Oscilação

Se eu contasse, veja, sobre tudo o que palpita no fundo do meu peito, creio, embora não sem cogitar a possibilidade de errar em mim, que acertasse diretamente você. O pensamento que exprimo quando não sei, o tanto que calo quando me noto cônscio de algo e prefiro não correr o risco de imiscuir, o que calo sabendo que é melhor evitar falar, pois a hora da palavra nunca é nossa e sim de quem está ou não bem disposto em ouvir ou ler. Assim, note-se, mantenho distância, ainda que a aproximação seja feita de um jeito ou de outro para quem quer um pouquinho da minha atenção. Deito-me, mas nunca durmo. Antes o futuro compunha a canção da minha preocupação, agora, deita-se em mim a leveza das coisas que amo e flutuam naturalmente. Os milagres fazem parte da Vida.

Oscilo em giros rápidos. Ajo como um semideus e em seguida me encolho como um menino. Não me permito acovardar, mas sofro em enfrentar o temperamento viperino. Sou gigantesco. Sou minúsculo. Sou incrível, apenas para ser patético no momento seguinte. Falam de flores, eu os escuto. Eles creem que o espinho vulgariza a beleza. Não entendem que se entregar e correr o risco de ser ferido é algo livre da vileza. E a vilania é, veja, essa mesma que desfila pelo mundo e assusta quem fecha os olhos para evitar ver o que não quer ver, impulso natural, porém, tolo, de quem diz que quer se conhecer e se torna especialista em fugir. Há sensatez na pressa?

Oscilo de novo e me pegam em um dia ruim. Carbonizei tudo antes de sair de casa, e trouxe no dia errado visitas para meu trono de brasas. Oscilação. Sou absurdamente brega e bom. Minhas intenções cegas me fazem não querer sair do edredom. Ergo-me, pois é assim que deve ser. Oscilo, mas não me omito. Ouço que falam de amores como se estivessem de luto. Ainda assim, luto pelo dia que não seja mais assim. Falta a conclusão do sonho, convivo com o que imponho, assim, não me permito estar longe de mim. Entendo essas tantas voltas como se fingisse saber o que faço. Sei de mim e sigo apesar do cansaço. A pele se tornou qualquer armadura tão dura quanto o aço.

Giro rápido por volta deste ano. Tudo mudou tanto e eu já não reclamo. O ciclo da lagarta se cumpriu. Houve quem não mudasse, mas estive por perto de gente que evoluiu. Cumpri meu papel também. Quero-me ver mais alto nos céus para realizar meus objetivos profissionais. Quero uma mudança sentida, completa, inequívoca, drástica. Não pretendo abandonar minha essência, mas é preciso mais esforço. Quero ser a camisa que entorta o varal, selvageria eloquente no vendaval, dragão repousando no quintal. Quero que todos também se amem. Quero, talvez seja egoísta dizer, que todo o resto se dane. O que antes era conclusão ilógica sobre os silogismos que fazia dentro de mim, agora é constatação de oposição óbvia, como quem admite outras possibilidades. Os motivos se misturam e esfumaçam. A felicidade vira tristeza, a melancolia vira alegria e tudo se perde numa noite em que o vidro do carro embaça. E você sente que quer existir ali, sem se mexer, ainda que fosse bom ter uma companhia ao lado no banco do carro.

O dia escure, a tarde esvanece, a noite se abre, mas você não sente mais aquele medo. A gente nunca se esquece do que profundamente adormece do lado de dentro como um segredo. E de repente se personifica em alegria, hostilidade ou lume. É surpreendente como há quem memorize o som da nossa voz e o cheiro do nosso perfume. A sensibilidade alheia, porém, é estúpida. Nossos olhos sempre estão nos nossos próprios interesses, mas é preciso forçar a roda da vida ao contrário. O lucro do patrão é importante, mas nunca mais do que o suor do operário. Instinto crepuscular que me domina e cresce. Um dia a gente recebe o que merece?

Preocupei-me, confesso, mais tolo do que gosto de me admitir, prostrado mais vezes de joelho do que gosto de reconhecer, controlando o meu tempo e o meu espaço para evitar qualquer erro fatal ou crasso. Compreendi um pouco dos outros também. Não é todo mundo que busca a felicidade e essa descoberta me causou ligeiro espanto. Quem é que se contenta em ser tão pouco quando pode ser tanto? Um tanto a mais, tanto faz, gole de cerveja, três xícaras de café. Sinais, iguais, ligeireza, fé. Falhas, barulho, silêncio, altissonância. Em batalhas vasculho o que é que me faz tentar aumentar a distância. Ainda assim, a quilometragem que eu cubro para me afastar, andando até cansar até o fim do mundo, é diminuída por quem me cerca em questão de segundos. Estive me arrastando por muito tempo, mas agora não posso mais evitar. Sou do alto e apenas o céu é o meu lugar. O relato dos meus dias, meu dever cumprido, eventualmente se cumprirá se eu for apenas livre, ainda que falhe no resto. Há esperança para quem só opina de longe, ignora a vida e quer sempre estar certo? Oscilo, mas sou minha melhor versão quando não há ninguém por perto.

Publicado por

drpoesia

Escritor de hábitos relativamente saudáveis que gosta de escrever crônicas, poemas, contos e principalmente romances de ficção fantástica. Três livros prontos, porém, ainda sem publicação física. Trimestralmente faço o registro dos meus novos textos no Escritório dos Direitos Autorais. Tenho 27 anos de idade e sou formado em Direito. Creio no amor, embora o sinta meio ingrato neste ano. Só posso ser quem eu sou e é assim que vou continuar. Confio no mestre Leminski. "Isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além". Se você continuou até aqui espero que conheça meu blog aqui na WordPress e que possa dar uma visitadinha nas minhas páginas de poesias no Instagram e no Facebook! Obrigado! Volte sempre!

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