eu tenha notado, eu cresci vivendo a vida. Ainda que nem sempre tenha me dado valor, eu já era alguém.

Bom, vocês que me importam talvez saibam, há um certo metodismo na minha melancolia e sou incapaz de ser completamente feliz na maior parte do tempo. Conjecturo cenários incontáveis de histórias que nunca aconteceram e me pego perdido entre ficção e realidade, justamente por entender que ficção e realidade não se separam e que a fantasia muitas vezes oferece prêmios mais recompensadores. A fantasia, a ficção, a magia, todos esses elementos reais permeiam a realidade como uma sombra irreal, mas embora exista um tabu em afirmar que coisas assim existem, eu secretamente sei que elas existem. Deixo este conhecimento adquirido entrar por fendas e a luz do sol entra pela menor das frestas de uma janela projetando uma sombra gigantesca. É difícil não deixar a tristeza entrar, veja, ela escorre como água pelas mãos, mas a alegria canta mais alto e o eco da felicidade é mais duradouro. Lá atrás, quando ainda havia dias em que nos sentíamos invencíveis, eu me lembro de ter escutado uma incontida crise de riso da minha mãe em uma noite de chuva. Talvez eu ame tanto a chuva por, ainda que raramente, escutar o som da gargalhada dela atravessar minha memória. Você percebe como gostamos do som da sua risada, mãe?

Vocês que me importam sabem que a lealdade é necessária e que as maneiras como amizades começam, mais até do que as maneiras como amizades terminam, podem ser controversas. Digam-me, meus irmãos, para onde foram os anos perdidos, digam-me, por favor, quem é que realizou os sonhos pretendidos. Quais de nós se revoltaram com Deus? Quais de nós poderíamos ter feito coisas melhores? Indubitavelmente todos, ainda que vocês discordem. Agora me digam em que áreas investem seus amores e lhes direi sobre o meu coração já não tão pequeno. Conversemos sobre nossas maiores dores em um ritmo calmo e sereno. Digam-me agora para quais deuses vocês rezam, se ainda rezam e, por favor, sejam quem são, puros de coração e com a mente direta. Nunca sabemos quais os ventos que nos carregam. Vocês se recordam de como nós éramos completamente opostos, mas estivemos unidos sempre uns pelos outros? Não sou tão chorão quanto costumava ser e certamente vocês não são tão bravos ou birrentos. Gosto de pensar que ainda estamos melhorando. Agora não dividimos o nosso tempo juntos apenas jogando Super Smash Bros no N64. Agora escolhemos como aproveitar o tempo que temos por entendermos que os dias voam e que tudo é temporário. Nada de fidalguice ou nobreza, mas que nas dificuldades sejamos sempre um por todos e todos por um. Que nos piores dias possamos erguer um escudo para amparar as flechas que chegam de fora, mas que nos nossos piores erros possamos sermos os primeiros a repreender uns aos outros, pois a dureza também é necessária com quem mais amamos.

Tudo isso é complicado, embora seja simples e é extremamente difícil, embora nunca tenha existido algo mais fácil. Da mesma janela que subiu uma barata gigante e fedorenta, eu vi os fogos do ano novo, antes daquele ano se tornar velho e depois ultrapassado. Da janela que via apenas telhas e telhados, eu aprendi ainda mais sobre magia. Nem todas as explosões são prejudiciais.

Na mesma cozinha qual abri uma lata de leite condensado com uma katana, eu, meus irmãos e minha mãe, batalhamos ferozmente contra um pequenino ratinho invasor.

No mesmo quarto onde houve tanto amor, presenciei o sentimento inverso e contemplei incrédulo quando os gritos de raiva reverberaram mais do que os risos descontraídos. Ergui-me com a valentia validada, pela primeira vez na vida, não por acreditar que a violência poderia ser o caminho para chegar em algum lugar, mas por acreditar que só eu poderia parar a fúria de outrem. A marca na madeira alerta que tudo poderia ter sido muito pior do que foi.

No mesmo lugar onde houve tanta vida, presenciei inúmeras mortes.

Se a vida é de nuances, vejam, essa casa grande, espaçosa, representa todas elas. A Alegria e a Tristeza, a Paz e a Guerra, o Silêncio e o Barulho, a Velocidade e a Lentidão. Tudo o que havia na Vida existia naquela casa e, mesmo quando a casa já não era a mesma e eu havia me transformado, ainda era possível encontrar essas coisas presentes lá, como os fantasmas que conhecemos tão bem. As almas penadas nunca são tão assustadoras quando são nossas amigas. As aparições cotidianas de memórias inadequadas chegam apenas para partir. Agora nós sabemos que somos mais fortes.

É uma situação de perspectivas, vocês vejam, vocês que mais me importam. Encham o peito e não olhem para trás, pois vai ser mais difícil do que antes, é cada vez mais difícil, cada dia estamos mais distantes. Dizer adeus para a Casa da Rua Sem Saída, a despedida definitiva, representa o fim de um ciclo. É como fechar a porta para uma parte antiga de nós, uma parte que por tanto tempo simplificou o que havia de mais bonito no planeta. Tudo está, enfim, no lugar certo. O futuro é valioso e sabemos que temos que continuar caminhando.

Creio que a minha prolixidade complique o simples, mas o que tenho tentado dizer é que sentirei saudades da Casa da Rua Sem Saída, dos campeonatos de videogame, das lutas na piscina, do gol a gol, dos jogos do Palmeiras, da família reunida, das centenas de amigos, dos bichos correndo pelas escadas e que, bem, esse acúmulo de memórias delicadas, essas coisas frágeis e infinitas, todas elas permanecerão gigantescas no meu coração. De volta na rua onde nós começamos, eu ressalto que só tenho tentado dizer obrigado e estranhamente o meu agradecimento não é só para as pessoas que fomos e pelas memórias que tivemos. Aqui me reconheço agradecendo a uma casa por ter sido ter sido o ponto de partida do nosso Amor e uma parte incrível da nossa jornada.

A Casa da Rua Sem Saída fica e, embora a rua seja sem saída para a casa, não é sem saída para os antigos moradores delas, assim, o que resta é respirar fundo e tentar começar novas etapas, consciente de que o que foi jamais será outra vez e de que há partes inéditas e lindas para serem vividas nos próximos capítulos da existência. Que as próximas casas sejam abençoadas para nós e que possamos sentir o mesmo sabor de Lar que um dia tivemos na Casa da Rua Sem Saída. Que toda pessoa nesta Terra tenha o privilégio de um dia ser feliz como nós já fomos e como intuitivamente sei que voltaremos a ser.

Publicado por

drpoesia

Escritor de hábitos relativamente saudáveis que gosta de escrever crônicas, poemas, contos e principalmente romances de ficção fantástica. Três livros prontos, porém, ainda sem publicação física. Trimestralmente faço o registro dos meus novos textos no Escritório dos Direitos Autorais. Tenho 27 anos de idade e sou formado em Direito. Creio no amor, embora o sinta meio ingrato neste ano. Só posso ser quem eu sou e é assim que vou continuar. Confio no mestre Leminski. "Isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além". Se você continuou até aqui espero que conheça meu blog aqui na WordPress e que possa dar uma visitadinha nas minhas páginas de poesias no Instagram e no Facebook! Obrigado! Volte sempre!

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