A morte das hipóteses

Recentemente fiquei preocupado. Primeiramente eu havia desistido de responder quaisquer que fossem as notificações no meu celular. Eu era um terreno logo após a chegada do meteoro. O meu rosto aviltava a destruição que eu sentia em minhas entranhas. Meus gestos mais simplistas eram, de um jeito ou de outro, dotados de extravagância. Personifiquei a catástrofe de viver. Colidi com o iceberg da minha vida. As pessoas no Titanic só notaram a colisão quando era tarde para evitá-la. Eu tracei a minha rota até a tragédia que se anunciava. Queria ver se meu corpo aguentava o impacto. Propositadamente fui de encontro ao que sabia ter força para me derrubar. Às vezes me surpreendo com a minha tolice. 

A vida é um caminhão em alta velocidade e você é um animal desavisado tentando atravessar a estrada em uma noite de chuva. Há coisas que talvez você possa fazer para não ser atropelado? Há como ser menos cego na perseguição dos objetivos? Há jeitos de viver sua vida de outro jeito? Há maneiras de fazer isso e ainda se sentir vivo? Provavelmente sim, mas você não quer fazer diferente. Não pode evitar o que nunca se mente e nem o pavor de não conseguir sentir o que não se sente. Será que vai mesmo se esquivar do instinto em buscar o outro lado? Será que vai tentar ainda que seja tão arriscado? Será que algum dia acha a felicidade por onde havia sequer imaginado? Só sei que evitei responder quem quer que fosse por quase uma semana. Escolhi a solidão. Meu pai reclamou comigo e achou até que eu estivesse bravo porque ele desmarcou o nosso almoço no sábado. Eu não estava bravo, mas ele achou que eu tivesse meus motivos. Ele tinha razão. 

Ausentei-me pelo prolongamento de uma ansiedade inédita que insistia em permanecer em mim. Não tenho o hábito de punir outros pelas minhas instabilidades. O que eu havia feito pra me sentir assim? Martelei esses pensamentos primeiro por dias, depois por semanas. Era eu o vilão principal em minha própria trama? Eu, ocaso impossível que ocorre na noite mais densa? Eu tão leve, mas de medidas tão intensas? Tão certo de que segui um caminho retilíneo, será que me perdi em vestígios deixados por outros? Será que meus esforços são magnificentes ou ainda são poucos? A hesitação me tira a energia. Como posso aguentar até o final do dia?

Queria ter feito Jornalismo. À época passei com uma das melhores notas para o curso na universidade federal aqui da cidade, mas optar pelo Direito era optar por meu primeiro emprego de verdade, por me manter perto de muitas pessoas quais eu não queria me afastar. E no mais… Jornalismo não dá dinheiro, todos diziam. Não pensava de maneira mecânica, mas quem é que não quer ter dinheiro? À época também eu não era assim tão lúcido e cônscio da minha própria pessoa e isso me fez pensar por muito tempo sobre como as coisas teriam sido diferentes. Eu provavelmente escreveria melhor desde antes, mas será que teria tido a epifania que me fez querer ser escritor? Será que meu sonho de profissão hoje seria ainda o meu amor? 

Uma vez não conta. Uma vez é nunca. Os erros que erramos são realmente erros? Se na vida não há ensaios, por que é que me olha de soslaio como se eu precisasse ter medo?

As hipóteses abandonadas se acumulam em centenas. As que deixamos para trás, porém, nunca valem a pena. É preciso crescer e se tornar mais maduro. Na insistência em imaginar que a vida que deixei para trás seria melhor que essa, eu quase me perdi definitivamente. A vida é como é e a gente não pode ter pressa. Lembranças que foram fundamentais hoje são indiferentes. Certamente foi significativo e agora não é mais. A vida muda e sou grato ao que ficou para trás. Não sei o que vai ser amanhã, entretanto, o que importa é que o amanhã exista. A repetição dos dias não têm vencido meu tédio, mas sigo querendo acreditar. Amanhã é só mais um dia, mas eu ainda encontrarei o meu lugar. As hipóteses antigas morrerão e cabe a você enterrá-las ou cremá-las. Se achar prudente jogue os restos ao mar, mas com ou sem ritual, assegure-se de que elas não te incomodarão mais. 

E assim, mesmo que distante, talvez quem sabe exista uma pessoa que ainda vá entender. Esse meu tão estranho jeito de amar. Essa impossível maneira de ser. 

Publicado por

drpoesia

Escritor de hábitos relativamente saudáveis que gosta de escrever crônicas, poemas, contos e principalmente romances de ficção fantástica. Três livros prontos, porém, ainda sem publicação física. Trimestralmente faço o registro dos meus novos textos no Escritório dos Direitos Autorais. Tenho 27 anos de idade e sou formado em Direito. Creio no amor, embora o sinta meio ingrato neste ano. Só posso ser quem eu sou e é assim que vou continuar. Confio no mestre Leminski. "Isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além". Se você continuou até aqui espero que conheça meu blog aqui na WordPress e que possa dar uma visitadinha nas minhas páginas de poesias no Instagram e no Facebook! Obrigado! Volte sempre!

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