Crônica Pregressa #7

Distâncias incalculáveis

Quem me dera ter a capacidade de escrever um texto maravilhoso para cada pessoa que se vai, porém, não é assim que a vida funciona. Substancialmente escrevo sobre a memória da perda, sobre o sorriso enérgico capaz de abraçar, sobre como me ensinou a pegar ônibus em São Paulo e até sobre como não entendo o que às vezes acho que já deveria ser de minha compreensão. É impossível usar palavras perfeitas, pois alguém se foi e racionalmente estou falando apenas sobre o que ficou para trás. Não há tempo para acertos e consertos. As coisas simplesmente são como são e a incerteza é uma das maiores punições e bênçãos que recebemos. O desconhecimento sobre o que há depois da porta da morte deveria bastar para que nos valorizássemos em vida, mas adivinhe só? Não basta. Assim buscamos conforto na fuga para que não seja necessário enfrentar o que deixamos. 

Há distâncias incalculáveis…

A vida é delicada e fugaz, mas frequentemente nos deparamos com ilusões que nos fazem enxergá-la como se fosse realmente duradoura. O que é que dura? Se suas barbas estão grisalhas, se seus acertos se tornaram falhas, se restou apenas passividade onde havia o fervor de batalha? O que é que dura? Sua essência pura? Sua enferrujada armadura? O que antes chamava de vencer? O que dura? Suas críticas rasas aos que ousaram ousar muito mais do que você? Sua incapacidade de deixar de ser um escravo do prazer? O que é que dura? Por isso admiro uma mulher que de tudo acha graça e faz a tragédia da partida virar fumaça. Eu sinto que ela sente os ritmos corretamente… a vida passa em um clichê clássico ,”em um piscar de olhos”, não mais que de repente. Quem nunca deu um suspiro longo e pensou que ainda ontem costumava ser uma criança livre e despreocupada? Quem é que nunca se preocupou em se divertir sem pensar em mais nada? Quem é que nunca brigou feio e depois ficou apavorado com a possibilidade de não poder restabelecer a paz? Quem é que nunca esqueceu do mundo em uma morte recente e não agradeceu a oportunidade de estar vivo no riso de um bebê? Quem é que não quis correr e se esconder no longo abraço de uma mãe? Às vezes é preciso se consolar em outros abraços, pois os que nos confortam jazem longe demais. É tão triste ter de usar a palavra inalcançável, mas a necessidade freia a mentira.

Há distâncias incalculáveis e só queríamos mais uma vez dizer…

Se esta noite eu me pegar sentindo a sua ausência, eu posso olhar para o poste de iluminação ao final da rua e fingir que é um farol? Posso fingir que a luz em minha direção representa o sol? Quão bobo vou soar se admitir que seu riso que sempre me tirava da escuridão? Será que faz realmente mal sussurrar uma mentira que é profícua? Será um crime reviver memórias que em algum momento foram capazes de salvar o seu mundo? Há coisas que se vão e não voltam. À luz do dia o sol, ágil e caloroso, é muito bem capaz de escondê-las, mas você sabe como ninguém que é durante as noites, nas horas frias e paradas, quando você escuta as batucadas dos corações dos relógios em infindos tique-taques, é que seu lado de dentro está mais escuro do que a noite de negrume. Nunca mais se sente o cheiro do perfume. Ainda podemos falar, mas nem no mais perfeito dos silêncios podemos captar vislumbres das respostas. Eis então que as lágrimas se derramam, pois você ainda ama e o golpe é doloroso, talvez até mais do que você possa suportar. Seu coração está em pedaços, mas é a convicção na força dos velhos laços que te fortalece. A alegria na memória é reflexo da ausência que nos engrandece. Neste sentido, eu digo sem medo de errar: tudo mudo e troca de lugar. A falta é apenas o sinal de que quem se foi para nunca voltar era alguém capaz de conquistar corações e quando você fechar os olhos saberá, claro que saberá… pois quem vai para sempre apenas vai, mas ainda fica. São nossas estradas para locais seguros, nossos jeitos de derrubar grandiosos muros e declamar a verdade em sussurros que nos fazem continuar. Essa noite você partiu, mas neste coração sempre terá um lugar para qual voltar. 

As distâncias poderão continuar incalculáveis, porém, meus instintos são todos inefáveis. Chego aos lugares que quero por caminhos quais outros nunca cogitaram percorrer. Na madrugada de solidão e tristeza encontro novas maneiras de te rever.

Eis uma homenagem singela aos que já se foram para não mais voltar. Fiz o texto pensando na minha recém falecida tia Sandra e tenho que dizer que ela era uma daquelas pessoas que tinha o dom da hospitalidade e do riso. Que sejam repletos de alegrias seus novos caminhos, tia, pois, embora ninguém saiba dizer, creio que a morte é apenas mais uma etapa. Obrigado por me tratar como filho, por tanta parceria e aprendizado, por me ensinar a pegar ônibus e metrô em São Paulo, pelos cafés das manhãs e por toda a amizade. Obrigado por ser uma das poucas pessoas da família que comentava nas minhas poesias. A senhora nunca vai ter a dimensão do quão significativo isso foi pra mim, pois meus escritos são a minha alma e há sempre tanta pressa para imergir na correria do dia a dia e para “se encontrar” no sentido financeiro, que a maioria já vive uma escravidão dedicada ao dinheiro e acha que tudo o que faço é brincadeira. Ainda não fui publicado, mas sou feliz por me sentir inteiro. Obrigado por me compreender quando quase ninguém tenta! Como meu irmão citou no texto que fez, você fez de São Paulo nossa casa anos atrás. Grato eternamente à você, tio Sérgio, Séi, Guga e Paula. Obrigado! Eu que não choro acabei meio amargo e com os olhos marejados, mas se há a tristeza pela perda é sinal de que em vida houve diversos motivos para a alegria. Vá e vá bem. As distâncias são incalculáveis ainda, mas isso não quer dizer que nunca mais sua família e amigos irão te reencontrar. Adeus, mas apenas por enquanto. Texto dedicado à todas as pessoas importantes que já se foram. Em minha boa memória ainda jazem e jamais serão esquecidas. 

Publicado por

drpoesia

Escritor de hábitos relativamente saudáveis que gosta de escrever crônicas, poemas, contos e principalmente romances de ficção fantástica. Três livros prontos, porém, ainda sem publicação física. Trimestralmente faço o registro dos meus novos textos no Escritório dos Direitos Autorais. Tenho 27 anos de idade e sou formado em Direito. Creio no amor, embora o sinta meio ingrato neste ano. Só posso ser quem eu sou e é assim que vou continuar. Confio no mestre Leminski. "Isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além". Se você continuou até aqui espero que conheça meu blog aqui na WordPress e que possa dar uma visitadinha nas minhas páginas de poesias no Instagram e no Facebook! Obrigado! Volte sempre!

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