O que acontece a seguir

     Quero um gole de álcool, por favor, digo, tentando manter a dignidade no tom de voz. A mentira ganha vida com o copo cheio de cerveja e nem tenho tempo para confessar que só desejava mesmo uma xícara de café. Sou um bom mentiroso, embora tenha o péssimo hábito de dizer a verdade. Qualquer um verdadeiro o bastante percebe a vulnerabilidade que se coloca por ser sincero. Agora você me desagrada e é o bastante. Este é o ponto de não retorno, , eu digo, se deseja tanto assim ir. Não é preciso sentir asco da humanidade e nem pena dos que sofrem. É o balanço natural. Aos tristes, paciência, pois a felicidade ainda rondará teus dias. Aos felizes, percepção. A felicidade é fugaz, pois é justamente por isso que se faz mister aproveitá-la. Ser feliz desconhecendo a noção da própria alegria fará com que procure o que já está vivendo. Faço parte dos descuidados lúgubres neste instante. Vejo placas sinalizando para que eu tenha cuidado. Ignoro-as. Sei que vou me ferir. Ignoro-me. Abro minimamente o que minha mente eloquente esteve revirando sem qualquer cuidado.      

      É irônico o quanto se desconhece o conhecido. Memoriza-se todas as falhas e manias; risos e costumes; a aversão por poesia e até os ritos de ciúme. Chega-se então, veja bem, em um ponto estranho e sólido. Naturalmente, você remói uma frase: “eu sei o que acontece a seguir”. Era divertido fazer adivinhas sobre relacionamentos fugazes ou motivações, quando não era o seu próprio em questão. Por brincar tanto, você realmente pressupõe que sabe o que acontece agora. Em regra, aceita a consequência do fato, ainda que este seja desagradável e degradante. Permanece, pois diz a si mesmo que é a última vez, mas seu corpo estremece e você toma nota da repulsa. A mentira ingênua não pode ser aceita, por tal qual é expulsa. No fundo você sabe muito bem que nada vai mudar. Mas você é cabeça dura e insiste em insistir. Vai até além do seu limite, mas qual a razão? Ego? Amor? Medo? Você segue pela voz que fala enquanto você cala seus mais obscuros segredos?    

Um dia, não diferente de qualquer outro, durante a primavera ou mesmo no verão, você saberá o que acontece em seguida. É uma manhã nublada e fria após uma noite de chuva violenta. Eis que uma gelidez inesperada te ataca e te acomete. Penetra-lhe os ossos e faz morada, como se fosse parte do seu sangue. Você não se esquece. Trouxeram-lhe um roteiro novo e previram suas possíveis reações, pois também te conhecem. O jogo não é jogado exclusivamente por você. Eles sabiam o que aconteceria a seguir. Supuseram que a minha resposta seria “Implore meu amor, pois então fique, por favor”, mas é um lamento tardio após uma agressão direta. O costumeiro já está distante e nem somos capazes de nos ofender de forma reta, como fazíamos antes. Não agirei como um pedante, prometo, nem por um instante. Isso está em minhas novas metas.     

      Eis que me descubro noutra manhã de outubro. Os meses silenciaram vozes quais eram tão agradáveis. Os ventos afastaram preguiçosos sorrisos afáveis. Vejo-me e internamente noto que a minha algidez compete com o Alasca. Aguento tinta, digo. Aguento tinta, resmungo. Aguento tinta, desafio. Aguento tinta, seu filho da puta, desabafo. Estou mais maduro, mas às vezes me faço surdo às centenas de intrometidos que querem opinar, pois refuto suas opiniões. Amanhã ainda não sei, mas me basto hoje. Não quero ser sensato, pois tenho sido assim a minha vida inteira, vê? Então se recolha com teus míseros fatos. Tua reclamação cabe numa algibeira. As nuvens mudaram de lugar. Também as manias, os hábitos, exceto teu jeito de se fazer fortaleza. Há agora um desejo constante de atingir o cume, mesmo ao longe vejo sua inenarrável beleza, mas há ausência do seu característico lume. Está vestida toda em resquícios de tristeza. O que se pode fazer?

      A culpa foi toda minha. Não. A culpa foi toda sua. Toda. Outra mentira. Talvez a culpa tenha sido toda nossa. Eu faria os cafés pelas manhãs, mas e daí? Não há príncipes heróis e nem princesas heroínas. Somos todos força fraca? Eu fiz os cafés, mas isso não me exime. Isso não me exalta. De quem é a culpa, afinal? É possível identificar o transgressor? Quem poderia dizer quem fez o disparo que matou o amor? Eu não sou capaz de dar nome ao vilão. Nunca fui bom em elegê-los, ainda que meus punhos se ergam até hoje para enfrentá-los. O que é que se conclui nessa história? Nada. Há tanta gente que está com o futuro no passado. Isso é mais melancólico do que deprimente. Rio com gosto diante do que meus pensamentos encerram. A vida é em frente. Tomado pelo sono, enfim, vejo. É tão óbvio tudo o que não vem a seguir. Sorrio. Quase não acontece, mas eu adoro errar minhas previsões.

Publicado por

drpoesia

Escritor de hábitos relativamente saudáveis que gosta de escrever crônicas, poemas, contos e principalmente romances de ficção fantástica. Três livros prontos, porém, ainda sem publicação física. Trimestralmente faço o registro dos meus novos textos no Escritório dos Direitos Autorais. Tenho 27 anos de idade e sou formado em Direito. Creio no amor, embora o sinta meio ingrato neste ano. Só posso ser quem eu sou e é assim que vou continuar. Confio no mestre Leminski. "Isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além". Se você continuou até aqui espero que conheça meu blog aqui na WordPress e que possa dar uma visitadinha nas minhas páginas de poesias no Instagram e no Facebook! Obrigado! Volte sempre!

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