Meio, começo ou fim

Que se resuma o ano em resumos inúteis de que nada valem aos outros! É tempo de falar sozinho, sim, ainda que digam que não há benefícios nos monólogos, eu sei que dirão isso e sei ainda que eles estão errados.

Inúmeras vezes fui acometido por uma espécie de tristeza deforme, maliciosa, que se aproximava de um jeito suspeito, espreitando o meu espírito. Nunca soube dizer de onde vinha meu reflexo melancólico, mas talvez fosse o costume errado de se acostumar com menos do que a gente merece por pensar também que merece pouco. Quem é cônscio do próprio valor e lúcido sobre a própria vida nota com clareza que é preciso se afastar de algumas pessoas e que talvez novidades sejam a necessidade urgente do coração.

Essa tristeza tão idealizada chegava a ser fática. Eu a pintava em um quadro enorme qual chamava de Motivos. Eu amplificava meus contratempos, transformava vislumbres de dores em fantasmas realmente assustadores, até o dia que cansei de inventar mais medos e decidi ter coragem para enfrentar o desconhecido. Os amigos mais próximos deste ano não sabem o quanto foi difícil antes deles, mas eu cresci muito.

Perdido de tudo o que era Vida e despropositado de toda razão que tracei para a minha própria consciência, eu resolvi que seria completamente eu. Sem atuações ou personagens, sem medo das faltas e dos excessos, sem a preocupação de ser bem visto ou quisto por quem quer que me cercasse. Era a hora, enfim, de ser por mim.

O processo não foi fácil. Em todos os novos começos eu sofri. Parece exagero, mas é assim que eu me sentia. Alguns notavam a dor que me tornava charmoso, excessivamente denso para o ambiente. A maioria me deixava para lá, mas uma ou outra pessoa se demorava em mim, como quem quer saber o que faz um homem ser assim tão soturno. Eu nunca falhava em ser educado, mas definitivamente faltava leveza. Assim, nos começos dos começos eu sempre me embriagava. Tocavam o meu braço e o meu embaraço era perceptível. Calava pelo medo de dizer o indizível. Respirava a vida entre intervalos, sentindo o meu cansaço, eu demorei a entender que todo mundo é potencialmente incrível.

Errei por aí. Não havia motivos para ser tão racional ou apegado, mas eu continuava sendo. Li tantos livros e pessoas que conheci um jeito de aprendê-las. Eu sempre tive real interesse no que me diziam, pois quem é que fala sem desejar ser escutado? Eu, ainda que fosse em cada situação pura essência, falhava em ser compreendido. Não me alcançavam no meu raro sono e nem me paravam antes que eu já estivesse em outro ponto. Quis, vez ou outra, que os pontos fossem finais e eu pudesse me fazer pausas para descansos, mas ninguém sabia como me ler. A minha prolixidade de ser e de sentir só pedia um pouco de calmaria, mas o meu desespero era uma composição que ninguém sabia. Andarilho vagando pelas ruas sem esperança, eu percebia que não havia quem me alcançasse. Sussurrava para que me segurassem firme, pois eu começaria a correr. Não corria para deixar algo para trás, mas desejava arduamente que alguém pudesse sincronizar com o meu ritmo.

A canção era estranha demais. Minhas certezas anteontem eram tão fictícias quanto meus romances escritos. A música do meu coração, o diário bem relatado dos meus dias, o ímpeto escuro que me faz querer adormecer em pleno dia, tudo isso agora é ineficaz comigo. Levantei-me luz solar, abrilhantando o que havia ao redor e por automatismo outros brilharam ao me perceber. Eu não era metade de mim quando encontrei os meus novos amigos. Havia sozinho colado meus pedaços e me encontrado com o meu Eu verdadeiro. Qual é a diferença?

A cronologia do relato pouco importa, mas a tônica da vida que tanto corria era que eu não abria ou fechava portas. Até que fechei. Encerrei o poder que outras pessoas tinham sobre mim, pois notei que merecia me merecer melhor do que aceitava me ver. A vida é curta, relógios nunca param e a gente deve de aprender a viver. Não é preciso ser matemático para saber que o tempo é curto. A vida é curta, relógios nunca param e precisamos viver, crescer e escolher.

Demasiadamente humano para ser exato. Pontualmente exato para ser humano. O que fazia que eu tivesse vontade de ser quem eu sou? Aceitei tudo o que havia acontecido na minha vida. Perdoei quase tudo, menos a covardia propositada e direcionada. Chega o tempo em que a injustiça perde a relevância. Se me perdoaram pelos meus erros, eu não sei, mas fiz o melhor que pude me desculpando com sinceridade. É impossível ser grande sem humildade e qualquer um que faça confusão é realmente estúpido.

Quando o sol da minha pessoa anuncia o lusco-fusco, a promessa da escuridão que chega com a noite afugenta todos. Não há mais ninguém na multidão. Queria chamá-los de covardes, mas não sinto que é certo. Viver é uma jornada solitária no deserto?

Deixei minha ausência crescer quando algumas distâncias facultativas se tornaram obrigatórias. Pessoas são substituídas de vez em quando e o pretexto é o velho mecanismo da inevitabilidade das ações. Contradições são vistas e sentidas. Até onde você é fiel ao que acredita? Você finge que vive o que sente ou realmente se dedica?

Nas vésperas da conclusão do ano, eu me sinto velho com o quanto vivi e aprendi. Dorian Gray e Lorde Henry estavam errados, pois há outras maneiras de aprender que não a experiência, embora a experiência seja indubitavelmente o melhor dos caminhos. Aprendi principalmente sobre pessoas e sobre o que elas podem fazer. Não deixei que a amargura alheia me tirasse a doçura. Não deixei que a crueldade me fizesse mau. Ainda assim, eu endureci. Quando me vi cercado e tomado por incertezas, não sabia se meu corpo aguentaria as pancadas seguintes, mas me prostrei como o líder da minha vida e a linha de frente no campo de batalha. Aguardei pela derrota.

A surpresa, porém, é que sem armaduras eu era realmente mais leve. Pude lutar minhas lutas, mas pude fazer incontáveis outras coisas. Sorri mais. Por onde quer que eu fosse, eu tinha a liberdade nos meus movimentos. Conheci pelo menos quinze pessoas que quero que permaneçam por perto. Fiz pelo menos cinco excelentes amigos e em três deles confio minha vida.

Quando perdi o sentido em sentir, eu me vi melhor. Corri por aí, gritei, beijei, abracei, chorei e me vi livre de todo perigo. Quem estava por perto sempre queria andar comigo. Que maravilha é compartilhar a estrada com gente que gosta de você. Eu me perdi no começo, encontrei-me no meio, e o fim é histórias para décadas futuras, mas tudo bem se eu me perder. Nunca estabeleci nas metas da minha vida o sonho de ter tantas pessoas com as quais pudesse contar e aqui estão elas. Se eu soubesse o quanto minha vida melhoraria, eu talvez pudesse ter sonhado isso pra mim.

Instinto crepuscular que me domina e cresce. Um dia a gente recebe o que merece? Se a vida é pra valer, por que a gente se porta como se fosse um teste?

Não há complementos ou cerejas do bolo, mas há quem saiba viver bem. Quando se sobe a escada para lugares novos pela primeira vez, você nunca sabe o que vai achar, mas ainda que imagine a obviedade que está por surgir, é certo de que também falhará no perfeccionismo da descrição da coisa real. O que acontece é sempre mais significativo. Qual é o tamanho do medo que você sente de deixar novidades nascerem?

Perto do fim do que nunca vai terminar, eu me perco entre meios e inícios. Vejo pouco do que não importa e me sinto preparado para escrever novas histórias. Atenho-me aos fatos. Sigo no meu bloqueio criativo, mas por este ano sou absurdamente grato.

Publicado por

drpoesia

Escritor de hábitos relativamente saudáveis que gosta de escrever crônicas, poemas, contos e principalmente romances de ficção fantástica. Três livros prontos, porém, ainda sem publicação física. Trimestralmente faço o registro dos meus novos textos no Escritório dos Direitos Autorais. Tenho 27 anos de idade e sou formado em Direito. Creio no amor, embora o sinta meio ingrato neste ano. Só posso ser quem eu sou e é assim que vou continuar. Confio no mestre Leminski. "Isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além". Se você continuou até aqui espero que conheça meu blog aqui na WordPress e que possa dar uma visitadinha nas minhas páginas de poesias no Instagram e no Facebook! Obrigado! Volte sempre!

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