Qualquer madrugada

Vou até a cozinha. É meio da madrugada, não consultei o relógio, mas quase sempre acordo por volta de 3h30. Uma recordação distante me fala que essa é a hora dos demônios, mas sacudo minha cabeça tentando me lembrar se isso é mesmo o que parecia ser. Talvez também tenham me dito que é a hora dos anjos, mas dou de ombros. Abro a porta da geladeira e meus olhos, ainda remelentos e marcados pelo sono interrompido, buscam algo que eu sinta vontade de comer. Não tenho fome. Comer agora, porém, é um reflexo da minha ansiedade. Não preciso acordar tão cedo, mas sei que vou. Balanço a caixa de leite e consigo ter a certeza de que o leite está prestes a acabar, eu sei, não rende nem um copo cheio, assim, bebo o restante direto da caixa, como os abandonados costumam fazer em filmes americanos. Pego um pedaço de chocolate. O leite gelado refrescou a minha garganta, mas quero o doce mais amargo para me sentir centrado outra vez.

Vou até a sala, sento no sofá e estico o meu braço direito o suficiente para alcançar um livro alaranjado na mesa redonda. Sei, antes de saber, que estou com Leminski nas mãos e sorrio. Recito por brincadeira cinco ou seis poesias quais sei do escritor curitibano, sem abrir o livro e me pergunto sobre o que faço da minha vida nessas perdidas horas da madrugada. A minha gata preta me observa, preguiçosa, pouco se mexe, mas seus olhos amarelados estão fixos nos meus castanhos. Ela parece séria. Eu fico sério em seguida. Meu cachorro dorme perto dos meus pés e sou cauteloso para não despertá-lo. Abro alguns sites na internet pelo meu celular e só vejo atualizações sobre o BBB 2020 e sobre o Corona Vírus. Espero que a população sobreviva aos dois acontecimentos. Respiro fundo e ouço a minha própria respiração. Lá na rua o caminhão do lixo passa e eles gritam qualquer coisa. Eu vou até a janela e desejo-lhes uma ótima noite. Acho que ninguém me escutou, mas todos seguem animados.

Deito-me outra vez e meu corpo solta todo o seu peso na cama. Quando fecho meus olhos, penso sempre nas outras coisas e pessoas e sonhos. Tenho a sensação forte de que quase ninguém pensa em mim. Sorrio e espero não ter pesadelos. Eu tive lá minha cota deles quando era mais jovem e morria de medo, até fui afagado uma vez por um fantasma, quero apenas uma boa noite de sono, mas ainda penso nas coisas e pessoas e sonhos. Quem diabos pensa em mim? Compunjo-me por não poder ser tão diferente do que sempre fui. Coloco os outros na minha frente e eles me deixam para trás. Sei que os caminhos são sempre diferentes, mas todo mundo parece saber tão bem o que faz. E eu? Eu ainda penso nas coisas, nas pessoas e nos sonhos. Os outros me esquecem, mas não é o destino final de todos o esquecimento? Não devo fazer estardalhaço com o meu lamento.

Sigo insone na cama. As palavras de Oscar Wilde me questionam: A gente sempre destrói aquilo que mais ama? Tenho medo de que me machuquem e destruam em nome do amor. Admito que receio cada pessoa que implora por atenção. Cada chamada silenciosa esconde algo e confesso às vezes temer o que não vejo. Revolvo-me, solitário, consciente, enquanto tento encontrar sentido para coisas muitas vezes sem sentido. Tenho a peculiaridade de não saber respirar, mas aprendi a dividir a dor. Costumo falhar, mas ainda vou ser quem sou seja por onde for. Vejo crianças desesperadas por atenção e pais validando seus mimos o tempo inteiro. Vejo as coisas como são, subornos, tempo por dinheiro. Vejo como ignoram obviedades escancaradas nas nossas caras, como normalizam absurdos e vulgaridades e como tornam complexas e obsoletas crenças sobre retidão, carinho e amor. Este é o meu mundo, eu repito, quando sinto o sono iniciar sua briga comigo.

Este é o meu mundo? Não pode ser verdade. Sinto-me muito perto de mim e longe do resto para admitir que este é o meu lugar. Reluto, teimo, ergo meus braços. Adianta? Não sei, mas me sinto cada vez mais fraco, magro. Em um universo de cegos, emergi com Saramago. Aprendi, mas quase vomitei e chorei em diversas oportunidades por me propor a entender a humanidade dos humanos e os limites que se ultrapassam. Algo grande está prestes a acontecer, mas todos me esquecem. Nessa vida alguém se depara com o que merece? É certo, pelo menos, que cada um de nós cresce. Adivinho minhas consternações, antecipo meus incômodos, mas não posso evitá-los. Tudo é como deve ser. Essa é a única resolução máxima de uma madrugada qual eu só preferia adormecer.

Publicado por

drpoesia

Escritor de hábitos relativamente saudáveis que gosta de escrever crônicas, poemas, contos e principalmente romances de ficção fantástica. Três livros prontos, porém, ainda sem publicação física. Trimestralmente faço o registro dos meus novos textos no Escritório dos Direitos Autorais. Tenho 27 anos de idade e sou formado em Direito. Creio no amor, embora o sinta meio ingrato neste ano. Só posso ser quem eu sou e é assim que vou continuar. Confio no mestre Leminski. "Isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além". Se você continuou até aqui espero que conheça meu blog aqui na WordPress e que possa dar uma visitadinha nas minhas páginas de poesias no Instagram e no Facebook! Obrigado! Volte sempre!

3 comentários em “Qualquer madrugada”

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